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candura

Não me recordo do seu apelido, que a memória não usa mangas de alpaca nem monóculo de tabelião, mas sei que o seu nome era Isilda, uma criança belíssima de pele acobreada e olhos castanhos quase dourados, e com um sorriso doce e luminoso que suavizava tudo à sua volta. No recreio da Escola Primária brincávamos com os nossos pares, mas arranjávamos sempre maneira de estarmos algum tempo juntos, de nos irmos sentar numa das raízes do imbondeiro gigantesco em muda e densa cumplicidade, ou ir colher as laranjas do pomar da Escola, aproveitando as ramadas debruçadas para o exterior. No caminho, dávamos e desdávamos as mãos como quem tece carinhos, conversando alegremente sobre coisas vagas e sem importância. O pior era a sala de aula, disciplinada, severa e opressiva. Ficávamos sempre à frente, mas não conseguíamos suster o riso de cada vez que os nossos olhares se cruzavam e, em resposta, o tirânico professor Rocha oferecia-nos uma pequena e dolorosa vergastada na nuca com um bambu verde, ou mandava-me a mim, que era rapaz, ajoelhar-me junto ao quadro, de castigo, e ficar lá até ele se lembrar de me mandar sentar. Os dois esboçamos uma espécie de revolta silenciosa, um inconsciente gesto anárquico de protesto: quando nos víamos livres do exame do professor, fazíamos minúsculas bolas de papel amassadas com saliva e soprávamos esses projécteis pelo tubo da esferográfica para acertar no retrato do Américo Tomás suspenso sobre o quadro - dois pueris Franco-atiradores tentando cobrir de papel a penca do ditador.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...