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Ele tinha dezassete anos quando a paixão lhe irrompeu portas adentro revirando tudo à sua passagem. O objecto dessa doce demência era uma jovem um pouco mais velha do que ele, que vivia perto da sua casa. Ela não era nenhum superlativo de beleza, mas possuía uma beleza inefável, e uma delicada fragilidade que o fazia sentir ganas de a abraçar e estreitá-la contra o seu corpo. Se a via passar na rua, ele saía em disparada pela porta das traseiras da sua casa, e corria ao longo de um quarteirão, apenas para a encontrar na rua com um ar casual, e trocar algumas palavras com ela, com a respiração ofegante e as faces coradas. Durante os fins-de-semana peregrinava pelos lugares que sabia frequentados por ela, na esperança de a reencontrar, e quando isso acontecia, era como se ela estivesse cercada de um halo luminoso. Era claro que ela não lhe dava muita atenção, tratando-o de um modo circunstancial mas uma palavra ou um sorriso seu tinham para ele o efeito de uma bênção sobrenatural, que o tornava ébrio de alegria.
Aquele sangrar de sentimentos foi-se tornando a coisa mais importante da sua vida e com o tempo converteu-se na única justificação pela qual os dias continuavam a existir e o mundo a girar. Tinha de a conquistar, ela tinha que ser sua e amá-lo da mesma forma desvairada e febril, ou nada mais teria sentido nem finalidade.
Num acesso de coragem, decidiu que ia pedir-lhe namoro. Encontrou-a na rua e, após uma desastrada troca de palavras perguntou-lhe com a voz entaramelada se no Sábado seguinte, ela não queria ir com ele dar um passeio nos jardins da cidade - podiam dar uma volta, conversar, e talvez até houvesse oportunidade de ir a um cinema. Ela aceitou com um gesto simples, um pouco inquieta com as transformações na voz dele e com a máscara tensa em que se transformara as suas feições. Ele sentiu agigantar-se por dentro no momento em que ela aceitou o seu convite e com um rosto radiante acertou com ela uma hora para a tarde e despediu-se alegremente.
Naquele Sábado, acordou de madrugada, e seleccionou cuidadosamente a sua roupa: umas calças de fazenda novas, um cinto negro e luzidio com uma fivela enorme em bronze e uma camisa branca estriada com fios dourados. Experimentou-a diversas vezes à procura dalguma falha dissimulada, mas tudo lhe parecia perfeito - e essa aparência era positivamente sublimada por uns sapatos novos por estrear, pretos e de biqueira pontiaguda. A seguir ao almoço, surripiou um cigarro ao maço do irmão mais velho, acendeu-o num recanto do quintal da casa, deu-lhe duas passas fortes e prendeu-o num ramo de um arbusto, fazendo adejar a sua camisa nova por entre as espirais de fumo - um leve odor a tabaco iria dar-lhe, estava disso seguro, um ar mais másculo e adulto, e assim ela não o tomaria por uma criança. Limpou os sapatos, tomou duas vezes banho e lavou cuidadosamente os dentes para que ela não sentisse nenhum odor estranho ao beijá-lo. Vestiu-se cuidadosamente, e aspergiu-se com uma água-de-colónia suave. Antes de sair de casa invocou o seu Destino, que passava pela felicidade que conheceria ao lado daquela mulher, e chegou ao pormenor de se benzer ao pôr o primeiro pé na rua, o pé direito, crença e talismã.
Nos jardins da cidade, enquanto se dirigia para o local do encontro, ia observando divertido os casais de namorados que se cruzavam com ele - dentro de umas horas, eles os dois seriam mais um desses casais. Sentiu o estômago contrair-se ao pensar nisso. Era impressionante como as coisas corriam tão depressa, ainda uns dias antes ele era um miserável a sofrer em silêncio e agora dirigia-se confiante ao encontro da sua amada. E como tudo parecia diferente, os raios de sol nas copas das árvores, as cores e as fragrâncias de tudo em volta, a beleza que descobria no rosto de desconhecidos, e enquanto se deslumbrava com essas sensações uma revoada de pombos que levantava voo junto de si aturdiu-o tão intensamente como uma vertigem.
Quando se encontrou com ela, todas essas emoções estavam em ebulição. Beijou-a na face, e começaram a andar ao acaso - como a pele dela parecia macia e cheirava tão bem, e os seus lindos lábios rosados pareciam desenhados por um artista. Enquanto falavam, segurou-lhe na mão, de uma forma tão brusca que deveria tê-la magoado, mas ela não a retirou e ele sentiu-se feliz, menos receoso.
Comprou gelados e foram comê-los para junto do pequeno lago artificial. Ficaram por ali, a saborear o gelado, encostados ao gradeamento de ferro. Foram umas tréguas para ele, que não sabia como agir em seguida. Sentia-se acossado, como um animal preso pelos caçadores num fosso. Podia tentar beijá-la mas era um pouco inexperiente e também não estava muito certo de qual seria a sua reacção, talvez até deitasse tudo a perder e ela nunca mais o quisesse ver. Essa era uma ideia insuportável. Enquanto ela acabava o gelado, ele sentia crescer a ansiedade dentro de si, com os olhos postos nas águas turvas do lago. O lago do jardim era uma espécie de canal artificial, com patos e cisnes, onde vogavam pequenos botes de recreio e então ocorreu-lhe que podiam ir um passeio de barco e ela aceitou com um aparente entusiasmo. Subiram para o pequeno cais de embarque, e com receio de que alguma atmosfera romântica pudesse ser interrompida, pagou ao funcionário dinheiro suficiente para estarem duas horas ininterruptas a passear de barco.
Subiram para o bote e enquanto ela se instalava no banquinho junto à popa, ele apossou-se dos remos do barco com um gesto viril e forte. Remou com perícia para o meio do canal, olhando intensamente para ela, que estava agora reclinada sobre a amurada do bote, contemplando os peixes coloridos que serpenteavam sobre a superfície. Envergava umas calças de ganga azul-escuro, e uma camisola da mesma cor. O seu rosto era pequeno e delicado de pele muito branca, lisa como porcelana, que contrastava com os olhos escuros, e os cabelos lisos cortados à garçom. Fazia-lhe lembrar um cisne delicado, um ser encantado e mágico que esperava por si desde o princípio dos tempos.
O seu próprio silêncio embaraçava-o, pesava cada vez mais como se estivesse a materializar-se entre eles, a adquirir uma massa própria e a endurecer como as pedras de uma muralha invisível. Pensava incessantemente no que lhe poderia dizer, nas coisas que lhe poderia confessar para dissolver todos os equívocos e todas as dúvidas, de como devia gritar-lhe até às lágrimas todo o amor que sentia por ela. Estava a um passo de se tornar a pessoa mais feliz do mundo, e não sabia como dá-lo, e o desconforto que crescia dentro dele fazia-o duvidar das razões que a tinham levado até ali. Talvez ela o desprezasse e quisesse divertir-se às suas custas, ou talvez o achasse uma criança e tivesse sentido pena dele, o que a ser verdade, só poderia merecer dele a revolta mais feroz e profunda, porque preferia que ela o odiasse, que sentisse nojo por ele, a sentir-se objecto da piedade dela.
Como demónios em luta, ódios e amores disputavam o seu íntimo enquanto continuava a remar com uma expressão impassível. Depois de já terem completado a primeira volta ao lago, sempre no mais irredutível mutismo, a testa dele já lhe latejava de tanto pensar. Inadvertidamente e sem que nada o traísse, o vigor das suas paixões e das suas dúvidas transmitira-se aos músculos dos braços, e começara a remar energicamente, como se estivesse a competir nalguma regata no Tamisa.
“Tenho que lhe dizer alguma coisa” - pensou - “isto tem que ficar resolvido hoje, não posso continuar a a adiar e a sofrer”. Pensava e repensava enquanto os seus braços puxavam dos remos com quanta força tinham. Só se apercebeu disso quando a fixou nos olhos e leu neles um temor perceptível. Parou repentinamente de remar e o barco deslizou na água até se imobilizar. Mas já era tarde de mais. Estava todo transpirado, gotas de suor escorriam-lhe pela testa, e a sua camisa branca, empapada em suor, estava colada ao peito. Sentiu uma vergonha crescente apoderar-se dele. Não a conseguia encarar, porque tinha a certeza de que ela deveria estar a olhá-lo com desprezo. Recomeçou a remar com lentidão, de olhos baixos e reparou nas mãos dela, que ainda tinham os nós dos dedos azulados por se terem segurado com força ao banco de madeira.
Enquanto remava, ia sacudindo discretamente os cotovelos, como se a brisa fresca que acariciava a superfície da lago, pudesse enxugar o seu suor. mas estava tudo perdido, continuava a transpirar estupidamente, estava literalmente a derreter-se. Tentou salvar a situação, rouquejou assustadoramente e observou: “Já reparaste nas bolhinhas que os peixes fazem?” e ainda não acabara de falar e já se tinha arrependido. Já não havia nada a fazer. Mal o bote encostou ao cais ele saltou do barco, entregou as amarras ao funcionário e correu dali para fora espavorido, morto de raiva de si mesmo. Em casa, tomou um banho e refugiou-se no quarto, onde se isolou durante horas, com os estores corridos para escurecer o compartimento. No dia seguinte continuou encafuado no quarto e a não ser para comer, não se moveu dali, deitado de costas na cama com as mãos a suportarem a cabeça e todo o turbilhão dos seus pensamentos. Sentia-se a coisa mais desprezível do mundo, imaginava-a a pensar nele com um ricto de nojo naqueles lábios perfeitos ou rindo-se da sua figura.
Ao fim da tarde, o irmão entregou-lhe um envelope largo e bojudo que haviam deixado para ele na caixa de correio. Depois do irmão sair do quarto, ficou sentado muito tempo na cama com o pacote sobre os joelhos e por fim, com o peito tolhido num nó e o coração a palpitar-lhe nas veias das têmporas, rasgou o envelope debaixo da luz esparsa do crepúsculo. Trazia um bilhete dela e um pequeno embrulho. Ela convidava-o a sair novamente no sábado seguinte e explicava que o embrulho contém um presente que te pode ser útil: “...um lenço de pescoço para a suor”.

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