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fábula


Ele nascera com um defeito congénito: todas as proporções do seu corpo entravam em choque com as do seu braço direito, que tinha um tamanho três vezes inferior ao outro. Os pais choraram de desgosto no dia do seu nascimento. Em vez de afagarem aquele bebé cálido e húmido deixaram-no nos braços de uma ama, entregues ao seu próprio desespero.
E para sempre assim foi. Ao crescer, as outras crianças rejeitaram-no; ao tentar ir para a escola, foi insultado e espancado. Os pais voltaram a lamentar-se e decidiram de comum acordo deixarem de sofrer devido à imperfeição daquele filho. Abrigaram-no na vasta mansão rodeada de jardins murados, oculto dos olhares e do escárnio das pessoas; e providenciaram-lhe um preceptor, um sujeito pedante e melífluo que o ensinava com laivos de desprezo e troça. E naquela mansão consumiu os anos da sua infância e adolescência, aprendendo obedientemente como se não tivesse vontade. Ao atingir a idade adulta, o preceptor passou a ministrar-lhe aulas de Latim, História, Germânicas, Álgebra e Teologia. Nada o parecia interessar verdadeiramente. O seu braço direito media um palmo, e a sua alma aprisionada debatia-se no meio da sua solidão. Tinha tudo guardado dentro de si, toda a beleza e toda a emoção - a alegria dos jogos de criança; o riso e a vertigem de crescer; a amizade e o afecto; a música, a paixão e o desejo...Tudo o que não vivera continuava a existir dentro dele como se o seu coração fosse um punho cerrado com força.

Um acontecimento fortuito estilhaçou a redoma sufocante em que vivia. Uma tia que vivia em Inglaterra enviou-lhe de presente, um volume enorme com poemas e desenhos de William Blake. A poesia nunca lhe suscitara grande predilecção mas, aqueles, leu-os febrilmente; leu o livro de um só fôlego sentado na relva do jardim, junto às raízes enervadas de um álamo. Os versos alucinados de Blake sacudiram-lhe a alma como uma serpente em contorções; e quando acabou a leitura, fechou o livro e manteve-o agarrado contra o peito, com o corpo enroscado como um feto humano entre as raízes.
A ama conseguiu levá-lo para o salão grande, onde o sentou num cadeirão. O jovem ficou ali durante dias, diante das portas largas de vidrinhos que davam para os jardins. Agarrado ao livro de Blake, caíra num torpor profundo, e apenas as suas pupilas pareciam atraídas pela agitação trémula das folhas das árvores. A ama tentou alimentá-lo, falou com ele e fez-lhe perguntas, mas tudo parecia inútil. Quando ela começava a desesperar, ele rompeu o silêncio para lhe pedir uma caneta e papel para escrever. A tarde caía sobre o jardim. Dois serviçais arrastaram uma escrivaninha para diante dele, e dispuseram sobre o tampo uma caneta, um tinteiro e um grande maço de folhas brancas. Só então ele pousou o livro de poemas a um canto da escrivaninha, e com o corpo todo torcido, segurou a caneta com a miúda mão direita e começou a escrever. Escrevia versos, versos atrás de versos, intercalados com pequenos esboços de desenhos estranhos, com serpentes aladas, árvores com olhos, pássaros irreais, monstros marinhos e rios de fogo. Quando a sala começou a ficar muito escura, a ama colocou um candelabro aceso sobre a escrivaninha, e reparou então num pormenor que a princípio lhe pareceu absurdo: o seu menino estava a mirrar, a diminuir de volume. Com um lamento na voz correu assustada a avisar os pais; e estes constataram o mesmo, o corpo do seu filho estava a ficar mais pequeno à medida que ia escrevendo os poemas. Os pais correram a mandar toda a criadagem sair da mansão e selaram a casa. Aturdidos, sentaram-se num canto do salão de olhos fitos naquele prodígio assustador, chorando baixinho o infortúnio que se abatera sobre eles. O reverendo, chamado à pressa e no meio do maior segredo, acorreu à mansão e percorreu os jardins agitando um incensório, enquanto se desdobrava em benzeduras e ladainhas em latim.
No interior, ele continuava a escrever e a desenhar sem descanso, exprimindo as visões e imagens que o assaltavam. Horas a fio de um trabalho obcecado, enquanto o seu corpo regredia no tempo, assumindo primeiro as linhas esguias e hesitantes da adolescência e, já para o fim da noite, as formas de um corpo de criança, com as roupas enormes enroladas sobre a sua pele.
Os pais continuaram encolhidos no seu canto, recordando uma a uma, todas as humilhações que sempre lhes causara a vida daquele filho. A ama ficou sempre a seu lado, renovando-lhe as folhas de papel, e sotopondo almofadas sob o seu corpo. Por fim ela interrompeu-o, libertou-o das roupas e enrolou o seu corpo num longo xaile negro, quente e macio; e sentou-se ela própria no cadeirão, colocando-o em cima dos joelhos.
Ele recomeçou a escrever. A manhã estava próxima. O seu corpo era diminuto, pouco maior do que o de um bebé e ele agora escrevia cada vez com mais lentidão e em esforço, levando muito tempo para dar seguimento a um verso, ou a finalizar um esboço. Finalmente ele abandonou a caneta, esgotado. O sol erguia-se por detrás das árvores e a sua luz derramava-se nas vidraças como ouro derretido. Ele olhou para si mesmo, os seus dois braços tinham agora o mesmo tamanho. A sua vida fora-se esvaindo em poesia e dela só restava agora um vestígio tão ténue como um fio de seda. Ergueu os seus olhos grandes e ternos para a sua ama, e expirou com um sorriso feliz.



(estória já antiga, reescrita algumas vezes e, agora, desengavetada)

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