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Inconsolável

“Um Lar familiar” – era assim que se auto-denominavam. Foi aquele slogan simples e apelativo que havia decidido o casal Barbosa a irem visitá-lo antes de lá colocarem a mãe dele. Na altura, gostaram do que viram. Um edifício grande de três pisos e quartos individuais amplos e arejados. Ficava a uns passos da praia da Consolação em Peniche, e as pessoas que exploravam o Lar gostavam de levar os idosos até perto do Forte, para apanharem aqueles ares e aquele iodo que se dizia ser muito benéfico para a saúde. Isto já há três anos. Entretanto, com as exigências do trabalho e as idas ao estrangeiro, as visitas à anciã haviam diminuído bastante. Agora, ao fim de largos meses de ausência, lá se decidiram marcar o ponto e verificar o modo como ela era cuidada. Levaram um pacote de biscoitos de manteiga e um de bolachas Maria, para fazer um agrado à velha. A sala à entrada estava cheia, os velhos sentados em cadeirões, uns muito dignos e direitos olhando em volta como almirantes em terra, outros vencidos pela idade e pelas doenças, todos tortos, como se estivessem a derreter, as expressões alteradas e a baba a escorrer pela boca. Pelo meio das fiadas de cadeiras e sofás, as visitas, todas munidas de oferendas e beijos, a falar muito alto e a endereçar cumprimentos de familiares ausentes que iam nomeando com ênfases e pausas. Descortinaram uma funcionária do Lar pela indumentária e o Barbosa indicou-lhe o nome da mãe. Ela coçou o nariz como se estivesse a pensar ou a medir as palavras:
- Saiu depois do almoço, foi laurear a pevide. Mas não tarda aí. Ela é como os gatos, quando tiver fome, volta…
O que é que haviam de dizer ao Barbosa, ao respeitado e influente Barbosa. O homem cresceu dois palmos, as faces rubicundas, gesticulando e gritando a eito como se ceifasse a incompetência e a estupidez deste mundo. Mandou chamar a dona do Lar, ameaçou com a polícia, invocou os seus conhecimentos pessoais na Segurança Social e na Santa Casa. Veio a dona, e o sermão repetiu-se, causando uma comoção geral na sala: o fluxo de baba aumentou nalguns idosos, enquanto noutros o tremer incontrolável das mãos estendeu-se ao resto do corpo, fazendo-os saltitar nos cadeirões. Quando a dona do Lar se sentia vencida por aquela avalanche de palavras e ameaças, voltou à sala a senhora que os havia recebido, a esbracejar para a ouvirem.
- A sua mãe já voltou – exclamou alto com os bofes na boca – eu disse-lhe que ela era como as gatas. Esteve a andar pelos telhados e agora está a afiar as unhas nos ladrilhos da varanda do quarto.

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