Santa Helena

"Está quase a amanhecer, Napy". O companheiro encolheu os ombros e vozeirou: "Temos tempo". Apressaram de qualquer forma o passo. Ela olhava o céu com alguma ansiedade, com medo da luz. "Não devíamos ter ido tão longe - voltou a insistir - ao tempo que nós andamos nisto, a observar as pessoas pelas frinchas das janelas para ver como elas vivem e amam, a ouvir as suas conversas e os seus risos, e a admirá-las enquanto sonham. Mas nunca nos afastámos tanto... desta vez fomos longe demais e pode tornar-se perigoso para nós".
Ela falava para o boneco porque ele já não lhe ligava. Cambaleou em S tentando imitar o andar estranho de um homem que admirara horas antes. Mas não a conseguia calar porque ela era uma insuportável crioula palradora. "Lembra-me aquela vez que decidimos entrar naquela festa de mascarados. Fizemos um sucesso imenso. Eu, em particular estava deslumbrante, nunca ninguém vira um vestido como o meu e até eram capazes de se matarem para terem estas jóias".
Desta vez foi ele quem estudou furtivamente o céu, enquanto os seus passos ressoavam pelas ruas desertas "A nossa casa já não está muito longe" - considerou com voz firme, tentando tranquilizar-se. Nisso, ela soltou um gritinho estridente, apontando uma claridade rosada que começara a formar-se sobre a silhueta dos montes. Os dois começaram a correr desesperadamente. Os primeiros dedos de sol estenderam-se sobre o vale enevoado e minutos depois um grito uníssono e prolongado flagelou o ar silente da madrugada.

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