babel


(fotos tiradas na nave do Mosteiro de Alcobaça)



O velhote era reformado dos Caminhos-de-Ferro, de cabelos grandes e brancos e membros lassos e cansados. Como sabia línguas e percorrera mundo, o seu cunhado, através da irmã da sogra de um primo em terceiro grau, arranjou-lhe um trabalho como guia turístico num mosteiro. Não precisava de saber muito, nem desenferrujar os seus conhecimentos linguísticos. Só tinha de decorar o essencial, os detalhes do monumento e as figuras e reis que lhe estavam associados. O resto era canja. Fazia o percurso pelo monumento e ia recitando o que decorara, os turistas vinham quase sempre em grupos e traziam intérprete, ouviam e pasciam como carneiros obedientes, aos outros, os lobos solitários que tomam a iniciativa e gostam de perguntar os porquês e os comos, bastava colocá-los na linha, aconselhando uma resposta mais cabal das funcionárias da recepção, ou a compra dalgum dos manuais aí expostos.
Aquele emprego veio mesmo a calhar, o dinheiro fazia-lhe jeito e as pessoas eram simpáticas. O filme era sempre o mesmo, na hora agendada, colocava-se à testa daqueles grupos com o seu fato castanho-escuro cheio de vincos e a sua gravata desalinhada, pigarreava e iniciava o périplo, os passos vagarosos como os séculos, as paragens em que realçava algum detalhe, um túmulo ou uma estátua, e os grupos iam avançando em fole como as pregas de um dragão festivo chinês: recitava o seu texto em voz alta e nítida e, antes de retomar a marcha, fazia um compasso de espera enquanto os tradutores vertiam para a língua dos seus protegidos. Dia após dia, semana após semana, o trabalho era o mesmo. Um dia cansou-se. Estava quieto junto a um túmulo de granito no transepto do mosteiro a ouvir com uma atenção redobrada a maneira como as suas próprias palavras ecoavam noutras línguas pela voz dos guias-intérpretes e naquele momento sentiu uma espécie de inspiração divina, uma súbita iluminação que o encheu de pavor e euforia. Afinal, só as palavras eram diferentes, o teor da mensagem era o mesmo, as ideias permaneciam de um grupo para outro como aquelas pedras centenárias, suportavam-se umas às outras enquanto a cúpula dos céus rodava sobre elas. Sentiu e acreditou que não precisava das palavras para se fazer entender. As palavras eram muletas para gente preguiçosa e só precisava de convencer os visitantes a prescindirem das palavras inúteis para apreenderem a mensagem que elas revestiam. Quando reiniciou o percurso, em vez de soltar um discurso inteligível e coerente, começou a balbuciar alto sons incompreensíveis e desconexos, acreditando que mesmo assim todos o compreenderiam sem precisar de intérpretes.Cumpriu o resto da visita a soletrar triunfalmente palavras sem sentido, seguido por um cortejo de gente silenciosa e confusa que apelava mudamente aos seus guias perplexos. Houve algumas queixas, e levou uma reprimenda. Pediu desculpas e prometeu que não voltaria a acontecer, mas, na visita seguinte, lá estava ele a intercalar o texto decorado com frases numa língua inexistente, a tentar despoletar nas pessoas a apreensão imediata de tudo o que tinha para dizer.
Tiraram o velhote da função e colocaram-no a limpar os claustros e corredores silenciosos. A princípio, sentiu-se frustrado mas, aos poucos, aquilo converteu-se numa espécie de sacerdócio. Reparou que aquelas paredes velhas estavam enxameadas de pequenos símbolos, alguns pareciam letras, mas também havia pequenos mandalas, cruzes, espirais, signos claviformes. Sentiu que aqueles símbolos eram a chave da língua sem palavras, que, de alguma forma, eles tinham o poder ou os meios de levar as pessoas a comunicar umas com as outras sem terem de falar. Agora, no seu ofício diário, demorava-se ao pé deles e olhava-os demoradamente à espera de uma intuição ou de um rasgo de sabedoria, acreditando que, um dia, esse conhecimento chegaria e que poderia mesmo conversar com as pedras.


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