«Podes não acreditar, mas as pessoas têm odores daquilo que são, talvez odor seja uma palavra inadequada, mas irradiam aquilo que guardam ou escondem, como feridas antigas e crueldades ocultadas. Há odores de tudo, da alegria e do sofrimento, da fantasia e da loucura. Um vago sentimento de culpa manifesta-se tão nitidamente como uma experiência traumática».
«Está bem, se o dizes...mas, para mim, isso é conversa de ir ao pito. Este é o nosso primeiro encontro, estamos a a beber um copo e, em vez de fingires que tens uma Quinta no Ribatejo, vens com a conversa do odor sem odor. Pelo menos é original».
«Não, é pura verdade científica, o odor biomagnético é perceptível e intuitivo. Eu, pelo menos, consigo definir uma pessoa apenas pelo seu odor inefável, consigo dizer tudo sobre ela, qual o seu passado, os seus sonhos, as suas doenças e fragilidades...».
«Então, o que é que consegues dizer de mim, para além de saberes onde é a minha casa e que tipo de filmes eu gosto?».
«(...)».
«Então?».
«A minha sensibilidade eclipsou-se, foi como se este ambiente carregado de fumo me tivesse sabotado o sentido do olfacto. Lamento. Talvez...talvez se eu tentasse o diagnóstico em tua casa, assim num ambiente acolhedor com um pouco de música e um cheirinho de incenso...».

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue