INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Dar um tempo

«Há muito tempo que não te vejo. Nostalgia, uma necessidade íntima e serena de ter a meu lado, de me transparecer no teu olhar e acordar na cama com o cheiro da tua pele. É árdua esta distância, ponderada e decidida como um acordo frio entre dois países...dar um tempo...duas almas absurdas, vencidas pelas regras estúpidas do jogo que inventaram».

wicked-pedia

Teresa de Ávila, depois de horas de jejuns e orações, mergulhava em transportes místicos, que a levaram a Basileia, a Bechuanalândia e a Dacar, onde obteve uma boa classificação. A última viagem mística que se lhe conhece foi realizada sob a chancela da TAP: desembarcaram-na num Tribunal do Santo Ofício enquanto a sua parca bagagem era distribuída pelos quatro cantos do mundo.

cultura geral

Fénix era uma ave mitológica feminina. Segundo a lenda, o seu macho e companheiro guardava o nome de Pénix.
Os fantasmas estão quietos, com esta chuva e a esta hora da noite não andam por aí, estão arrumados na estante da despensa entre a farinha de cozer pão e o saco de plástico com Erva de S.Roberto, ou engomados e dobrados nas gavetas da cômoda, cheirando a cânfora para não ganhar pulgas. Daí esta paz e esta solidão, este langor de água da chuva a marulhar nos telhados, esta tranquilidade absurda de objectos inertes e absolutos à minha volta. Quero que a paz vá para as urtigas. Não consigo escrever sem os meus fantasmas.

finalidades

A Terra deu-se ao trabalho de embuchar e estrebuchar, de se sacudir e rasgar-se como um ser inocente possuído pelo diabo e vomitar lava e magma pragmática, apenas para que a senhora Maria do Céu, no recato perfumado do seu boudoir, pudesse alisar a pele seca do calcanhar com uma pedra-pomes arrefecida.

sonho maior

Construiu castelos nas nuvens e acordou soterrado

Esperança no futuro

Ela sempre dissera ao marido que viria um dia em que ele não quereria sair de casa, e ele ria-se. O marido andava com outras, e ela esperava, esperou sempre, ignorando o escárnio, a presença dalguma delas nas festas da empresa, as mudanças de humor do marido e o seu desprezo mal-contido. Ela já não era nova, não tinha a beleza, a pele fresca nem as nádegas firmes das suas amantes, era uma mulher cada vez mais velha e amarga que esperava a sua hora. Enquanto esperava ia trabalhando, mezinhas da bruxa misturadas na sua comida, um envenenamento ténue que ia retirando o seu vigor e a sua força. O seu tempo chegaria, o tempo de cuidar do seu marido sem mais ninguém a fazer-lhe sombra, preparando-lhe a comida e a cama e empurrando-o docemente numa cadeira de rodas.

Vícios do ofício

- O que é que eu faço agora? - Perguntou à mulher depois de lhe expor o dilema.
- És um Piscis típico. Mas analisemos. Acho que não me contaste tudo. O teu ascendente é Câncer, logo, interioridade com anómala possibilidade de desvirtuação para a ilusão e a demência. Mas a tua viagem vai realizar-se no segundo quadrante de Leo, quando a tua vida sofre o influxo de Taurus. Isso significa que me puseste os cornos e que vais viajar com a tua amante. Por outro lado, desde Fevereiro que o signo de Libra tem muita influência sobre ti, o que é um modo que os astros encontraram de te fazer ver que estamos quites e que os cornos que me puseste estão há muito retribuídos na mesma moeda, ou no mesmo denarius, se quiseres...
- E a viagem?
- A viagem está sob bons auspícios. Vai ser coroada de êxito e vai trazer-te muito ouro. Ela está inscrita sob o signo de Gemini, dos Gémeos ou, neste contexto, do casal celeste, porque vocês vão viajar de avião...
- E?
- E são 350 euros pelo mapa astral improvisado. E quanto ao casal celeste, é bom que te lembres que todos os teus bens estão no meu nome e, ou voltas para mim com o dinheirito que ganhares, ou ponho-te logo em cima duns patins, ou patinus, como se diz em língua erudita.

árvore

(Fomos talvez feitos para ter raízes e alimento e uma nesga de céu florir e nutrir na estação correcta e morrer com os nós desfeitos e no termo certo mesmo quando esse fim é o de um raio trazido por um lembrete de calendário mas o que somos rebela-se contra os papéis que escreveram para nós queimamos as raízes num moloque de coisas vãs e vaidosas e mordemos os dias com as notas do riso e da loucura).

Histórias

Entrou a medo naquela loja de antiguidades da baixa lisboeta. Uma loja ampla e muito iluminada, com expositores repletos de moedas e pratas, livros encadernados e pequenos objectos de arte sacra. Sentia a timidez de um ignorante na matéria, diante de tantos objectos que intimidavam como arcanos alquímicos. Um empregado abordou-o, um jovem de uns vinte anos, vestido a rigor e de ar grave e cabelo escorrido como um empregado de funerária. Explicou-lhe que queria comprar uma lembrança para a noiva, que gostava muito de antiguidades e velharias. O vendedor encaminhou-o para uma vitrina com talheres de prata. Era um serviço completo que estivera ao uso na mesa da rainha D. Maria II, como poderiam comprovar por um certificado próprio. Empunhando um garfo com uma fita dourada à volta, pediu-lhe que o mirasse atentamente. No reflexo da luz nos dentes era possível descortinar pequenas mossas produzidas pelo marfim dalguns dentes da nobreza, quiçá, da própria rainha. Perante a sua indiferença, sacou duma gaveta uma caixinha de veludo, que abriu cerimoniosamente, revelando um botão largo dourado com uma pedra ao centro. Em voz baixa, explicou que aquele botão pertencia ao casacão que o rei D. Carlos envergava quando foi baleado, podia-se ver nele a marca produzida por um chumbo que nele ricocheteou, não fosse aquele botão e talvez o rei tivesse morrido alguns minutos mais cedo. Recusou novamente, já quase a desistir. Queria apenas uma pequena prenda, uma graça, para oferecer a uma mulher inteligente e requintada, não precisava de ser nada exorbitante e nem que tivesse pertencido à realeza, mesmo com certificado comprovativo. O empregado acenou afirmativamente e trouxe-lhe uma caixinha de prata com um pente de casca de tartaruga. Aquele pente, afiançou, era o pente com que Eça de Queirós penteava o bigode e, se a sua noiva se interessava por literatura, também tinham no acervo da loja, a pequena pinça com que a Florbela Espanca catava os chatos da região púbica, e o escovilhão grotesco com que o Bocage costumava coçar os tomates.

visitante

Agora, ciciou, o suor perlando-se no ar gelado, a posse dá-se, tem a generosidade de quem dá e extravasa delírio, os braços dela anelam o seu torso procurando o calor negado por aquele jardim de Inverno, os seus corpos entrelaçados desafiam os elementos e as estrelas distantes, o prazer sacode os seus corpos em doces ondas enroladas que se quebram e desfazem. Depois a noite fecha-se, como eles se fecham nas suas roupas enregeladas. Com ela enovelada nos braços, transporta-a ao colo até à cadeira de rodas, onde a senta aconchegando-lhe a manta sobre as pernas com gestos ternos. Acocora-se ao seu lado, ela esboça um sorriso travesso e beija-lhe as mãos retendo-as entre as suas por longos minutos. Em seguida ele empurra a cadeira de rodas, entrando os dois no átrio aquecido e iluminado do grande Hospital.

marfim

Foi arrancar um dente, a tentar ocupar o espírito com as subtilezas da física quântica, uma picada na gengiva, a luz forte a iluminar o estádio das suas bactérias aguerridas enquanto uma auxiliar com olheiras dilatava a sua boca com uma calçadeira de dentista, e ele divagava devagar sobre números e conceitos cósmicos que ficavam a boiar na sua boca com a gosma que o aspirador não conseguia escoar. Quando a delicada operação terminou, fizeram-no bochechar um líquido pastoso que devia cuspir em seguida. Limpou a boca e lavou as mãos, ainda combalido por tantos esgares e repuxamemtos. A dentista pergunta-lhe trocista se precisa do dente para o entregar à fada dos dentes. A física quântica desvaneceu-se naquele momento, olhou-a como um auditor severo, e respondeu: "Só se ela me der por ele a exorbitância que a senhora vai cobrar por tê-lo arrancado".

Inconsolável

“Um Lar familiar” – era assim que se auto-denominavam. Foi aquele slogan simples e apelativo que havia decidido o casal Barbosa a irem visitá-lo antes de lá colocarem a mãe dele. Na altura, gostaram do que viram. Um edifício grande de três pisos e quartos individuais amplos e arejados. Ficava a uns passos da praia da Consolação em Peniche, e as pessoas que exploravam o Lar gostavam de levar os idosos até perto do Forte, para apanharem aqueles ares e aquele iodo que se dizia ser muito benéfico para a saúde. Isto já há três anos. Entretanto, com as exigências do trabalho e as idas ao estrangeiro, as visitas à anciã haviam diminuído bastante. Agora, ao fim de largos meses de ausência, lá se decidiram marcar o ponto e verificar o modo como ela era cuidada. Levaram um pacote de biscoitos de manteiga e um de bolachas Maria, para fazer um agrado à velha. A sala à entrada estava cheia, os velhos sentados em cadeirões, uns muito dignos e direitos olhando em volta como almirantes em terra, outros vencidos pela idade e pelas doenças, todos tortos, como se estivessem a derreter, as expressões alteradas e a baba a escorrer pela boca. Pelo meio das fiadas de cadeiras e sofás, as visitas, todas munidas de oferendas e beijos, a falar muito alto e a endereçar cumprimentos de familiares ausentes que iam nomeando com ênfases e pausas. Descortinaram uma funcionária do Lar pela indumentária e o Barbosa indicou-lhe o nome da mãe. Ela coçou o nariz como se estivesse a pensar ou a medir as palavras:
- Saiu depois do almoço, foi laurear a pevide. Mas não tarda aí. Ela é como os gatos, quando tiver fome, volta…
O que é que haviam de dizer ao Barbosa, ao respeitado e influente Barbosa. O homem cresceu dois palmos, as faces rubicundas, gesticulando e gritando a eito como se ceifasse a incompetência e a estupidez deste mundo. Mandou chamar a dona do Lar, ameaçou com a polícia, invocou os seus conhecimentos pessoais na Segurança Social e na Santa Casa. Veio a dona, e o sermão repetiu-se, causando uma comoção geral na sala: o fluxo de baba aumentou nalguns idosos, enquanto noutros o tremer incontrolável das mãos estendeu-se ao resto do corpo, fazendo-os saltitar nos cadeirões. Quando a dona do Lar se sentia vencida por aquela avalanche de palavras e ameaças, voltou à sala a senhora que os havia recebido, a esbracejar para a ouvirem.
- A sua mãe já voltou – exclamou alto com os bofes na boca – eu disse-lhe que ela era como as gatas. Esteve a andar pelos telhados e agora está a afiar as unhas nos ladrilhos da varanda do quarto.

ilusão

"Não tentem isto em casa" - advertiu o mágico salpicado de sangue, cortando a meio a assistente com uma moto-serra.

fábula


Ele nascera com um defeito congénito: todas as proporções do seu corpo entravam em choque com as do seu braço direito, que tinha um tamanho três vezes inferior ao outro. Os pais choraram de desgosto no dia do seu nascimento. Em vez de afagarem aquele bebé cálido e húmido deixaram-no nos braços de uma ama, entregues ao seu próprio desespero.
E para sempre assim foi. Ao crescer, as outras crianças rejeitaram-no; ao tentar ir para a escola, foi insultado e espancado. Os pais voltaram a lamentar-se e decidiram de comum acordo deixarem de sofrer devido à imperfeição daquele filho. Abrigaram-no na vasta mansão rodeada de jardins murados, oculto dos olhares e do escárnio das pessoas; e providenciaram-lhe um preceptor, um sujeito pedante e melífluo que o ensinava com laivos de desprezo e troça. E naquela mansão consumiu os anos da sua infância e adolescência, aprendendo obedientemente como se não tivesse vontade. Ao atingir a idade adulta, o preceptor passou a ministrar-lhe aulas de Latim, História, Germânicas, Álgebra e Teologia. Nada o parecia interessar verdadeiramente. O seu braço direito media um palmo, e a sua alma aprisionada debatia-se no meio da sua solidão. Tinha tudo guardado dentro de si, toda a beleza e toda a emoção - a alegria dos jogos de criança; o riso e a vertigem de crescer; a amizade e o afecto; a música, a paixão e o desejo...Tudo o que não vivera continuava a existir dentro dele como se o seu coração fosse um punho cerrado com força.

Um acontecimento fortuito estilhaçou a redoma sufocante em que vivia. Uma tia que vivia em Inglaterra enviou-lhe de presente, um volume enorme com poemas e desenhos de William Blake. A poesia nunca lhe suscitara grande predilecção mas, aqueles, leu-os febrilmente; leu o livro de um só fôlego sentado na relva do jardim, junto às raízes enervadas de um álamo. Os versos alucinados de Blake sacudiram-lhe a alma como uma serpente em contorções; e quando acabou a leitura, fechou o livro e manteve-o agarrado contra o peito, com o corpo enroscado como um feto humano entre as raízes.
A ama conseguiu levá-lo para o salão grande, onde o sentou num cadeirão. O jovem ficou ali durante dias, diante das portas largas de vidrinhos que davam para os jardins. Agarrado ao livro de Blake, caíra num torpor profundo, e apenas as suas pupilas pareciam atraídas pela agitação trémula das folhas das árvores. A ama tentou alimentá-lo, falou com ele e fez-lhe perguntas, mas tudo parecia inútil. Quando ela começava a desesperar, ele rompeu o silêncio para lhe pedir uma caneta e papel para escrever. A tarde caía sobre o jardim. Dois serviçais arrastaram uma escrivaninha para diante dele, e dispuseram sobre o tampo uma caneta, um tinteiro e um grande maço de folhas brancas. Só então ele pousou o livro de poemas a um canto da escrivaninha, e com o corpo todo torcido, segurou a caneta com a miúda mão direita e começou a escrever. Escrevia versos, versos atrás de versos, intercalados com pequenos esboços de desenhos estranhos, com serpentes aladas, árvores com olhos, pássaros irreais, monstros marinhos e rios de fogo. Quando a sala começou a ficar muito escura, a ama colocou um candelabro aceso sobre a escrivaninha, e reparou então num pormenor que a princípio lhe pareceu absurdo: o seu menino estava a mirrar, a diminuir de volume. Com um lamento na voz correu assustada a avisar os pais; e estes constataram o mesmo, o corpo do seu filho estava a ficar mais pequeno à medida que ia escrevendo os poemas. Os pais correram a mandar toda a criadagem sair da mansão e selaram a casa. Aturdidos, sentaram-se num canto do salão de olhos fitos naquele prodígio assustador, chorando baixinho o infortúnio que se abatera sobre eles. O reverendo, chamado à pressa e no meio do maior segredo, acorreu à mansão e percorreu os jardins agitando um incensório, enquanto se desdobrava em benzeduras e ladainhas em latim.
No interior, ele continuava a escrever e a desenhar sem descanso, exprimindo as visões e imagens que o assaltavam. Horas a fio de um trabalho obcecado, enquanto o seu corpo regredia no tempo, assumindo primeiro as linhas esguias e hesitantes da adolescência e, já para o fim da noite, as formas de um corpo de criança, com as roupas enormes enroladas sobre a sua pele.
Os pais continuaram encolhidos no seu canto, recordando uma a uma, todas as humilhações que sempre lhes causara a vida daquele filho. A ama ficou sempre a seu lado, renovando-lhe as folhas de papel, e sotopondo almofadas sob o seu corpo. Por fim ela interrompeu-o, libertou-o das roupas e enrolou o seu corpo num longo xaile negro, quente e macio; e sentou-se ela própria no cadeirão, colocando-o em cima dos joelhos.
Ele recomeçou a escrever. A manhã estava próxima. O seu corpo era diminuto, pouco maior do que o de um bebé e ele agora escrevia cada vez com mais lentidão e em esforço, levando muito tempo para dar seguimento a um verso, ou a finalizar um esboço. Finalmente ele abandonou a caneta, esgotado. O sol erguia-se por detrás das árvores e a sua luz derramava-se nas vidraças como ouro derretido. Ele olhou para si mesmo, os seus dois braços tinham agora o mesmo tamanho. A sua vida fora-se esvaindo em poesia e dela só restava agora um vestígio tão ténue como um fio de seda. Ergueu os seus olhos grandes e ternos para a sua ama, e expirou com um sorriso feliz.



(estória já antiga, reescrita algumas vezes e, agora, desengavetada)

NomedeRa

"Jatabarama !" - chamei. Ele me olhou assustado - "Por favor, não gaste o meu nome, o meu nome é a minha força vital" - explicou, apanhando do chão uma unha quebrada que acabara de cair - "De cada vez que o pronunciam, a minha decadência acentua-se". Abriu a mão larga e enrugada e fê-la tocar a testa onde a pele se escamava, os seus cabelos eram ralos e enfermiços, e as pernas arqueadas, mal sustentando o peso do corpo nos ossos podres. Enquanto isso, o eco da minha voz nas paredes da ruela, repetia a agressão: "Jatabarama...Jatabarama" enquanto o pobre diabo se contorcia com dores atrozes e caía redondo no chão aos meus pés. Ajudei-o a levantar-se. Muito lívido de uma lividez que contrastava com o fio de sangue que lhe corria dos lábios, sussurrou-me: "Você não me conhece e não conhece o meu nome. Quando quiser me nomear, use nome de cantor pimba como Micael, ou Anthony Mendes. Vou passar a usar peruca e bigode postiço para não me reconhecerem". Concordei com uma ressalva: "As pessoas o conhecem pela sua voz e pelo seu andar de cowboy com hemorróidas". Negou: "Não, não por muito tempo, as palavras na minha garganta tem os sons contados e ninguém me vai reconhecer pelo andar quando deslizar numa bela cadeira de rodas".

greguería

Alguém apertou o papo ao zero, e ele ficou feito num oito.

Às três pancadas


deixa

Não via o irmão muitas vezes, ainda que calcorreasse muitas vezes as ruas a tentar arranjar umas moedas com os estacionamentos ou a ir comprar a sua dose da ordem. Mas o irmão não se desmanchava, com o seu fato e gravata de vendedor ambulante e o seu ar aprumado e perfumado. Oferecia-lhe sempre uma cerveja porque sabia que ele a bebia, fosse qual fosse a hora do dia ou da noite. Até era simpático da parte dele, bebia um café ao seu lado enquanto ele virava uma imperial, depois pagava com uma nota pequena e deixava-lhe o troco. Era uma rotina inflexível, como a frase que ele usava sempre que se despediam: "Está tudo bem, não está?"

mãos atadas

Estamos presos por cadeias de veludo a obrigações e compromissos, manietados a pessoas e coisas que nos pesam sem que nos possamos libertar delas, trabalhos ingratos, patrões e chefes hostis, professores incompetentes, a família que nos subjuga, a hipoteca do banco, o empréstimo para o bem de luxo, o medo das partilhas, a escravatura dos bens. O estranho de tudo isto, é que é a consciência ou a convicção de não nos podermos revoltar, que faz de nós uns revoltados.

Santa Helena

"Está quase a amanhecer, Napy". O companheiro encolheu os ombros e vozeirou: "Temos tempo". Apressaram de qualquer forma o passo. Ela olhava o céu com alguma ansiedade, com medo da luz. "Não devíamos ter ido tão longe - voltou a insistir - ao tempo que nós andamos nisto, a observar as pessoas pelas frinchas das janelas para ver como elas vivem e amam, a ouvir as suas conversas e os seus risos, e a admirá-las enquanto sonham. Mas nunca nos afastámos tanto... desta vez fomos longe demais e pode tornar-se perigoso para nós".
Ela falava para o boneco porque ele já não lhe ligava. Cambaleou em S tentando imitar o andar estranho de um homem que admirara horas antes. Mas não a conseguia calar porque ela era uma insuportável crioula palradora. "Lembra-me aquela vez que decidimos entrar naquela festa de mascarados. Fizemos um sucesso imenso. Eu, em particular estava deslumbrante, nunca ninguém vira um vestido como o meu e até eram capazes de se matarem para terem estas jóias".
Desta vez foi ele quem estudou furtivamente o céu, enquanto os seus passos ressoavam pelas ruas desertas "A nossa casa já não está muito longe" - considerou com voz firme, tentando tranquilizar-se. Nisso, ela soltou um gritinho estridente, apontando uma claridade rosada que começara a formar-se sobre a silhueta dos montes. Os dois começaram a correr desesperadamente. Os primeiros dedos de sol estenderam-se sobre o vale enevoado e minutos depois um grito uníssono e prolongado flagelou o ar silente da madrugada.

reserva

Um amigo, porque só os amigos nos convencem destas coisas, contou-me que produzia vinho, e que o vinho que fazia na sua adega era uma especialidade, melhor do que muitos vinhos alentejanos. E quis oferecer-me uma garrafa, ofereceu, insistiu, spamizou. E lá me trouxe uma garrafita do precioso néctar para eu «degustar». Provei, e ia-me vomitando todo. Aquilo era uma zurrapa, um cruzamento entre uma aguardente da pior espécie e meio litro de diluente. Em vez de degustar, desgostei.

longe

Vivia há tanto tempo na cidade, que já não sabia o que era viver de outra forma. Mas, agora, com a indolência do Outono a instalar-se na sua vida, arranjou uma casinha onde se refugiar de quando em vez. Não era nenhuma mansão: uma casa pequena em pedra, restaurada, a trezentos metros do mar. Tinha todas as comodidades essenciais, e um alpendre aberto sobre os pinhais de árvores retorcidas pela maresia. Nas traseiras, rectângulos de terra arada para criar uns vegetais, e uma eira gigantesca onde se poderia sentar sob as estrelas nas noites amenas de Verão a beber um vinho abafado. E havia sempre a pesca, bastava palmilhar um carreiro de terra entre pinheiros e caniços, e tinha diante de si os rochedos batidos pelas ondas a prometer belas pescarias.
Não era muita coisa, mas era o que precisava para ir limpando a toxi-cidade do organismo.

Um quadro do Após-Calipso

A jovem Calipso saiu da pequena gruta onde costumava brincar e caminhou com passos rápidos para a aldeia no vale, com o seu capuz vermelho e a sua cesta a abarrotar de flores e folhas. Aquelas matas e florestas metiam respeito e tinha de ter sempre muita atenção. Quando se dera o colapso e as pessoas haviam saído das cidades em busca de alimento, em quase todas elas os tratadores de animais haviam aberto as jaulas e portões dos jardins zoológicos para que as suas criaturas acarinhadas pudessem sobreviver. Os grandes predadores, depois de devorarem grande parte dos outros animais libertos, deambulavam agora em torno das comunidades em busca dalguma presa desavisada. Felinos sorrateiros, ursos corpulentos, cães selvagens, lobos, e hienas que durante a noite pareciam rirem com as gargalhadas de uma velha louca. Os humanos, por seu turno, caçavam-nos a eles e a outros animais para enriquecer a sua dieta.
A sua aldeia fora erguida no centro da grande cidade abandonada, um punhado de casas reconstruídas no meio de quilómetros e quilómetros quadrados de edifícios a ameaçar derrocada e ruas repletas de carcaças ferrugentas de carros onde as plantas haviam rasgado o alcatrão em busca de luz e nutrientes. Ao descer para o cantinho da cidade assinalado pela fumo encordoado das fogueiras, era um encanto para Calipso olhar a cidade ao lusco-fusco, com os edifícios escurecidos, o grande rio como uma serpente dourada e a ponte quebrada mas com os seus arcos ainda quase intactos como os mastros de um veleiro saído de uma tempestade.
Na aldeia uma das suas amigas veio ao seu encontro a correr para lhe contar que havia encontrado mais uma casa com os papéis que ela gostava de juntar e que ainda havia tempo para lhe mostrar antes que fosse noite escura. Pousou o cesto perto da sua casa e seguiu-a por um meandro de ruas e ruelas até desembocarem no que fora uma larga avenida onde a vegetação se espalhara a partir do parque no centro, cobrindo agora quase tudo. A tal casa estava do outro lado, uma casa enorme com uma entrada com colunas altas redondas. A amiga começou a correr e ela seguiu-a. Galgaram a escadaria da entrada e mais uma escadaria após o átrio e detiveram-se numa grande sala. Uma das paredes laterais estava meio derruída e os pombos arrulhavam no meio dos móveis. A amiga puxava-a pelo braço com entusiasmo e entraram no salão seguinte. Calipso ficou boquiaberta. Era lindo, imenso e todo inundado de luz. O tecto envidraçado estava em bom estado á excepção de um dos cantos onde se partira, havendo sinais dos estragos causados pela chuva. Pé ante pé, Calipso entrou na sala como se caminhasse respeitosamente pela nave de uma catedral. Por todo o lado, nas prateleiras, em cima das mesas carunchosas e dentro de caixas de madeira, viu o que procurava. Livros, centenas de livros. Sentiu-se eufórica. A amiga explicou-lhe que havia mais em outras salas mais pequenas, numa delas estava o esqueleto de um homem que morrera sentado a uma mesa. Tinha de ali voltar mais vezes. Com a ajuda da amiga conseguiu levar para a aldeia um punhado deles. Escondeu-os numa das casas vazias das proximidades, o seu refúgio, e foi deitar-se sem demora.
Na manhã seguinte acordou com os primeiros raios de sol e esgueirou-se de casa com o seu cesto de verduras. A sua segunda casa era a sua Biblioteca de Alexandria, paciente recolha de livros e manuscritos de outra forma votados ao olvido e á dissipação na cidade perdida. Era uma casa térrea, com um pátio interior a céu aberto com uma fonte murmurante ao pé da qual ela gostava de admirar as suas preciosidades. Pôs ao pé de si a pilha de livros que havia obtido na véspera e pegou neles um a um. Acariciava as suas capas, enchia as narinas com o cheiro do papel e da tinta, depois abria-os, folheando-os atentamente, com os olhos divagando por entre as páginas. Mexer num livro era um acto dos sentidos, uma forma de prazer que envolvia e harmonizava o seu espírito e todas as fibras do seu ser.
Todos aqueles livros eram livros fechados, distantes, perdidos. Ninguém os sabia ler, o segredo para decifrar o que continham perdera-se há varias gerações. Em tempos aparecera por ali um ledor, um homem que afirmava saber ler o que todos os livros tinham e em várias línguas. Ficaram todos espantados com aquela personagem que subia para um pedestal improvisado, abria um livro e passava horas a recitar o seu teor. Andou por ali várias semanas, lendo livros atrás de livros e tentando explicar-lhes o que eles significavam. Davam-lhe guarida e alimento e ele exercia o seu ofício, mas aos poucos começou a crescer uma certa animosidade contra ele, começou a correr que ele era um farsante, que não sabia ler nada e que tirava aquelas coisas da imaginação. A desconfiança transformou-se em ira e de um momento para o outro, as pessoas juntaram-se e correram com ele á pedrada. Todos os ledores que ali apareceram depois disso eram logo corridos á chegada para grande surpresa deles.
Calipso começou a seleccionar os seus livros. Escolhia-os quase sempre pela beleza das suas capas. Nunca punha de parte nenhum livro sem primeiro arrancar as folhas que tivessem alguma imagem, uma gravura, uma fotografia ou um gráfico. Essas imagens atirava-os para um quarto destinado a esse fim, onde as fotos das revistas pornográficas e revistas de imprensa rosa dos quiosques comungavam o espaço com cartoons, reproduções de pinturas, gravuras de Escher e H. R. Giger e ilustrações de Gustave Doré. Os livros que escapavam a essa triagem, separava-os por famílias, porque iam ser arrumados em prateleiras junto de livros com capas ou volumes idênticos. Depois abrindo fortuitamente um dos livros, começava a dispor entre as suas páginas as folhas e flores que recolhera nos montes, nos livros mais pequenos colocava as folhas mais delgadas, e reservava para os maiores, dicionários, Atlas e tomos de enciclopédias, as folhas mais bulbosas e as flores. A sua biblioteca tinha centenas de livros repletos de folhas e flores comprimidas, onde ficavam até se transformarem em formas esborratadas ou em folhas secas tão transparentes e delicadas como as asinhas de uma libélula. Olhando com enlevo a sua colecção Calipso recordou um verso que se repetia na festa da colheita, na reunião com os rapazes: "As raízes desta planta / cresceram dentro de mim / esperando de ti a semente / que fará florir este jardim". Sorriu para si mesma e iniciou o seu trabalho, absorta como uma grave pitonisa, intercalando os espécimes vegetais nos diferentes livros. Uma folha de plátano para absorver um poema de Rimbaud, pétalas de rosa sobre as palavras do Evangelho de S.Tomé, uma partitura de Verdi acolheu o perfume das açucenas, e um largo girassol a que arrancara o coração irradiou as suas cores solares sobre as histórias incas de Garcilaso de la Vega. Os livros já não eram livros, a velha cultura tinha-se dissolvido. Rilke, Goethe, Dante, o Cântico dos Cânticos ou os Upanishades deixavam de ter existência própria, eram palavras ilegíveis em folhas de papel que Calipso usava para absorver os sucos orgânicos de flores e folhas que se desfaziam nas suas mensagens, como o corpo de um vivente na terra-mãe onde caiu.

«Podes não acreditar, mas as pessoas têm odores daquilo que são, talvez odor seja uma palavra inadequada, mas irradiam aquilo que guardam ou escondem, como feridas antigas e crueldades ocultadas. Há odores de tudo, da alegria e do sofrimento, da fantasia e da loucura. Um vago sentimento de culpa manifesta-se tão nitidamente como uma experiência traumática».
«Está bem, se o dizes...mas, para mim, isso é conversa de ir ao pito. Este é o nosso primeiro encontro, estamos a a beber um copo e, em vez de fingires que tens uma Quinta no Ribatejo, vens com a conversa do odor sem odor. Pelo menos é original».
«Não, é pura verdade científica, o odor biomagnético é perceptível e intuitivo. Eu, pelo menos, consigo definir uma pessoa apenas pelo seu odor inefável, consigo dizer tudo sobre ela, qual o seu passado, os seus sonhos, as suas doenças e fragilidades...».
«Então, o que é que consegues dizer de mim, para além de saberes onde é a minha casa e que tipo de filmes eu gosto?».
«(...)».
«Então?».
«A minha sensibilidade eclipsou-se, foi como se este ambiente carregado de fumo me tivesse sabotado o sentido do olfacto. Lamento. Talvez...talvez se eu tentasse o diagnóstico em tua casa, assim num ambiente acolhedor com um pouco de música e um cheirinho de incenso...».

Aterragem

Depois de ano e meio noutra secção da blogolândia, o Windows Live, o Estrada de Santiago acaba de aterrar no Blogger. Como não é um corte com o passado, não vou fazer piras com palavras nem recalcar experiências. No módulo "Arquivo Morto" ordenarei os links para os meses de postagens no blog prévio (nunca gostei muito da palavra postagem, evoca-me peixes cortados às postas). Para quem já me visitava, um obrigado por virem ao novo endereço, para todos os outros, uma saudação de boas-vindas; e espero que uns e outros encontrem motivos para voltar.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...