Bichos

Nunca me senti muito identificado com os gatos. Sempre tive cães por perto desde a infância e alguns deles são uma grata memória: o Vinte-e-sete, um cão enorme e manso traçado de S.Bernardo que corria pelo jardim apenas pelo prazer e embriaguês de correr, o Lord, que tinha muito medo de todos, e se aproximava da comida a rastejar com o focinho inclinado em gesto de súplica e, é claro, o Joly, um pateta alegre raçado de rafeiro que desenvolveu uma atracção doentia pelas suas próprias fezes, que lambia e comia enquanto estavam frescas. Mas dos gatos não guardo nenhuma boa memória ou ténue afeição. São esquivos, dissimulados, oportunistas e ladrões. Se na teologia desses felinos existir algum Gato Maligno, então devem-me considerar uma encarnação sua, porque fogem de mim a sete pés. De todos os gatos que cruzaram o meu caminho ou que fugiram dele, retenho um, o Bichano (sim, era assim que o chamavam), o gato soberano e apaparicado da casa da Avó. Assanhava-se mal me avistava, e se me aproximava dele por curiosidade, sentava-se sobre as patas e esgrimia as garras dianteiras afiadas para me assustar. O azar dele foi ter-me apanhado num dia mau. Quando começou a abespinhar-se, eu não fui de modas. Rosnei em resposta e, imobilizando-o com as patas da frente, dei-lhe uma dentada no pescoço que o dividiu em dois.

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