INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Bichos

Nunca me senti muito identificado com os gatos. Sempre tive cães por perto desde a infância e alguns deles são uma grata memória: o Vinte-e-sete, um cão enorme e manso traçado de S.Bernardo que corria pelo jardim apenas pelo prazer e embriaguês de correr, o Lord, que tinha muito medo de todos, e se aproximava da comida a rastejar com o focinho inclinado em gesto de súplica e, é claro, o Joly, um pateta alegre raçado de rafeiro que desenvolveu uma atracção doentia pelas suas próprias fezes, que lambia e comia enquanto estavam frescas. Mas dos gatos não guardo nenhuma boa memória ou ténue afeição. São esquivos, dissimulados, oportunistas e ladrões. Se na teologia desses felinos existir algum Gato Maligno, então devem-me considerar uma encarnação sua, porque fogem de mim a sete pés. De todos os gatos que cruzaram o meu caminho ou que fugiram dele, retenho um, o Bichano (sim, era assim que o chamavam), o gato soberano e apaparicado da casa da Avó. Assanhava-se mal me avistava, e se me aproximava dele por curiosidade, sentava-se sobre as patas e esgrimia as garras dianteiras afiadas para me assustar. O azar dele foi ter-me apanhado num dia mau. Quando começou a abespinhar-se, eu não fui de modas. Rosnei em resposta e, imobilizando-o com as patas da frente, dei-lhe uma dentada no pescoço que o dividiu em dois.

começos e fins

Os filhos começam por venerar os pais como a um Super-Homem, e acabam por ver neles um Clark Kent débil a braços com uma tonelada de kriptonite.

negativa

Não sou um guia de monumentos, não sou um curador do património edificado ou um técnico de restauro e conservação. Mas sou um zelador de ruínas.

adoçante

"Daqui a dois meses fazemos exames e, se as coisas não melhorarem, tem de ir de novo à faca". À faca. Esta é uma das expressões preferidas da classe médica. Em geral as perífrases criam-se para atenuar o impacto de uma palavra terrível, como operação ou ser operado. Mas "à faca"?. À faca é pior, sugere cortes no abdómen, pessoas abertas de alto a baixo com uma dúzia de mãos enluvadas a remexerem nas entranhas à procura da fava ou do brinde. É urgente renovarmos a linguagem e usarmos perífrases médicas mais subtis, do tipo: "...se as coisas não melhorarem, agenda-se um encontro numa Estação de Serviço para você conhecer pessoalmente o assassino da moto-serra".

O jovem chegou com tempo, antecipara as suas rotinas inflexíveis e já fora à farmácia trocar a seringa. Trajava umas calças de ganga coçadas e um casaco, também de ganga, sobre um camisolão azul-escuro. Na cabeça, um gorro de lã mal-segurava os seus cabelos fartos e hirsutos. Eram oito e trinta da manhã e o seu filho e a mãe estavam, como era hábito, no café de esquina junto à Escola, onde tomavam o pequeno-almoço antes dela o deixar no átrio da escola e rumar ao trabalho. O filho, mal o viu, saltou da cadeira onde estava empoleirado e juntou-se a ele na porta do café. Ele abraçou-o, mantendo quieto a seringa no bolso do casaco com uma ligeira pressão do cotovelo. Trocaram breves palavras, e ele beijou o filho, afagando a sua face com a mão áspera de pele repuxada. A mãe do seu filho veio uns segundos à porta, acenou-lhe, e voltou para a mesa. "Ficas comigo?" - perguntou-lhe o rapaz - "Hoje não pode ser. A mãe vai levar-te à Escola, e eu tenho muitas coisas para fazer". O filho abraçou-se ao seu braço e correu para junto da mãe com um sorriso no rosto. Ficou uns segundos quieto e pensativo, puxando e repuxando o gorro na cabeça, e num ápice, afastou-se com passos apressados e galgou os degraus metálicos do passadiço sobre a linha férrea, em busca dos seus destinos imperativos.

Divagar, é preciso

As recordações antigas, como as fotos, adquirem uma coloração sépia e asséptica, seguros por cola resistente e cantinhos recortados às folhas de cartolina negra. Quando não se encontram lá, é porque se revoltaram, feridas e em fúria, esvaindo dentro de nós o veneno e o fel que sai das suas veias com o sangue.
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Baixar os braços não é crime. O mundo não cairá se não o carregarmos nas espaldas como Atlas, nem sairá da sua órbita se deixarmos de fixar o seu eixo-djed como Osíris. Devemos permitir-nos sentir cansaço e saturação, escolher estar longe de todos e procurar causas e coisas comezinhas e sem sentido. Baixar os braços não é crime, ainda que nos condenem por isso aqueles que nos julgam à distância, preguiçosos e acomodados como gatos gordos.
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Invejo as pessoas que vão para um lugar determinado e certo, um destino pré-concebido, um objectivo claro e iniludível. Guiam os seus carros, encarrilam as suas vidas, e galgam caminho com o ânimo pleno e a expressão confiante na perseguição dessa meta. Invejo as pessoas que não agem como eu, que persigo coisas vagas como um vagamundo, e nado contra a corrente para reaver destinos que suponho ter perdido no passado.

mínimos

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Depois do acto sexual com o seu parceiro na escuridão do cinema, pensou no meio das trevas que retiraria mais prazer das legendas do final do filme.
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- Achas que já me posso considerar completo, acabado? – Perguntou à sua consciência.
- Não! Faz “Salvar como Rascunho”. Falta-te quase tudo para seres uma pessoa
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Ao fim de doze anos no ramo, o Editor hábil em números achou que já era tempo de aprender a ler.
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Descobriu o “Segredo de Victória”: era muito pouco asseada.
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“Partir custa-me sempre, mas não ter aonde regressar é que me parte todo”.
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Ela sempre desejou ter um pastor alemão. Na hora, optou por adquirir o pacote completo: o pastor alemão, o rebanho, os cães, a salsicha Bockwurst.
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Era militar e militarizante. Todas as suas dúvidas e incertezas estavam praxando ou de castigo.
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A princesa levou o seu príncipe encantado de volta para o castelo. Não foram felizes para sempre. Ele, em vez de ressonar, coaxava.
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O motard gostava de descer escadas com a sua mota. Para ele, era como andar a galope.
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Jekyll e Hyde
De dia fazia as suas cadeiras na Universidade, à noite assaltava Bancos
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Ele tinha dezassete anos quando a paixão lhe irrompeu portas adentro revirando tudo à sua passagem. O objecto dessa doce demência era uma jovem um pouco mais velha do que ele, que vivia perto da sua casa. Ela não era nenhum superlativo de beleza, mas possuía uma beleza inefável, e uma delicada fragilidade que o fazia sentir ganas de a abraçar e estreitá-la contra o seu corpo. Se a via passar na rua, ele saía em disparada pela porta das traseiras da sua casa, e corria ao longo de um quarteirão, apenas para a encontrar na rua com um ar casual, e trocar algumas palavras com ela, com a respiração ofegante e as faces coradas. Durante os fins-de-semana peregrinava pelos lugares que sabia frequentados por ela, na esperança de a reencontrar, e quando isso acontecia, era como se ela estivesse cercada de um halo luminoso. Era claro que ela não lhe dava muita atenção, tratando-o de um modo circunstancial mas uma palavra ou um sorriso seu tinham para ele o efeito de uma bênção sobrenatural, que o tornava ébrio de alegria.
Aquele sangrar de sentimentos foi-se tornando a coisa mais importante da sua vida e com o tempo converteu-se na única justificação pela qual os dias continuavam a existir e o mundo a girar. Tinha de a conquistar, ela tinha que ser sua e amá-lo da mesma forma desvairada e febril, ou nada mais teria sentido nem finalidade.
Num acesso de coragem, decidiu que ia pedir-lhe namoro. Encontrou-a na rua e, após uma desastrada troca de palavras perguntou-lhe com a voz entaramelada se no Sábado seguinte, ela não queria ir com ele dar um passeio nos jardins da cidade - podiam dar uma volta, conversar, e talvez até houvesse oportunidade de ir a um cinema. Ela aceitou com um gesto simples, um pouco inquieta com as transformações na voz dele e com a máscara tensa em que se transformara as suas feições. Ele sentiu agigantar-se por dentro no momento em que ela aceitou o seu convite e com um rosto radiante acertou com ela uma hora para a tarde e despediu-se alegremente.
Naquele Sábado, acordou de madrugada, e seleccionou cuidadosamente a sua roupa: umas calças de fazenda novas, um cinto negro e luzidio com uma fivela enorme em bronze e uma camisa branca estriada com fios dourados. Experimentou-a diversas vezes à procura dalguma falha dissimulada, mas tudo lhe parecia perfeito - e essa aparência era positivamente sublimada por uns sapatos novos por estrear, pretos e de biqueira pontiaguda. A seguir ao almoço, surripiou um cigarro ao maço do irmão mais velho, acendeu-o num recanto do quintal da casa, deu-lhe duas passas fortes e prendeu-o num ramo de um arbusto, fazendo adejar a sua camisa nova por entre as espirais de fumo - um leve odor a tabaco iria dar-lhe, estava disso seguro, um ar mais másculo e adulto, e assim ela não o tomaria por uma criança. Limpou os sapatos, tomou duas vezes banho e lavou cuidadosamente os dentes para que ela não sentisse nenhum odor estranho ao beijá-lo. Vestiu-se cuidadosamente, e aspergiu-se com uma água-de-colónia suave. Antes de sair de casa invocou o seu Destino, que passava pela felicidade que conheceria ao lado daquela mulher, e chegou ao pormenor de se benzer ao pôr o primeiro pé na rua, o pé direito, crença e talismã.
Nos jardins da cidade, enquanto se dirigia para o local do encontro, ia observando divertido os casais de namorados que se cruzavam com ele - dentro de umas horas, eles os dois seriam mais um desses casais. Sentiu o estômago contrair-se ao pensar nisso. Era impressionante como as coisas corriam tão depressa, ainda uns dias antes ele era um miserável a sofrer em silêncio e agora dirigia-se confiante ao encontro da sua amada. E como tudo parecia diferente, os raios de sol nas copas das árvores, as cores e as fragrâncias de tudo em volta, a beleza que descobria no rosto de desconhecidos, e enquanto se deslumbrava com essas sensações uma revoada de pombos que levantava voo junto de si aturdiu-o tão intensamente como uma vertigem.
Quando se encontrou com ela, todas essas emoções estavam em ebulição. Beijou-a na face, e começaram a andar ao acaso - como a pele dela parecia macia e cheirava tão bem, e os seus lindos lábios rosados pareciam desenhados por um artista. Enquanto falavam, segurou-lhe na mão, de uma forma tão brusca que deveria tê-la magoado, mas ela não a retirou e ele sentiu-se feliz, menos receoso.
Comprou gelados e foram comê-los para junto do pequeno lago artificial. Ficaram por ali, a saborear o gelado, encostados ao gradeamento de ferro. Foram umas tréguas para ele, que não sabia como agir em seguida. Sentia-se acossado, como um animal preso pelos caçadores num fosso. Podia tentar beijá-la mas era um pouco inexperiente e também não estava muito certo de qual seria a sua reacção, talvez até deitasse tudo a perder e ela nunca mais o quisesse ver. Essa era uma ideia insuportável. Enquanto ela acabava o gelado, ele sentia crescer a ansiedade dentro de si, com os olhos postos nas águas turvas do lago. O lago do jardim era uma espécie de canal artificial, com patos e cisnes, onde vogavam pequenos botes de recreio e então ocorreu-lhe que podiam ir um passeio de barco e ela aceitou com um aparente entusiasmo. Subiram para o pequeno cais de embarque, e com receio de que alguma atmosfera romântica pudesse ser interrompida, pagou ao funcionário dinheiro suficiente para estarem duas horas ininterruptas a passear de barco.
Subiram para o bote e enquanto ela se instalava no banquinho junto à popa, ele apossou-se dos remos do barco com um gesto viril e forte. Remou com perícia para o meio do canal, olhando intensamente para ela, que estava agora reclinada sobre a amurada do bote, contemplando os peixes coloridos que serpenteavam sobre a superfície. Envergava umas calças de ganga azul-escuro, e uma camisola da mesma cor. O seu rosto era pequeno e delicado de pele muito branca, lisa como porcelana, que contrastava com os olhos escuros, e os cabelos lisos cortados à garçom. Fazia-lhe lembrar um cisne delicado, um ser encantado e mágico que esperava por si desde o princípio dos tempos.
O seu próprio silêncio embaraçava-o, pesava cada vez mais como se estivesse a materializar-se entre eles, a adquirir uma massa própria e a endurecer como as pedras de uma muralha invisível. Pensava incessantemente no que lhe poderia dizer, nas coisas que lhe poderia confessar para dissolver todos os equívocos e todas as dúvidas, de como devia gritar-lhe até às lágrimas todo o amor que sentia por ela. Estava a um passo de se tornar a pessoa mais feliz do mundo, e não sabia como dá-lo, e o desconforto que crescia dentro dele fazia-o duvidar das razões que a tinham levado até ali. Talvez ela o desprezasse e quisesse divertir-se às suas custas, ou talvez o achasse uma criança e tivesse sentido pena dele, o que a ser verdade, só poderia merecer dele a revolta mais feroz e profunda, porque preferia que ela o odiasse, que sentisse nojo por ele, a sentir-se objecto da piedade dela.
Como demónios em luta, ódios e amores disputavam o seu íntimo enquanto continuava a remar com uma expressão impassível. Depois de já terem completado a primeira volta ao lago, sempre no mais irredutível mutismo, a testa dele já lhe latejava de tanto pensar. Inadvertidamente e sem que nada o traísse, o vigor das suas paixões e das suas dúvidas transmitira-se aos músculos dos braços, e começara a remar energicamente, como se estivesse a competir nalguma regata no Tamisa.
“Tenho que lhe dizer alguma coisa” - pensou - “isto tem que ficar resolvido hoje, não posso continuar a a adiar e a sofrer”. Pensava e repensava enquanto os seus braços puxavam dos remos com quanta força tinham. Só se apercebeu disso quando a fixou nos olhos e leu neles um temor perceptível. Parou repentinamente de remar e o barco deslizou na água até se imobilizar. Mas já era tarde de mais. Estava todo transpirado, gotas de suor escorriam-lhe pela testa, e a sua camisa branca, empapada em suor, estava colada ao peito. Sentiu uma vergonha crescente apoderar-se dele. Não a conseguia encarar, porque tinha a certeza de que ela deveria estar a olhá-lo com desprezo. Recomeçou a remar com lentidão, de olhos baixos e reparou nas mãos dela, que ainda tinham os nós dos dedos azulados por se terem segurado com força ao banco de madeira.
Enquanto remava, ia sacudindo discretamente os cotovelos, como se a brisa fresca que acariciava a superfície da lago, pudesse enxugar o seu suor. mas estava tudo perdido, continuava a transpirar estupidamente, estava literalmente a derreter-se. Tentou salvar a situação, rouquejou assustadoramente e observou: “Já reparaste nas bolhinhas que os peixes fazem?” e ainda não acabara de falar e já se tinha arrependido. Já não havia nada a fazer. Mal o bote encostou ao cais ele saltou do barco, entregou as amarras ao funcionário e correu dali para fora espavorido, morto de raiva de si mesmo. Em casa, tomou um banho e refugiou-se no quarto, onde se isolou durante horas, com os estores corridos para escurecer o compartimento. No dia seguinte continuou encafuado no quarto e a não ser para comer, não se moveu dali, deitado de costas na cama com as mãos a suportarem a cabeça e todo o turbilhão dos seus pensamentos. Sentia-se a coisa mais desprezível do mundo, imaginava-a a pensar nele com um ricto de nojo naqueles lábios perfeitos ou rindo-se da sua figura.
Ao fim da tarde, o irmão entregou-lhe um envelope largo e bojudo que haviam deixado para ele na caixa de correio. Depois do irmão sair do quarto, ficou sentado muito tempo na cama com o pacote sobre os joelhos e por fim, com o peito tolhido num nó e o coração a palpitar-lhe nas veias das têmporas, rasgou o envelope debaixo da luz esparsa do crepúsculo. Trazia um bilhete dela e um pequeno embrulho. Ela convidava-o a sair novamente no sábado seguinte e explicava que o embrulho contém um presente que te pode ser útil: “...um lenço de pescoço para a suor”.

marxismo

Seringas com vinho eucarístico, charros com beatas de sacristia, pedras com a pedra das imagens, tripes com as tripas dos relicários, reggae psicadélico cantado pelo Papa bento, drunfos confeccionados com receitas conventuais.
Alíneas para o ópio do povo.

oferta e procura

Depois da semana dos congelados e da semana de artigos para o lar, o hipermercado lançou a hiper-promoção da felicidade, ultracongelada em embalagens individuais que a preservavam de ameaças microbianas - era só levar para casa, colocar dois minutos no micro-ondas na função de descongelar e a felicidade estava servida. O preço era tentador, mas Desidério, a desgraça em pessoa, só soube da promoção dois dias antes dela acabar. Correu até ao hipermercado, mas a sua má-sorte correu junto com ele. Já não havia felicidade à venda. Protestou e estrebuchou, mas a promoção já havia acabado por ruptura de stocks.

ilha dos amores

Sós na vastidão dos oceanos e longe de tudo e de todos, os navegantes deliravam - tomando nuvens na linha do horizonte como ilhas de sonho, e beijando estrelas com o astrolábio.

(novo) mandamento

"Não cobiçarás a mulher do próximo, sobretudo, quando o próximo for viúvo"

Um travo de "Gin-Tónico"

“Os motivos pelos quais as pessoas me deveriam eleger para o cargo de Presidente da Câmara e ao meu sobrinho para meu número dois, são mais do que evidentes. Os nossos competidores, o arquitecto Almeida e o seu número dois, o doutor Cerqueira, não são elegíveis para lugares públicos por pertencerem à mais vil e tosca espécie de gente canibal. Nós não, provimos de famílias antigas e conceituadas do concelho, e usufruímos de uma educação esmerada que nos ensinou a comer carne humana com faca e garfo e não à dentada. Se o Partido da oposição quisesse ser honesto, editaria cartazes do arquitecto Almeida a chupar miolos dum crânio, e do doutor Cerqueira com os alvos dentes cravados numa perna humana em sangue”.

Primavera

Naquela fria manhã de Inverno, o casal e o filho pequeno foram surpreendidos por um singelo prodígio, no jardim desolado de árvores despidas e relva anémica, soavam trinados alegres. Procuraram a fonte daquela melodia e descobriram um casal de canários a espreitar da janela do sótão, com a plumagem colorida dos rituais de acasalamento. Talvez quisessem ficar por ali e fizessem ninho numa das árvores do jardim. O certo é que os canários não pareciam ter pressa em partir. Sob os rogos do filho, o pai levou-o ao colo até ao sótão onde os poderiam ver melhor. Aí, o rapaz parecia maravilhado com a presença daquelas criaturas pequenas a saltitar em cima da pedra, e quis dar-lhes de comer. O pai mostrou-se relutante, pesavam-lhe muito os anos de gente crescida. Tinha imensos motivos imbricados uns nos outros para não dar muita confiança àquelas aves, existia a gripe das aves, e germes e moléstias várias que os pássaros acumulam nas penas ou, simplesmente, a possibilidade trabalhosa daquelas aves aproveitarem a janela entreaberta e esvoaçarem para o interior, onde poderiam sujar tudo até os conseguirem convencer a sair. Mas ante a insistência do rapaz, acedeu e foi à cozinha buscar pão. Procurou pão duro, que o outro fazia falta à sua família, não encontrando, esvaziou o saco do pão e levou-o até o sótão: as migalhas do fundo constituíam uma iguaria insuperável para aquelas aves com cérebro de minhoca. No sótão, permitiu ao filho abrir uma frestazinha da janela, suficiente para passarem migalhas e não canários, e por aí ele foi candongando pequenas migalhas que os canários devoravam com apetite. À primeira suspeita de que eles queriam entrar na casa, o pai fechou a janela e trancou-a ante os protestos do rapaz e, para tirá-las da vista, cerrou a cortina espessa. O filho teve uma birra e, do outro lado, desenrolou-se uma birra semelhante assinalada por bicadas no vidro e farfalhar de asas. Acabou a passarada. Na manhã seguinte, ao sair para o telheiro para ir para o trabalho, ouviu à mesma os trinados dos canários no alto da casa. Sorriu cinicamente. Eles eram como algumas pessoas, tão estúpidas que nem sequer percebiam quando não eram desejadas. Meteu a chave na fechadura do carro e só então constatou a evidência: o seu carro que, na véspera, fora objecto de uma exaustiva limpeza domingueira, estava todo enxameado de caganitas de pássaro. Além de estúpidos, eram porcos.

Uma história macaca

A página em branco, a maldita página em branco, passou ao de leve o bico da caneta pela folha de papel enquanto tentava ordenar ideias, a caneca vazia de cerveja no tampo da mesa parecia uma torre de cristal, levantou-a e olhou estupidamente a circunferência líquida. Faltara ás aulas nocturnas, mas não se sentia chateado com isso. Estava ali há horas tentando escrever algo de original, e a única coisa que conseguira fora aquela cerveja marulhando no estômago e que parecia ressoar na sua cabeça como o mar no interior de um búzio.
Quando ergueu os olhos, viu a sua namorada que voltava ao café depois de mais uma aula. Tentou encolher-se por detrás da caneca para que ela não o visse, mas era tarde demais. Ela sentou-se ao seu lado com um sorriso trocista nos lábios carnudos e pintados. Quando tentou falar, arrependeu-se, o cheiro intrusivo a tostas mistas, deu-lhe a volta ao estômago e esforçou-se para não despejar tudo. Ela acendeu um cigarro e brindou-o com uma baforada de fumo para o chatear e depois foi conversar com uns colegas noutra mesa, não tirando os olhos dele.
Tinha de escrever qualquer coisa. Começou a redigir: "um macaco...dois macacos...três macacos." com um ar muito pensativo e compenetrado - "quatro macacos...cinco macacos...". O seu professor de Química passou ao lado e cumprimentou-o respeitosamente. Respeito. Mostrava respeito por um autêntico homem de letras. Começou a sentir-se eufórico e a escrever mais depressa como um poeta visionário, e já ia nos duzentos macacos quando a sua namorada fez menção de regressar ao seu tabernáculo literário. Num gesto teatral, mostrou uma expressão de profunda tristeza e rasgou em pedacinhos o seu original. Só a perfeição lhe interessava. Levantou-se a custo e reuniu-se-lhe. Ela acompanhou-o ao balcão onde ele pagou a conta levando uma eternidade para conseguir separar o dinheiro em cima do balcão pegajoso. Saíram para noite fria. Como se estivesse possuído por imperativos criadores, ele lá ia garatujando grafitis nos vidros embaciados dos carros enquanto caminhavam. Ela abraçou-se a ele como se tentasse apaziguar a sua inquietação literária, e ele começou a ficar com ideias. O corpo dela colado ao seu, aqueles peitos moldando a camisola negra de algodão, aquela boca adorada que se aproximava do seu ouvido: "Vemo-nos amanhã" - proferiu ela subitamente, e afastou-se deixando-o transido de frio e de desejo sob a luz estelar dos néons. Quando a sua consciência emergiu da caneca de vidro, lembrou-se porque é que a sua namorada se tinha ido embora, e retomou mentalmente a elaboração da sua obra-prima: "duzentos e um macacos vermelhos/ duzentos e dois macacos vermelhos/ duzentos e três macacos vermelhos..."

the end, my friend


Tenho uma grande predilecção pelo jogo do dominó, acalma-me jogar com os meus amigos, sentados nos quatro pontos cardeais entre o fumo sorvido do tabaco e os arrotos da cerveja, procurando o norte aos pontos e sequenciando vitórias breves. Conhecemo-nos há anos, jogando no Clube Ferroviário do nosso bairro, já aqui andávamos antes dos nossos filhos nascerem e de construirmos casa e família e agora já quase não conversamos, a gente se entende com expressões sábias e vagos grunhidos, reagindo sumariamente às perguntas dos outsiders ou às notícias da televisão. Dos outros três, foi Abel quem me desviou da elementar prática do dominó, falando com um insólito entusiasmo de um espectáculo montado num estádio da Coreia com cento e vinte mil peças de dominó. Fiquei para ver a peça na televisão. Com elas montaram de tudo, ícones, figuras, cascatas de peças em estantes, flores a irradiar de um centro e abrirem-se enquanto as peças tombavam em cadeia. Aquilo era de facto um assombro, e provocou-me distúrbios psicológicos irreversíveis. Comecei a comprar caixas e caixas de peças de dominó e arquitectar pequenos espectáculos no segredo da minha garagem. Elaborava formas e processos de fazer as peças de dominó caírem em cadeia com novos efeitos e montava e remontava esses truques até sentir que estava próximo da perfeição. Comecei a passar tempo demasiado na garagem, já quase não via a mulher e os filhos e, no Clube, nunca mais dei o ar da minha desgraça. Desapareci para o mundo. O Abel veio procurar-me, trazia a mulher com ele e pediu-nos que fôssemos a casa dele. Eu estava cheio de olheiras, disse-me, mas agora ia ter tempo para descansar. Para já, não podia dizer porque nos chamara mas, em breve, íamos compreender tudo. No alpendre largo da casa dele, estavam lá os outros dois companheiros de jogatana, mais a sua família chegada. Abraçaram-me com alegria. Estávamos outra vez reunidos, e nem faltava uma mesa e quatro cadeiras a um canto para matarmos saudades das horas de jogo. O Abel trouxe uma garrafa de champanhe e distribuiu charutos e bombons pelos presentes. Estava cheio de engulhos para falar, olhando de soslaio os filhos a correr no jardim mas, por fim, desembuchou. O mundo estava a acabar, aliás, ia acabar hoje, era o dia do Juízo Final, o dia do peido-mestre do universo, em que anjos de espadas de fogo iam separar o trigo do joio, e os mortos iam saltar das sepulturas, agravando o excesso de população nas ruas. Como é que sabia? Sabia apenas. Sonhara um sonho vivido, e estava tudo a acontecer como no sonho, tim-tim por tim-tim. Ficamos em silêncio, não houve gritos nem desespero, apenas uma paz profunda que rumorejava como a hera sob a brisa da tarde. As mulheres foram brincar com as crianças, com sorrisos cosidos sobre a angústia, e nós sentamo-nos à mesa a jogar dominó. Umas horas depois, as coisas começaram a acontecer, a terra estremecia ligeiramente e as poucas nuvens no céu começaram a adquirir um esbatido tom prateado. As famílias aconchegaram-se, preparando-se para a noite eterna. Sorvi um gole de champanhe tépido e notei outra coisa estranha: por todo o lado começara-se a desenhar linhas, ao longo do céu e das montanhas, no chão à nossa volta e no volume das casas e das árvores. Depois, notei que não eram apenas linhas, era uma forma rectangular repetida até ao infinito, eram peças de dominó. Deus não joga aos dados, joga dominó. O universo estava a desconstruir-se e agora conseguíamos divisar as suas linhas de costura, a estrutura visível como um esqueleto desenterrado. Quando ouvimos um fragor crescente a abalar tudo, notamos que se iniciara a reacção em cadeia e que as peças começavam a tombar numa sequência vertiginiosa que dissolveria o universo até não existir mais nada.

splash

"Já chega! Sou um ouriço mas já não quero ser um ouriço-cacheiro, não me vou esconder mais, nem andar de espinhos eriçados" - e, ufano e cheio de confiança, começou a atravessar o alcatrão da auto-estrada.

love on the air

A jovem desceu a rua como se caminhasse sobre nuvens, um sorriso doce no rosto, o olhar meigo a divagar pelas pessoas e pelas casas. Os desconhecidos cumprimentavam-na, vencidos pela felicidade que irradiava, e as velhotas tagarelas sorriam com as suas bocas desdentadas, velando a memória ténue das paixonetas da mocidade.
No seu regaço, levava um ramo de rosas, de pétalas vermelhas humedecidas. Fora-lhe entregue no trabalho, diante da surda inveja dalgumas colegas, entregues em mão por um moço de recados que cumpria a incubência da florista onde ela própria as tinha encomendado.
Era bom sentir-se feliz e amada no dia dos namorados.


"Sheet happens" - Uma história infantil

O coelho Serafim, de focinho branco e orelhas pontiagudas, gostava muito de visitar a horta do Pai Natal, e mastigar as cenouras e os talos de couve que o Pai do Céu ali deixava para ele. Saltitando alegremente, passava ali o dia a comer e a cantar. Num radioso dia de Primavera em que os pássaros chilreavam nas árvores e as borboletas coloridas esvoaçavam à sua volta, o Pai Natal perguntou ao coelho Serafim se havia alguma coisa que a vida ainda não lhe houvesse dado.
"Sabes, Pai Natal, a vida deu-me saúde e apetite, e sou bonito com um pêlo muito lustroso. Gosto de me passear ao sol e brincar com o meu amigo, o palhaço Nemias, mas também gosto muito da minha toca e da minha família que vive lá dentro. A toca está perto de um riacho despoluído. É toda muito ampla e bem cuidada, com seis assoalhadas e espaço para arrumos. Temos um salão grande onde costumamos cantar e cobrir, e uma despensa carregadinha de avelãs, bagas e frutos secos. Que me lembre, não me falta nada...talvez...não é que me faça falta, mas sempre senti curiosidade de ir ao circo. O palhaço Nemias e o coelho da cartola não falam de outra coisa, e dizem maravilhas dos trapezistas e do cospe-fogo, da valentia do domador de leões e da graça que têm as focas amestradas".
"Está bem! - concordou o Pai Natal - nada mais fácil. Traz a tua família toda e o teu amigo Nemias, que eu preparo as minhas renas e levo-vos de trenó até lá". No dia seguinte, «o Pai Natal foi com o coelhinho e o palhaço ao circo».
E o circo ardeu.

xanadu

(...)
- Estou certo de que consigo interessar o senhor num dos Seguros que desejo apresentar-lhe.
- Se o senhor insiste, mas tente ser breve. Estava a tentar escrever uma espécie de poema.
- Vou ser breve como a vida. Não venho aqui para tentar vender-lhe um Seguro de Vida, embora isso seja uma boa opção se quiser dar aos seus alguma segurança e conforto para o dia depois. Propunha-lhe um pacote de seguros, uma vasto naipe de seguros que contempla todos os infortúnios possíveis e imaginários, da queda de meteoritos e incêndio na casa, às lesões nos ouvidos causadas pelos gritos da Floribella. Se o senhor aderir, fica garantido nesta vida e depois dela.
- Lamento refrear-lhe o entusiasmo, mas o senhor está a perder o seu tempo.
- Nunca dou o meu tempo por perdido. Se não a si mesmo, o senhor deve ter alguém a quem queira beneficiar ou ajudar.
- Ouça-me com atenção. Eu sou um doente terminal, e não tenho família que conheça ou amigos que deseje reconhecer. Porque é que eu deveria aderir a um dos seus seguros?
- Huum! Deixe-me ver...O senhor não acha que deveria tentar assegurar o futuro do seu peixinho dourado?
"Gostas de mim na mesma?"- perguntou ela, soltando uma risadinha nervosa e leve como o esvoaçar de uma pomba. A curva do seu pescoço parecia afeiçoada em marfim, mas um marfim vegetal, poroso, quente. Depositou ali um beijo em resposta. Ela, deitada na toalha, olhou por cima do ombro - "brincalhão" - exclamou enquanto a água pingava do seu torso molhado para a curva das nádegas. A luz do sol por entre as folhas da palmeira brincava na íris dos seus olhos como um círculo luminoso deambulando pelas cores de um vitral.
O seu rosto adorado já não tinha a frescura dos tempos em que se haviam conhecido. Haviam vivido longe um do outro, casado, tido filhos, até se encontrarem de novo. Ali, à beira daquela piscina de hotel, rodeados de pessoas estranhas, não havia famílias, nem filhos, nem angústias; nada de mais real do que o cheiro da relva ou o som da água. Ela ergueu o braço e puxou-o para si, sentindo aquele gelo sobre o seu corpo ensolarado. Ele mordiscou-lhe o lóbulo da orelha e murmurou: "Para sempre!". Ela riu-se novamente, era a frase murmurada dos primeiros tempos, da descoberta do desejo e dos corpos no segredo silencioso de um anexo de garagem. Abraçou-se a ele num frémito de emoção tentando lembrar-se de quantas horas haviam passado desde que tinham acabado de fazer amor.

Perturbações do sono

Há a insónia, o sonambulismo, os terrores nocturnos...e há também a D. Lurdes que, a meio da noite, agarra o marido por um cotovelo e abana-o vigorosamente, arrancando-o de um sono profundo e reparador para o fazer constatar um facto: "Estás a ressonar outra vez. Assim, não consigo dormir".

the L word

A Holanda é um polipeiro de tulipas

bloguices

O gerente de empresa teve um rebate de consciência. Cansado de despedir gente com valor e humilhar subordinados e aceitar e promover jogos mesquinhos de influências, decidiu que era altura de mudar. Ia criar um weblog. Faria o mesmo que sempre fizera, mas o seu blog ia mostrar a todos os empregados da firma que, apesar de agir como um grande filho-da-puta, tinha uma alma sensível à beleza e à poesia. Pagou a um web-designer para o construir, e deu umas gorjas à Helena, da Contabilidade, para seleccionar uns poemas, e a coisa fez-se enquanto o diabo esfrega o olho. Um blog com umas fotos bonitas e versos de gente consagrada, de Fernando Pessoa, mas também de outros autores: Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, Alberto Caeiro, José Régio, e tantos outros.
Anunciado em tudo o que era informação da firma, como qualquer circular, o blog arrancou em força, com uma plateia comprometida de quatrocentos e trinta e três empregados, gente comum que paga prestações de carros, estudos de filhos e hipotecas ao Banco. Os comentários sucediam-se reverenciando o template, a inteligência pela escolha dos versos, as fotos colhidas aqui e ali; e, na linha da frente, vencendo o campeonato da babosa bajulação, os graxas da firma, os bufos, os en-cunhados. E o homem sentia-se um deus, um Nero internético colhendo os louros pela sua sensibilidade e visão.
Mas, aos poucos, a coisa foi esfriando, os comentários e visitas foram rareando até desaparecerem quase por completo. Todos tinham percebido que era só marketing e que nada ia melhorar na vida de quem trabalhava e dava o litro. Decidido a reter os mais fiéis e caninos seguidores, o gerente decidiu intercalar com os poemas, frases e aforismos plagiados.
O primeiro saiu à luz depois de vários anúncios, uma frase misteriosa que ninguém conhecia: “Vai aonde te leva o coração”. Os comentários voltaram, quase orgásmicos, recolocando-o no pedestal. O segundo apareceu pouco depois: “Há mar e mar, há ir e voltar”, mas só arrebatou dois comentários mornos, uma decepção. Seguiu-se o terceiro aforismo, o primeiro da sua lavra: “Da cabeça ao coração, vai uma grande distância” que só mereceu um comentário, e anónimo: “A mesma distância que vai do teu coração ao buraco do cu por onde costumas cagar sentenças”.
Blog kaput.

Minguante N.º 4

4
O MINGUANTE encontrou a quadratura do grande círculo, o pequeno círculo da marca da grande penalidade, o semi-círculo que coroa a grande área quadrangular, os quatro ângulos da boca da baliza e os quatro cantos das bandeirinhas que olham de esguelha.

O Minguante chegou ao tetra com textos mínimos, num campo onde todos podem jogar sem invasões, ou assistir sem pagar ingressos. Quem não quiser calçar as chuteiras pode ser o adepto ébrio ou o árbitro no gramado, xingar ou gramar à brava, que as palavras não têm dono nem clube, e só contam as que entram cá dentro.

poder de observação

Se encontrarem um polícia que tente compensar a monotonia padronizada do seu uniforme com pequenos detalhes como um lenço no bolso, um botão de cor diferente ou um brinco colorido; ou depararem numa esquadra da polícia com uma secretária diferente das outras, criteriosamente orientada segundo um dado eixo astronómico, as fontes de luz e a posição das plantas. Então, podem estar certos, de que encontraram um Feng-Chui.

Vício

O mirone mirava e amava a sua vizinha do prédio em frente e estava sempre à coca para a ver desfilar seminua pela sala de vidraças largas, com um monóculo à mão para adular as suas feições sensuais e a curva suave entre as coxas, e um binóculo para galar os seios e as nádegas.

reconhecimento

Não fosse dar-se o caso de um dia cegar, e ficar sem saber o que fazer, de tempos a tempos repetia um exercício de orientação na sua própria casa. Era a sua casa, chamavam-lhe barraco, mas era a sua casa, e o exercício era elementar: percorria-a de olhos fechados rememorando o lugar e a disposição de cada coisa. Cerrou com força os olhos e entrou, ao seu lado direito tacteou um móvel de cozinha em madeira prensada que resgatara do lixo, tinha encastrado um lava-louça enferrujado e, em cima do escorredor, podia encontrar a meia-dúzia de louças e talheres que usava. Tinha de ter cuidado para não tropeçar no jarrricão azul com água do fontanário encostado ao móvel. A seguir, e cortando o canto da casa, o banco improvisado, uma porta de frigorífico apoiada em dois caixotes de madeira. No canto oposto, a sua pequena cama e, aos pés, uma escrivaninha de madeira com tampo e tudo (as coisas que as pessoas deitam fora). Não podia esquecer-se de que no eixo da sua casa tinha uma mesinha de centro, da qual já pensara desfazer-se por poder cair nela quando a luz se apagasse. Conferiu os sítios onde costumava largar os óculos e os comprimidos, e era tudo. Não! Ainda faltava o anexo. Voltou a sair da casa de olhos fechados, flectiu à direita, e entrou nos sanitários. Partira o canto de uma tampa de esgoto e fixara aí uma pia turca, em volta erguera a casa-de-banho e, encostado a ela, a casa. Entrou cuidadosamente. Com o pé encontrou o rebordo saído da pia, depois, achou o norte à sua reserva de papel, à bacia de plástico e ao balde com água a um canto. Satisfeito com o teste, abriu os olhos. Ficava sempre mais tranquilo. Sempre tivera aquele medo antigo de se achar cego e desorientado e cair por umas escadas abaixo ou por um poço de elevador.
(Foto, como é bom de ver, do site Portugal no Seu Melhor)

inverso

Sabem bem estas manhãs em que as temperaturas são baixas mas a luz é viva e generosa, em que empregamos tempo a contemplar as ruas, as pessoas e os telhados das casas do lado de dentro do vidro, nas nossas casas aquecidas. Antípodas. Dos momentos de Verão em que a nossa vida queima distâncias do lado de fora do vidro, em que nos sentimos mais nós em convívio com outras pessoas na noite de temperaturas amenas e generosas.

frases

E rima
A cultura é contranatura
*
Aquecimento global
O leão começou por ser o rei da selva, hoje é o rei da savana e, não tarda, será uma carcaça coroada no meio do deserto.
*
Vogal
Há quem possua um talento inato para estabelecer relações com as outras pessoas, e há outros que desenvolvem uma aptidão natural para criar ralações.
*
Os tiranos investem-se de uma nobre missão: são ofensores dos fracos e espremidos
*
Alma Lusa
O nosso gado vacum, é um povo de brandos curtumes

teimosia@mail.com

Re: Último esclarecimento:
Compreendo que o senhor queira publicar o seu livrinho, mas não pode exigir às editoras que lhe forneçam explicações exaustivas por recusarem o seu original; muito menos, contemplar-nos com a sua revolta como se nós fossemos réus em Nuremberga. O senhor apresentou-nos um texto sem pés nem cabeça, com blocos de prosa medíocre em mau português, sem interesse nem relevância para o comum dos mortais. Espero que esta explicação seja suficiente, e que isto encerre o assunto.

Re: Último esclarecimento
Não, não é suficiente. Fique sabendo que outras editoras - e de renome - disseram-me que o meu original tinha interesse, e que teriam orgulho em apor a sua chancela se eu arranjasse um patrocínio que assumisse os custos da edição.
É certo, dou alguns erros e o meu vocabulário é limitado, sou pré-Acordos-Ortográficos e não tenho pachorra para dicionários.
Eu assumo-me como um pedreiro ou cabouqueiro da escrita. Não tenho a aptidão nem o refinamento para esculpir rendilhados em pedra como os da arte manuelina, muito menos para lapidar minúsculas pedras preciosas. Eu vou mais pela pedreira, a partir pedra com um martelo pneumático e uma marreta de ferro de doze quilos. Por vezes, quando o dia me corre de feição, consigo fazer uso de instrumentos menos brutais, como a picadeira e a maceta, mas a sofisticação acaba aí. O que é que eu hei-de fazer? Ler e escrever são a minha pedra…

Re: Último esclarecimento
Para terminar esta infeliz relação epistolar, isto não é a Intifada. Não temos de levar com as suas pedras. E se a sua pedra é assim tão grande, permita-me que lhe sugira que dê entrada nalguma clínica de desintoxicação.

Re: Último esclarecimento
Percebo a vossa estratégia, é o que chamam de psicologia negativa. Vocês estão desesperados para serem meus editores, mas como sabem que não podem ombrear com editoras com E maiúsculo, vêm com negas para me aguçar o interesse. Está bem, rendo-me! Vou reenviar-vos o meu original, que reescrevi, fazendo duzentas e quarenta correcções ortográficas, e podemos por fim sentar-nos à mesa, sem jogos nem estratégias.
P.S.: Vocês são tramados, deviam experimentar jogar Poker, ehehehehe.

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O filho nasceu fora de tempo, na bíblica velhice dos seus pais. Decidiram que deveria ter Deus no nome, de estar cheio dele, entupido de graça e gratidão. E tinham muitos à escolha: Teoclímeno, Teófilo, Teodósio, Teófulo, Teodomiro, Teodónio. Aquele filho cresceu pleno de benção divina, mas não viveu muito, o coitado. Morreu de congestão mística quando simulava ser crucificado num cerimonial de Semana Santa.

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Poe, o corvo, o poeta, o poente. Poe-ma. O regresso à mansão escura onde no vemos tolhidos pelo medo e pela solidão.

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A plutocracia é um nome inspirado em Walt Disney que serve para designar um sistema de governo em que somos dominados por cães.

babel


(fotos tiradas na nave do Mosteiro de Alcobaça)



O velhote era reformado dos Caminhos-de-Ferro, de cabelos grandes e brancos e membros lassos e cansados. Como sabia línguas e percorrera mundo, o seu cunhado, através da irmã da sogra de um primo em terceiro grau, arranjou-lhe um trabalho como guia turístico num mosteiro. Não precisava de saber muito, nem desenferrujar os seus conhecimentos linguísticos. Só tinha de decorar o essencial, os detalhes do monumento e as figuras e reis que lhe estavam associados. O resto era canja. Fazia o percurso pelo monumento e ia recitando o que decorara, os turistas vinham quase sempre em grupos e traziam intérprete, ouviam e pasciam como carneiros obedientes, aos outros, os lobos solitários que tomam a iniciativa e gostam de perguntar os porquês e os comos, bastava colocá-los na linha, aconselhando uma resposta mais cabal das funcionárias da recepção, ou a compra dalgum dos manuais aí expostos.
Aquele emprego veio mesmo a calhar, o dinheiro fazia-lhe jeito e as pessoas eram simpáticas. O filme era sempre o mesmo, na hora agendada, colocava-se à testa daqueles grupos com o seu fato castanho-escuro cheio de vincos e a sua gravata desalinhada, pigarreava e iniciava o périplo, os passos vagarosos como os séculos, as paragens em que realçava algum detalhe, um túmulo ou uma estátua, e os grupos iam avançando em fole como as pregas de um dragão festivo chinês: recitava o seu texto em voz alta e nítida e, antes de retomar a marcha, fazia um compasso de espera enquanto os tradutores vertiam para a língua dos seus protegidos. Dia após dia, semana após semana, o trabalho era o mesmo. Um dia cansou-se. Estava quieto junto a um túmulo de granito no transepto do mosteiro a ouvir com uma atenção redobrada a maneira como as suas próprias palavras ecoavam noutras línguas pela voz dos guias-intérpretes e naquele momento sentiu uma espécie de inspiração divina, uma súbita iluminação que o encheu de pavor e euforia. Afinal, só as palavras eram diferentes, o teor da mensagem era o mesmo, as ideias permaneciam de um grupo para outro como aquelas pedras centenárias, suportavam-se umas às outras enquanto a cúpula dos céus rodava sobre elas. Sentiu e acreditou que não precisava das palavras para se fazer entender. As palavras eram muletas para gente preguiçosa e só precisava de convencer os visitantes a prescindirem das palavras inúteis para apreenderem a mensagem que elas revestiam. Quando reiniciou o percurso, em vez de soltar um discurso inteligível e coerente, começou a balbuciar alto sons incompreensíveis e desconexos, acreditando que mesmo assim todos o compreenderiam sem precisar de intérpretes.Cumpriu o resto da visita a soletrar triunfalmente palavras sem sentido, seguido por um cortejo de gente silenciosa e confusa que apelava mudamente aos seus guias perplexos. Houve algumas queixas, e levou uma reprimenda. Pediu desculpas e prometeu que não voltaria a acontecer, mas, na visita seguinte, lá estava ele a intercalar o texto decorado com frases numa língua inexistente, a tentar despoletar nas pessoas a apreensão imediata de tudo o que tinha para dizer.
Tiraram o velhote da função e colocaram-no a limpar os claustros e corredores silenciosos. A princípio, sentiu-se frustrado mas, aos poucos, aquilo converteu-se numa espécie de sacerdócio. Reparou que aquelas paredes velhas estavam enxameadas de pequenos símbolos, alguns pareciam letras, mas também havia pequenos mandalas, cruzes, espirais, signos claviformes. Sentiu que aqueles símbolos eram a chave da língua sem palavras, que, de alguma forma, eles tinham o poder ou os meios de levar as pessoas a comunicar umas com as outras sem terem de falar. Agora, no seu ofício diário, demorava-se ao pé deles e olhava-os demoradamente à espera de uma intuição ou de um rasgo de sabedoria, acreditando que, um dia, esse conhecimento chegaria e que poderia mesmo conversar com as pedras.


Fátima

O teu nome não é apenas um nome de nomear, não está fechado dentro de sinuosidades caligráficas, a erguer-se com as suas vértebras de letras dum mar de palavras, traduzindo sons definidos e sílabas concretas.

O teu nome é uma chave, uma Clave de Sol, luz musical que traz vida aos áridos mundos profundos.

há horas assim

Estás triste? – É o negrume! Respondeu, e a resposta bastava, negrume não era apenas uma palavra, era uma faixa do espectro da tristeza, mais sombria que o cinzento, amassada com queixumes mudos e extintos lumes. É o negrume! Repetiu para si mesmo com cansaço, com o livro inerte diante de si, olhando alheado as chamas morrediças da lareira

candura

Não me recordo do seu apelido, que a memória não usa mangas de alpaca nem monóculo de tabelião, mas sei que o seu nome era Isilda, uma criança belíssima de pele acobreada e olhos castanhos quase dourados, e com um sorriso doce e luminoso que suavizava tudo à sua volta. No recreio da Escola Primária brincávamos com os nossos pares, mas arranjávamos sempre maneira de estarmos algum tempo juntos, de nos irmos sentar numa das raízes do imbondeiro gigantesco em muda e densa cumplicidade, ou ir colher as laranjas do pomar da Escola, aproveitando as ramadas debruçadas para o exterior. No caminho, dávamos e desdávamos as mãos como quem tece carinhos, conversando alegremente sobre coisas vagas e sem importância. O pior era a sala de aula, disciplinada, severa e opressiva. Ficávamos sempre à frente, mas não conseguíamos suster o riso de cada vez que os nossos olhares se cruzavam e, em resposta, o tirânico professor Rocha oferecia-nos uma pequena e dolorosa vergastada na nuca com um bambu verde, ou mandava-me a mim, que era rapaz, ajoelhar-me junto ao quadro, de castigo, e ficar lá até ele se lembrar de me mandar sentar. Os dois esboçamos uma espécie de revolta silenciosa, um inconsciente gesto anárquico de protesto: quando nos víamos livres do exame do professor, fazíamos minúsculas bolas de papel amassadas com saliva e soprávamos esses projécteis pelo tubo da esferográfica para acertar no retrato do Américo Tomás suspenso sobre o quadro - dois pueris Franco-atiradores tentando cobrir de papel a penca do ditador.

Paleco

O turista saiu do seu carro com um câmera fotográfica a tiracolo, e a primeira coisa que viu foi o nazareno sentado no murete do promontório do Sítio, a uns cinco metros da capela do milagre. Trajava o fato típico, barrete de lã com borla, camisa de escocês, calças pardas de surrobeco com uma faixa de lã preta na cintura, e nos pés, dois tamancos, dentro dos quais vestira grossas meias de lã por causa da invernia. Aproximou-se do murete e o nazareno interpelou-o:
- Não me quer tirar uma fotografia? Ficava muito bem no seu fotolog. Se subir para cima daquela caixa de madeira, consegue enquadrar-me com o casario branco da Praia...
- Você é da Nazaré? Não tem pronúncia nenhuma!
- Sou da Amadora, mas vivo aqui desde que me reformei.
- A explorar os turistas...
- Não exploro ninguém, poso, e as pessoas dão o que querem, três, cinco euros. Tenho o que se chama a cor local, e com este rosto curtido e as patilhas brancas passo bem por um velho lobo do mar, e as pessoas dão o dinheiro por bem gasto. Quando você se reformar e se a sua reforma for igual à minha, eu arranjo-lhe um lugarzinho aqui ao pé para ganhar umas massas.
- Em todo o caso, você não é um nazareno genuíno e isto é um logro.
- Logro? Logro são as fotos retocadas das senhoras com pés-de-galinha e dos índios de Curtis. Eu sou um nazareno, e pronto.
- Tudo bem, agradeço mas passo. Já agora, uma informação, conhece aquele homem que está ali à beira do precipício? Se o tipo não tem cuidado, ainda cai...
- É o Bértolinho. Anda há três dias para tentar atirar-se dali.
- E ninguém faz nada? Não o tentam chamar à razão?
- Amigo, ninguém deve interpor-se entre um homem e a sua própria morte. Se o Bértolinho quer que a morte chegue mais cedo, a vida é dele. Mas se ainda não o fez até agora, já não deve fazer.
- Há muita gente a atirar-se cá de cima?
- Alguma. Vem gente de muitas partes para morrer aqui, e sabe porquê? Por causa da Nossa Senhora. A Virgem salvou o cavaleiro D. Fuas de cair no abismo, e as pessoas vem cá para morrer, mas têm a secreta esperança de um milagre, de caírem nos braços da Virgem ou na nuvem dela ou seja lá onde for. Mas não há milagres e acabam desfeitos nas pedras como um monte de carne picada. O pior, é quando sobrevivem à queda...
- Vou tentar fotografar-lhe a cara. Isso é que seria uma foto genuína, a de um homem em diálogo com a morte.
- Mas não se aproxime muito.
- Esteja descansado. O zoom da minha máquina é capaz de focar um pêlo da barba dele.
Aproximou-se com passos lentos, a máquina em descanso junto à perna. Sentou-se no murete, posicionou a câmera e fez um plano do seu rosto. Estava demasiado enviesado, não conseguia captar a carga do olhar, a expressão. Esperou, a máquina apontada, ostensivamente. O Bértolinho moveu-se, rodou sobre os calcanhares e deu de caras com ele. O seu rosto transfigurou-se numa expressão de desespero e correu para o vazio, lançando-se do rochedo.
Baixou a máquina, aparvalhado. Sentiu as mãos geladas.
- Não pense mais nisso - disse a seu lado o pseudo-nazareno - você acaba de poupar cinco euros...

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...