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A mostrar mensagens de 2007

2008

DESEJO-VOS UM BOM ANO, COM TUDO DE MELHOR.

BOAS ENTRADAS, BOM PRATO PRINCIPAL, BOA SOBREMESA

AO DESFIAR AS PASSAS, GUARDEM UMA PARA O BEM GERAL (FICA BEM, E NÃO SÓ NOS CONCURSOS DE MISSES), E UMA, PODE SER A MAIS ENFEZADA, PELA SAÚDE E PROSPERIDADE DA VOSSA INIMIZADE MAIS PERSISTENTE (SE NÃO EXISTIR, PODE SER PELO EIXO DO MAL, PELO DARTH VADER, OU POR OUTRA COISA QUALQUER)

UM BOM ANO

The Police: Message in a Bottle

Os dois namorados davam um passeio à beira-mar, junto à linha de rebentação. Foi ela quem primeiro viu a garrafa a emergir da espuma.
- Olha ali, uma garrafa! Pode ter alguma mensagem de um náufrago.
- Achas?!
- Mas é claro, pode ser de alguém isolado numa ilhota ou num penedo. Pode ser um caso de vida ou de morte.
Correram os dois, ela ziguezagueando na areia para fugir ao contacto da água gelada, ele, virilmente empenhado, enterrando os pés naquela película de água, sob os risinhos dela. A garrafa, caprichosamente, fugia deles, enrolava-se nas ondas, saltando ao chocar com a areia. Depois de duas ou três tentativas falhadas, ele correu para a garrafa com passadas altas e, atirando-se de chapa na água, conseguiu segurá-la entre as mãos. Encharcado dos pés à cabeça, levou-a á namorada com uma expressão triste.
- Não tem nada lá dentro...é apenas uma garrafa vazia de uísque.
- Tem rolha, não tem?
- Tem!
- Então, pode conter uma mensagem de voz!
- Achas?
Ela levou o indicador aos lábios. Com mil …
Imagem
Um piolho só consegue ser sensual, quando se entrega ao erotismo de uma cap dance.

(Imagem do filme Showgirls de 1995, a piolha chama-se Elisabeth Berkley)

Soberania

Era já mulher feita quando o Duarte começou a frequentar a sua casa, era um "amigo da família", jantava por ali, discutia política e religião com os pais, citava Horácio e Plutarco. Era um cota, mas enterneceu-a com os seus modos gentis, e o modo doce como a tratava por "princesa". A princesa afeiçoou-se-lhe, gostava de palavra princesa nos seus lábios, sobretudo quando eles se aplicavam em lhe beijar o ventre e o sexo. Acabaram por se casar, com a enternecida aprovação da família, e foi só quando surpreendeu o Duarte na cama com mãe dela, que compreendeu a justiça daquele título.

Voto

Nestes últimos dias, só me ocorre clamar aos 7 ventos que só espero do novo ano, que ele não nos deixe feitos num 8. E se isso é pedir pouco, nem oito nem oitenta.

A conspiração do segredo

O túmulo do primeiro imperador da China excedeu tudo o que se pudesse imaginar. No ventre de uma montanha artificial, recriou-se o universo e, no seu centro, a cidade imperial com o seu palácio opulento repleto de tesouros, guardado por soldados de terracota munidos de espadas e lanças autênticas, os artistas e os sábios prodigalizavam maravilhas para agradar ao seu soberano divino, rios de mercúrio que brilhavam na semi-obscuridade, estrelas e constelações sobre as cabeças manufacturadas com ligas metálicas que as faziam fosforescer, e condutas de ar através do monte artificial que traziam a esse microcosmos correntes de ar que agitavam os estandartes, as folhas de bambu e as penas das aves empalhadas. Era um mundo criado para a imortalidade, e tomaram-se providências para que ninguém o perturbasse. Todos os que empregaram a força ou o espírito na construção do mausoléu foram silenciados, aldeias inteiras desapareceram com os seus habitantes passados a fio de espada ou queimados vivo…

Rios de chumbo e estrelas no tecto

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1
Crónica de Sseuma Ts'ien (135-85 a.C.) sobre o túmulo do primeiro imperador da China, Qin Shi Huang Di: «Shi Huang Di reuniu nas suas mãos todo o Império; os trabalhadores que para aí foram enviados eram em número de mais de setecentos mil; escavou-se o solo até se atingir a água; aí se moldou o bronze e para aí se levou o sarcófago; palácios e todo o tipo de edifícios administrativos, juntamente com maravilhosas louças, jóias e diversos objectos raros, para lá foram transportados e enterrados, enchendo assim a sepultura. Alguns artesãos receberam ordens para fabricar bestas e flechas automáticas; se alguém tivesse querido abrir um buraco para se introduzir no túmulo, estas ter-se-iam imediatamente disparado, apanhando-os de surpresa. Erguia-se aí um verdadeiro palácio subterrâneo, onde delgados fios de mercúrio continuam a desenhar finos traçados de eternos rios; diversas máquinas estavam encarregadas de o fazer correr, passando-as de umas para outras. Ao alto, ficavam todos os s…
Depois de uma noite a encher o corpo de tantas calorias e toxinas que iria levar uns dois meses a ver-se livre delas, a manhã do dia de Natal pareceu-lhe pesada e angustiante, com um vapor de ressaca e o estômago desarranjado. Pensou ir beber um café e passar o resto do dia a comer coisas saudáveis - laranjas, saladas, iogurtes, mas não! Ainda havia os restos de comidas e lambarices, e o almoço farto a poucas horas de distância. Na rua, conseguiu encontrar um café aberto e bebeu um café que lhe serviram frio, acompanhado de um cigarro que lhe soube mal. A coisa estava a ir bem. Entrou num Banco para levantar dinheiro, já à espera que a Caixa estivesse lisa. No interior, a um canto. estava enroscado um sem-abrigo. Era o Passas, assim o alcunhavam por andar sempre a reciclar beatas que encontrava apagadas na calçada. Costumava vê-lo a levantar-se de manhã do seu ninho de mantas nas arcadas do centro histórico, por vezes, a ler os jornais amarfanhados que empregava nos seus preparos diár…

A festa da família

O Natal é um momento mágico que as famílias vivem reunidas sobre o mesmo tecto, consagrando a alegria e o carinho aos deuses do lar O casal Aniceto vive junto por noblesse oblige, desenvolvendo vidas paralelas com segundas e terceiras pessoas, o primo Roberto planeia uma viagem para o Brasil depois do desfalque no Banco e de roubar as pratas da sogra, Ana e Luís negam que o seu filho mais velho seja toxicodependente, vive nas ruas por se identificar com o Poder das Flores, e da coca, a Susana está noiva e em preparativos para o casamento primaveril, usando um vestido negro de soirée que lhe esconde as negrelas nas coxas e nas costas, o Luís está presente, mas apenas de corpo presente, abomina conviver com os filhos e restante parentela, angustiado por estar longe da amante que bebe champanhe num apartamento acanhado enquanto assiste a um filme imbecil com um argumento que parece escrito por um adolescente inocente a precisar de dar uma queca, crianças e adultos convivem no pouco espaço…

Natal - the day after

1
A única coisa que conseguiu no Natal foi um bolha no calcanhar (ofereceram-lhe uma pedra para o sapatinho).
2
Estatisticamente, muitos dos telemóveis com vibrador devolvidos nos dias que se seguem ao Natal têm, como motivo de devolução, serem artigos pouco ergonómicos.
3
Nesta quadra, tentou subornar três delegados do Ministério Público e foi investigado por isso. Ainda não foi desta que conseguiu comprar um MP3 ao seu gosto.

White Christmas-Otis Redding

Com votos de um Feliz Natal para todos vocês, deixo-vos o meu tema cantalício preferido, preferido nesta voz.

I'm dreaming of a white Christmas
Just like the ones I used to know
Where the treetops glisten,
and children listen
To hear sleigh bells in the snow

I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright
And may all your Christmases be white

I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright
And may all your Christmases be white

O Fantasma do Natal Passado

Registo pessoal. Caldas da Rainha, há tantos anos que me parecem mentira. Trabalhava em comércio e, à noite, estudava no dito Liceu, numa rotina cheia de picos de stress e correrias. Nesse tempo, não sabia o que era ter um carro e, como a minha casa era a doze quilómetros da cidade, durante o tempo da escola vivia num quarto alugado, umas águas-furtadas numa prédio decadente onde a melhor coisa que aí tinha eram duas janelas ogivais, junto ás quais gostava de me sentar ás tantas da noite na companhia de um livro ou de um bloco de notas ou, simplesmente, a olhar preguiçosamente os telhados e as ruas. À segunda-feira chegava de camioneta à cidade com a mala feita (provisão de roupa lavada), e ia logo ao quarto desfazer a mala antes de pegar ao serviço. No final do trabalho, havia dias em que ia directo para a escola em marcha de corrida, e só depois é que trincava qualquer coisa pelos cafés junto á escola, para aguentar o estômago até perto das dez da noite, quando o stress levantava co…
Num acesso de paixão, saiu à noite da carpintaria com um balde de tinta e uma trincha, e escreveu nas paredes da cidade: "Amo-te Maria". O gesto romântico surtiu efeito na Maria por quem se perdia de amores, começaram a namorar e acabaram por juntar os trapinhos. Poucos anos depois, azedado pelo ciúme, o mesmo artista achou que era tempo de reformar os seus graffitis. Com a tinta do mesmo balde, reescreveu: "CHAmo-te Maria, mas qual é o nome desse espírito santo de um cabrão que te engravidou?"

Lição de História

A conquista muçulmana de França, detida por Carlos Martel na batalha de Poitiers, foi um ocidente de percurso.

Como Sartre fundamentou o ateísmo (versão hacker)

Numa manhã fria de Novembro, Sartre e Simone de Beauvoir realizaram um rito invocatório numas águas-furtadas de Montmartre. Vestido com uma casula e segurando um terço bendito nas mãos, Sartre elevou a voz para o alto: - Deus! Se existes, desafio-te a ergueres-te diante dos meus olhos, imenso e omnipotente! Ajoelhou-se junto com Simone e aguardaram alguns minutos. Como nada se passasse, Sartre levantou-se e declarou sem amargura: - Como um Deus que tudo pode, não pôde aparecer, então Deus, seguramente, não existe! E isso ficou lavrado nos seus escritos. Nas cartas de Simone de Beauvoir, que só foram divulgadas após a sua morte, conta-se o que Simone terá dito no final dessa cena: - É curioso que tenhas empregue essas palavras, mon petit, foram quase as mesmas que, ontem á noite, dirigi sem sucesso ao teu pénis.

Quando um filho nos pergunta

O Pai Natal? O Pai Natal vive na Lapónia com as renas...não...não é em Varsóvia, é na Lapónia mesmo, vive no meio dos gelos sem nada de importante à mão, não tem nenhuma grande superfície, centro comercial, estação de serviço, nem mesmo uma banca de hortaliças e batatas na berma da estrada. Aquilo é uma seca que até mete dó. A casa do Pai Natal? É uma caixa-forte gigante como a do Tio Patinhas, cheia até ao topo com o dinheiro que a gente gasta todos os anos em prendas, na parte de fora tem um forno onde os duendes queimam as notas para fazer vapor para aquecimento, mas os duendes não são como os pintam, verdes e orelhudos, não, na Lapónia eles são seres híbridos, ou seja, uma mistura de homem e de rena, tem braços e pernas mas com cascos, e chifres na cabeça, e os mais velhos exibem uma barba branca comprida como a do pai. Mais coisas? O Pai Natal tem muitas coisas que gosta na casa, mas aquilo de que mais se orgulha é uma letra bancária numa redoma de vidro, a Letra nº1, que recorda…

Dor de crescimento

Dar-mo-nos conta de que somos apenas um mumltidão, ou seja, apenas um na multidão.

O Meduso

Não há modo mais cómodo de conhecer uma pessoa do que pelas suas palavras, evita os contactos imediatos de terceiro grau, ter de ver ou sentir os olhos enormes e as orelhas pontiagudas, o colarinho surrado, os pêlos a sair das ventas, o hálito de bode, as feições de gárgula ou os cascos no remate das pernas. Mas isso nunca ocorre a quem só se prende ao tom da voz ou ao teor das palavras. Para Ana, conhecer pessoalmente o Luís, que começara por ser um contacto de telemarketing, era uma opção tentadora, e disse-lhe - podemos tomar um café, ou uma água, falamos um pouco como costumamos falar ao telefone, sinto apenas curiosidade para conhecer o rosto das palavras que te conheço. Ele tentou demovê-la. Era melhor ficarmos por aqui, tu constróis o teu retrato-robot imaginário, e continuamos amigos nos dois extremos do mundo real, afinal, não é por acaso que só aqui é que encontrei uma hipótese de emprego. Vá lá! - Insistia ela - não podes estar assim tão mal, e mesmo que estivesses, conheço…

Intifada

Nascido o rebento em terras do Utah, os pais organizaram uma festa de rejubilo para familiares e amigos. Acorreram de olhos curiosos e sorrisos abertos, elas mais empenhadas em pegar a criança ao colo, eles, mais interessados no uísque de produção familiar. Mas não faltaram prendas, uma pulseirinha de prata com um penduricalho em forma de espingarda, um guizo com o formato de uma granada, um chapéu de cowboy com dois revólveres cruzados, uma carabina autêntica para ser pendurada bem alto numa parede até ao dia em que fizesse catorze anos e tivesse envergadura para aguentar o coice da arma. Mas, ao contrário das expectativas, a criança cresceu e fez-se um homenzinho, sem grande afeição pelas armas de fogo, não acompanhava os adultos em caçadas, nem derrubava com tiros as latas vazias nos postes do cercado de madeira; e isto porque tinha os ouvidos débeis e sensíveis, que não suportavam a detonação de uma arma. A carabina, ofereceu-a a um primo, e não quis saber mais dela. Apesar de ser…

Sociedade

Na cidade onde vivo, os comerciantes acordaram entre si em embelezar as ruas, colocando cada um, uma árvore de natal á porta do estabelecimento. Estas árvores têm uma identidade própria, a da loja a que pertencem. Já vi árvores decoradas com pães secos, embalagens de perfume, cd's, cabides de roupa, parafusos, chávenas de café, trinchas de pintura, etc. Por mero acaso, ou por um imperativo subconsciente, confesso que ainda não passei à porta de nenhuma agência funerária.

Diz-me com quem Andes...(três excertos sobre o reino do condor)

1 (Huh)
«-Ama suwa, ama llulla, ama q'ella.
- Kampis jinallathac
Dos frases tradicionales, casi litúrgicas, usadas habitualmente como saludo y correspondencia entre los indios andinos; así quedaría la transcripción a nuestro idioma:
- No robes, no mientas, no vaguees.
- Ni tú tampoco».
("Ama Llulla", de Rafael Seoane, Editorial XYZ, La Coruña)
2
(Iskay)
«Não se poderia deixar esquecida a erva a que os índios chamam cuca e os espanhóis coca, que foi e é a principal riqueza do Peru para os que a melhoraram em tratos e contratos [e citando o P. Blas Valera:] Da sua utilidade e força, para os trabalhadores, deduz-se do facto de os índios que a mastigam serem mais fortes e mais dispostos para o labor; e, muitas vezes, contentando-se com ela, trabalham todo o dia sem comer. A cuca preserva o corpo de muitas enfermidades, e os nossos médicos usam-na, em pé, para atalhar o inchaço das feridas, para fortalecer os ossos partidos, para tirar o frio do corpo ou para impedir que nele entre, pa…

Impressão

A primeira vez que ouviu falar em blogs eróticos, pensou logo que ali é que conseguiria que lhe fizessem um blogjob.

Vida próxima

Rita esperou o marido à porta da fábrica. Ele entrou e antes mesmo do carro arrancar, ela explicou-lhe ao que vinha. - Vou-me embora, ou antes, preciso que te vás embora, que saias do apartamento e voltes para casa dos teus pais. - E os nossos filhos? - Leva-os contigo, é para bem deles, e também, para eu não dar em maluca. Acordei agora, percebes? Casamos cedo, tivemos dois filhos cedo, e eu quero aproveitar a vida, viver aquilo de que fui privada por ti, por eles e pelo rumo que as coisas tomaram. - Vais continuar a vê-los? - Não sei, pelo menos nos primeiros meses não devo lá aparecer, não ia ser bom para ninguém. Já emalei as coisas e avisei os teus pais, fiz-te uma lista com todas as coisas que precisas saber, dentista, pediatra, escola, etcétera. Se tiveres alguma dúvida, falamos ou trocamos ideias por SMS. - Se é assim que queres, não vou suplicar-te para ficares. Há alguma coisa que possa fazer por ti? - Fazeres de conta que tu e os teus filhos estão a viver em Marte, e que nós nunc…

Sofrer por antecipação

Era a sua cruz, sentir na pele as coisas que ainda estavam por vir, o que era absurdo e sabia-o, porque o futuro não existe porque ainda não veio a ser e só poderia existir se o tempo fosse uma partida do universo, mas sofria antes, sentia na pele e na alma as dores e os sintomas das desgraças que o iriam assaltar um dia, equimoses, lanhos na pele, dores nos ossos e os dias passavam e vinha a descobrir a que se deviam, uma luta, uma queda, uma faca aguçada que a mulher brandiu diante de si numa discussão violenta. Sofria antes e sofria duas, três vezes, porque se atormentava sobre o que poderia ter pela frente. Tinha medo de sentir de repente uma dor atroz, do peito esmagado nalgum acidente de carro, ou os ossos a quebrar numa queda ou a sensação de um tumor a devorá-lo por dentro, e isto porque aprendera a respeitar a dor como se respeita aquilo que nos transcende e nos amesquinha e nos mostra que não valemos nada. Mas os dias passavam sem grandes dramas, reais ou por antecipação, a …
Não sabendo o que fazer à sua vida, decidiu perder um pouco de tempo com arrumações. Voltou à livraria no Sábado à tardinha, carregando um cartucho de castanhas compradas na praça (não conseguira resistir). A livraria esperava-o como uma confidência ansiosa, comeu as castanhas, rodeado pelos seus livros, lavou e enxugou bem as mãos e deitou-as à obra. Começou por retirar todos os livros das estantes, acastelando-as numa fortaleza de papel bem no centro do estabelecimento, depois, munido com um espanador, voltou a colocá-los nos seus balcões de madeira, mas com a lombada para dentro e de pernas para o ar. Levou horas naquilo, envolvido pela nostalgia metálica da música de Charlie Parker. Como era boa a sensação de mexer em livros, de os sentir como volumes, como ar que se desloca, como caudas de pavão a abrir quando fazia correr as folhas entre os dedos. Alguns, lidos em segredo em outras noites como aquela, demoraram-se nas suas mãos, exibindo uma frase, um verso, uma imagem, como bre…

Muddy Waters - Mannish Boy - 1978

-É a sua vez, senhor. Ergueu os olhos ansiosos para a enfermeira e desajeitadamente manobrou a cadeira de rodas pelo corredor, seguindo-a. Ela deteve-se na porta de um dos consultórios e fez-lhe indicação para esperar um pouco. Encostado a uma parede do corredor, uma mulher gemia numa maca, no chão, por baixo, uma larga mancha de urina. Duas enfermeiras debatiam a quem incumbia a responsabilidade daquele caso. Uns breves momentos e a enfermeira voltou com um sorriso artificial, empurrando a sua cadeira para o interior do consultório. A médica quase nem o fitou, já se havia livrado da bata e com um gesto de enfado atirou com a radiografia para cima da mesa -Tem o pé partido e vai ao gesso - informou - Espera na segunda sala à direita, sempre para o fundo. E, por hoje, fico por aqui. Rodou a cadeira e dirigiu-se para lá, deixando para trás a voz enérgica doutra médica que dava instruções para lavarem a doente da maca. Encontrou a sala indicada e arrumou-se a um canto com a cadeira enviesa…

Dulcinéia

Como é que se foge do Natal, quando ele está por todo o lado? Era uma pergunta estranha para se colocar, agora que se via num centro comercial de Lisboa em pleno Dezembro, e a um Domingo. Mas não tivera opção, tinha uma tardia prenda de aniversário para comprar. Detestava tudo no Natal, os Pais-Natais, árvores, renas, cenas e quejandos de Natal, a música, então, tinha o condão de lhe suscitar cólicas e o Silent Night, esse era o tema mais provável de um dia o levar ao suicídio. Mas já estava despachado das compras e subiu as escadas rolantes até ao último piso, onde a delirante colmeia humana mais parecia próxima de uma supernova psicótica. Assim com’ássim, comeria qualquer coisa, via um filme e debandava dali. Encontrou algo que lhe apetecia comer, um menu de fried chicken, também encontrou uma mesa isolada e instalou-se. Comeu, metido consigo mesmo, ignorou um grupo de estudantes que faziam um peditório para uma viagem de fim-de-ano, e exibiu a sua carantonha de gárgula quando um Pa…
No Centro de Estudos Históricos, a viagem no tempo não era um passeio turístico como as viagens ao espaço, era reservado a uma única classe de pessoas, que levavam as coisas muito a sério: o viajante-cronista, que se deslocava a uma determinada época histórica para cotejar os factos conhecidos com a observação em directo da época estudada. Para os tempos históricos eram obrigados a viverem infiltrados, colhendo dados e imagens sem intervir no mundo circundante, mas para os tempos pré-humanos, as preocupações eram menores e podiam exibir livremente as suas máquinas de filmar e os estojos de colecta de amostras. Dois dos mais respeitados tele-historiadores tinham vindo recentemente de uma dessas viagens longínquas, que tivera como foco o final do período Cretácico. Trocavam impressões enquanto passavam em revista os principais conhecimentos guardados na base de dados do Centro. Um ficheiro com o título de "Anomalias Paleontológicas" chamou-lhes a atenção. O conteúdo era intrig…
Chamou o técnico a casa para lhe fazer um orçamento e o dito técnico compareceu três meses depois para lhe mostrar os catálogos, tirar medidas, avaliar o tempo de trabalho da aplicação, e estimar os custos. Pensava que era simples, mas não, havia os perfis de alumínio e o estore em si, tem caixa embutida na parede ou quer com enrolador exterior? É que há uns muito práticos que se dobram para dentro como os espelhos de fora dos carros. E quantas janelas são? Uma!!? Ela foi mostrar-lhe: uma parede insularizada no meio do quintal da casa, com uma janela larga ao centro, a tal janela. Se a senhora dona quer um estore nesta janela, a gente arranja um estore nesta janela, mas diga-me uma coisa, e faço-lhe um desconto especial por isso, porque é que tem esta parede e esta janela aqui no meio de nada? Ela folheava um catálogo. Há muita dor cá dentro, respondeu, e eu não me sinto confortável com a minha interioridade. Ele concordou, se isso era uma resposta, a senhora dona é que sabia, mas ele…

Micro-História

Depois da proeza de conseguir editar Os Lusíadas em formato mínimo, numa obra que parecia uma caixa de fósforos, a editora Gulliver lançou agora as Grandes Obras de História, uma colecção de volumes do tamanho de um chip com autores como Políbio, Braudel, Arnold Toynbee ou Marc Bloch. A colecção traz como volume auxiliar uma obra pequena como uma unha de bébé com a Cartilha de João de Deus Adaptada à Alfabetização das Formigas.

Ironia térmica

Fugiu para o Sol dos Barbados e descobriu que lhe tinham congelado as contas.

Frustração pessoal enquanto empregador

Descobrir que a mulher-a-dias tem um carro melhor do que o meu.

Which Blair?

Esta manhã, enfrentei o dia com um projecto de projecto a animar-me, pensei a modos que assim: gostava de escrever um argumento, a coisa parece tentadora, mas é difícil para mim empreender semelhante tarefa porque começo sempre por escrever nomes e mais nomes de um genérico virtual a colocar no princípio e no fim da obra, e a tomar o lugar do realizador e dos tipos da fotografia na elaboração da primeira cena, uma coisa simultaneamente artística e sociedade-consumística como um grande plano de uma embalagem de Tetra-Pak com leite em que no meio do prado com vaquinhas da ilustração aparecia a protagonista principal a colher margaridas, ou então, podia ser outro fundo, o rótulo dum frasco de perfume com aquelas divas de roupas vaporosas a dar saltos e piruetas no ar enquanto o herói do filme abria passagem no meio delas, desancando-as com um taco de basebol ao som de La Vie en Rose. Pelo meio-dia, achei que a minha primeira incursão no mundo do celulóide teria de ser mais subtil, sem vi…

James Brown - Man's World

Nótula pseudo-histórica

Juan Ponce de Léon tem todas as características para ser recordado nos manuais de História, conheceu pessoalmente Colombo, foi ele quem baptizou a terra dos Everglades e dos refugiados cubanos e, sobretudo, foi autor da mais surrealista empresa de exploração que alguma vez existiu: procurar a Fonte da Juventude. Juan Ponce de Léon não a terá encontrado, o que encontrou foi uma flecha envenenada que o levou á morte, acreditando-se que o seu corpo repouse na catedral de São João, em Cuba. Como em tudo, existe uma história paralela na qual se afirma que não é o seu corpo que aí se encontra, mas o dum seu irmão de armas, Cristóbal de Alicante. Juan Ponce de Léon não terá morrido na altura, nem terá morrido até à data de hoje. Existe uma história consistente sobre um indivíduo que afirmava ser Ponce de Léon e que teria transitado de sanatório em sanatório nas primeiras décadas do século XX. Possuía um conhecimento enciclopédico de todas as épocas históricas desde o tempo de Colombo, e evoc…

Sucre

Dedicou-se á comercialização do açúcar na mira do lucro fácil, mas depressa constatou que as pessoas estavam cada dia mais amargas.
«Nas roupas que visto, nunca ligo muito a marcas, nem vivo doentiamente constrangido se tiver sobre a pele duas peças de roupa de marca diferente. As marcas é coisa que desprezo, tanto se me dá vestir um bê-ém como um Lada ou um Alpine»

A lei moral

"Duas coisas que me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento dela se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim" (Kant).

Bastou abrir a porta e olhar aquele homenzinho de cabeça enterrada entre os ombros, para se sentir mais tranquilo, estava na mesma, tal como se lembrava dele, anónimo, inapercebido, transparente. - Professor - falou o homúnculo - há quanto tempo! Fiquei admirado quando recebi a sua carta a convidar-me para ser seu assistente. Nunca esperei! Pensava que já não se lembrava de mim... - Olá, como estás - saudou, estendendo-lhe uma mão frouxa - vamos directos ao que interessa...cumpriste as minhas instruções? - Á risca! O senhor disse-me que isto era uma pesquisa confidencial, e ninguém sabe que estou aqui. Tirei uma licença sabática. Mas nunca julguei que me chamasse um dia, logo eu no meio de uma multidão de inteligências prodigiosas. Lembra-se do que me disse um dia? Que eu não tinha qua…

O Terror volta ás salas de cinema:

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"Sei o que Fizeste no Inverno Passado"
Como tivesse nascido sem braços, sempre que alguém lhe fazia mal, tentava assestar-lhe um pontapé bem dado. Era o seu modo peculiar de tentar fazer justiça pelas próprias mãos.
Em vida, escolheu a frase que iria figurar na sua lápide funerária, logo a seguir ao nome:

"Finalmente, enfrentou os seus medos!"

Circuito fechado

«Tenho um molho de chaves que parece o de um carcereiro, mas estou do lado de dentro. Todos os dias abro e fecho dezenas de portas, e ainda não consegui sair disto»
Para explicar ao filho os seus factos da vida, escolheu uma forma alegórica, oferecendo-lhe um exemplar d' "Os Miseráveis" de Vitor Hugo e um cartão de crédito ilimitado.
*
Para explicar ao filho os factos da vida, queria levá-lo naquele dia ao parque para ver os rituais de acasalamento dos pombos e cisnes, mas o filho avisou-o logo que só podia ir no final do filme pornográfico.

JFK e a cataplana

"Não perguntem o que o cação pode fazer por vocês, mas sim, o que vocês podem fazer pelo cação".

Monólogo

Não gosto nada de moscas, são nojentas e dão mau aspecto, as pessoas costumam vir aqui um pouco contrariadas e ainda por cima encontram isto cheio de moscas, não sei o que as atrai. Sim, porque ninguém vem aqui por gostar, não se gosta de ir a um Lar de Idosos, vai-se por obrigação, porque se tem lá alguém que os criou toda uma vida, ou porque sabem que os recrimina publicamente se não forem lá vezes que chegue, e aquilo pode chegar aos ouvidos das pessoas do seu trato diário e parecer mal, as pessoas não gostam, não é que tenham nojo dos velhos, mesmo daqueles que estão todos tortos ou já não estão muito bem da cabecinha, as pessoas tem medo é da velhice e de ficarem como eles, virem aqui é como serem obrigados a espreitar um morto a apodrecer numa campa e verem ao que vão chegar. O que falava eu? Ah, as moscas! Não sei o que fazer, é desesperante. Já pus remédio nas paredes como me aconselharam, e mandei arrancar a hera do alpendre por me terem dito que aquilo é o ideal para criar b…

Alma lusa

Se isto for motivo de suspeita, desconfio que metade dos portugueses podem passar por terroristas.

O próprio

Entrou no stand à beira da estrada e passeou a vista pelos carros expostos. Muito caro, idem , idem, idem, muito escafiado com massa nas mossas e riscos fundos, muito velho, muito caro...Hum! Este não está mau!
- O preço é mesmo este? Não se pode fazer uma pequena atenção em função do aumento do custo de vida, e da crise no Golfo Pérsico?
- Não, lamento, mas não posso, este carro é uma retoma, pertencia a um velhote, estava sempre guardado debaixo de telha num celeiro e só saía com ele para ir á missa, e não era todos os Domingos!
- Pensava que isso era apenas um conto tradiconal português...
- Não, engana-se. O carro ainda não foi limpo e pode encontrar vestígios disso, penas, feno e caca de galinha, o terço enrolado no espelho retrovisor. É pessoa que conhecemos, gente boa e trabalhadora que estima os seus bens e que não vive á toa. Você leva um carro de confiança.
- Aquilo no assento são manchas de sangue?
- Como lhe dizia, trata-se de gente simples que trabalha de sol a sol, que todos …

Definição:

Palavrulho: Palavra que cai num texto como um pedregulho; palavra extensa por contraste, e/ou de sentido hermético, e/ou demasiado rebuscada. Exemplo: palavrulho.

Crime e castigo

Nos trabalhos da Faculdade era só net e copiar-colar, copiar-colar, copiar-colar. Formou-se, mas agora trabalha numa casa de fotocópias, e é só copi-canola, copi-canola, copi-canola.

Monstros

-Tenho medo, mãe! - Murmurou no escuro, aliviando a cabeça fusiforme do peso do seu décimo tentáculo com olhos - Tenho medo do que está lá em cima. -Não tenhas medo, hás-de ver que não é nada, sombras caprichosas, as molas do colchão que rangem por estar tensas. -Não, não é verdade, eu vi! Tinha só uma cabeça, dois braços e duas pernas e deitou-se em cima da nossa cama! -Parvoíces! É da idade! Imaginas monstros em cima da cama e no alto das escadas da cave, semelhante coisa não existe, vá lá, fecha os teus trezentos e vinte olhinhos e tenta dormir. De manhã, as coisas vão parecer menos assustadoras.
Estende a toalha de linho na corda sob uma luz outonal, cantando como nos anúncios antigos de detergente, deixa-se estar escondida, a matrona arrasta o cesto da roupa com o pé, esconde-se ainda mais, temendo que ela a veja ou suspeite da sua presença, continua a ouvi-la, e vê as peças de roupa a serem meticulosamente presas com molas de madeira, calças, cuecas, meias, saias, blusas, continua a cantoria até o cesto estar vazio, pára um momento, depois volta à ponta da corda, desprende umas quantas peças que vai recolocando na outra extremidade até esgotar o sortido colorido de molas de roupa, sabe que deixou molas sem função na corda, dá uma fugida à horta e arranca folhas de couve das couves de Natal e pendura-as alegremente na corda a enxugar, retoma a operação porque lhe parece que as primeiras peças de roupa que pendurou estão mais que secas e retira-as para o cesto, o que dá como resultado ter mais molas vazias no bolso do avental, volta novamente à horta e a filha sai do seu esco…

Respostas esforçadas a perguntas que trazem gente a este blog

"Queria fazer umas perguntas sobre os produtos duma pastelaria" Sobre quais deles? Bolos? Pastéis? Tortas? Intoxicações adocicadas?

"Caixas da madeira recompensada?" Reward! Madeira morta ou viva! 10000 dólares de recompensa.

"Num copo vazio existe ar? Como Prová-lo?" Experimente ingerir enxofre e gasear para dentro do copo.

"Como saber se uma lâmapada fluorescente está avarida?" Se a lâmapada não acender, pode estar avarida, mas também pode ser do arrancador ou do motor de arranque.

"Rituais de acasalamento das andorinhas do mar". Não conheço mas, se forem muito barulhentos, é bom que não se aproximem do iate do rei de Espanha.

"Os 4 cavaleiros do apocalifo". Não consegui chegar a uma resposta cabal, mas suponho que sejam quatro cavaleiros com um pifo apocalíptico.

Ray Charles - In The Evening

Apontamentos de uma jornalista regional

Notas tiradas no Casal do Outeiro, semana das festas da Senhora do Ó, artigos para o Correio do Oeste (para transcrever para o diário).

Dia 5, Terça-Feira - Pedem-me para fazer umas entrevistas entre os romeiros e festeiros da festa, e tirar fotos. A igreja da terra está construída no alto de um morro, onde já houve um castro e um templo romano a Ceres. A festa é no adro e em volta. Á tarde surgem os primeiros sinais estranhos, a terra treme ou ressoa, o povo tem medo e diz que por debaixo da igreja é terra oca, subterrâneos e criptas do tempo dos pagãos, se a terra tremer muito, a igreja pode ruir como na época do grande terramoto. Enviei primeiro texto e fotos, por mail, para redacção.

Dia 6, Quarta - A terra estremeceu novamente, e surgiram rachas no empedrado do adro donde saíram poeiras violáceas. Junto á barraca das rifas saiu um cortejo de ratos de um buraco de esgoto que lançou o terror nas pessoas. O pároco, padre Rui, mandou decorar com palmas e postes engalanados um terreno p…

Simbiose eutanásica

Ser o vento nos plátanos de Outono que desafecta as últimas folhas secas. Ser as folhas secas nos ramos do plátano, que só esperam um vento que as ajude.
nove e dezasseis da noite, a selecção de futebol joga, uma merda de jogo, melhor voltar ao trabalho, foda-se, deixei a minha Pen Drive lá em cima no sótão, preciso dela para apagar os indícios, como é que eu vou lá agora? Calma, indo apenas, degrau a degrau, sem excitações, podem estar a dormir, começo a subir as escadas, ouço um som estranho de cortar a respiração, arranham a porta de madeira, ou tentam mordê-la com aqueles dentes salientes, volto a descer a escada e armo-me de uma vassoura para os manter à distância, só preciso dar três passos no sótão para reaver a Pen Drive, deixei-a em cima de uma pilha de livros ao lado da jaula, devo conseguir, tenho de conseguir, não os devia ter deixado à solta, as coisas andavam mais controladas quando eles eram mantidos na jaula, confinados e anestesiados, chega de lamentos, é hora de agir, encosto-me á porta de madeira, ouço o arfar de um deles, deve estar mesmo encostado á porta para ouvir a minha própria respiração, caraças! Rodo a maçan…

Nova geração

As primeiras zebras que aderiram á Internet, ficaram roídas de inveja quando chegou ao Zoo a primeira zebra cibernauta com riscas de banda larga.

Comunicado

Vinte e cinco presos evadidos da prisão. A polícia política foi no seu encalço, e capturou-os a todos. Recambiou quatro para as celas, e fuzilou os restantes no meio do pinhal, deixando-os lá, numa pirâmide de corpos, à mercê dos predadores. Quatro inimigos do regime foram capturados - rezava o comunicado oficial - os outros continuam a monte.

Á deriva

Fica doente, só de pensar que pode ficar doente, enche-se de antibióticos para as eventuais contaminações, e ansiolíticos para os nervos, depura-se com tintura de iodo no peito-e-costas, uma infusão de ervas medicinais, e abre finalmente a porta para enfrentar a tempestade, chuva e vento com força - corre com o seu impermeável e as galochas e enfia-se na camioneta que faz um compasso de espera na paragem. Treme, não de frio, mas de pavor. Quantos milhões de micróbios e vírus não se terão aninhado nele só naqueles breves metros de percurso. Está abrigado, recolhido, dentro de múltiplos agasalhos e protecções, e é pior, sabe que é pior. Os germes enregelados nos charcos de água fria ou nos corpos mal vestidos dos outros passageiros da camioneta, devem ver nele uma incubadora à temperatura ideal. Vamos saltar para o gajo, imagina-os a gritar em uníssono. O que o assusta ainda mais são os seres microscópicos potencialmente mortíferos, o chinoca junto à janela, por exemplo, pode ter o víru…

A desarte da fuga

Amílcar dos Santos Neves, que todos os conhecidos conhecem apenas pelo seu primeiro nome, tem um mantra pessoal. Não é em sânscrito ou tibetano, nem fala de flores-de-lótus ou despertares de luz. O seu mantra é elementar: "O-A-míl-car-des-pe-diu-se". Entoa-o interiormente vezes sem conta no encadear de rotinas vazias de um trabalho mecânico que abomina. Consegue imaginá-lo dito em voz alta pelos seus colegas, na hora do café ou na do prego para o caixão. O Amílcar despediu-se! Mas o Amílcar não se despede nunca, porque precisa ou porque não é capaz. O seu mantra continua a acompanhá-lo, até à hora da reforma, ou até atingir o Nirvana.

Regresso

"Vamos apanhar um pouco de ar" disse o patriarca no final do almoço de Domingo, almoço não, almoçarada, pança cheia a sacolejar, a comida já em digestão acelerada pelos digestivos a volatizar-se em peidos rebeldes muito antes do bolo alimentar estar convertido em bola de bosta. Enfiaram-se todos no carro e rumaram ao cais marinho do porto. Era Inverno e, apesar do Sol débil e da aragem fria, havia por lá muitos carros parados. Achou um lugar e parou o carro na beira do cais, abriu-se uma nesga de vidro para arejar o ambiente e prepararam-se para uma tarde de regresso à vida pura e às benesses da natureza. Ele puxou do jornal desportivo, levantou-o como um cenário de teatro e começou a ler, a mulher, ao lado, hesitou entre uma sorna e uma revista feminina e acabou por se entreter com o croché. No banco de trás, os três filhos, anularam a seca de estarem diante do estúpido mar com os seus estúpidos barcos e puxaram dos telemóveis e começaram todos a jogar. Ao fim de umas horas…

Novembro / Nueve Hembras

Nove ninfas, filhas da Memória, estavam guardadas para quem as procurasse, todas elas eram voláteis e leves, conduzindo os artistas na esteira da sua música ou das suas vozes, a resplandecer no brilho das estrelas e na beleza das flores. Iravam-se quando alguém as tentava igualar, mas mais iradas ficavam se algum mortal se mostrava indiferente à sua presença. Numa manhã de Maio, quando dançavam entre as faias do monte Hélicon encontraram um jovem guerreiro que as observava sem expressão, sentado sobre o escudo. Concentraram nele as suas artes mágicas, e tentaram que ele sentisse emoções, que dançasse ou sentisse a doçura dos versos e, quando isso falhou, procuraram instilar desejo nas suas veias e visões edénicas na sua alma. A fúria culminou a vanidade do seu esforço e metamorfosearam-no. O guerreiro, já morto em cima do seu escudo, foi transformado num loureiro, a mesma madeira com que fora afeiçoado o cabo da lança que lhe trespassara o ventre.

"Just talking over cigarettes and drinking coffee" (Otis)

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Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a silhueta ovóide dos seus cabelos castanhos soltos numa cascata de caracóis, sentou-se casualmente à sua beira, ela quase não reagiu à sua presença, o cigarro consumindo-se sozinho entre dois dedos muito brancos e o olhar escorrendo sobre o exterior como a chuva nas vidraças do café, afagou-lhe a mão espalmada sobre o tampo de mármore, conseguindo que ela olhasse para si, de soslaio, quase incomodada pela sua intrusão, puxou de uma passa, uma luz baça assomou às suas pupilas e debitou um sorriso frouxo, e ficaram assim por largos minutos, ele esfregando-lhe a mão fria enquanto ela olhava a chuva, trouxeram-lhe a aguardente habitual, que ele bebeu timidamente como os pardais que debicam a água na orla dos charcos.
- Olá! - Saudou, arrancando do fundo as palavras - Nós nunca nos falamos, mas vejo-a sempre aqui sentada. Chamo-me Jorge...
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Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a…

Clivagem

- Pareces desanimado...tens o ego em baixo?
- Não, o meu ego está de licença, foi passar férias a Trindade e Tobego.

Arma de fogo

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Dúvida:
Comprei uma coisa destas para o fogão lá de casa, e estou na dúvida se devo pedir uma licença de porte de arma...

História

Numa manhã fresca de Outono, o jovem seminarista descobriu algo de excepcional enquanto meditava sobre as virtudes teologais. Estava sentado numa degrau da escadaria que levava ao antigo Mosteiro no topo do monte onde funcionava o Seminário. Era uma escadaria dupla com um corrimão de pedra no eixo, desde sempre as pessoas subiam por uma banda e desciam por outra, costume fixado pelo sentido da Via Crucis que aí se celebrava. O que o seminarista constatou foi isto: a escadaria de ambos os lados tinha a mesma idade (verificara a inscrição no primeiro degrau de cada lado), mas os degraus de pedra por onde se subia estavam muito mais gastos do que os degraus no lado oposto. A sua piedosa conclusão foi a seguinte: as pessoas quando subiam iam carregadas com o peso dos seus pecados e com a contaminação subtil do mundo profano mas, lá em cima, a confissão religiosa e os ritos da santa missa tornavam-nos mais leves, o que explicava o menor desgaste dos degraus, visível a olho nu ao fim de cen…