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A mostrar mensagens de Janeiro, 2007

Dar um tempo

«Há muito tempo que não te vejo. Nostalgia, uma necessidade íntima e serena de ter a meu lado, de me transparecer no teu olhar e acordar na cama com o cheiro da tua pele. É árdua esta distância, ponderada e decidida como um acordo frio entre dois países...dar um tempo...duas almas absurdas, vencidas pelas regras estúpidas do jogo que inventaram».

wicked-pedia

Teresa de Ávila, depois de horas de jejuns e orações, mergulhava em transportes místicos, que a levaram a Basileia, a Bechuanalândia e a Dacar, onde obteve uma boa classificação. A última viagem mística que se lhe conhece foi realizada sob a chancela da TAP: desembarcaram-na num Tribunal do Santo Ofício enquanto a sua parca bagagem era distribuída pelos quatro cantos do mundo.

cultura geral

Fénix era uma ave mitológica feminina. Segundo a lenda, o seu macho e companheiro guardava o nome de Pénix.
Os fantasmas estão quietos, com esta chuva e a esta hora da noite não andam por aí, estão arrumados na estante da despensa entre a farinha de cozer pão e o saco de plástico com Erva de S.Roberto, ou engomados e dobrados nas gavetas da cômoda, cheirando a cânfora para não ganhar pulgas. Daí esta paz e esta solidão, este langor de água da chuva a marulhar nos telhados, esta tranquilidade absurda de objectos inertes e absolutos à minha volta. Quero que a paz vá para as urtigas. Não consigo escrever sem os meus fantasmas.

finalidades

A Terra deu-se ao trabalho de embuchar e estrebuchar, de se sacudir e rasgar-se como um ser inocente possuído pelo diabo e vomitar lava e magma pragmática, apenas para que a senhora Maria do Céu, no recato perfumado do seu boudoir, pudesse alisar a pele seca do calcanhar com uma pedra-pomes arrefecida.

sonho maior

Construiu castelos nas nuvens e acordou soterrado

Esperança no futuro

Ela sempre dissera ao marido que viria um dia em que ele não quereria sair de casa, e ele ria-se. O marido andava com outras, e ela esperava, esperou sempre, ignorando o escárnio, a presença dalguma delas nas festas da empresa, as mudanças de humor do marido e o seu desprezo mal-contido. Ela já não era nova, não tinha a beleza, a pele fresca nem as nádegas firmes das suas amantes, era uma mulher cada vez mais velha e amarga que esperava a sua hora. Enquanto esperava ia trabalhando, mezinhas da bruxa misturadas na sua comida, um envenenamento ténue que ia retirando o seu vigor e a sua força. O seu tempo chegaria, o tempo de cuidar do seu marido sem mais ninguém a fazer-lhe sombra, preparando-lhe a comida e a cama e empurrando-o docemente numa cadeira de rodas.

Vícios do ofício

- O que é que eu faço agora? - Perguntou à mulher depois de lhe expor o dilema.
- És um Piscis típico. Mas analisemos. Acho que não me contaste tudo. O teu ascendente é Câncer, logo, interioridade com anómala possibilidade de desvirtuação para a ilusão e a demência. Mas a tua viagem vai realizar-se no segundo quadrante de Leo, quando a tua vida sofre o influxo de Taurus. Isso significa que me puseste os cornos e que vais viajar com a tua amante. Por outro lado, desde Fevereiro que o signo de Libra tem muita influência sobre ti, o que é um modo que os astros encontraram de te fazer ver que estamos quites e que os cornos que me puseste estão há muito retribuídos na mesma moeda, ou no mesmo denarius, se quiseres...
- E a viagem?
- A viagem está sob bons auspícios. Vai ser coroada de êxito e vai trazer-te muito ouro. Ela está inscrita sob o signo de Gemini, dos Gémeos ou, neste contexto, do casal celeste, porque vocês vão viajar de avião...
- E?
- E são 350 euros pelo mapa astral improvisado. …

árvore

(Fomos talvez feitos para ter raízes e alimento e uma nesga de céu florir e nutrir na estação correcta e morrer com os nós desfeitos e no termo certo mesmo quando esse fim é o de um raio trazido por um lembrete de calendário mas o que somos rebela-se contra os papéis que escreveram para nós queimamos as raízes num moloque de coisas vãs e vaidosas e mordemos os dias com as notas do riso e da loucura).

Histórias

Entrou a medo naquela loja de antiguidades da baixa lisboeta. Uma loja ampla e muito iluminada, com expositores repletos de moedas e pratas, livros encadernados e pequenos objectos de arte sacra. Sentia a timidez de um ignorante na matéria, diante de tantos objectos que intimidavam como arcanos alquímicos. Um empregado abordou-o, um jovem de uns vinte anos, vestido a rigor e de ar grave e cabelo escorrido como um empregado de funerária. Explicou-lhe que queria comprar uma lembrança para a noiva, que gostava muito de antiguidades e velharias. O vendedor encaminhou-o para uma vitrina com talheres de prata. Era um serviço completo que estivera ao uso na mesa da rainha D. Maria II, como poderiam comprovar por um certificado próprio. Empunhando um garfo com uma fita dourada à volta, pediu-lhe que o mirasse atentamente. No reflexo da luz nos dentes era possível descortinar pequenas mossas produzidas pelo marfim dalguns dentes da nobreza, quiçá, da própria rainha. Perante a sua indiferença, …

visitante

Agora, ciciou, o suor perlando-se no ar gelado, a posse dá-se, tem a generosidade de quem dá e extravasa delírio, os braços dela anelam o seu torso procurando o calor negado por aquele jardim de Inverno, os seus corpos entrelaçados desafiam os elementos e as estrelas distantes, o prazer sacode os seus corpos em doces ondas enroladas que se quebram e desfazem. Depois a noite fecha-se, como eles se fecham nas suas roupas enregeladas. Com ela enovelada nos braços, transporta-a ao colo até à cadeira de rodas, onde a senta aconchegando-lhe a manta sobre as pernas com gestos ternos. Acocora-se ao seu lado, ela esboça um sorriso travesso e beija-lhe as mãos retendo-as entre as suas por longos minutos. Em seguida ele empurra a cadeira de rodas, entrando os dois no átrio aquecido e iluminado do grande Hospital.

marfim

Foi arrancar um dente, a tentar ocupar o espírito com as subtilezas da física quântica, uma picada na gengiva, a luz forte a iluminar o estádio das suas bactérias aguerridas enquanto uma auxiliar com olheiras dilatava a sua boca com uma calçadeira de dentista, e ele divagava devagar sobre números e conceitos cósmicos que ficavam a boiar na sua boca com a gosma que o aspirador não conseguia escoar. Quando a delicada operação terminou, fizeram-no bochechar um líquido pastoso que devia cuspir em seguida. Limpou a boca e lavou as mãos, ainda combalido por tantos esgares e repuxamemtos. A dentista pergunta-lhe trocista se precisa do dente para o entregar à fada dos dentes. A física quântica desvaneceu-se naquele momento, olhou-a como um auditor severo, e respondeu: "Só se ela me der por ele a exorbitância que a senhora vai cobrar por tê-lo arrancado".

Inconsolável

“Um Lar familiar” – era assim que se auto-denominavam. Foi aquele slogan simples e apelativo que havia decidido o casal Barbosa a irem visitá-lo antes de lá colocarem a mãe dele. Na altura, gostaram do que viram. Um edifício grande de três pisos e quartos individuais amplos e arejados. Ficava a uns passos da praia da Consolação em Peniche, e as pessoas que exploravam o Lar gostavam de levar os idosos até perto do Forte, para apanharem aqueles ares e aquele iodo que se dizia ser muito benéfico para a saúde. Isto já há três anos. Entretanto, com as exigências do trabalho e as idas ao estrangeiro, as visitas à anciã haviam diminuído bastante. Agora, ao fim de largos meses de ausência, lá se decidiram marcar o ponto e verificar o modo como ela era cuidada. Levaram um pacote de biscoitos de manteiga e um de bolachas Maria, para fazer um agrado à velha. A sala à entrada estava cheia, os velhos sentados em cadeirões, uns muito dignos e direitos olhando em volta como almirantes em terra, outr…

ilusão

"Não tentem isto em casa" - advertiu o mágico salpicado de sangue, cortando a meio a assistente com uma moto-serra.

fábula

Ele nascera com um defeito congénito: todas as proporções do seu corpo entravam em choque com as do seu braço direito, que tinha um tamanho três vezes inferior ao outro. Os pais choraram de desgosto no dia do seu nascimento. Em vez de afagarem aquele bebé cálido e húmido deixaram-no nos braços de uma ama, entregues ao seu próprio desespero.
E para sempre assim foi. Ao crescer, as outras crianças rejeitaram-no; ao tentar ir para a escola, foi insultado e espancado. Os pais voltaram a lamentar-se e decidiram de comum acordo deixarem de sofrer devido à imperfeição daquele filho. Abrigaram-no na vasta mansão rodeada de jardins murados, oculto dos olhares e do escárnio das pessoas; e providenciaram-lhe um preceptor, um sujeito pedante e melífluo que o ensinava com laivos de desprezo e troça. E naquela mansão consumiu os anos da sua infância e adolescência, aprendendo obedientemente como se não tivesse vontade. Ao atingir a idade adulta, o preceptor passou a ministrar-lhe aulas de Latim, His…

NomedeRa

"Jatabarama !" - chamei. Ele me olhou assustado - "Por favor, não gaste o meu nome, o meu nome é a minha força vital" - explicou, apanhando do chão uma unha quebrada que acabara de cair - "De cada vez que o pronunciam, a minha decadência acentua-se". Abriu a mão larga e enrugada e fê-la tocar a testa onde a pele se escamava, os seus cabelos eram ralos e enfermiços, e as pernas arqueadas, mal sustentando o peso do corpo nos ossos podres. Enquanto isso, o eco da minha voz nas paredes da ruela, repetia a agressão: "Jatabarama...Jatabarama" enquanto o pobre diabo se contorcia com dores atrozes e caía redondo no chão aos meus pés. Ajudei-o a levantar-se. Muito lívido de uma lividez que contrastava com o fio de sangue que lhe corria dos lábios, sussurrou-me: "Você não me conhece e não conhece o meu nome. Quando quiser me nomear, use nome de cantor pimba como Micael, ou Anthony Mendes. Vou passar a usar peruca e bigode postiço para não me reconhec…

greguería

Alguém apertou o papo ao zero, e ele ficou feito num oito.

Às três pancadas

Imagem

deixa

Não via o irmão muitas vezes, ainda que calcorreasse muitas vezes as ruas a tentar arranjar umas moedas com os estacionamentos ou a ir comprar a sua dose da ordem. Mas o irmão não se desmanchava, com o seu fato e gravata de vendedor ambulante e o seu ar aprumado e perfumado. Oferecia-lhe sempre uma cerveja porque sabia que ele a bebia, fosse qual fosse a hora do dia ou da noite. Até era simpático da parte dele, bebia um café ao seu lado enquanto ele virava uma imperial, depois pagava com uma nota pequena e deixava-lhe o troco. Era uma rotina inflexível, como a frase que ele usava sempre que se despediam: "Está tudo bem, não está?"

mãos atadas

Estamos presos por cadeias de veludo a obrigações e compromissos, manietados a pessoas e coisas que nos pesam sem que nos possamos libertar delas, trabalhos ingratos, patrões e chefes hostis, professores incompetentes, a família que nos subjuga, a hipoteca do banco, o empréstimo para o bem de luxo, o medo das partilhas, a escravatura dos bens. O estranho de tudo isto, é que é a consciência ou a convicção de não nos podermos revoltar, que faz de nós uns revoltados.

Santa Helena

"Está quase a amanhecer, Napy". O companheiro encolheu os ombros e vozeirou: "Temos tempo". Apressaram de qualquer forma o passo. Ela olhava o céu com alguma ansiedade, com medo da luz. "Não devíamos ter ido tão longe - voltou a insistir - ao tempo que nós andamos nisto, a observar as pessoas pelas frinchas das janelas para ver como elas vivem e amam, a ouvir as suas conversas e os seus risos, e a admirá-las enquanto sonham. Mas nunca nos afastámos tanto... desta vez fomos longe demais e pode tornar-se perigoso para nós".
Ela falava para o boneco porque ele já não lhe ligava. Cambaleou em S tentando imitar o andar estranho de um homem que admirara horas antes. Mas não a conseguia calar porque ela era uma insuportável crioula palradora. "Lembra-me aquela vez que decidimos entrar naquela festa de mascarados. Fizemos um sucesso imenso. Eu, em particular estava deslumbrante, nunca ninguém vira um vestido como o meu e até eram capazes de se matarem para te…

reserva

Um amigo, porque só os amigos nos convencem destas coisas, contou-me que produzia vinho, e que o vinho que fazia na sua adega era uma especialidade, melhor do que muitos vinhos alentejanos. E quis oferecer-me uma garrafa, ofereceu, insistiu, spamizou. E lá me trouxe uma garrafita do precioso néctar para eu «degustar». Provei, e ia-me vomitando todo. Aquilo era uma zurrapa, um cruzamento entre uma aguardente da pior espécie e meio litro de diluente. Em vez de degustar, desgostei.

longe

Vivia há tanto tempo na cidade, que já não sabia o que era viver de outra forma. Mas, agora, com a indolência do Outono a instalar-se na sua vida, arranjou uma casinha onde se refugiar de quando em vez. Não era nenhuma mansão: uma casa pequena em pedra, restaurada, a trezentos metros do mar. Tinha todas as comodidades essenciais, e um alpendre aberto sobre os pinhais de árvores retorcidas pela maresia. Nas traseiras, rectângulos de terra arada para criar uns vegetais, e uma eira gigantesca onde se poderia sentar sob as estrelas nas noites amenas de Verão a beber um vinho abafado. E havia sempre a pesca, bastava palmilhar um carreiro de terra entre pinheiros e caniços, e tinha diante de si os rochedos batidos pelas ondas a prometer belas pescarias.
Não era muita coisa, mas era o que precisava para ir limpando a toxi-cidade do organismo.

Um quadro do Após-Calipso

A jovem Calipso saiu da pequena gruta onde costumava brincar e caminhou com passos rápidos para a aldeia no vale, com o seu capuz vermelho e a sua cesta a abarrotar de flores e folhas. Aquelas matas e florestas metiam respeito e tinha de ter sempre muita atenção. Quando se dera o colapso e as pessoas haviam saído das cidades em busca de alimento, em quase todas elas os tratadores de animais haviam aberto as jaulas e portões dos jardins zoológicos para que as suas criaturas acarinhadas pudessem sobreviver. Os grandes predadores, depois de devorarem grande parte dos outros animais libertos, deambulavam agora em torno das comunidades em busca dalguma presa desavisada. Felinos sorrateiros, ursos corpulentos, cães selvagens, lobos, e hienas que durante a noite pareciam rirem com as gargalhadas de uma velha louca. Os humanos, por seu turno, caçavam-nos a eles e a outros animais para enriquecer a sua dieta.
A sua aldeia fora erguida no centro da grande cidade abandonada, um punhado de casas r…
«Podes não acreditar, mas as pessoas têm odores daquilo que são, talvez odor seja uma palavra inadequada, mas irradiam aquilo que guardam ou escondem, como feridas antigas e crueldades ocultadas. Há odores de tudo, da alegria e do sofrimento, da fantasia e da loucura. Um vago sentimento de culpa manifesta-se tão nitidamente como uma experiência traumática».
«Está bem, se o dizes...mas, para mim, isso é conversa de ir ao pito. Este é o nosso primeiro encontro, estamos a a beber um copo e, em vez de fingires que tens uma Quinta no Ribatejo, vens com a conversa do odor sem odor. Pelo menos é original».
«Não, é pura verdade científica, o odor biomagnético é perceptível e intuitivo. Eu, pelo menos, consigo definir uma pessoa apenas pelo seu odor inefável, consigo dizer tudo sobre ela, qual o seu passado, os seus sonhos, as suas doenças e fragilidades...».
«Então, o que é que consegues dizer de mim, para além de saberes onde é a minha casa e que tipo de filmes eu gosto?».
«(...)».
«Então?».
«A mi…

Aterragem

Depois de ano e meio noutra secção da blogolândia, o Windows Live, o Estrada de Santiago acaba de aterrar no Blogger. Como não é um corte com o passado, não vou fazer piras com palavras nem recalcar experiências. No módulo "Arquivo Morto" ordenarei os links para os meses de postagens no blog prévio (nunca gostei muito da palavra postagem, evoca-me peixes cortados às postas). Para quem já me visitava, um obrigado por virem ao novo endereço, para todos os outros, uma saudação de boas-vindas; e espero que uns e outros encontrem motivos para voltar.