bloguices

O gerente de empresa teve um rebate de consciência. Cansado de despedir gente com valor e humilhar subordinados e aceitar e promover jogos mesquinhos de influências, decidiu que era altura de mudar. Ia criar um weblog. Faria o mesmo que sempre fizera, mas o seu blog ia mostrar a todos os empregados da firma que, apesar de agir como um grande filho-da-puta, tinha uma alma sensível à beleza e à poesia. Pagou a um web-designer para o construir, e deu umas gorjas à Helena, da Contabilidade, para seleccionar uns poemas, e a coisa fez-se enquanto o diabo esfrega o olho. Um blog com umas fotos bonitas e versos de gente consagrada, de Fernando Pessoa, mas também de outros autores: Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, Alberto Caeiro, José Régio, e tantos outros.
Anunciado em tudo o que era informação da firma, como qualquer circular, o blog arrancou em força, com uma plateia comprometida de quatrocentos e trinta e três empregados, gente comum que paga prestações de carros, estudos de filhos e hipotecas ao Banco. Os comentários sucediam-se reverenciando o template, a inteligência pela escolha dos versos, as fotos colhidas aqui e ali; e, na linha da frente, vencendo o campeonato da babosa bajulação, os graxas da firma, os bufos, os en-cunhados. E o homem sentia-se um deus, um Nero internético colhendo os louros pela sua sensibilidade e visão.
Mas, aos poucos, a coisa foi esfriando, os comentários e visitas foram rareando até desaparecerem quase por completo. Todos tinham percebido que era só marketing e que nada ia melhorar na vida de quem trabalhava e dava o litro. Decidido a reter os mais fiéis e caninos seguidores, o gerente decidiu intercalar com os poemas, frases e aforismos plagiados.
O primeiro saiu à luz depois de vários anúncios, uma frase misteriosa que ninguém conhecia: “Vai aonde te leva o coração”. Os comentários voltaram, quase orgásmicos, recolocando-o no pedestal. O segundo apareceu pouco depois: “Há mar e mar, há ir e voltar”, mas só arrebatou dois comentários mornos, uma decepção. Seguiu-se o terceiro aforismo, o primeiro da sua lavra: “Da cabeça ao coração, vai uma grande distância” que só mereceu um comentário, e anónimo: “A mesma distância que vai do teu coração ao buraco do cu por onde costumas cagar sentenças”.
Blog kaput.

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