INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

The Police: Message in a Bottle

Os dois namorados davam um passeio à beira-mar, junto à linha de rebentação. Foi ela quem primeiro viu a garrafa a emergir da espuma.
- Olha ali, uma garrafa! Pode ter alguma mensagem de um náufrago.
- Achas?!
- Mas é claro, pode ser de alguém isolado numa ilhota ou num penedo. Pode ser um caso de vida ou de morte.
Correram os dois, ela ziguezagueando na areia para fugir ao contacto da água gelada, ele, virilmente empenhado, enterrando os pés naquela película de água, sob os risinhos dela. A garrafa, caprichosamente, fugia deles, enrolava-se nas ondas, saltando ao chocar com a areia. Depois de duas ou três tentativas falhadas, ele correu para a garrafa com passadas altas e, atirando-se de chapa na água, conseguiu segurá-la entre as mãos. Encharcado dos pés à cabeça, levou-a á namorada com uma expressão triste.
- Não tem nada lá dentro...é apenas uma garrafa vazia de uísque.
- Tem rolha, não tem?
- Tem!
- Então, pode conter uma mensagem de voz!
- Achas?
Ela levou o indicador aos lábios. Com mil cuidados, tirou a rolha e substituiu-a pelo polegar. Pediu-lhe que se colocasse entre ela e o vento, e erguendo o gargalo até ao ouvido, retirou o polegar. Após alguns segundos angustiantes, o namorado começou a guinchar:
- O que é que diz? O que é que diz?
- «Tragam-me outra!».

Soberania

Era já mulher feita quando o Duarte começou a frequentar a sua casa, era um "amigo da família", jantava por ali, discutia política e religião com os pais, citava Horácio e Plutarco. Era um cota, mas enterneceu-a com os seus modos gentis, e o modo doce como a tratava por "princesa". A princesa afeiçoou-se-lhe, gostava de palavra princesa nos seus lábios, sobretudo quando eles se aplicavam em lhe beijar o ventre e o sexo. Acabaram por se casar, com a enternecida aprovação da família, e foi só quando surpreendeu o Duarte na cama com mãe dela, que compreendeu a justiça daquele título.

A conspiração do segredo

O túmulo do primeiro imperador da China excedeu tudo o que se pudesse imaginar. No ventre de uma montanha artificial, recriou-se o universo e, no seu centro, a cidade imperial com o seu palácio opulento repleto de tesouros, guardado por soldados de terracota munidos de espadas e lanças autênticas, os artistas e os sábios prodigalizavam maravilhas para agradar ao seu soberano divino, rios de mercúrio que brilhavam na semi-obscuridade, estrelas e constelações sobre as cabeças manufacturadas com ligas metálicas que as faziam fosforescer, e condutas de ar através do monte artificial que traziam a esse microcosmos correntes de ar que agitavam os estandartes, as folhas de bambu e as penas das aves empalhadas. Era um mundo criado para a imortalidade, e tomaram-se providências para que ninguém o perturbasse. Todos os que empregaram a força ou o espírito na construção do mausoléu foram silenciados, aldeias inteiras desapareceram com os seus habitantes passados a fio de espada ou queimados vivos dentro das suas casas. Todos os que viram a cidade dos mortos pereceram com ela, humildes trabalhadores, arquitectos, artesãos, esposas e concubinas. O segredo dos acessos ao tesouro ficou selado. Mas apenas três anos após o enterro do imperador, o seu túmulo gigantesco foi profanado. O exército do general Hiang Yu conseguiu entrar nele sem perder tempo em escavações ou tentativas: entraram directamente pelos acessos cobertos de pedras e terra, superaram as hábeis armadilhas montadas ao longo de quilómetros de corredores empedrados, e os labirintos intrincados, penetrando nas câmaras profundas ao encontro dos tesouros ansiados. Entre os conselheiros de Hiang Yu e constituindo o grosso das suas tropas, havia homens de olhar parado que ocultavam sob o elmo e as malhas da armadura, feridas de sangue seco produzidas pelos gumes e lâminas que lhes haviam enterrado no pescoço e no coração.

Rios de chumbo e estrelas no tecto



1

Crónica de Sseuma Ts'ien (135-85 a.C.) sobre o túmulo do primeiro imperador da China, Qin Shi Huang Di:
«Shi Huang Di reuniu nas suas mãos todo o Império; os trabalhadores que para aí foram enviados eram em número de mais de setecentos mil; escavou-se o solo até se atingir a água; aí se moldou o bronze e para aí se levou o sarcófago; palácios e todo o tipo de edifícios administrativos, juntamente com maravilhosas louças, jóias e diversos objectos raros, para lá foram transportados e enterrados, enchendo assim a sepultura. Alguns artesãos receberam ordens para fabricar bestas e flechas automáticas; se alguém tivesse querido abrir um buraco para se introduzir no túmulo, estas ter-se-iam imediatamente disparado, apanhando-os de surpresa. Erguia-se aí um verdadeiro palácio subterrâneo, onde delgados fios de mercúrio continuam a desenhar finos traçados de eternos rios; diversas máquinas estavam encarregadas de o fazer correr, passando-as de umas para outras. Ao alto, ficavam todos os signos do céu; em baixo, toda a disposição geográfica. Recorrendo a gordura de foca, fabricaram-se diversas tochas que se calculou poderem durar muito tempo sem se apagar».
2
Qin Shi Huang Di viveu obcecado pela imortalidade, não desistiu de tentar encontrar as lendárias Ilhas dos Imortais e teria morrido envenenado ao beber uma poção à base de mercúrio que era suposto torná-lo imortal.

Depois de uma noite a encher o corpo de tantas calorias e toxinas que iria levar uns dois meses a ver-se livre delas, a manhã do dia de Natal pareceu-lhe pesada e angustiante, com um vapor de ressaca e o estômago desarranjado. Pensou ir beber um café e passar o resto do dia a comer coisas saudáveis - laranjas, saladas, iogurtes, mas não! Ainda havia os restos de comidas e lambarices, e o almoço farto a poucas horas de distância. Na rua, conseguiu encontrar um café aberto e bebeu um café que lhe serviram frio, acompanhado de um cigarro que lhe soube mal. A coisa estava a ir bem. Entrou num Banco para levantar dinheiro, já à espera que a Caixa estivesse lisa. No interior, a um canto. estava enroscado um sem-abrigo. Era o Passas, assim o alcunhavam por andar sempre a reciclar beatas que encontrava apagadas na calçada. Costumava vê-lo a levantar-se de manhã do seu ninho de mantas nas arcadas do centro histórico, por vezes, a ler os jornais amarfanhados que empregava nos seus preparos diários, com um cigarro pendurado no canto dos lábios à Humphrey Bogart. Aquela noite passada no quentinho de um Banco devia ser obra dalguma alma caridosa. Tinha uma almofada nova sob a cabeça e, ao lado do corpo, uma caixa de plástico com sonhos e fatias de bolo-rei. Dormia, sonhava talvez. Aproximou-se para o ver melhor. Aquilo era um bom exemplo de uma vida humana em colapso, a inanição mental daquele estilo de vida deviam ter-lhe atrofiado o cérebro, reduzindo-o a um estado vegetativo que quase não o diferenciava dos cães vadios que percorriam as ruas em busca de alimento. Se lhe fizessem testes psicológicos, de certeza que os resultados apresentados indicariam um Q.I. dez vezes inferior ao do seu tempo de vida activa. Talvez já não se lembrasse sequer do nome ou da data de nascimento, reduzido que estava às suas funções orgânicas mais elementares. Notou que o seu gorro sebento estava aberto ao lado da almofada, e que nele reluziam algumas moedas deixadas pelas pessoas. Sacou também do bolso o troco do café e dispôs-se a juntá-lo ao tesouro. Nisto, o corpo do Passas mexeu-se, e ele abriu apenas um dos olhos, fixando-o nele enquanto sorria.
- Espero que isso não seja uma OPA hostil sobre o meu Banco...
- Não - negou - é um pequeno investimento...para você comprar um isqueiro novo.
- De que me serve um isqueiro, se não tenho tabaco?
Foi a sua vez de sorrir, deixou-lhe o resto do maço com o dinheiro, juntando-lhe em seguida o seu próprio isqueiro.
- Obrigado, amigo, agora já posso ler o jornal da manhã como eu gosto. Um bom Natal para si.

A festa da família

O Natal é um momento mágico que as famílias vivem reunidas sobre o mesmo tecto, consagrando a alegria e o carinho aos deuses do lar
O casal Aniceto vive junto por noblesse oblige, desenvolvendo vidas paralelas com segundas e terceiras pessoas, o primo Roberto planeia uma viagem para o Brasil depois do desfalque no Banco e de roubar as pratas da sogra, Ana e Luís negam que o seu filho mais velho seja toxicodependente, vive nas ruas por se identificar com o Poder das Flores, e da coca, a Susana está noiva e em preparativos para o casamento primaveril, usando um vestido negro de soirée que lhe esconde as negrelas nas coxas e nas costas, o Luís está presente, mas apenas de corpo presente, abomina conviver com os filhos e restante parentela, angustiado por estar longe da amante que bebe champanhe num apartamento acanhado enquanto assiste a um filme imbecil com um argumento que parece escrito por um adolescente inocente a precisar de dar uma queca, crianças e adultos convivem no pouco espaço deixado livre pelos sofás ocupados e pelos presentes amontoados, ramas de um pinheiro natalício sob a égide da sua estrela ilustre, o patriarca, o idoso mas lúcido patriarca, que foram buscar ao Lar onde reside (o filho levou-o na marra para o carro, porque ele não queria voltar à casa onde a nora lhe batia, arrastou-o com a mão fechada em volta do braço como um torniquete porque podia parecer mal e porque não fazia sentido já que todos os velhos do Lar tinham ido passar a consoada com as famílias onde eram recordados com amor).

Natal - the day after

1

A única coisa que conseguiu no Natal foi um bolha no calcanhar (ofereceram-lhe uma pedra para o sapatinho).

2

Estatisticamente, muitos dos telemóveis com vibrador devolvidos nos dias que se seguem ao Natal têm, como motivo de devolução, serem artigos pouco ergonómicos.

3

Nesta quadra, tentou subornar três delegados do Ministério Público e foi investigado por isso. Ainda não foi desta que conseguiu comprar um MP3 ao seu gosto.

White Christmas-Otis Redding

Com votos de um Feliz Natal para todos vocês, deixo-vos o meu tema cantalício preferido, preferido nesta voz.

I'm dreaming of a white Christmas
Just like the ones I used to know
Where the treetops glisten,
and children listen
To hear sleigh bells in the snow

I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright
And may all your Christmases be white

I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright
And may all your Christmases be white

O Fantasma do Natal Passado

Registo pessoal. Caldas da Rainha, há tantos anos que me parecem mentira. Trabalhava em comércio e, à noite, estudava no dito Liceu, numa rotina cheia de picos de stress e correrias. Nesse tempo, não sabia o que era ter um carro e, como a minha casa era a doze quilómetros da cidade, durante o tempo da escola vivia num quarto alugado, umas águas-furtadas numa prédio decadente onde a melhor coisa que aí tinha eram duas janelas ogivais, junto ás quais gostava de me sentar ás tantas da noite na companhia de um livro ou de um bloco de notas ou, simplesmente, a olhar preguiçosamente os telhados e as ruas. À segunda-feira chegava de camioneta à cidade com a mala feita (provisão de roupa lavada), e ia logo ao quarto desfazer a mala antes de pegar ao serviço. No final do trabalho, havia dias em que ia directo para a escola em marcha de corrida, e só depois é que trincava qualquer coisa pelos cafés junto á escola, para aguentar o estômago até perto das dez da noite, quando o stress levantava como uma poalha de nevoeiro, e podia dar-me tempo para ir tomar um banho e comer qualquer coisa mais substancial. Numa dessas Segundas de aterrisagem na cidade, a rotina foi um pouco diferente. Começou segundo o roteiro, arrumar, trabalhar, almoçar, trabalhar novamente e...Ála para a escola! No final das aulas, apercebi-me de que não tinha dinheiro nenhum comigo e fui a uma caixa Multibanco. Para entrar num banco, XARAAM!, também não tinha cartão. Deu-me uma luz, deixara-o em casa, estivera a arrumar a carteira e ficou largado em cima da mesa-de-cabeceira, sabia que tinha ficado lá, com uma das pernas do despertador em cima. E eu com uma fome do catano. Corri até ao quarto, rabisquei nos bolsos do casaco e encontrei umas moedinhas, mais duas que tinha na carteira e totalizava vinte e sete escudos certos. Tinha de jantar com aquilo, e de manhã ia ao Banco com o BI e levantava dinheiro. Saí para a rua. O Natal estava a duas semanas e decoração das ruas e lojas não o deixava esquecer. Andei pelas ruas das Caldas ao acaso na vaga esperança de encontrar um amigo ou um colega de escola, mas ninguém parava nas ruas com aquele gelo. Fome é três dias, ocorreu-me o dito, enquanto entrava num café próximo á escola comercial à procura de uma ementa ao alcance da minha bolsa. Costumava ir amiúde àquele café com os colegas de trabalho tomar qualquer coisa. Estacionei diante de um expositor de fritos e snacks, depois de ter constatado que a montra dos bolos estava vazia.
- Um café ou um fino? - Perguntou-me a dona, com um sorriso.
- Não, hoje não, Dona Eunice, jantei muito cedo e vou antes comprar qualquer coisa para comer antes de me deitar.
Estudava os preços, era capaz de me safar.
- Já acabaste as aulas?
Respondi afirmativamente, e só então reparei que ela me olhava atentamente. Ela intuiu, percebeu a fome, talvez eu deixasse transparecer alguma ansiedade na voz, ou no modo como segurava as moedas no punho fechado.
- Então, se já tiveste aulas, entra aí para a cozinha e faz-nos companhia. Estive a fazer moelinhas e íamos agora começar a comer - como eu hesitasse, tolhido pela surpresa, ela insistiu - somos só nós, o meu filho e a namorada.
Contornei o balcão e entrei na cozinha. O marido dela deu-me um aperto de mão que me fez doer os ossos. "Agora somos dois Zés à mesa - gracejou - estamos em vantagem".
Sentei-me num banco de madeira depois de cumprimentar todos. Consegui disfarçar o facto de estar emocionado com aquela oferta inesperada. Um tacho com moelinhas, pão caseiro, vinho de um garrafão branco de cápsula verde que o anfitrião tinha pousado no chão ao nosso lado. As paredes do meu estômago batiam palmas. Nunca comi nada que me soubesse tão bem, e arrisco-me a dizer o mesmo dos dias futuros, mesmo que me seja dado participar em requintadas provas gastronómicas.

(Obrigado, Dona Eunice!)
Num acesso de paixão, saiu à noite da carpintaria com um balde de tinta e uma trincha, e escreveu nas paredes da cidade: "Amo-te Maria". O gesto romântico surtiu efeito na Maria por quem se perdia de amores, começaram a namorar e acabaram por juntar os trapinhos. Poucos anos depois, azedado pelo ciúme, o mesmo artista achou que era tempo de reformar os seus graffitis. Com a tinta do mesmo balde, reescreveu: "CHAmo-te Maria, mas qual é o nome desse espírito santo de um cabrão que te engravidou?"

Como Sartre fundamentou o ateísmo (versão hacker)

Numa manhã fria de Novembro, Sartre e Simone de Beauvoir realizaram um rito invocatório numas águas-furtadas de Montmartre. Vestido com uma casula e segurando um terço bendito nas mãos, Sartre elevou a voz para o alto:
- Deus! Se existes, desafio-te a ergueres-te diante dos meus olhos, imenso e omnipotente!
Ajoelhou-se junto com Simone e aguardaram alguns minutos. Como nada se passasse, Sartre levantou-se e declarou sem amargura:
- Como um Deus que tudo pode, não pôde aparecer, então Deus, seguramente, não existe!
E isso ficou lavrado nos seus escritos. Nas cartas de Simone de Beauvoir, que só foram divulgadas após a sua morte, conta-se o que Simone terá dito no final dessa cena:
- É curioso que tenhas empregue essas palavras, mon petit, foram quase as mesmas que, ontem á noite, dirigi sem sucesso ao teu pénis.

Dor de crescimento

Dar-mo-nos conta de que somos apenas um mumltidão, ou seja, apenas um na multidão.

O Meduso

Não há modo mais cómodo de conhecer uma pessoa do que pelas suas palavras, evita os contactos imediatos de terceiro grau, ter de ver ou sentir os olhos enormes e as orelhas pontiagudas, o colarinho surrado, os pêlos a sair das ventas, o hálito de bode, as feições de gárgula ou os cascos no remate das pernas. Mas isso nunca ocorre a quem só se prende ao tom da voz ou ao teor das palavras. Para Ana, conhecer pessoalmente o Luís, que começara por ser um contacto de telemarketing, era uma opção tentadora, e disse-lhe - podemos tomar um café, ou uma água, falamos um pouco como costumamos falar ao telefone, sinto apenas curiosidade para conhecer o rosto das palavras que te conheço. Ele tentou demovê-la. Era melhor ficarmos por aqui, tu constróis o teu retrato-robot imaginário, e continuamos amigos nos dois extremos do mundo real, afinal, não é por acaso que só aqui é que encontrei uma hipótese de emprego. Vá lá! - Insistia ela - não podes estar assim tão mal, e mesmo que estivesses, conheço as tuas palavras e é isso que interessa, a beleza interior, a pérola dentro da concha rude e áspera. Está bem, anuiu ele ao fim de alguma insistência, no café de que falamos, ás quinze horas. Hurra! - Gritou ela, no paroxismo da sua curiosidade comichosa. Desligou o telefone e mirou o relógio. Meio-dia. Uma boa hora. Almoçou nas calmas e saiu sem se arranjar ou maquilhar. Queria ir como era, natural como as conversas que costumavam ter, sem fantasias nem figuras de estilo. Desejava apenas conhecê-lo, ver a face da moeda que para ela tinha algum valor. Andou pela cidade a ver montras sob um frio de rachar e, perto da hora combinada, dirigiu-se ao ponto de encontro, um café numa rua pedonal de comércio. Com o tempo mais ameno, a sua esplanada era muito concorrida, mas num dia de Inverno como aquele, poucos eram os bravos que ousavam sentar-se nela. Achou piada que aquele troço da rua fora decorado com estátuas realistas em tamanho natural, de pessoas que caminhavam com os filhos e os sacos de compras pela mão. Sempre era diferente da decoração obsessiva com motivos natalícios. E o engraçado é que algumas das estátuas pareciam de gente que conhecia, do bulício das ruas e do cruzar ocasional nos lugares públicos. Não pareciam apenas, eram as estátuas que as tomaram como modelo. Ou elas próprias, petrificadas? Pela primeira vez naquele dia, começou a achar que aquele encontro podia não ser uma grande ideia e, quase sem dar por isso, passou ao largo, a admirar as montras silenciosas.

Intifada

Nascido o rebento em terras do Utah, os pais organizaram uma festa de rejubilo para familiares e amigos. Acorreram de olhos curiosos e sorrisos abertos, elas mais empenhadas em pegar a criança ao colo, eles, mais interessados no uísque de produção familiar. Mas não faltaram prendas, uma pulseirinha de prata com um penduricalho em forma de espingarda, um guizo com o formato de uma granada, um chapéu de cowboy com dois revólveres cruzados, uma carabina autêntica para ser pendurada bem alto numa parede até ao dia em que fizesse catorze anos e tivesse envergadura para aguentar o coice da arma. Mas, ao contrário das expectativas, a criança cresceu e fez-se um homenzinho, sem grande afeição pelas armas de fogo, não acompanhava os adultos em caçadas, nem derrubava com tiros as latas vazias nos postes do cercado de madeira; e isto porque tinha os ouvidos débeis e sensíveis, que não suportavam a detonação de uma arma. A carabina, ofereceu-a a um primo, e não quis saber mais dela. Apesar de ser uma pessoa solitária e reservada, parecia educado e cordial com todos, o que aumentou ainda mais a surpresa geral quando ele teve o seu colapso existencial. Ninguém na escola pareceu prever o que sucedeu. Zangado com o mundo ou consigo mesmo, subiu a um dos terraços da escola com uma mochila cheia de pedras e começou a arremessá-las para a multidão de alunos que se formara no pátio, isto, até as pessoas reagirem e conseguirem imobilizá-lo no terraço, no momento em que tentava por termo á vida com golpes de seixo na cabeça.

Sociedade

Na cidade onde vivo, os comerciantes acordaram entre si em embelezar as ruas, colocando cada um, uma árvore de natal á porta do estabelecimento. Estas árvores têm uma identidade própria, a da loja a que pertencem. Já vi árvores decoradas com pães secos, embalagens de perfume, cd's, cabides de roupa, parafusos, chávenas de café, trinchas de pintura, etc. Por mero acaso, ou por um imperativo subconsciente, confesso que ainda não passei à porta de nenhuma agência funerária.

Impressão

A primeira vez que ouviu falar em blogs eróticos, pensou logo que ali é que conseguiria que lhe fizessem um blogjob.

Vida próxima

Rita esperou o marido à porta da fábrica. Ele entrou e antes mesmo do carro arrancar, ela explicou-lhe ao que vinha.
- Vou-me embora, ou antes, preciso que te vás embora, que saias do apartamento e voltes para casa dos teus pais.
- E os nossos filhos?
- Leva-os contigo, é para bem deles, e também, para eu não dar em maluca. Acordei agora, percebes? Casamos cedo, tivemos dois filhos cedo, e eu quero aproveitar a vida, viver aquilo de que fui privada por ti, por eles e pelo rumo que as coisas tomaram.
- Vais continuar a vê-los?
- Não sei, pelo menos nos primeiros meses não devo lá aparecer, não ia ser bom para ninguém. Já emalei as coisas e avisei os teus pais, fiz-te uma lista com todas as coisas que precisas saber, dentista, pediatra, escola, etcétera. Se tiveres alguma dúvida, falamos ou trocamos ideias por SMS.
- Se é assim que queres, não vou suplicar-te para ficares. Há alguma coisa que possa fazer por ti?
- Fazeres de conta que tu e os teus filhos estão a viver em Marte, e que nós nunca nos vimos. Não penses que eu já não vos amo, mas eu preciso muito fazer isto.

Sofrer por antecipação

Era a sua cruz, sentir na pele as coisas que ainda estavam por vir, o que era absurdo e sabia-o, porque o futuro não existe porque ainda não veio a ser e só poderia existir se o tempo fosse uma partida do universo, mas sofria antes, sentia na pele e na alma as dores e os sintomas das desgraças que o iriam assaltar um dia, equimoses, lanhos na pele, dores nos ossos e os dias passavam e vinha a descobrir a que se deviam, uma luta, uma queda, uma faca aguçada que a mulher brandiu diante de si numa discussão violenta. Sofria antes e sofria duas, três vezes, porque se atormentava sobre o que poderia ter pela frente. Tinha medo de sentir de repente uma dor atroz, do peito esmagado nalgum acidente de carro, ou os ossos a quebrar numa queda ou a sensação de um tumor a devorá-lo por dentro, e isto porque aprendera a respeitar a dor como se respeita aquilo que nos transcende e nos amesquinha e nos mostra que não valemos nada. Mas os dias passavam sem grandes dramas, reais ou por antecipação, a sua cruz nem pesava muito, na verdade, começou a andar um pouco adormecido, a sentir-se sedado, como se lhe tivessem dado morfina para as dores ou estivesse a beber Chablis durante um belo banho de banheira. Ainda antes de saber, suspeitava, por antecipação, que os seus dias de dor estavam a chegar ao fim.
Não sabendo o que fazer à sua vida, decidiu perder um pouco de tempo com arrumações. Voltou à livraria no Sábado à tardinha, carregando um cartucho de castanhas compradas na praça (não conseguira resistir). A livraria esperava-o como uma confidência ansiosa, comeu as castanhas, rodeado pelos seus livros, lavou e enxugou bem as mãos e deitou-as à obra. Começou por retirar todos os livros das estantes, acastelando-as numa fortaleza de papel bem no centro do estabelecimento, depois, munido com um espanador, voltou a colocá-los nos seus balcões de madeira, mas com a lombada para dentro e de pernas para o ar. Levou horas naquilo, envolvido pela nostalgia metálica da música de Charlie Parker. Como era boa a sensação de mexer em livros, de os sentir como volumes, como ar que se desloca, como caudas de pavão a abrir quando fazia correr as folhas entre os dedos. Alguns, lidos em segredo em outras noites como aquela, demoraram-se nas suas mãos, exibindo uma frase, um verso, uma imagem, como breve relance de um sexo amado. Muitas horas mais tarde, deu a sua tarefa como concluída. Devia ser quase manhã. Como o tempo passa depressa quando estamos com aqueles que nos são queridos! E como ia ter saudades daquele lugar! Deixa-te de sentimentalismos - dizia para si mesmo. Fora despedido, já não era preciso ali. O iliterato, analfabeto e nhurro que o mandara embora, só na semana seguinte é que se iria lembrar que um dia lhe confiara uma cópia da chave da livraria.

Muddy Waters - Mannish Boy - 1978

-É a sua vez, senhor.
Ergueu os olhos ansiosos para a enfermeira e desajeitadamente manobrou a cadeira de rodas pelo corredor, seguindo-a. Ela deteve-se na porta de um dos consultórios e fez-lhe indicação para esperar um pouco. Encostado a uma parede do corredor, uma mulher gemia numa maca, no chão, por baixo, uma larga mancha de urina. Duas enfermeiras debatiam a quem incumbia a responsabilidade daquele caso. Uns breves momentos e a enfermeira voltou com um sorriso artificial, empurrando a sua cadeira para o interior do consultório. A médica quase nem o fitou, já se havia livrado da bata e com um gesto de enfado atirou com a radiografia para cima da mesa
-Tem o pé partido e vai ao gesso - informou - Espera na segunda sala à direita, sempre para o fundo. E, por hoje, fico por aqui.
Rodou a cadeira e dirigiu-se para lá, deixando para trás a voz enérgica doutra médica que dava instruções para lavarem a doente da maca. Encontrou a sala indicada e arrumou-se a um canto com a cadeira enviesada para que não lhe dessem alguma cacetada no pé aleijado. A sala de espera estava cheia de gente. Duas mulheres choravam a um canto, pareciam mãe e filha, os cabelos desalinhados e os rostos encaixados no ombro uma da outra. Nas cadeiras do lado contrário, um jovem pintalgado de tinta branca com a mão enfaixada aguardava sentado ao lado de uma mulher suja e feia, com cabelos curtos e uma camisola lilás puxada quase até aos joelhos de um corpo magro e esticado. Ela falava sem cessar, a boca de maxilares pronunciados abrindo e fechando sem cessar como a boca de um peixe. Aos seus outros companheiros de infortúnio já nem mesmo os tentou mirar, mas pelo meio ainda se ouvia um vozeirão revoltado e uma garganta feminina a tossicar aflitivamente. Para se isolar do que o rodeava, tentou prestar atenção ao ecrã de televisão, mas não se conseguia ouvir nada e as imagens de gente a dançar numa festa ainda o deprimiram mais. O pé latejava-lhe e parecia-lhe que não conseguia respirar como deve ser, o coração aos saltos como se tivesse acabado de apanhar um susto. Fixou o olhar num ponto determinado da sala, o ângulo da parede ao pé de uma flor de plástico com folhas largas e viçosas. Duas horas se escoaram naquele clima dantesco. Apenas o homem de voz cavernosa havia saído, depois de um médico o ter tranquilizado com o argumento do carácter rotineiro de uma qualquer cirurgia. A mulherzinha oculta tossia ainda com mais força mas, de resto, mantinham-se todos nos mesmos lugares, vogando num mar de incertezas. Aquele tempo todo na cadeira foi de um desconforto terrível, e por precaução, movia lentamente o pé estendido quando o sentia a ficar dormente, sempre receando que o osso partido lá dentro rompesse alguma veia. Estava a sentir-se de novo angustiado, como se tivesse no peito um novelo de nervos a comprimir-se. Foi então que viu entrar o homem que o ajudara a sair do carro sinistrado e o acompanhara até ali na ambulância, a falar quase ininterruptamente durante todo o percurso
- Então como vai? – perguntou-lhe, esticando a mão. Balbuciou uma resposta de agradecimento e já ele se sentara na cadeira ao lado – O que é que os médicos dizem?
- Um pé fracturado.
O outro soltou uma pequena risada, que polarizou a atenção de todos
- O seu carro ficou completamente escaqueirado – exclamou – o motor do carro parecia querer abraçar o poste que você apanhou pela frente, e você fica-se pelo pé partido. Você é um homem de sorte... um pé partido... - depois, abaixando a voz para um tom de confidência, inquiriu apontando para o tecto - Diga-me, você tem algum padrinho lá em cima?
Aquela pergunta inesperada deixou-o ainda mais confuso, pareceu-lhe que ele poderia estar a referir-se literalmente aos andares superiores do Hospital e aos longínquos meandros da administração, mas uma nova risada desfez o embaraço. Depois, num tom mais sério, prosseguiu: “Entrei em contacto com a sua esposa como você me pediu, ela deve levar perto de uma hora para cá chegar...”.
Agradeceu-lhe novamente, pela décima vez naquele dia agitado. A ideia de que a mulher vinha a caminho dissipou-lhe os muitos receios, como um sinal de que a vida dava sinais de retomar o seu eixo depois daquele solavanco estúpido em terra-de-ninguém.
- O pessoal daqui esteve todo a jantar – explicou de seguida – isto atrasa a vida a qualquer um.
O seu samaritano era um vendedor de produtos farmacêuticos ou outra coisa qualquer que significava o mesmo. Nele, nada parecia deixado ao acaso, o modo confiante e enérgico como apertava a mão, as expressões adequadas e irrepreensíveis, a boa disposição com que anulava o cansaço ou a impaciência dos seus interlocutores, apoiada por um vasto repertório de anedotas e temas de conversa.
- Está a ser operado um que também se ficou num acidente, mas esse não tem hipóteses, o carro dele foi trucidado por uma semi-trailer – depois meneou a cabeça para as duas mulheres, já exauridas de lágrimas - Aquelas duas choram por um pedreiro que ficou debaixo de uma parede...os ossos dele ficaram como vidro moído. Não passa d’hoje. Quanto a si, não tema, a sua esposa vem a caminho e os seus filhos tem muitas saudades suas.
- Obrigado, muito obrigado!
O vendedor foi chamado com muitos bons modos por uma médica, e, pouco depois veio uma enfermeira que o levou á enfermaria onde lhe enrolaram o gesso. Alguns conselhos de rotina, e a cadeira foi empurrada para a saída, para o excretar daquele organismo vivo que era o Hospital. A enfermeira deixou-a na sala de espera das visitas, e ajudou-o a passar para uma cadeira cinzenta almofadada. Enquanto esperava pela mulher e passavam carpideiras e gente triste e suja, sentiu um aperto no coração e esteve quase a vomitar, com o fel das entranhas a aderir á boca. Sentiu uma mão fria na testa, ergueu os olhos e descobriu a médica que o atendera no final do turno, acocorada junto a si. Estranhou, porque ela lhe parecera alheia e indiferente, com aquela frieza que é induzida, supunha, pela rotina de uma grande hospital.
- Tenha calma consigo - disse-lhe ela, muito serena - você tinha a marca, e a morte passou-lhe ao lado. Não era a sua hora.
Sorriu-lhe, sem saber o que responder. Ela ergueu-se, compôs a saia e saiu do edifício depois de trocar algumas palavras com o segurança à porta. Tenha calma consigo, a marca, virou e revirou os pulsos á procura dalgum signo cabalístico. Quando a mulher chegou, ele estava a mirar as linhas da mão como se as conseguisse ler. Ela ajudou-o a levantar-se e tomaram o caminho do parque de estacionamento. O segurança despediu-se com um aceno como se o conhecesse. Retribuiu, e olhou mecanicamente para o relógio como se isso tivesse alguma importância. Qualquer hora era boa para voltar para casa.

Dulcinéia

Como é que se foge do Natal, quando ele está por todo o lado? Era uma pergunta estranha para se colocar, agora que se via num centro comercial de Lisboa em pleno Dezembro, e a um Domingo. Mas não tivera opção, tinha uma tardia prenda de aniversário para comprar. Detestava tudo no Natal, os Pais-Natais, árvores, renas, cenas e quejandos de Natal, a música, então, tinha o condão de lhe suscitar cólicas e o Silent Night, esse era o tema mais provável de um dia o levar ao suicídio. Mas já estava despachado das compras e subiu as escadas rolantes até ao último piso, onde a delirante colmeia humana mais parecia próxima de uma supernova psicótica. Assim com’ássim, comeria qualquer coisa, via um filme e debandava dali. Encontrou algo que lhe apetecia comer, um menu de fried chicken, também encontrou uma mesa isolada e instalou-se. Comeu, metido consigo mesmo, ignorou um grupo de estudantes que faziam um peditório para uma viagem de fim-de-ano, e exibiu a sua carantonha de gárgula quando um Pai-Natal se dirigia a si para lhe tentar vender alguma coisa. Puxou de um cigarro e procurou os cinemas. Nas escadas rolantes, ouviu uma voz que o fez estremecer dos pés à cabeça, não era uma voz, era um pensamento que se insurgia entre os seus como uma sopro gelado nas têmporas: “Ajude-me!" – disse-lhe a voz. Olhou em volta, confuso, mas só encontrou rostos fechados, ausentes. De novo a “voz” no seu cérebro: “Ajude-me, por favor! Eles andam atrás de mim, e querem fazer-me mal!”. Continuou a procurar e encontrou por fim uns olhos que o fixavam, os de uma mulher que ascendia nas escadas, a poucos metros. Uns cabelos pintados de negro emoldurando um rosto muito lívido. Os seus olhos choravam, e o apelo repetiu-se quando se cruzaram. Virando-se, correu atrás dela, galgando aos empurrões a escada rolante até atingir novamente o piso dos restaurantes. Descobriu a sua figura e seguiu-a – “Por favor, não me abandone, eles seguem-me”. Enquanto a acompanhava de perto, tentou descobrir quem era a pessoa ou pessoas que a ameaçavam. Talvez o homem de passo apressado com um jornal enrolado na mão? Não, entrou no Play Center. A mulher de gabardina? Mantinha-se atrás da mulher ameaçada, mas também podia não ser ela. Naquele centro comercial, era fácil seguir alguém de longe, a muitos metros de distância. O estafeta de boné vermelho? O velho de andar desenvolto que carregava uma plêiade de sacos?
A mulher do apelo telepático continuava à sua frente, com passos nervosos e olhando amiúde sobre o ombro. Ele estava ali para a proteger e não deixaria que lhe acontecesse alguma coisa. Continuou na sua sombra quando ela voltou a descer mais um piso, numa roda de suspeitos que tomavam o lugar de perseguidores, sempre com ele muito atento e desconfiado. Por fim ela saiu da correnteza de gente e desviou-se para o corredor dos sanitários e fraldário, seguida por uma das pessoas que ele tinha debaixo de olho, um jovem de calças pretas e camisa larga caída em volta. Acelerou o passo e deteve-se junto à entrada dos W.C’s. “Estou aqui dentro. Ajude-me!”, voltou a voz. O aqui era uma porta, num dos lados. Abriu-a de rompante e entrou. Lá dentro estava escuro, sentiu a porta fechar-se atrás de si. A luz acendeu-se e a primeira coisa que viu foi pequenos carros de limpeza com esfregonas e vassouras enfiadas, rodou instintivamente sobre os calcanhares e a sua surpresa não podia ser maior: a mulher que julgava estar a defender, estava diante de si, empunhando uma arma com silenciador apontada à sua cabeça.
- Não compreendo…- disse, completamente aturdido.
- Somos todos, um – explicou ela de viva voz, antes de premir o gatilho.
No Centro de Estudos Históricos, a viagem no tempo não era um passeio turístico como as viagens ao espaço, era reservado a uma única classe de pessoas, que levavam as coisas muito a sério: o viajante-cronista, que se deslocava a uma determinada época histórica para cotejar os factos conhecidos com a observação em directo da época estudada. Para os tempos históricos eram obrigados a viverem infiltrados, colhendo dados e imagens sem intervir no mundo circundante, mas para os tempos pré-humanos, as preocupações eram menores e podiam exibir livremente as suas máquinas de filmar e os estojos de colecta de amostras. Dois dos mais respeitados tele-historiadores tinham vindo recentemente de uma dessas viagens longínquas, que tivera como foco o final do período Cretácico. Trocavam impressões enquanto passavam em revista os principais conhecimentos guardados na base de dados do Centro. Um ficheiro com o título de "Anomalias Paleontológicas" chamou-lhes a atenção. O conteúdo era intrigante: o estudo dalguns crânios de dinossauro nos quais surgia um orifício circular entre os olhos, era um orifício perfeito demais para ter sido originado pelo chifre doutro animal, não havia explicações claras, apenas se deixava a hipótese de trabalho de poder dever-se a algum tipo de ácido, segregado por um predador desconhecido. A zona dos achados compreendia uma região específica, o antigo estado mexicano de Oaxaca, e isso era muito significativo para os dois investigadores.
- Laser - murmurou um - três espécimes diferentes, dois raptores, por defesa pessoal, e uma cria de hadrossauro, certamente para se prover de bifes.
- Área?
- Cento e oitenta quilómetros entre os achados mais distantes. Fartou-se de andar.
- Deixar o Severo na companhia dos dinossauros foi uma verdadeira maldade, mas foi bem feito. Tinha a mania que era o mais rigoroso, que ninguém se comparava com ele no tratamento dos dados e no purismo da intocabilidade do facto histórico. Mas não estou preocupado, ele é um sobrevivente, vai morrer de velhice, chorando amargamente por ser obrigado a intervir no meio, como estes achados provam.
- Um dia o Laser acaba...
- E ele é absorvido pela História como sempre desejou - não se conteve e soltou uma pequena gargalhada - pela História ou pelo estômago dum Alossauro.
- Sim, vai ser uma tragédia, ele era tão novo e tinha tanto para dar.
Chamou o técnico a casa para lhe fazer um orçamento e o dito técnico compareceu três meses depois para lhe mostrar os catálogos, tirar medidas, avaliar o tempo de trabalho da aplicação, e estimar os custos. Pensava que era simples, mas não, havia os perfis de alumínio e o estore em si, tem caixa embutida na parede ou quer com enrolador exterior? É que há uns muito práticos que se dobram para dentro como os espelhos de fora dos carros. E quantas janelas são? Uma!!? Ela foi mostrar-lhe: uma parede insularizada no meio do quintal da casa, com uma janela larga ao centro, a tal janela. Se a senhora dona quer um estore nesta janela, a gente arranja um estore nesta janela, mas diga-me uma coisa, e faço-lhe um desconto especial por isso, porque é que tem esta parede e esta janela aqui no meio de nada? Ela folheava um catálogo. Há muita dor cá dentro, respondeu, e eu não me sinto confortável com a minha interioridade. Ele concordou, se isso era uma resposta, a senhora dona é que sabia, mas ele tinha a impressão de que ela estava a iniciar uma nova obra na clandestinidade, uma parede com uma janela, depois outra parede ao lado, e uns alicerces e uma placa, e uns anos depois tinha uma segunda casa colada à primeira sem dar nas vistas. Já agora, só mais uma pergunta, para minha orientação pessoal e para instruir os meus homens se aceitar o orçamento: qual dos dois lados é o lado de dentro da janela?

Micro-História

Depois da proeza de conseguir editar Os Lusíadas em formato mínimo, numa obra que parecia uma caixa de fósforos, a editora Gulliver lançou agora as Grandes Obras de História, uma colecção de volumes do tamanho de um chip com autores como Políbio, Braudel, Arnold Toynbee ou Marc Bloch. A colecção traz como volume auxiliar uma obra pequena como uma unha de bébé com a Cartilha de João de Deus Adaptada à Alfabetização das Formigas.

Ironia térmica

Fugiu para o Sol dos Barbados e descobriu que lhe tinham congelado as contas.

Frustração pessoal enquanto empregador

Descobrir que a mulher-a-dias tem um carro melhor do que o meu.

Which Blair?

Esta manhã, enfrentei o dia com um projecto de projecto a animar-me, pensei a modos que assim: gostava de escrever um argumento, a coisa parece tentadora, mas é difícil para mim empreender semelhante tarefa porque começo sempre por escrever nomes e mais nomes de um genérico virtual a colocar no princípio e no fim da obra, e a tomar o lugar do realizador e dos tipos da fotografia na elaboração da primeira cena, uma coisa simultaneamente artística e sociedade-consumística como um grande plano de uma embalagem de Tetra-Pak com leite em que no meio do prado com vaquinhas da ilustração aparecia a protagonista principal a colher margaridas, ou então, podia ser outro fundo, o rótulo dum frasco de perfume com aquelas divas de roupas vaporosas a dar saltos e piruetas no ar enquanto o herói do filme abria passagem no meio delas, desancando-as com um taco de basebol ao som de La Vie en Rose. Pelo meio-dia, achei que a minha primeira incursão no mundo do celulóide teria de ser mais subtil, sem violência gratuita nem sexo a pagar. Como estive a ver outra vez o Quase Famosos, imaginei o seguinte argumento (com o mesmo título ou um genérico idêntico) - duas estrelas de rock, uma tendo gravado no peito um punho fechado e uma rosa, enquanto o outro exibia umas setas curvilíneas cor-de-laranja, ambas nutrindo uma acesa rivalidade uma pela outra e revezando-se nos charts e nos índices de popularidade. O filme não seria propriamente sobre eles, mas sobre as pessoas que os acompanham, uma multidão de groupies de ambos os sexos, bajulosos, servis, arrebanhados e leais até ao tutano. Pelas suas estrelas, eram capazes de tudo, de serem humilhados, espancados, de limparem o chão com os joelhos e desligarem o micro-interruptor que põe os neurónios a trabalhar. Quando a sua estrela atingia o topo dos topos, saltavam da escuridão dos bastidores para os lugares que ela lhes dispensava no palco e enchiam-no até não se ver mais nada e a maré humana começar a engolir a sala de espectáculos como um tsunami de oportunistas. Devo confessar que ao fim tarde a minha febre argumentista tinha amainado, uma vez que continuava obcecado pelos nomes a colocar no genérico, sem os quais nenhuma ideia me parecia suficientemente boa para arrancar com a história. Para agilizar a aprendizagem do ofício, pensei que podia começar com um vídeo-caseiro para colocar no You-Tube, seria mais fácil porque escusava de pensar mais em nomes, e assim, pensei nisto, uma ideia absolutamente inédita, um filme só com três nomes, o meu o de um primo e de alguma moça que ele conhecesse, jovem e atraente, mas com tiques neuróticos, seria tipo assim uma cena de campismo selvagem no Gerês, num lugar meio sinistro onde havia lendas sobre bruxas e lobisomens, a história seria quase sempre filmada á noite, sob a luz de candeeiros com a sugestão de aproximação pela calada da noite de entidades sobrenaturais para nos raptarem ou tentarem vender A Sentinela. Se conseguir estender o enredo por duas ou três horas, era capaz de arquitectar um espectáculo de argumento.

James Brown - Man's World

Nótula pseudo-histórica

Juan Ponce de Léon tem todas as características para ser recordado nos manuais de História, conheceu pessoalmente Colombo, foi ele quem baptizou a terra dos Everglades e dos refugiados cubanos e, sobretudo, foi autor da mais surrealista empresa de exploração que alguma vez existiu: procurar a Fonte da Juventude. Juan Ponce de Léon não a terá encontrado, o que encontrou foi uma flecha envenenada que o levou á morte, acreditando-se que o seu corpo repouse na catedral de São João, em Cuba. Como em tudo, existe uma história paralela na qual se afirma que não é o seu corpo que aí se encontra, mas o dum seu irmão de armas, Cristóbal de Alicante. Juan Ponce de Léon não terá morrido na altura, nem terá morrido até à data de hoje. Existe uma história consistente sobre um indivíduo que afirmava ser Ponce de Léon e que teria transitado de sanatório em sanatório nas primeiras décadas do século XX. Possuía um conhecimento enciclopédico de todas as épocas históricas desde o tempo de Colombo, e evocava dados e informes sobre povos índios já extintos nos tempos actuais. No seu peito, podia-se ver uma grande mancha enegrecida que ele afirmava ter sido o ponto onde a flecha envenenada o atingiu, horas antes de ter decidido beber a água da Fonte da Juventude.

Sucre

Dedicou-se á comercialização do açúcar na mira do lucro fácil, mas depressa constatou que as pessoas estavam cada dia mais amargas.

A lei moral

"Duas coisas que me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento dela se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim" (Kant).


Bastou abrir a porta e olhar aquele homenzinho de cabeça enterrada entre os ombros, para se sentir mais tranquilo, estava na mesma, tal como se lembrava dele, anónimo, inapercebido, transparente.
- Professor - falou o homúnculo - há quanto tempo! Fiquei admirado quando recebi a sua carta a convidar-me para ser seu assistente. Nunca esperei! Pensava que já não se lembrava de mim...
- Olá, como estás - saudou, estendendo-lhe uma mão frouxa - vamos directos ao que interessa...cumpriste as minhas instruções?
- Á risca! O senhor disse-me que isto era uma pesquisa confidencial, e ninguém sabe que estou aqui. Tirei uma licença sabática. Mas nunca julguei que me chamasse um dia, logo eu no meio de uma multidão de inteligências prodigiosas. Lembra-se do que me disse um dia? Que eu não tinha qualidades para ser um bom investigador, que me faltavam sinapses e que não era capaz de estabelecer relações de causalidade, quanto mais para intuir essas relações antes delas se tornarem evidentes, foi o senhor quem me disse que o melhor que tinha a fazer era dedicar-me ao Ensino.
Não estava igual, a frustração enchera-o de palavras fúteis, provavelmente ensopadas em álcool. Deixou-o falar, enquanto o guiava através da casa até ao jardim das traseiras, um resmungar caótico que se interrompeu quando chegaram ao pé do pavilhão. Ficou, literalmente, sem fala. Um pavilhão semi-esférico, gigantesco, com gigantescos painéis solares e intrincados meandros de tubos e condutas eléctricas. Pasmado, seguiu-o até ao vestíbulo, onde vestiram fatos estanques antes de entrarem no pavilhão através de uma câmara intermédia de descontaminação. O interior era desconcertante, parecia um pequeno zoo, diversos animais eram mantidos em dependências isoladas, onde todos os seus ritmos orgânicos eram registados por sensores ligados ao sistema informático central. A princípio apenas entreviu o sector dos répteis e pequenos mamíferos, com muitos compartimentos vazios, mas a surpresa aumentou quando chegaram à zona dos primatas, onde avistou um chimpanzé e, surpresa das surpresas, um orangotango. Após um pequeno périplo pelo pavilhão, saíram para o vestíbulo.
- Um orangotango, professor! Você tem um orangotango na sua propriedade! Como é que é possível?
Chegou-se até um armário, retirou uma garrafa de uísque e dois copos e serviu um ao seu novo assistente.
- Já ouviste falar em Allan Kardec?
- ...
- Allan Kardec, num trecho clássico, tenta definir a alma e diz, grosso modo, que a alma não pode ser uma coisa imaterial ou não ser nada, a alma, se existe, tem de ter substância, ter peso, ser algo, ou não se pode dizer que exista. A ciência não gosta da palavra alma, porque a considera além-fronteiras, mas isso é um erro, a alma é demonstrável e se demonstramos que a alma existe, reabilitamos a possibilidade de algo existir depois da morte.
- Demonstrar como? Ou antes, como é que o senhor, ateu e iconoclasta, entrou nestes domínios enevoados?
- Não interessa. Adiante! Há uns anos, investigadores independentes descobriram que o corpo humano perde nitidamente peso nos minutos subsequentes à morte, e teorizaram que essa perda de peso podia ser atribuída à saída da alma do seu invólucro físico. Mas ninguém estudou isso cientificamente, ninguém se deu ao trabalho de fazer experiências, quantificar, exumar padrões, construir provas. Foi essa a minha empresa, reuni fundos aparentemente inesgotáveis de muitos religiosos de algibeira e construí estas instalações. Aqui dentro, todos os seres vivos estão expostos a condições ambientais rigorosamente uniformes, e estudo o que sucede aos seus corpos depois da morte. O objectivo é tentar descobrir se o corpo humano revela um processo distinto dos restantes mamíferos e, muito particularmente, doutros primatas que, como mesmo você deve saber, tem um ADN noventa e nove vírgula nove por cento, similar ao nosso. Se houver uma diferença inconciliável com dados objectivos, essa diferença pode ter a alma ou espírito como explicação para-científica, como antes se suspeitava sem procedimentos rigorosos.
- Mas para isso, você não tem de fazer a mesma experiência com um ser humano? Para completar a demonstração?
Touché! O seu aluno medíocre tinha progredido qualquer coisa naqueles anos todos.
- Não necessariamente. Este é um estudo preliminar a ser apresentado à comunidade científica, para se criarem as bases para a fase mais ambiciosa do projecto, na qual se trará para estas instalações algum dos doentes em coma dos grandes hospitais para a hora de desligar as máquinas. Chamei-o porque preciso de ajuda nesta fase do projecto em que vou introduzir os primatas. Há dados para processar, verificações a fazer, o rigor deve raiar a perfeição. Se tudo correr bem, o grande evento está calendarizado para daqui a um mês.
- Pode contar comigo, professor, sinto-me honrado por lhe ser útil, por poder servir uma das pessoas que mais admiro e respeito. Não estou a bajulá-lo, reuni ao longo dos anos todas as suas dissertações e artigos e tenho-os estudado com uma verdadeira veneração.
*
Não! Não podia ser verdade! Durante horas viu e reviu os dados, extraiu gráficos, analisou processos, e o resultado não se alterou. Os primatas e o que mais se parecia com eles, o seu assistente, jaziam mortos na sala final. Não havia nenhuma diferença significativa no seu peso post-mortem. O homem não se destacava do restante reino animal, não havia centelha divina, fogo místico, alma eterna. Abandonou as instalações com a garrafa de uísque e um copo. Sentou-se num pequeno muro do jardim, com as estrelas sobre si. Bebeu um trago. Tinha de haver um erro, devia ter-se esquecido dalguma coisa. Tinha de repetir tudo para se certificar dos resultados. Repetir uma e outra vez até não haver espaço para dúvidas. O problema maior seria arranjar mais primatas.

O Terror volta ás salas de cinema:

"Sei o que Fizeste no Inverno Passado"
Como tivesse nascido sem braços, sempre que alguém lhe fazia mal, tentava assestar-lhe um pontapé bem dado. Era o seu modo peculiar de tentar fazer justiça pelas próprias mãos.

Circuito fechado

«Tenho um molho de chaves que parece o de um carcereiro, mas estou do lado de dentro. Todos os dias abro e fecho dezenas de portas, e ainda não consegui sair disto»
Para explicar ao filho os seus factos da vida, escolheu uma forma alegórica, oferecendo-lhe um exemplar d' "Os Miseráveis" de Vitor Hugo e um cartão de crédito ilimitado.

*

Para explicar ao filho os factos da vida, queria levá-lo naquele dia ao parque para ver os rituais de acasalamento dos pombos e cisnes, mas o filho avisou-o logo que só podia ir no final do filme pornográfico.

Monólogo

Não gosto nada de moscas, são nojentas e dão mau aspecto, as pessoas costumam vir aqui um pouco contrariadas e ainda por cima encontram isto cheio de moscas, não sei o que as atrai. Sim, porque ninguém vem aqui por gostar, não se gosta de ir a um Lar de Idosos, vai-se por obrigação, porque se tem lá alguém que os criou toda uma vida, ou porque sabem que os recrimina publicamente se não forem lá vezes que chegue, e aquilo pode chegar aos ouvidos das pessoas do seu trato diário e parecer mal, as pessoas não gostam, não é que tenham nojo dos velhos, mesmo daqueles que estão todos tortos ou já não estão muito bem da cabecinha, as pessoas tem medo é da velhice e de ficarem como eles, virem aqui é como serem obrigados a espreitar um morto a apodrecer numa campa e verem ao que vão chegar. O que falava eu? Ah, as moscas! Não sei o que fazer, é desesperante. Já pus remédio nas paredes como me aconselharam, e mandei arrancar a hera do alpendre por me terem dito que aquilo é o ideal para criar bicharada, e também mandei podar o chorão pelo mesmo motivo, mas as moscas continuam...Hã? Só um momento, professor...(...)...Sim, desculpe, professor, era uma empregada a fazer-me uma pergunta, ela perguntava se eu não queria chamar o médico por causa da Dona Deolinda, o senhor sabe quem é, é a mãe do Vargas da farmácia (...) não ela não está doente, é teimosa, arranha-se toda nos braços e nas pernas até ficar em carne viva, fazemos os curativos e ela volta a arranhar-se, as moscas em cima dela parecem um manto negro, o melhor é deixá-la ficar assim uns tempos para aprender, não podemos estar sempre a chamar o médico por causa disso, nem ele conseguia sair daqui se fosse só para cuidar dela. Em relação ao assunto das moscas, se o senhor tiver alguma ideia ou tiver ouvido falar de alguma coisa que seja bom para acabar com essa praga, faça o favor de me dizer. Obrigado, professor, e cumprimentos à esposa...adeus professor, saúde, adeus!

O próprio

Entrou no stand à beira da estrada e passeou a vista pelos carros expostos. Muito caro, idem , idem, idem, muito escafiado com massa nas mossas e riscos fundos, muito velho, muito caro...Hum! Este não está mau!
- O preço é mesmo este? Não se pode fazer uma pequena atenção em função do aumento do custo de vida, e da crise no Golfo Pérsico?
- Não, lamento, mas não posso, este carro é uma retoma, pertencia a um velhote, estava sempre guardado debaixo de telha num celeiro e só saía com ele para ir á missa, e não era todos os Domingos!
- Pensava que isso era apenas um conto tradiconal português...
- Não, engana-se. O carro ainda não foi limpo e pode encontrar vestígios disso, penas, feno e caca de galinha, o terço enrolado no espelho retrovisor. É pessoa que conhecemos, gente boa e trabalhadora que estima os seus bens e que não vive á toa. Você leva um carro de confiança.
- Aquilo no assento são manchas de sangue?
- Como lhe dizia, trata-se de gente simples que trabalha de sol a sol, que todos os dias da semana se levanta de madrugada para trabalhar e que se deita com as galinhas.

Definição:

Palavrulho: Palavra que cai num texto como um pedregulho; palavra extensa por contraste, e/ou de sentido hermético, e/ou demasiado rebuscada. Exemplo: palavrulho.

Monstros

-Tenho medo, mãe! - Murmurou no escuro, aliviando a cabeça fusiforme do peso do seu décimo tentáculo com olhos - Tenho medo do que está lá em cima.
-Não tenhas medo, hás-de ver que não é nada, sombras caprichosas, as molas do colchão que rangem por estar tensas.
-Não, não é verdade, eu vi! Tinha só uma cabeça, dois braços e duas pernas e deitou-se em cima da nossa cama!
-Parvoíces! É da idade! Imaginas monstros em cima da cama e no alto das escadas da cave, semelhante coisa não existe, vá lá, fecha os teus trezentos e vinte olhinhos e tenta dormir. De manhã, as coisas vão parecer menos assustadoras.
Estende a toalha de linho na corda sob uma luz outonal, cantando como nos anúncios antigos de detergente, deixa-se estar escondida, a matrona arrasta o cesto da roupa com o pé, esconde-se ainda mais, temendo que ela a veja ou suspeite da sua presença, continua a ouvi-la, e vê as peças de roupa a serem meticulosamente presas com molas de madeira, calças, cuecas, meias, saias, blusas, continua a cantoria até o cesto estar vazio, pára um momento, depois volta à ponta da corda, desprende umas quantas peças que vai recolocando na outra extremidade até esgotar o sortido colorido de molas de roupa, sabe que deixou molas sem função na corda, dá uma fugida à horta e arranca folhas de couve das couves de Natal e pendura-as alegremente na corda a enxugar, retoma a operação porque lhe parece que as primeiras peças de roupa que pendurou estão mais que secas e retira-as para o cesto, o que dá como resultado ter mais molas vazias no bolso do avental, volta novamente à horta e a filha sai do seu esconderijo, vestida com roupa andrajosa e rasgada e surripia duas ou três peças para se vestir depois do banho, todas as roupas da corda estão igualmente velhas e rasgadas, queimadas do Sol e da geada da noite, a matrona volta, espantando os seus males com uma voz angelical, passa por cima de um monte de vegetais secos (folhas de couve e alface, ramos de eucalipto, folhas secas de árvore) e completa o trabalho, ou julga completar porque, já o dia declina, e ela começa a retirar as folhas de couve para pendurar a roupa do cesto, convencida que está que saiu do tanque da roupa e está a precisar de bom Sol e vento.

Apontamentos de uma jornalista regional

Notas tiradas no Casal do Outeiro, semana das festas da Senhora do Ó, artigos para o Correio do Oeste (para transcrever para o diário).


Dia 5, Terça-Feira - Pedem-me para fazer umas entrevistas entre os romeiros e festeiros da festa, e tirar fotos. A igreja da terra está construída no alto de um morro, onde já houve um castro e um templo romano a Ceres. A festa é no adro e em volta. Á tarde surgem os primeiros sinais estranhos, a terra treme ou ressoa, o povo tem medo e diz que por debaixo da igreja é terra oca, subterrâneos e criptas do tempo dos pagãos, se a terra tremer muito, a igreja pode ruir como na época do grande terramoto. Enviei primeiro texto e fotos, por mail, para redacção.


Dia 6, Quarta - A terra estremeceu novamente, e surgiram rachas no empedrado do adro donde saíram poeiras violáceas. Junto á barraca das rifas saiu um cortejo de ratos de um buraco de esgoto que lançou o terror nas pessoas. O pároco, padre Rui, mandou decorar com palmas e postes engalanados um terreno paroquial junto á aldeia, e diz que se as coisas continuarem assim, reza ali missa campal no dia da santa. Gravei a entrevista. Não esquecer de o citar quando diz que acima dos anjos e santos está Deus e que a casa de Deus é em todo o lado, sobretudo, no coração das pessoas. Novo artigo, não escrevi sobre os preparativos para a missa campal.


Dia 7, Quinta, dia central das celebrações - as pessoas da terra tiveram uma manhã de consternação. Apareceram mais ratos, desta vez no interior da igreja, e cobras, uma dezena delas, que saíram pelas escadas que conduzem à cripta subterrânea e cujo acesso se faz por umas escadas na abside. Missa campal. A procissão saiu daí para a capela de Santa Quitéria. Ninguém quer entrar na igreja enquanto ela estiver invadida por bichos. Há muito falatório em volta destes fenómenos. A terra vibra, perceptivelmente, e perto do meio-dia voltou-se a sentir estremecer o chão. Tirei fotos da procissão e do andor da santa, decorado por tradição com espigas de cereal e com um cesto com flores e frutos. Á tardinha, a imagem foi recolocada na igreja. Encorajado pelo padre, dei uma olhada na cripta. É uma sala rectangular acanhada que se situa no eixo do altar, tem inscrições tumulares nas paredes e no chão. Do lado nascente há um semi-arco a meio da parede, sai vento dali. O padre Rui explicou-me que do outro lado há uma cisterna rectangular com várias aberturas na rocha, que se acredita ser o que resta de um tanque cerimonial romano, reaproveitado por mouros e cristãos. Pedi-lhe para irmos embora antes que aparecessem mais cobras.


Dia 8, último dia da festa - O padre Rui pediu para me chamar. Junto á casa paroquial apresenta-me ao engenheiro Francisco Simões, que faz parte do executivo camarário. O engenheiro conta-me que fora alertado por um Irmão (ele é maçónico) para o que se estava a passar no Casal do Outeiro, e que possui uma explicação Occâmica para o fenómeno. A causa de tudo aquilo é a exploração mineira. As minas de cobre de Azinhaga dos Mouros iniciaram a abertura de uma nova galeria que tomou o sentido do Casal do Outeiro e cuja frente está muito próxima à base do monte. As vibrações dos martelos pneumáticos e as detonações subterrâneas teriam levado o pânico aos ratos e cobras do subsolo da igreja, levando-os a sair á luz do dia. Não era preciso invocar mais nada. Último artigo sobre a festa, enviei entrevista com o pároco e as palavras ouvidas á festeira do próximo ano.


Dia 10 - Recebi carta do padre Rui, agradecendo o carácter objectivo dos artigos. E mais me conta. Ontem de manhã, quando chegou á igreja, o sacristão já a tinha aberto, o que lhe causou muita estranheza. Quando entrou, ficou perplexo, havia duas raposas dentro da igreja a comer os frutos da cesta da santa. Ele afastou-se para um lado a pensar que as raposas iriam querer fugir pela porta, mas não, fugiram pelas escadas que dão para a cripta. Deixou passar algum tempo, porque não achou prudente isolar-se com elas no cubículo da cripta, mas quando finalmente as seguiu, não voltou a vê-las. Ele acha que entraram pelo arco da cisterna. Terminou a carta, referindo a cadeia alimentar do templo: cobras que comem ratos, raposas que comem frutos, ratos e cobras. Por sorte, remata com ironia, a carne de raposa não é muito apreciada pelas pessoas.


Dia 16 - Carta do padre Rui, que começa por me pedir desculpas, porque eu devo ser uma pessoa muito ocupada. Diz que ficou intrigado por lhe ter parecido que as duas raposas possuíam uma lista branca na cauda e que, á primeira vista, quase parecia uma fita atada em volta. Procurou fotos e gravuras de raposas numa biblioteca e chegou pela lista de ilustrações de um livro sobre caça, a uma gravura de fins do século dezanove inspirada num fresco de uma villa romana em Córdoba. A gravura representa a deusa romana Ceres junto á entrada para o mundo inferior, o chão está atapetado com feixes de cereais, tem diante de si um cesto com flores e frutos, e diversas raposas com uma fita branca em volta da cauda. O padre Rui diz-me que não sabe o que pensar. Eu também não, e escrevo-lhe para lho dizer, solicitando que me envie uma reprodução da fotocópia da gravura.


Dia 18 - Nova carta do pároco, não tem nenhuma fotocópia da gravura, achou melhor não pedir porque há coisas que é preferível manter enterradas, como os mortos da cripta. Está a pensar mandar emparedar o arco da cisterna porque o sacristão agora lhe está sempre a dizer que o vento no arco lhe soa a risos e a música de cordas. Parece-me muito perturbado. Acho que não volto a escrever-lhe.

Simbiose eutanásica

Ser o vento nos plátanos de Outono que desafecta as últimas folhas secas.
Ser as folhas secas nos ramos do plátano, que só esperam um vento que as ajude.
nove e dezasseis da noite, a selecção de futebol joga, uma merda de jogo, melhor voltar ao trabalho, foda-se, deixei a minha Pen Drive lá em cima no sótão, preciso dela para apagar os indícios, como é que eu vou lá agora? Calma, indo apenas, degrau a degrau, sem excitações, podem estar a dormir, começo a subir as escadas, ouço um som estranho de cortar a respiração, arranham a porta de madeira, ou tentam mordê-la com aqueles dentes salientes, volto a descer a escada e armo-me de uma vassoura para os manter à distância, só preciso dar três passos no sótão para reaver a Pen Drive, deixei-a em cima de uma pilha de livros ao lado da jaula, devo conseguir, tenho de conseguir, não os devia ter deixado à solta, as coisas andavam mais controladas quando eles eram mantidos na jaula, confinados e anestesiados, chega de lamentos, é hora de agir, encosto-me á porta de madeira, ouço o arfar de um deles, deve estar mesmo encostado á porta para ouvir a minha própria respiração, caraças! Rodo a maçaneta e entreabro a porta, cinco centímetros, sete, não avisto nada, adianto o cabo da vassoura, num ápice, sinto uma força enorme a empurrar a porta, aguento-a meio fechada enquanto surge na fresta o rosto do chimpanzé, com os olhos vermelhos e os dentes aguçados a escorrerem saliva, num reflexo tento acertar-lhe com a vassoura, ele sente a ameaça, roda ligeiramente a cabeça e fecha a boca sobre o cabo de madeira, conseguindo prendê-lo com os dentes entre algumas lascas arrancadas, aquilo dá-me tempo porque sinto que há outro atrás da porta, empurro a vassoura e consigo fechá-la, rodo a chave e encosto-me a ela, exausto, desço novamente as escadas, tenho de me acalmar, se eu estiver calmo, eles também ficam, sento-me no tapete do quarto na posição de flor-de-lótus e cumpro uns exercícios respiratórios, respiro como me ensinaram no curso, sinto as batidas cardíacas desacelerarem, mas pode não chegar, bato uma pívia e tomo uns calmantes, deve ser suficiente, subo novamente as escadas, não ouço ruídos estranhos, rodo a maçaneta e entro, os três chimpanzés estão quietos, olham-me com indiferença, um deles tem a cabeça entre as mãos como um dos três macacos alegóricos, o sótão está uma confusão, livros e folhas rasgadas, a estante no chão, restos de comida e excrementos em cima das lombadas, recupero a Pen Drive, escapara incólume ao Armagedão dos símios, penso em retirar-me, mas primeiro fecho-os na jaula grande a um canto do sótão escuro, verifico as correntes e o cadeado, tenho de lhes trazer comida e água e limpar aquela porcaria, mas preciso de trabalhar um pouco, a Pen Drive tem na memória as únicas folhas que me interessam de todos aqueles livros de contabilidade, tenho de esconder aquela informação antes de poder exibir a catástrofe. Abençoados macaquinhos no sótão!

Comunicado

Vinte e cinco presos evadidos da prisão. A polícia política foi no seu encalço, e capturou-os a todos. Recambiou quatro para as celas, e fuzilou os restantes no meio do pinhal, deixando-os lá, numa pirâmide de corpos, à mercê dos predadores. Quatro inimigos do regime foram capturados - rezava o comunicado oficial - os outros continuam a monte.

A desarte da fuga

Amílcar dos Santos Neves, que todos os conhecidos conhecem apenas pelo seu primeiro nome, tem um mantra pessoal. Não é em sânscrito ou tibetano, nem fala de flores-de-lótus ou despertares de luz. O seu mantra é elementar: "O-A-míl-car-des-pe-diu-se". Entoa-o interiormente vezes sem conta no encadear de rotinas vazias de um trabalho mecânico que abomina. Consegue imaginá-lo dito em voz alta pelos seus colegas, na hora do café ou na do prego para o caixão. O Amílcar despediu-se! Mas o Amílcar não se despede nunca, porque precisa ou porque não é capaz. O seu mantra continua a acompanhá-lo, até à hora da reforma, ou até atingir o Nirvana.

Regresso

"Vamos apanhar um pouco de ar" disse o patriarca no final do almoço de Domingo, almoço não, almoçarada, pança cheia a sacolejar, a comida já em digestão acelerada pelos digestivos a volatizar-se em peidos rebeldes muito antes do bolo alimentar estar convertido em bola de bosta. Enfiaram-se todos no carro e rumaram ao cais marinho do porto. Era Inverno e, apesar do Sol débil e da aragem fria, havia por lá muitos carros parados. Achou um lugar e parou o carro na beira do cais, abriu-se uma nesga de vidro para arejar o ambiente e prepararam-se para uma tarde de regresso à vida pura e às benesses da natureza. Ele puxou do jornal desportivo, levantou-o como um cenário de teatro e começou a ler, a mulher, ao lado, hesitou entre uma sorna e uma revista feminina e acabou por se entreter com o croché. No banco de trás, os três filhos, anularam a seca de estarem diante do estúpido mar com os seus estúpidos barcos e puxaram dos telemóveis e começaram todos a jogar. Ao fim de umas horas, os pais passavam pelas brasas no banco da frente, enquanto os filhos escalavam níveis nos seus jogos infindáveis. O patriarca, por fim, abriu os olhos de par em par e descobriu que um homem com uma cana de pesca se interpusera entre ele e o mar, o que lhe pareceu uma ofensa pessoal grave. "Vamos embora! - rugiu com uma autoridade mosaica - Já ninguém respeita ninguém nos dias de hoje!".

Novembro / Nueve Hembras

Nove ninfas, filhas da Memória, estavam guardadas para quem as procurasse, todas elas eram voláteis e leves, conduzindo os artistas na esteira da sua música ou das suas vozes, a resplandecer no brilho das estrelas e na beleza das flores. Iravam-se quando alguém as tentava igualar, mas mais iradas ficavam se algum mortal se mostrava indiferente à sua presença. Numa manhã de Maio, quando dançavam entre as faias do monte Hélicon encontraram um jovem guerreiro que as observava sem expressão, sentado sobre o escudo. Concentraram nele as suas artes mágicas, e tentaram que ele sentisse emoções, que dançasse ou sentisse a doçura dos versos e, quando isso falhou, procuraram instilar desejo nas suas veias e visões edénicas na sua alma. A fúria culminou a vanidade do seu esforço e metamorfosearam-no. O guerreiro, já morto em cima do seu escudo, foi transformado num loureiro, a mesma madeira com que fora afeiçoado o cabo da lança que lhe trespassara o ventre.

"Just talking over cigarettes and drinking coffee" (Otis)

1
Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a silhueta ovóide dos seus cabelos castanhos soltos numa cascata de caracóis, sentou-se casualmente à sua beira, ela quase não reagiu à sua presença, o cigarro consumindo-se sozinho entre dois dedos muito brancos e o olhar escorrendo sobre o exterior como a chuva nas vidraças do café, afagou-lhe a mão espalmada sobre o tampo de mármore, conseguindo que ela olhasse para si, de soslaio, quase incomodada pela sua intrusão, puxou de uma passa, uma luz baça assomou às suas pupilas e debitou um sorriso frouxo, e ficaram assim por largos minutos, ele esfregando-lhe a mão fria enquanto ela olhava a chuva, trouxeram-lhe a aguardente habitual, que ele bebeu timidamente como os pardais que debicam a água na orla dos charcos.
- Olá! - Saudou, arrancando do fundo as palavras - Nós nunca nos falamos, mas vejo-a sempre aqui sentada. Chamo-me Jorge...

2
Quando entrou no café ao lado da Gare, descobriu de imediato a sua figura, a silhueta ovóide dos seus cabelos castanhos soltos numa cascata de caracóis, sentou-se casualmente à sua beira, ela encostou-se a ele num refúgio cúmplice, não tens aparecido por aqui, disse-lhe, venho cá todos os dias, ela passou os dedos da mão pela sua boca, para sossegar as palavras e ficaram em silêncio, ouvindo a chuva que humedecia as vozes e os sons do café, acendeu-lhe um cigarro, a chama do isqueiro agitou as formas pardas e as sombras e ele espevitou e sentiu-se quase coagido a falar, impusera-se a si mesmo falar com ela, ter a conversa das conversas - quando começamos os dois, tinha a esperança de que as coisas progredissem, de deixarmos de ser apenas dois estranhos que conseguem um pouco de sexo quando calha avistarem-se num café, já estivemos na casa um do outro, sabemos de muita coisa...podíamos experimentar viver uns dias ou umas semanas juntos. Ela levantou-se de um salto, como se estivesse a ser anelada por uma anaconda, e pousou no outro lado da mesa, a cabeça baixa com o queixo quase encostado ao tampo, os seus olhos estavam marcados por olheiras fundas, de noites mal dormidas e ressacas mal curadas, uma gotícula de saliva perlava-lhe o canto do lábio. Sabia que virias com essa conversa porque és o macho dominante, mas já sabes o que penso sobre isso, eu preciso do meu espaço, do meu ninho na minha árvore, sufoco se tenho alguém a andar por perto a travar-me os movimentos. Tu és um recanto macio do meu mundo, uma cama de feno onde gosto de repousar as penas, mas nada mais. Percebes o que quero dizer? Não vivo numa mansão, mas é o meu ninho, dali vejo toda a cidade e antevejo os predadores que tentam aproximar-se, as serpentes e os lagartos ovíparos, defendo-me deles ou bato asas para lhes escapar, e é isso que estou a fazer neste momento. Não voltarei tão cedo a este café! Levantou-se, a sua expressão estava menos tensa, como se a tivessem libertado dum peso. Desapareceu do seu ângulo de visão e ele permaneceu sentado, a emburrar mas, pouco depois, correu atrás dela até ao exterior a ver se a apanhava. Na rua, apenas a noite, varreu com o olhar o passeio de um lado e do outro, o alcatrão, o céu escuro de onde a chuva caía sobre ele como uma esteira líquida. Quando voltou ao café, o barman chamou-o.
- Não a encontrou? Se quiser deixar recado...ela vem cá muita vez!
- Ela esqueceu-se de uma coisa em cima do banco, se a vir, diga que eu guardo para ela - e entreabrindo as mãos, mostrou-lhe um ovo muito branco, ainda palpitando de calor.

Clivagem

- Pareces desanimado...tens o ego em baixo?
- Não, o meu ego está de licença, foi passar férias a Trindade e Tobego.

História

Numa manhã fresca de Outono, o jovem seminarista descobriu algo de excepcional enquanto meditava sobre as virtudes teologais. Estava sentado numa degrau da escadaria que levava ao antigo Mosteiro no topo do monte onde funcionava o Seminário. Era uma escadaria dupla com um corrimão de pedra no eixo, desde sempre as pessoas subiam por uma banda e desciam por outra, costume fixado pelo sentido da Via Crucis que aí se celebrava. O que o seminarista constatou foi isto: a escadaria de ambos os lados tinha a mesma idade (verificara a inscrição no primeiro degrau de cada lado), mas os degraus de pedra por onde se subia estavam muito mais gastos do que os degraus no lado oposto. A sua piedosa conclusão foi a seguinte: as pessoas quando subiam iam carregadas com o peso dos seus pecados e com a contaminação subtil do mundo profano mas, lá em cima, a confissão religiosa e os ritos da santa missa tornavam-nos mais leves, o que explicava o menor desgaste dos degraus, visível a olho nu ao fim de centenas de anos
Entusiasmado com a descoberta, revelou-a a um dos seus professores, pedindo-lhe encarecidamente que ele o guiasse numa pequena tese que pensava escrever sobre o tema. O professor não estava tão seguro dessas premissas e declarou-o ao jovem.
- Costuma dizer-se que, a descer, todos os santos ajudam, e talvez as pessoas subissem carregadas com os bens que o Mosteiro lhes cobrava pelo foro...são trezentos e quarenta e oito degraus para galgar com galinhas e cereais, sal e pão.
- Poderei levar isso em linha de conta...
- Então junte-lhe mais este dado, inestimável para quem não tenha a sua percepção do sagrado: este era um Mosteiro de monjas, um Mosteiro no feminino. A partir do século XVII e até à dissolução das ordens religiosas funcionou como um prostíbulo da nobreza e dos burgueses ricos deste país. Gente desse calibre e seus protegidos subiam a escadaria para conhecer carnalmente as monjas. Haver uma escadaria mais gasta do que a outra poderá parecer a um espírito laico, que se deve à circunstância dessa gente libertar no Mosteiro a sua semente vital.

Tonterias

“Não tenho palavras”, declarou ao editor, para justificar o atraso na entrega do original prometido.


Entrou nessa de saber o futuro, mas não gostou da experiência. Esperava notícias melhores. Em casa, com um estilete afiado, tentou retocar algumas linhas da mão antes de consultar novamente a quiromante.


Pandora abriu a caixa e libertou tudo o que havia de mau. No final, quando já desesperava, saiu lá de dentro um génio verde que se uniu a ela e a deixou de esperanças.


Sempre tivera o costume de dormir de olhos abertos. Faleceu numa manhã de Sábado, e a família só descobriu o óbito quatro dias depois.


“Também foi bom para ti?” – Perguntou ela à amiga, depois da troca de vibradores.


Ela decidiu ir trabalhar como mulher-a-dias para um Seminário, por achar que, por ali, devia haver muito sémen mal parado.


"É altura de acabarmos o nosso romance". O escritor escutou as últimas palavras da heroína principal e colocou o "Fim" no dito do romance.


Lembrou-se que nos filmes românticos, a pessoa amada nunca chega a partir no avião: desce correndo pela escadaria com rodas ou se acha no meio da pista depois do avião descolar. Teimou em ficar olhando o avião partir, sabendo que a vida não era um filme.


Para disfarçar a mancha de sangue do crime, tingiu o passeio com Ketchup.


(para actualização
desta página)

Portão do céu

Recebeu um último aperto de mão, este do guarda de serviço ao portão, deu três passos tímidos e imobilizou-se no pátio. Atrás de si a mole branca dos muros da penitenciária. Aconchegou a si os poucos haveres que transportava, o casaco no braço, a carteira com algum dinheiro em Euros (entrara com escudos e tinham-no trocado), a maleta de James Bond com alguns livros e artigos de higiene pessoal. Olhou em volta. Ninguém! O irmão disse que o ia esperar à saída, pedira-lhe que estivesse lá antes de si, diante do portão. Devia ter tido um furo...ele não lhe ia fazer uma desfeita daquelas. Sem saber o que fazer, avistou o toldo vermelho de um café do outro lado da rua, e achou que seria uma boa opção. Podia haver uma mesa junto ao vidro e, se o irmão chegasse, correria à porta a chamá-lo. Atravessou a rua e instalou-se a uma mesa. Estremeceu ao sentir-se envolvido pelos sons e cheiros banais mas, simultaneamente, épicos, de um café, coisas vagas e imemoriais, o tinir de chávenas, o aroma, o enfermo resfolegar de uma arca de gelados, o papaguear de pessoas à volta de mesas com os jornais abertos a excitar opiniões. Chamou o homem por detrás do balcão e este aproximou-se com má-cara. Pediu-lhe uma torrada e um galão (ás três da tarde), para matar saudades. Enquanto esperava, tirou um guardanapo de papel e dobrou pontas até armar um pequeno barco. Abstraía-se, tentava não pensar nas coisas. O irmão disse que o ajudava. O irmão ficara com aquela que fora a sua mulher, criara o filho que ele gerara e juntara-lhe mais dois para compor o ramalhete, mas prometeu que o ajudaria nos primeiros tempos. Quando saíres, é como se tivesses passado uma borracha em tudo o que ficou para trás! Dissera-lhe o irmão, entre promessas vagas. Só precisava de um lugar para ficar por algum tempo, e um trabalho qualquer para arrancar, que depois arranjava outro que fosse mais do seu agrado.
Quando lhe colocaram o galão e a torrada na mesa, fez uma pausa respeitosa como se pronunciasse uma oração, em seguida, tirou uma migalha ensopada em manteiga do centro da torrada, colocou-a na boca e sentiu-a desfazer-se. Juntou-lhe uma colher cheia de líquido quente do galão, e sorriu de felicidade. Comeu o seu lanche fora-de-horas, recostou-se na cadeira e continuou de sentinela ao exterior. Faltava-lhe, sim, faltava um cigarro, cravou-o a um homem sentado na mesa mais ao pé, cravou-lhe também lume, e voltou a sentar-se no mesmo lugar. Fumou o cigarro, depois foi buscar um dos jornais de cima da arca e nem olhou para a data, para ele, todos aqueles jornais eram do próprio dia, leu e releu as páginas, trocou-o por uma revista cor-de-rosa, enfastiou-se dos sorrisos empalhados e do oco glamour e abandonou a leitura. E o irmão que não chegava! Não queria telefonar-lhe, impor-se, como se o irmão já não lhe tivesse feito muitos favores durante aqueles anos de reclusão. Talvez devesse ir até lá...não queria ver já o filho e ex-mulher porque essas coisas precisam de tempo, mas podia ir ao comunicador do portão e pedir para falar com ele. No fim de contas, a casa não ficava assim tão longe, talvez hora e meia de caminhada, chegaria lá de noite porque anoitecia cedo, e se o irmão tivesse um canto na garagem onde pudesse estender uma manta ou um saco-cama para dormir, o dia ficava salvo e, de manhã, começariam de fresco.
Levantou-se para sair, ouviu um tinir abafado, mas não ligou importância. Chegou-se ao pé da caixa registadora e puxou de um nota de vinte euros (devia chegar, achava). O homem segurou-lhe na nota. Em vez de fazer a conta, contornou o balcão e aproximou-se da mesa onde estivera sentado. Pareceu-lhe que verificava a louça e os talheres. O homem chamou-o, com pretensa discrição.
- O que fez à colher comprida do galão? - Perguntou, num murmúrio.
Sentiu uma ira surda subir dentro de si, a queimar, sentiu ganas de esmurrar aquele homem estúpido, de lhe esmagar a porra da cabeça. Soltou um gemido aterrador, tentando controlá-la. Levou as mãos à cara e esfregou-a como se estivesse a lavá-la com água. Quando abriu os olhos, o homenzinho tinha recuado dois passos, com os lábios a tremer. A fúria deu lugar ao desprezo. Ajoelhou-se, perscrutou o chão e descobriu a colher debaixo da cadeira. Entregou-a ao seu proprietário, que correu para a caixa registadora, fez a operação e correu de volta para lhe entregar o talão e o troco.
Quando se viu na rua, sentiu-se cansado e vazio, como se lhe tivessem extraído as entranhas. O irmão não viria. Tudo o que supusera e imaginara nos últimos anos na prisão tinha-se desmoronado como um castelo de cartas sob o peso de uma colher de metal.
A prisão continuava diante de si, ia carregá-la o resto da vida. Aproximou-se das escadas, descobriu um recanto junto ao muro que a luz do holofote não alcançava, e sentou-se sobre o casaco. Um bom sítio para ler enquanto houvesse luz, e para dormir também. Estava certo de que o seu sono não estranharia o lugar.

Transferência

A jovem universitária, esguia e de cabelos curtos escorridos, voltou a verificar que não havia ninguém por perto antes de retomar as explicações ao avô, um velhote atarracado de olhar ansioso.
- Noutro dia, quando lhe abri a conta no Banco, pedi este cartão Multibanco que o avô pode usar para vir buscar dinheiro. O senhor sabe ler e isto é muito simples, todas as instruções lhe são dadas - e exemplificou - aqui, quando pedem o código, o avô coloca os quatro primeiro algarismos: 1-2-3-4. É fácil de fixar, não o escreva! Se o avô se enganar, ele pede outra vez. Depois pergunta o que você quer fazer...levantamentos...aqui, escolhe a quantia, carrega e o dinheiro aparece, você tira o dinheiro e o cartão. Agora não vou levantar, é só para você ver. Acha que consegue?
O ancião pegou no cartão como se ele estivesse incandescente.
- O meu dinheiro está todo dentro desta caixa?
- Está! Está melhor aí do que enfiado no colchão ou no bule do louceiro. Você vive sozinho e tem de ter cuidado...
- E quem é que o pôs lá? A senhora que nos atendeu ou o homem de gravata que cheirava a perfume de mulher?
- Foi um deles, avô, mas isso não interessa, o senhor quer tentar usar o cartão?
- Não há uma maneira mais fácil? Tu estudas fora e isto é fácil para ti, mas eu já tenho oitenta e três mil quilómetros...
- Está bem, avô, esqueçamos o cartão. Sei que não deve ser fácil, e é a sua primeira conta. Se você precisar de dinheiro ou lhe quiser juntar mais, vai lá dentro ao balcão. Se precisar de uma ajuda, liga à mãe ou a mim.
- Está bem, eu agradeço muito.
A neta levou-o ao carro e deixou-o à porta de casa, umas ruas mais adiante. Agradeceu novamente, com o seu coração gasto extravasando de ternura pela neta adulta. Entrou em casa. Fazia-se tarde, os dias eram breves e anoitecia já. Comeu umas sopas de café com pão, acomodou o estômago com uma maçã, bebeu o seu copinho de vinho da ordem e decidiu deitar-se. Sentia-se cansado, um pouco nervoso ainda, com aquela história do Banco e do cartão. Teve um sono alvoraçado, ao contrário do que era hábito. Sonhou muito e, a meio da noite, acordou num sobressalto. Sentou-se na cama de olhos muito abertos. Como era estúpido! Ainda não tinha pensado nisso: a Caixa Multibanco tinha uma gaveta ao lado, se alguém a abrisse, conseguia chegar ao dinheiro, o seu dinheiro, que estava ali todo à mão de semear. Tinha de ver melhor aquela gaveta!
Levantou-se e vestiu-se, a preceito, sempre a preceito. Nunca fora capaz de sair de casa com um arremedo de roupa. As suas calças listadas, a camisa impecável que tirou do cabide, o colete lustroso, o par de sapatos de sair à rua que estava sempre a postos e à distância de um braço por debaixo do roupeiro de pés. Verificou as chaves e a carteira, encasquetou o boné cinzento por causa da friagem, e saiu. No seu andar vagaroso, fez o percurso inverso até ao Banco, por ruas mal iluminadas. Não viu ninguém, tão tardia e fria era a hora. Quando chegou junto ao Banco, estranhou a agitação. Um empilhador estava parado em frente à Caixa Multibanco com os faróis apontados a esta. Um homem empoleirado na empena espalhava spray de espuma sobre a sirene do alarme. A uma ordem de um terceiro elemento, o empilhador avançou com força e cravou os garfos na parede, arrancando a Caixa com grande estrondo.
Aproximou-se do que estava a coordenar as operações, envoltos ambos por uma nuvem de caliça e pelo grito abafado do alarme.
- Estão a roubar o dinheiro? - Perguntou
- Não, avozinho - gritou o outro, depois de se refazer do susto - vamos levá-lo para outro Banco!
- Ainda bem, ainda bem -murmurou, virando as costas à cena e tomando o caminho de casa - este Banco nunca me inspirou confiança...

O mentor

Desenho anatómico executado por Leonardo Da Vinci (Royal Library, Castelo de Windsor)                 - Acorda, meu pequeno! Vais c...