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Um quadro do Após-Calipso

A jovem Calipso saiu da pequena gruta onde costumava brincar e caminhou com passos rápidos para a aldeia no vale, com o seu capuz vermelho e a sua cesta a abarrotar de flores e folhas. Aquelas matas e florestas metiam respeito e tinha de ter sempre muita atenção. Quando se dera o colapso e as pessoas haviam saído das cidades em busca de alimento, em quase todas elas os tratadores de animais haviam aberto as jaulas e portões dos jardins zoológicos para que as suas criaturas acarinhadas pudessem sobreviver. Os grandes predadores, depois de devorarem grande parte dos outros animais libertos, deambulavam agora em torno das comunidades em busca dalguma presa desavisada. Felinos sorrateiros, ursos corpulentos, cães selvagens, lobos, e hienas que durante a noite pareciam rirem com as gargalhadas de uma velha louca. Os humanos, por seu turno, caçavam-nos a eles e a outros animais para enriquecer a sua dieta.
A sua aldeia fora erguida no centro da grande cidade abandonada, um punhado de casas reconstruídas no meio de quilómetros e quilómetros quadrados de edifícios a ameaçar derrocada e ruas repletas de carcaças ferrugentas de carros onde as plantas haviam rasgado o alcatrão em busca de luz e nutrientes. Ao descer para o cantinho da cidade assinalado pela fumo encordoado das fogueiras, era um encanto para Calipso olhar a cidade ao lusco-fusco, com os edifícios escurecidos, o grande rio como uma serpente dourada e a ponte quebrada mas com os seus arcos ainda quase intactos como os mastros de um veleiro saído de uma tempestade.
Na aldeia uma das suas amigas veio ao seu encontro a correr para lhe contar que havia encontrado mais uma casa com os papéis que ela gostava de juntar e que ainda havia tempo para lhe mostrar antes que fosse noite escura. Pousou o cesto perto da sua casa e seguiu-a por um meandro de ruas e ruelas até desembocarem no que fora uma larga avenida onde a vegetação se espalhara a partir do parque no centro, cobrindo agora quase tudo. A tal casa estava do outro lado, uma casa enorme com uma entrada com colunas altas redondas. A amiga começou a correr e ela seguiu-a. Galgaram a escadaria da entrada e mais uma escadaria após o átrio e detiveram-se numa grande sala. Uma das paredes laterais estava meio derruída e os pombos arrulhavam no meio dos móveis. A amiga puxava-a pelo braço com entusiasmo e entraram no salão seguinte. Calipso ficou boquiaberta. Era lindo, imenso e todo inundado de luz. O tecto envidraçado estava em bom estado á excepção de um dos cantos onde se partira, havendo sinais dos estragos causados pela chuva. Pé ante pé, Calipso entrou na sala como se caminhasse respeitosamente pela nave de uma catedral. Por todo o lado, nas prateleiras, em cima das mesas carunchosas e dentro de caixas de madeira, viu o que procurava. Livros, centenas de livros. Sentiu-se eufórica. A amiga explicou-lhe que havia mais em outras salas mais pequenas, numa delas estava o esqueleto de um homem que morrera sentado a uma mesa. Tinha de ali voltar mais vezes. Com a ajuda da amiga conseguiu levar para a aldeia um punhado deles. Escondeu-os numa das casas vazias das proximidades, o seu refúgio, e foi deitar-se sem demora.
Na manhã seguinte acordou com os primeiros raios de sol e esgueirou-se de casa com o seu cesto de verduras. A sua segunda casa era a sua Biblioteca de Alexandria, paciente recolha de livros e manuscritos de outra forma votados ao olvido e á dissipação na cidade perdida. Era uma casa térrea, com um pátio interior a céu aberto com uma fonte murmurante ao pé da qual ela gostava de admirar as suas preciosidades. Pôs ao pé de si a pilha de livros que havia obtido na véspera e pegou neles um a um. Acariciava as suas capas, enchia as narinas com o cheiro do papel e da tinta, depois abria-os, folheando-os atentamente, com os olhos divagando por entre as páginas. Mexer num livro era um acto dos sentidos, uma forma de prazer que envolvia e harmonizava o seu espírito e todas as fibras do seu ser.
Todos aqueles livros eram livros fechados, distantes, perdidos. Ninguém os sabia ler, o segredo para decifrar o que continham perdera-se há varias gerações. Em tempos aparecera por ali um ledor, um homem que afirmava saber ler o que todos os livros tinham e em várias línguas. Ficaram todos espantados com aquela personagem que subia para um pedestal improvisado, abria um livro e passava horas a recitar o seu teor. Andou por ali várias semanas, lendo livros atrás de livros e tentando explicar-lhes o que eles significavam. Davam-lhe guarida e alimento e ele exercia o seu ofício, mas aos poucos começou a crescer uma certa animosidade contra ele, começou a correr que ele era um farsante, que não sabia ler nada e que tirava aquelas coisas da imaginação. A desconfiança transformou-se em ira e de um momento para o outro, as pessoas juntaram-se e correram com ele á pedrada. Todos os ledores que ali apareceram depois disso eram logo corridos á chegada para grande surpresa deles.
Calipso começou a seleccionar os seus livros. Escolhia-os quase sempre pela beleza das suas capas. Nunca punha de parte nenhum livro sem primeiro arrancar as folhas que tivessem alguma imagem, uma gravura, uma fotografia ou um gráfico. Essas imagens atirava-os para um quarto destinado a esse fim, onde as fotos das revistas pornográficas e revistas de imprensa rosa dos quiosques comungavam o espaço com cartoons, reproduções de pinturas, gravuras de Escher e H. R. Giger e ilustrações de Gustave Doré. Os livros que escapavam a essa triagem, separava-os por famílias, porque iam ser arrumados em prateleiras junto de livros com capas ou volumes idênticos. Depois abrindo fortuitamente um dos livros, começava a dispor entre as suas páginas as folhas e flores que recolhera nos montes, nos livros mais pequenos colocava as folhas mais delgadas, e reservava para os maiores, dicionários, Atlas e tomos de enciclopédias, as folhas mais bulbosas e as flores. A sua biblioteca tinha centenas de livros repletos de folhas e flores comprimidas, onde ficavam até se transformarem em formas esborratadas ou em folhas secas tão transparentes e delicadas como as asinhas de uma libélula. Olhando com enlevo a sua colecção Calipso recordou um verso que se repetia na festa da colheita, na reunião com os rapazes: "As raízes desta planta / cresceram dentro de mim / esperando de ti a semente / que fará florir este jardim". Sorriu para si mesma e iniciou o seu trabalho, absorta como uma grave pitonisa, intercalando os espécimes vegetais nos diferentes livros. Uma folha de plátano para absorver um poema de Rimbaud, pétalas de rosa sobre as palavras do Evangelho de S.Tomé, uma partitura de Verdi acolheu o perfume das açucenas, e um largo girassol a que arrancara o coração irradiou as suas cores solares sobre as histórias incas de Garcilaso de la Vega. Os livros já não eram livros, a velha cultura tinha-se dissolvido. Rilke, Goethe, Dante, o Cântico dos Cânticos ou os Upanishades deixavam de ter existência própria, eram palavras ilegíveis em folhas de papel que Calipso usava para absorver os sucos orgânicos de flores e folhas que se desfaziam nas suas mensagens, como o corpo de um vivente na terra-mãe onde caiu.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...