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A mostrar mensagens de Fevereiro, 2007

Bichos

Nunca me senti muito identificado com os gatos. Sempre tive cães por perto desde a infância e alguns deles são uma grata memória: o Vinte-e-sete, um cão enorme e manso traçado de S.Bernardo que corria pelo jardim apenas pelo prazer e embriaguês de correr, o Lord, que tinha muito medo de todos, e se aproximava da comida a rastejar com o focinho inclinado em gesto de súplica e, é claro, o Joly, um pateta alegre raçado de rafeiro que desenvolveu uma atracção doentia pelas suas próprias fezes, que lambia e comia enquanto estavam frescas. Mas dos gatos não guardo nenhuma boa memória ou ténue afeição. São esquivos, dissimulados, oportunistas e ladrões. Se na teologia desses felinos existir algum Gato Maligno, então devem-me considerar uma encarnação sua, porque fogem de mim a sete pés. De todos os gatos que cruzaram o meu caminho ou que fugiram dele, retenho um, o Bichano (sim, era assim que o chamavam), o gato soberano e apaparicado da casa da Avó. Assanhava-se mal me avistava, e se me apr…

começos e fins

Os filhos começam por venerar os pais como a um Super-Homem, e acabam por ver neles um Clark Kent débil a braços com uma tonelada de kriptonite.

negativa

Não sou um guia de monumentos, não sou um curador do património edificado ou um técnico de restauro e conservação. Mas sou um zelador de ruínas.

adoçante

"Daqui a dois meses fazemos exames e, se as coisas não melhorarem, tem de ir de novo à faca". À faca. Esta é uma das expressões preferidas da classe médica. Em geral as perífrases criam-se para atenuar o impacto de uma palavra terrível, como operação ou ser operado. Mas "à faca"?. À faca é pior, sugere cortes no abdómen, pessoas abertas de alto a baixo com uma dúzia de mãos enluvadas a remexerem nas entranhas à procura da fava ou do brinde. É urgente renovarmos a linguagem e usarmos perífrases médicas mais subtis, do tipo: "...se as coisas não melhorarem, agenda-se um encontro numa Estação de Serviço para você conhecer pessoalmente o assassino da moto-serra".

O jovem chegou com tempo, antecipara as suas rotinas inflexíveis e já fora à farmácia trocar a seringa. Trajava umas calças de ganga coçadas e um casaco, também de ganga, sobre um camisolão azul-escuro. Na cabeça, um gorro de lã mal-segurava os seus cabelos fartos e hirsutos. Eram oito e trinta da manhã e o seu filho e a mãe estavam, como era hábito, no café de esquina junto à Escola, onde tomavam o pequeno-almoço antes dela o deixar no átrio da escola e rumar ao trabalho. O filho, mal o viu, saltou da cadeira onde estava empoleirado e juntou-se a ele na porta do café. Ele abraçou-o, mantendo quieto a seringa no bolso do casaco com uma ligeira pressão do cotovelo. Trocaram breves palavras, e ele beijou o filho, afagando a sua face com a mão áspera de pele repuxada. A mãe do seu filho veio uns segundos à porta, acenou-lhe, e voltou para a mesa. "Ficas comigo?" - perguntou-lhe o rapaz - "Hoje não pode ser. A mãe vai levar-te à Escola, e eu tenho muitas coisas para fazer&q…

Divagar, é preciso

As recordações antigas, como as fotos, adquirem uma coloração sépia e asséptica, seguros por cola resistente e cantinhos recortados às folhas de cartolina negra. Quando não se encontram lá, é porque se revoltaram, feridas e em fúria, esvaindo dentro de nós o veneno e o fel que sai das suas veias com o sangue.
* Baixar os braços não é crime. O mundo não cairá se não o carregarmos nas espaldas como Atlas, nem sairá da sua órbita se deixarmos de fixar o seu eixo-djed como Osíris. Devemos permitir-nos sentir cansaço e saturação, escolher estar longe de todos e procurar causas e coisas comezinhas e sem sentido. Baixar os braços não é crime, ainda que nos condenem por isso aqueles que nos julgam à distância, preguiçosos e acomodados como gatos gordos.
* Invejo as pessoas que vão para um lugar determinado e certo, um destino pré-concebido, um objectivo claro e iniludível. Guiam os seus carros, encarrilam as suas vidas, e galgam caminho com o ânimo pleno e a expressão confiante na perseguição des…

uma outra luz

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mínimos

*Depois do acto sexual com o seu parceiro na escuridão do cinema, pensou no meio das trevas que retiraria mais prazer das legendas do final do filme.
*
- Achas que já me posso considerar completo, acabado? – Perguntou à sua consciência.
- Não! Faz “Salvar como Rascunho”. Falta-te quase tudo para seres uma pessoa
*
Ao fim de doze anos no ramo, o Editor hábil em números achou que já era tempo de aprender a ler.
*
Descobriu o “Segredo de Victória”: era muito pouco asseada.
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“Partir custa-me sempre, mas não ter aonde regressar é que me parte todo”.
*
Ela sempre desejou ter um pastor alemão. Na hora, optou por adquirir o pacote completo: o pastor alemão, o rebanho, os cães, a salsicha Bockwurst.
*
Era militar e militarizante. Todas as suas dúvidas e incertezas estavam praxando ou de castigo.
*
A princesa levou o seu príncipe encantado de volta para o castelo. Não foram felizes para sempre. Ele, em vez de ressonar, coaxava.
*
O motard gostava de descer escadas com a sua mota. Para ele, era como andar a gal…
Ele tinha dezassete anos quando a paixão lhe irrompeu portas adentro revirando tudo à sua passagem. O objecto dessa doce demência era uma jovem um pouco mais velha do que ele, que vivia perto da sua casa. Ela não era nenhum superlativo de beleza, mas possuía uma beleza inefável, e uma delicada fragilidade que o fazia sentir ganas de a abraçar e estreitá-la contra o seu corpo. Se a via passar na rua, ele saía em disparada pela porta das traseiras da sua casa, e corria ao longo de um quarteirão, apenas para a encontrar na rua com um ar casual, e trocar algumas palavras com ela, com a respiração ofegante e as faces coradas. Durante os fins-de-semana peregrinava pelos lugares que sabia frequentados por ela, na esperança de a reencontrar, e quando isso acontecia, era como se ela estivesse cercada de um halo luminoso. Era claro que ela não lhe dava muita atenção, tratando-o de um modo circunstancial mas uma palavra ou um sorriso seu tinham para ele o efeito de uma bênção sobrenatural, que o…

marxismo

Seringas com vinho eucarístico, charros com beatas de sacristia, pedras com a pedra das imagens, tripes com as tripas dos relicários, reggae psicadélico cantado pelo Papa bento, drunfos confeccionados com receitas conventuais.
Alíneas para o ópio do povo.

oferta e procura

Depois da semana dos congelados e da semana de artigos para o lar, o hipermercado lançou a hiper-promoção da felicidade, ultracongelada em embalagens individuais que a preservavam de ameaças microbianas - era só levar para casa, colocar dois minutos no micro-ondas na função de descongelar e a felicidade estava servida. O preço era tentador, mas Desidério, a desgraça em pessoa, só soube da promoção dois dias antes dela acabar. Correu até ao hipermercado, mas a sua má-sorte correu junto com ele. Já não havia felicidade à venda. Protestou e estrebuchou, mas a promoção já havia acabado por ruptura de stocks.

ilha dos amores

Sós na vastidão dos oceanos e longe de tudo e de todos, os navegantes deliravam - tomando nuvens na linha do horizonte como ilhas de sonho, e beijando estrelas com o astrolábio.

(novo) mandamento

"Não cobiçarás a mulher do próximo, sobretudo, quando o próximo for viúvo"

Um travo de "Gin-Tónico"

“Os motivos pelos quais as pessoas me deveriam eleger para o cargo de Presidente da Câmara e ao meu sobrinho para meu número dois, são mais do que evidentes. Os nossos competidores, o arquitecto Almeida e o seu número dois, o doutor Cerqueira, não são elegíveis para lugares públicos por pertencerem à mais vil e tosca espécie de gente canibal. Nós não, provimos de famílias antigas e conceituadas do concelho, e usufruímos de uma educação esmerada que nos ensinou a comer carne humana com faca e garfo e não à dentada. Se o Partido da oposição quisesse ser honesto, editaria cartazes do arquitecto Almeida a chupar miolos dum crânio, e do doutor Cerqueira com os alvos dentes cravados numa perna humana em sangue”.

Primavera

Naquela fria manhã de Inverno, o casal e o filho pequeno foram surpreendidos por um singelo prodígio, no jardim desolado de árvores despidas e relva anémica, soavam trinados alegres. Procuraram a fonte daquela melodia e descobriram um casal de canários a espreitar da janela do sótão, com a plumagem colorida dos rituais de acasalamento. Talvez quisessem ficar por ali e fizessem ninho numa das árvores do jardim. O certo é que os canários não pareciam ter pressa em partir. Sob os rogos do filho, o pai levou-o ao colo até ao sótão onde os poderiam ver melhor. Aí, o rapaz parecia maravilhado com a presença daquelas criaturas pequenas a saltitar em cima da pedra, e quis dar-lhes de comer. O pai mostrou-se relutante, pesavam-lhe muito os anos de gente crescida. Tinha imensos motivos imbricados uns nos outros para não dar muita confiança àquelas aves, existia a gripe das aves, e germes e moléstias várias que os pássaros acumulam nas penas ou, simplesmente, a possibilidade trabalhosa daquelas …

Uma história macaca

A página em branco, a maldita página em branco, passou ao de leve o bico da caneta pela folha de papel enquanto tentava ordenar ideias, a caneca vazia de cerveja no tampo da mesa parecia uma torre de cristal, levantou-a e olhou estupidamente a circunferência líquida. Faltara ás aulas nocturnas, mas não se sentia chateado com isso. Estava ali há horas tentando escrever algo de original, e a única coisa que conseguira fora aquela cerveja marulhando no estômago e que parecia ressoar na sua cabeça como o mar no interior de um búzio.
Quando ergueu os olhos, viu a sua namorada que voltava ao café depois de mais uma aula. Tentou encolher-se por detrás da caneca para que ela não o visse, mas era tarde demais. Ela sentou-se ao seu lado com um sorriso trocista nos lábios carnudos e pintados. Quando tentou falar, arrependeu-se, o cheiro intrusivo a tostas mistas, deu-lhe a volta ao estômago e esforçou-se para não despejar tudo. Ela acendeu um cigarro e brindou-o com uma baforada de fumo para o ch…

the end, my friend

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Tenho uma grande predilecção pelo jogo do dominó, acalma-me jogar com os meus amigos, sentados nos quatro pontos cardeais entre o fumo sorvido do tabaco e os arrotos da cerveja, procurando o norte aos pontos e sequenciando vitórias breves. Conhecemo-nos há anos, jogando no Clube Ferroviário do nosso bairro, já aqui andávamos antes dos nossos filhos nascerem e de construirmos casa e família e agora já quase não conversamos, a gente se entende com expressões sábias e vagos grunhidos, reagindo sumariamente às perguntas dos outsiders ou às notícias da televisão. Dos outros três, foi Abel quem me desviou da elementar prática do dominó, falando com um insólito entusiasmo de um espectáculo montado num estádio da Coreia com cento e vinte mil peças de dominó. Fiquei para ver a peça na televisão. Com elas montaram de tudo, ícones, figuras, cascatas de peças em estantes, flores a irradiar de um centro e abrirem-se enquanto as peças tombavam em cadeia. Aquilo era de facto um assombro, e provocou-…

splash

"Já chega! Sou um ouriço mas já não quero ser um ouriço-cacheiro, não me vou esconder mais, nem andar de espinhos eriçados" - e, ufano e cheio de confiança, começou a atravessar o alcatrão da auto-estrada.

love on the air

A jovem desceu a rua como se caminhasse sobre nuvens, um sorriso doce no rosto, o olhar meigo a divagar pelas pessoas e pelas casas. Os desconhecidos cumprimentavam-na, vencidos pela felicidade que irradiava, e as velhotas tagarelas sorriam com as suas bocas desdentadas, velando a memória ténue das paixonetas da mocidade.
No seu regaço, levava um ramo de rosas, de pétalas vermelhas humedecidas. Fora-lhe entregue no trabalho, diante da surda inveja dalgumas colegas, entregues em mão por um moço de recados que cumpria a incubência da florista onde ela própria as tinha encomendado.
Era bom sentir-se feliz e amada no dia dos namorados.


"Sheet happens" - Uma história infantil

O coelho Serafim, de focinho branco e orelhas pontiagudas, gostava muito de visitar a horta do Pai Natal, e mastigar as cenouras e os talos de couve que o Pai do Céu ali deixava para ele. Saltitando alegremente, passava ali o dia a comer e a cantar. Num radioso dia de Primavera em que os pássaros chilreavam nas árvores e as borboletas coloridas esvoaçavam à sua volta, o Pai Natal perguntou ao coelho Serafim se havia alguma coisa que a vida ainda não lhe houvesse dado.
"Sabes, Pai Natal, a vida deu-me saúde e apetite, e sou bonito com um pêlo muito lustroso. Gosto de me passear ao sol e brincar com o meu amigo, o palhaço Nemias, mas também gosto muito da minha toca e da minha família que vive lá dentro. A toca está perto de um riacho despoluído. É toda muito ampla e bem cuidada, com seis assoalhadas e espaço para arrumos. Temos um salão grande onde costumamos cantar e cobrir, e uma despensa carregadinha de avelãs, bagas e frutos secos. Que me lembre, não me falta nada...talvez...nã…

xanadu

(...)
- Estou certo de que consigo interessar o senhor num dos Seguros que desejo apresentar-lhe.
- Se o senhor insiste, mas tente ser breve. Estava a tentar escrever uma espécie de poema.
- Vou ser breve como a vida. Não venho aqui para tentar vender-lhe um Seguro de Vida, embora isso seja uma boa opção se quiser dar aos seus alguma segurança e conforto para o dia depois. Propunha-lhe um pacote de seguros, uma vasto naipe de seguros que contempla todos os infortúnios possíveis e imaginários, da queda de meteoritos e incêndio na casa, às lesões nos ouvidos causadas pelos gritos da Floribella. Se o senhor aderir, fica garantido nesta vida e depois dela.
- Lamento refrear-lhe o entusiasmo, mas o senhor está a perder o seu tempo.
- Nunca dou o meu tempo por perdido. Se não a si mesmo, o senhor deve ter alguém a quem queira beneficiar ou ajudar.
- Ouça-me com atenção. Eu sou um doente terminal, e não tenho família que conheça ou amigos que deseje reconhecer. Porque é que eu deveria aderir a um …
"Gostas de mim na mesma?"- perguntou ela, soltando uma risadinha nervosa e leve como o esvoaçar de uma pomba. A curva do seu pescoço parecia afeiçoada em marfim, mas um marfim vegetal, poroso, quente. Depositou ali um beijo em resposta. Ela, deitada na toalha, olhou por cima do ombro - "brincalhão" - exclamou enquanto a água pingava do seu torso molhado para a curva das nádegas. A luz do sol por entre as folhas da palmeira brincava na íris dos seus olhos como um círculo luminoso deambulando pelas cores de um vitral.
O seu rosto adorado já não tinha a frescura dos tempos em que se haviam conhecido. Haviam vivido longe um do outro, casado, tido filhos, até se encontrarem de novo. Ali, à beira daquela piscina de hotel, rodeados de pessoas estranhas, não havia famílias, nem filhos, nem angústias; nada de mais real do que o cheiro da relva ou o som da água. Ela ergueu o braço e puxou-o para si, sentindo aquele gelo sobre o seu corpo ensolarado. Ele mordiscou-lhe o lóbul…

Perturbações do sono

Há a insónia, o sonambulismo, os terrores nocturnos...e há também a D. Lurdes que, a meio da noite, agarra o marido por um cotovelo e abana-o vigorosamente, arrancando-o de um sono profundo e reparador para o fazer constatar um facto: "Estás a ressonar outra vez. Assim, não consigo dormir".

the L word

A Holanda é um polipeiro de tulipas

bloguices

O gerente de empresa teve um rebate de consciência. Cansado de despedir gente com valor e humilhar subordinados e aceitar e promover jogos mesquinhos de influências, decidiu que era altura de mudar. Ia criar um weblog. Faria o mesmo que sempre fizera, mas o seu blog ia mostrar a todos os empregados da firma que, apesar de agir como um grande filho-da-puta, tinha uma alma sensível à beleza e à poesia. Pagou a um web-designer para o construir, e deu umas gorjas à Helena, da Contabilidade, para seleccionar uns poemas, e a coisa fez-se enquanto o diabo esfrega o olho. Um blog com umas fotos bonitas e versos de gente consagrada, de Fernando Pessoa, mas também de outros autores: Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, Alberto Caeiro, José Régio, e tantos outros.
Anunciado em tudo o que era informação da firma, como qualquer circular, o blog arrancou em força, com uma plateia comprometida de quatrocentos e trinta e três empregados, gente comum que paga prestações de carros, estudos de filhos e hipote…

Minguante N.º 4

4 O MINGUANTE encontrou a quadratura do grande círculo, o pequeno círculo da marca da grande penalidade, o semi-círculo que coroa a grande área quadrangular, os quatro ângulos da boca da baliza e os quatro cantos das bandeirinhas que olham de esguelha.

O Minguante chegou ao tetra com textos mínimos, num campo onde todos podem jogar sem invasões, ou assistir sem pagar ingressos. Quem não quiser calçar as chuteiras pode ser o adepto ébrio ou o árbitro no gramado, xingar ou gramar à brava, que as palavras não têm dono nem clube, e só contam as que entram cá dentro.

poder de observação

Se encontrarem um polícia que tente compensar a monotonia padronizada do seu uniforme com pequenos detalhes como um lenço no bolso, um botão de cor diferente ou um brinco colorido; ou depararem numa esquadra da polícia com uma secretária diferente das outras, criteriosamente orientada segundo um dado eixo astronómico, as fontes de luz e a posição das plantas. Então, podem estar certos, de que encontraram um Feng-Chui.

Vício

O mirone mirava e amava a sua vizinha do prédio em frente e estava sempre à coca para a ver desfilar seminua pela sala de vidraças largas, com um monóculo à mão para adular as suas feições sensuais e a curva suave entre as coxas, e um binóculo para galar os seios e as nádegas.

reconhecimento

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Não fosse dar-se o caso de um dia cegar, e ficar sem saber o que fazer, de tempos a tempos repetia um exercício de orientação na sua própria casa. Era a sua casa, chamavam-lhe barraco, mas era a sua casa, e o exercício era elementar: percorria-a de olhos fechados rememorando o lugar e a disposição de cada coisa. Cerrou com força os olhos e entrou, ao seu lado direito tacteou um móvel de cozinha em madeira prensada que resgatara do lixo, tinha encastrado um lava-louça enferrujado e, em cima do escorredor, podia encontrar a meia-dúzia de louças e talheres que usava. Tinha de ter cuidado para não tropeçar no jarrricão azul com água do fontanário encostado ao móvel. A seguir, e cortando o canto da casa, o banco improvisado, uma porta de frigorífico apoiada em dois caixotes de madeira. No canto oposto, a sua pequena cama e, aos pés, uma escrivaninha de madeira com tampo e tudo (as coisas que as pessoas deitam fora). Não podia esquecer-se de que no eixo da sua casa tinha uma mesinha de cent…

inverso

Sabem bem estas manhãs em que as temperaturas são baixas mas a luz é viva e generosa, em que empregamos tempo a contemplar as ruas, as pessoas e os telhados das casas do lado de dentro do vidro, nas nossas casas aquecidas. Antípodas. Dos momentos de Verão em que a nossa vida queima distâncias do lado de fora do vidro, em que nos sentimos mais nós em convívio com outras pessoas na noite de temperaturas amenas e generosas.

frases

E rima A cultura é contranatura
* Aquecimento global O leão começou por ser o rei da selva, hoje é o rei da savana e, não tarda, será uma carcaça coroada no meio do deserto.
* Vogal Há quem possua um talento inato para estabelecer relações com as outras pessoas, e há outros que desenvolvem uma aptidão natural para criar ralações.
* Os tiranos investem-se de uma nobre missão: são ofensores dos fracos e espremidos
* Alma Lusa O nosso gado vacum, é um povo de brandos curtumes

teimosia@mail.com

Re: Último esclarecimento:
Compreendo que o senhor queira publicar o seu livrinho, mas não pode exigir às editoras que lhe forneçam explicações exaustivas por recusarem o seu original; muito menos, contemplar-nos com a sua revolta como se nós fossemos réus em Nuremberga. O senhor apresentou-nos um texto sem pés nem cabeça, com blocos de prosa medíocre em mau português, sem interesse nem relevância para o comum dos mortais. Espero que esta explicação seja suficiente, e que isto encerre o assunto.

Re: Último esclarecimento
Não, não é suficiente. Fique sabendo que outras editoras - e de renome - disseram-me que o meu original tinha interesse, e que teriam orgulho em apor a sua chancela se eu arranjasse um patrocínio que assumisse os custos da edição.
É certo, dou alguns erros e o meu vocabulário é limitado, sou pré-Acordos-Ortográficos e não tenho pachorra para dicionários.
Eu assumo-me como um pedreiro ou cabouqueiro da escrita. Não tenho a aptidão nem o refinamento para esculpir rendilhados…

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O filho nasceu fora de tempo, na bíblica velhice dos seus pais. Decidiram que deveria ter Deus no nome, de estar cheio dele, entupido de graça e gratidão. E tinham muitos à escolha: Teoclímeno, Teófilo, Teodósio, Teófulo, Teodomiro, Teodónio. Aquele filho cresceu pleno de benção divina, mas não viveu muito, o coitado. Morreu de congestão mística quando simulava ser crucificado num cerimonial de Semana Santa.

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Poe, o corvo, o poeta, o poente. Poe-ma. O regresso à mansão escura onde no vemos tolhidos pelo medo e pela solidão.

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A plutocracia é um nome inspirado em Walt Disney que serve para designar um sistema de governo em que somos dominados por cães.

babel

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(fotos tiradas na nave do Mosteiro de Alcobaça)



O velhote era reformado dos Caminhos-de-Ferro, de cabelos grandes e brancos e membros lassos e cansados. Como sabia línguas e percorrera mundo, o seu cunhado, através da irmã da sogra de um primo em terceiro grau, arranjou-lhe um trabalho como guia turístico num mosteiro. Não precisava de saber muito, nem desenferrujar os seus conhecimentos linguísticos. Só tinha de decorar o essencial, os detalhes do monumento e as figuras e reis que lhe estavam associados. O resto era canja. Fazia o percurso pelo monumento e ia recitando o que decorara, os turistas vinham quase sempre em grupos e traziam intérprete, ouviam e pasciam como carneiros obedientes, aos outros, os lobos solitários que tomam a iniciativa e gostam de perguntar os porquês e os comos, bastava colocá-los na linha, aconselhando uma resposta mais cabal das funcionárias da recepção, ou a compra dalgum dos manuais aí expostos.
Aquele emprego veio mesmo a calhar, o dinheiro fa…

Fátima

O teu nome não é apenas um nome de nomear, não está fechado dentro de sinuosidades caligráficas, a erguer-se com as suas vértebras de letras dum mar de palavras, traduzindo sons definidos e sílabas concretas.O teu nome é uma chave, uma Clave de Sol, luz musical que traz vida aos áridos mundos profundos.

há horas assim

Estás triste? – É o negrume! Respondeu, e a resposta bastava, negrume não era apenas uma palavra, era uma faixa do espectro da tristeza, mais sombria que o cinzento, amassada com queixumes mudos e extintos lumes. É o negrume! Repetiu para si mesmo com cansaço, com o livro inerte diante de si, olhando alheado as chamas morrediças da lareira

candura

Não me recordo do seu apelido, que a memória não usa mangas de alpaca nem monóculo de tabelião, mas sei que o seu nome era Isilda, uma criança belíssima de pele acobreada e olhos castanhos quase dourados, e com um sorriso doce e luminoso que suavizava tudo à sua volta. No recreio da Escola Primária brincávamos com os nossos pares, mas arranjávamos sempre maneira de estarmos algum tempo juntos, de nos irmos sentar numa das raízes do imbondeiro gigantesco em muda e densa cumplicidade, ou ir colher as laranjas do pomar da Escola, aproveitando as ramadas debruçadas para o exterior. No caminho, dávamos e desdávamos as mãos como quem tece carinhos, conversando alegremente sobre coisas vagas e sem importância. O pior era a sala de aula, disciplinada, severa e opressiva. Ficávamos sempre à frente, mas não conseguíamos suster o riso de cada vez que os nossos olhares se cruzavam e, em resposta, o tirânico professor Rocha oferecia-nos uma pequena e dolorosa vergastada na nuca com um bambu verde,…

Paleco

O turista saiu do seu carro com um câmera fotográfica a tiracolo, e a primeira coisa que viu foi o nazareno sentado no murete do promontório do Sítio, a uns cinco metros da capela do milagre. Trajava o fato típico, barrete de lã com borla, camisa de escocês, calças pardas de surrobeco com uma faixa de lã preta na cintura, e nos pés, dois tamancos, dentro dos quais vestira grossas meias de lã por causa da invernia. Aproximou-se do murete e o nazareno interpelou-o:
- Não me quer tirar uma fotografia? Ficava muito bem no seu fotolog. Se subir para cima daquela caixa de madeira, consegue enquadrar-me com o casario branco da Praia...
- Você é da Nazaré? Não tem pronúncia nenhuma!
- Sou da Amadora, mas vivo aqui desde que me reformei. - A explorar os turistas... - Não exploro ninguém, poso, e as pessoas dão o que querem, três, cinco euros. Tenho o que se chama a cor local, e com este rosto curtido e as patilhas brancas passo bem por um velho lobo do mar, e as pessoas dão o dinheiro por bem …