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Maria

Maria gosta de sorrir e Manuel apaixona-se pelo seu sorriso. Beijam-se, namoram, zangam-se, partem sozinhos para outras paragens. Reencontram-se anos depois, beijam-se e namoram anos depois. Mas Maria já não sorri, o seu sorriso foi devorado pelas rugas que a vida lhe desenhou no rosto, pelas cicatrizes que ela fez nascer nos seus próprios pulsos. Manuel já não se sente apaixonado, e desaparece como um fugitivo pela madrugada deixando o seu corpo nos lençóis mornos, a levar de braçado o casaco dobrado e a recordação do sorriso desaparecido.



esqueSer


- Vou-te esquecer! – garantiu-lhe ele com energia, com o coração ávido de um novo dia e de uma nova vida.
Ela assentiu em silêncio, enrolando uma madeixa de cabelos com os dedos acobreados da mão num gesto tranquilo e distante, muito distante.
Ele quis esquecê-la.
Apagá-la do universo, apagá-la de si como se esfregasse uma borracha sobre um esquisso mal feito.
Mas ela mantinha-se por perto, o cheiro dos seus cabelos no ar carregado e fragrante que precede a chuva, o tremeluzir dos seus olhos na Estrela D’Alva que parecia acenar-lhe do outro lado dos vidros orvalhados das janelas, o prazer arquejante da sua respiração nos sons em surdina que se enrolavam e estremeciam por dentro do silêncio.
- Vou-te esquecer! – prometia ainda a si mesmo, afundando o rosto no travesseiro da cama vazia, debatendo-se entre a felicidade e a dor lancinante que a recordação dela incandescia em si.


Fake nus

Não acreditem nos Fake Nus, pela vossa saúde mental! Contemplam-nos e parecem-vos autênticos, reais, carnudos e carnais, mas não, é falsa a luminosa cor da sua pele, a sua fragrância em flor, o toque pungente de sua pele, a vertigem de a sentir, beijar e acariciar. São nus ilusórios, efeitos especiais, hologramas hormonais, alucinações induzidas pela vossa sede e desejo. Abandonem os Fake Nus, assumam a árida verdade da vossa solidão, impludam na crua miséria que carregam sem desculpas nem paliativos.


O fogo da raposa

     Quando entrou no café Terminal, relanceou o olhar pelos frequentadores apenas para se certificar de que a amante ainda não havia chegado. Com o silvo de uma automotora como canto de coro, acomodou-se a uma mesa e pediu uma cerveja, extraindo um cigarro do maço com um toque suave deste no canto da mesa. Acendeu-o, passou em revista os títulos de capa de um jornal velho de uma semana e depois perdeu o interesse por ele quando Irene entrou. O nome Irene sempre lhe soou como algo de imponderável, etéreo, como o Fogo-de-santelmo ou as auroras boreais, e Irene era um pouco assim, etérea no seu modo desprendido de andar e de viver e arriscaria mesmo dizer que ela fosforescia em torno às coisas comezinhas como se elas não existissem ou não tivessem importância alguma, beijou-a antes dela se sentar ao seu lado, arrastando uma cadeira para junto dele e segurando-se ao seu braço com energia. 
     – Ouviste falar no Fim do Mundo de quarta-feira? – murmurou e sem lhe dar uma chance de falar, prosseguiu – foi o meu astrologozinho quem me falou nisso, quarta-feira, dia de Santo Estêvão, vai cair um asteróide aguçado na Terra, e um dia ou dois depois, o fogo do interior da Terra vai misturar-se com as águas dos oceanos, gerando nuvens tóxicas que vão fazer cair sobre todos nós chuva contendo ácido sulfúrico que acabará com a nossa raça de uma só vez.
     - Outra vez o astrólogo… tenho algumas dúvidas. Quarta-Feira em que fuso horário? Aqui, na Nova Zelândia ou no Brasil? E essas chuvas, vão galgar os Himalaias e vão também derramar a sua água tóxica sobre o Saara e o Atacama?
     - Não sejas mesquinho, sacrificas uma epopeia ao fogo só porque encontras nela um verso imperfeito? Estamos a falar do universo, do Ragnarok, das Sete Trombetas, do Fim dos Tempos – não do discurso do ministro da Educação ou das cotações das Bolsas. Segue o meu pensamento: dia de Santo Estêvão, em seguida mais um ou dois dias para darmos contas das nossas almas e depois caput, fim, the end, o grand finale. Não há créditos depois disso, meu amor, nem easter eggs, acaba tudo, apaga-se a luz e caímos no vórtice.
     Ele pediu-lhe um momento de pausa com a mão levantada, bebeu o resto da cerveja e levou o cigarro aos lábios.
     - Tenho de ir trabalhar – lembrou-lhe – como é que fazemos desta vez? Outra festa de Fim do Mundo com fantasias de zombies ou preferes uma coisa mais íntima?
     - Plano B, comprei umas coisas novas pela net, até vais ficar abismado quando vires. Quarta-feira vamos tratar das nossas almas.
     - Podíamos antecipar para hoje – sugeriu ele, repentinamente interessado – adiantávamos a chuva inaudita.
     - Hoje não, o meu marido vai a um talk-show falar de astrologia e tenho de o acompanhar. Fica para o dia de Santo Estêvão, ele fechado no bunker a rezar para que o mundo acabe e nós dois num cenário de apocalipse com roupas de cabedal e instrumentos de tortura.
     Despediu-se dela com um beijo e regressou à rua, um pouco intranquilo e aturdido. Irene era mesmo assim, tanto estava junto a ele, pungente e ardente, como no instante seguinte ondulava e dançava nos céus com as cores vibrantes das auroras boreais. Mas sentia-se o mais feliz dos mortais por ter um céu para admirar e desejar.

sonho

Pediu um sonho emprestado, coisa mínima, um espinho de silva cravado no dedo de um eremita melancólico, o abrir solitário e necessário de uma flor nas horas primeiras e nebulosas de uma manhã outonal – “trago-to já!” – afiançou a quem o emprestara, e lá arribou ele com o sonho emprestado a adornar-lhe a fronte como uma imperial coroa de louros. E as horas passaram e os dias e as semanas e já não se sentia capaz de devolver o sonho emprestado, tão precioso ele se tornara em meio a tanta aridez e a tão cavado silêncio, dormia no seu aconchego e despertava com ele no sorriso que as suas feições esboçavam. Era feliz com uma coisa tão mínima como até ali fora infeliz, miserável mesmo, pela gigantez do mundo e dos incessantes sofrimentos que ele lhe trazia. Era inacreditável como uma coisa tão pequena fazia face a uma imensidade de angústias e humilhações. Mas pobre como era, não tinha como tentar comprar o sonho que pedira emprestado e como o mantivesse com ele ao contrário do que prometera, o dono do sonho veio no seu encalço, fez-se acompanhar de um polícia e de um oficial de justiça e penetraram no sótão de prédio abandonado e abriram caminho por aquele tugúrio de lixo acumulado, colheres ferrugentas e seringas partidas até chegarem até ele, mas já não o encontraram com vida. Estava estendido no chão e uma mulher de cabelos longos e crespos chorava à sua beira de uma forma tão insana que parecia um uivo. O dono do sonho procurou-o entre os seus haveres (palavra hiperbólica) mas não o achou e amaldiçoou o dia em que confiara naquele desgraçado, o polícia perguntou à mulher em pranto mas ela não sabia de sonho algum e não se dando por satisfeitos repetiram a pergunta a todos quantos encontraram naquele prédio e a resposta foi a mesma. E lá se retiraram todos, enojados de estarem ali, e o dono do sonho já resignado de não o voltar a ver e tão absorto estava na sua própria perda e prejuízo que não notou que o morto ostentava um sorriso tranquilo de bonomia, pouco adequado a quem morria num lugar daqueles e com um corpo de ruínas como o seu.


Levantar-se da cama e olhar para o exterior por entre as barras de ferro, exigia dele um esforço e um dispêndio de energia que eram quase excessivos para ele. Dentro das vozes e sons em surdina - baques, sons metálicos de lata, a urina e ser vertida na água de uma sanita, alhures - convencia-se por fim que tinha de se levantar, punha-se de pé, fazia a sua higiene e comia as papas que lhe entregavam por uma abertura na porta da cela. Os seus fantasmas falavam-lhe de histórias de ontem enquanto comia as papas a custo. Quando uma hora depois, um guarda esmurrou a porta para ele saber que as fechaduras iam ser destrancadas para eles irem para o pátio, um dos fantasmas ainda permanecia com ele, maior em estatura e com uma cabeça enorme com a forma de uma abóbora reclinada sobre o seu ombro. Tentou afastá-lo, ao seu sonho abandonado, quando o trinco eléctrico da porta se destrancou. Saiu depressa para o corredor, juntando-se à fila de prisioneiros que caminhavam ordeiramente sob a vigilância de guardas fortemente armados. Outro fantasma o esperava ao fundo do corredor, encostado à esquina da parede, uma mulher de longos cabelos e de faces muito brancas iluminadas por rosáceas rubras de sangue e ao passar por ela, sentiu que ela secundava os seus passos - Porque me mataste? - perguntou-lhe o fantasma. Apressou o passo em direcção ao rectângulo de luz da porta que dava para o pátio ensolarado, limiar entre domínios e a dourada chance para se libertar dos seus fantasmas e no instante em que ia abandonar a penumbra carregada do interior da prisão, o fantasma ainda lhe perguntou: Estavas cansado de ser feliz?

fractural

    Na volta da estrada de alcatrão, quando esta desce e descreve uma curva apertada que parece marcar a fronteira entre um mundo quase suburbano de casas velhas com moradores de expressão e olhar pálido e o mundo resolutamente natural de brenhas, arvoredo e fragas da terra que esquece a cidade, o cimento e as pessoas amassadas nele, nessa curva e nessa volta da estrada havia apenas uma casa abeirada dela onde vivia uma velha mulher que cultivava tulipas no jardim e ervas aromáticas em vasinhos dependurados das janelas. A mulher de cabelos brancos que se adivinhavam longos mas apanhados no alto da cabeça por um alegre lenço colorido com cornucópias e margaridas estampadas cuidava do seu jardim e das suas ervas ou cuidava da sua casa, mantendo-a irrepreensível para a visita dos filhos e dos netos, que haviam rareado cada vez mais até quase não ocorrerem, mas isso não tirara o seu esmero e a sua dedicação à casa onde vivia. Uma ou duas vezes por semana passava por ali o carteiro, não era apenas uma viatura que passava, como os carros, os camiões e as motas, era uma pessoa numa motorizada roufenha cujo motor fazia um barulho enorme e que deixava no ar um odor malcheiroso a combustível de mistura. Mas a velha senhora não se importava porque se alegrava quando o via passar, porque ele, um homem bonacheirão de roupas gastas e capacete desusado com viseira de óculos castanhos, cumprimentava-a sempre com um alegre aceno, embora nunca tivesse de parar ao pé da sua caixa de correio, porque ninguém lhe escrevia. Um dado dia, ou numa dada semana, a velha senhora notou que o carteiro não passara por ali, nem nessa semana, nem nas semanas seguintes ou meses. Deixara de passar, e ninguém sequer tomara o seu lugar a distribuir o correio e a velha senhora sentiu uma ponta de tristeza, uma suave mácula, como a primeira fímbria de castanho outonal na folha de um plátano. A senhora não tinha a quem perguntar pelo carteiro, nem sabia como, pelo que continuou a cuidar da sua casa e do seu jardim e a olhar interrogativamente os pardais que devoravam as migalhas que lhes deixava no empedrado do jardim. «Que esteja bem, é só o que peço!» - murmurava para si mesma quando os pardais alçavam voo, ou quando pensava no carteiro na hora teimosa em que o sono tardava à noite quando se recolhia aos seus perfumados lençóis de linho. Se ainda a visitassem os filhos, cada vez mais distantes, e talvez reconhecessem nas palavras com que desenharia o retrato do carteiro, o homem bonacheirão e bondoso que um dia distribuíra correio e que com a velha senhora os trouxera à existência.

saudade



Imagem do filme Le Voyage dans la Lune, de George Méliès (1902)

arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento / De todo o meu inútil, a causa / De minha intolerável permanência! Tu és / Uma contrafação da aurora!»(In «O Amor dos Homens» de Vinucius de Moraes)


Ao papel me confesso: amo! Ao ecrã de luz repito: amo! Um amor sofrido, estropiado, desprezado, marchetado com pérolas de lágrimas e botões da cor do sangue, difícil como só o verdadeiro e definitivo amor consegue ser. O amor que sinto palpita-me e doí-me no peito como uma ave desasada aprisionada no meio das costelas. O amor que sinto mergulha-me em noites de insónia sacudida por gritos de desespero e pranto irreprimível, o amor que me toma torna-me o mais solitário dos homens na mais miserável das existências. Uma evidência me assalta, tímida e constrangida: se este amor sobrepuja esta vida que nada é, o amor que me norteia os dias brilhará ainda no horizonte como o planeta Vénus quando as últimas réstias de vida se evolarem das minha narinas.



a ficção

A ficção fora o passo que tivera de dar para se explicar de modo mais seguro, antes bastava-lhe dizer - atrasei-me porque estive preso num engarrafamento estúpido nos semáforos da avenida - mas dizer isso agora parecia a ele próprio implausível e insuficiente, ninguém iria acreditar numa coisa em que ele próprio não depositava muita confiança e por isso tinha de acrescentar, desenvolver, adornar, complexificar, não eram semáforos, era uma passadeira onde uma mulher com um bebé de colo o mandara parar para lhe perguntar se achava o filho parecido com ela porque desconfiava que o haviam trocado na maternidade, ou um vendedor de castanhas que fizera parar o trânsito porque uma cartucho de castanhas quentes lhe caíra das mãos e as ditas haviam rolado pelo asfalto e poderiam furar como tições coruscantes a borracha dos pneus dos carros, era um bando de pássaros castanhos pintalgados de azul que fizera os automobilistas pararem as viaturas para saciarem as suas pupilas sedentas de cor ou uma troupe de ballet que atravessara a rua a saltitar e a rodopiar sobre as aceradas pontas dos pés. A ficção fora-se acentuando à medida que percebeu que ela mudara a vida das outras pessoas, a maneira como o olhavam, a expressão dos rostos e a brandura das palavras, e a ficção cresceu e ganhou vida própria e apossou-se dele, que um dia nascia homem de família cônscio da sua história pessoal e das memórias da infância e juventude, outro uma mulher sensual e felina ou ainda uma criança com medo a perscrutar a atmosfera do quarto à procura dos monstros dos seus pesadelos noturnos. Ele, o narrador e protagonista das suas próprias histórias, era a primeira manifestação da realidade imaginada, enérgico no ritmo musculado do seu corpo luzidio de alazão a martelar o alcatrão das avenidas com os seus cascos, ou temeroso no cuidado em que punha ao caminhar entre as pessoas a tentar não as esmagar ou aleijar com o seu corpo disforme de gigante desastrado.

Carne e pedra


«O amor não é feito de palavras / o amor é uma oferenda» (Virgílio)


     A madrugada nasceu tensa e prenhe de perigos e ameaças. Pela noite a coroa de chamas do Vesúvio produzira um espectral halo de luz que convencera os últimos cépticos que era imperioso partir de Pompeia antes que o vulcão a sepultasse. Enquanto o sol subia no horizonte, explosões violentas abalaram a terra e os ares enquanto pedaços gigantes de rocha foram expelidos da cratera, caindo a grande distância, já próximo da cidade. No tumulto de gente que arrebanhava bens e filhos para sair da cidade, Icário procurou Helena, num último e derradeiro esforço para a convencer a partir com os outros. Encontrou-a no jardim do santuário, serena como uma estátua, o semblante iluminado pelos reflexos de luz no tanque da deusa. Ela sentiu a sua presença ao seu lado, a sua figura de ombros largos e estendidos, e a sua mão grande de dedos alongados pousada no seu ombro nu num misto de afago e muda súplica. Ela continuou a fixar os olhos na imagem de Reia, Reia mãe e dadora de vida esculpida na própria rocha do lugar, de amplos e túmidos seios e um sexo esculpido com minúcia de onde corria a água da fonte. O que impressionava os neófitos e adoradores era que, dos braços de Reia, apontados ao chão de ambos os lados da sua cintura, brotavam raízes que mergulhavam no solo, não raízes talhadas na pedra como toda a figura, mas raízes autênticas, enervadas de saliências e protuberâncias, vigorosas de seiva e de vida. Helena recolheu um pouco de água do tanque com as mãos em concha e derramou-a sobre os pés da deusa, humilde e devota. O seu gesto demonstrou a Icário que todos os argumentos seriam excessivos, da mesma forma que não lhe passou pela cabeça subir ao telhado ou fugir dali pela estrada empedrada cheia de gente em desespero. Os pedaços de rocha começaram a cair no centro da cidade, ouviam-se os gritos de dor e pânico, e o fumo e cinzas espessavam o ar. Icário aproximou-se ainda mais da figura reclinada de Helena, com o coração cortado de dor.
     O destino reservado à cidade pelo vulcão em fúria foi a um tempo terrível e misericordioso. Precedido por uma nuvem tóxica que asfixiou os últimos dos seus habitantes, um rio de cinzas e poeiras cobriu o chão das ruas e das casas enquanto os telhados, colunas e frontões eram despedaçados por rochas e nódulos de lava incandescente.
     Mergulhado num véu de lava e cinzas, Pompeia sobreviveu até na forma dos corpos dos seus habitantes, condenados a uma forma perversa de imortalidade. Os arqueólogos e caçadores de relíquias exumaram aqueles corpos preservados pelo vulcão nos seus últimos momentos de vida - pessoas caídas nas ruas ou nas suas casas, abraçadas aos filhos, ou colhidos quando tentavam correr em meio a paredes a ruir. Num edifício circular colunado que parecia um templo os arqueólogos descobriram um pátio interior do que deveria ter sido um jardim, no qual desenterraram um ídolo feminino e, diante dele, uma figura compósita, congregada, do que parecia ser uma mulher de joelhos com um homem de pé nas suas costas, e o que parecia ser um par de asas, coisa absurda, talvez um adereço de teatro grego, irrompia das costas dele e envolvia o corpo da sacerdotisa num último gesto de amor.


Muda ansa


A casa onde Mariana crescera era enorme. Talvez isso seja uma evidência a que não se pode fugir na existência, o mundo, as coisas, a morte, são enormes, gigantes, na pequenez da nossa estatura e da nossa força. Quando somos pequenos tudo é maior, mas a casa de Mariana era, de facto, grande. A enorme porta de madeira de faia da entrada abria para um vestíbulo enorme, com paredes decoradas com hemi-colunas chanfradas nas paredes, e sombrios retratos a óleo a preencherem-nas quase por completo (ela não sabia quem eram aquelas pessoas nos quadros, mas a avó contara-lhe que eram ancestrais, família de antes, graves nas suas expressões serenas e tons baços e aguados das roupas, a fixar nela os seus olhares perfurantes), desse vestíbulo partiam dois corredores que comunicavam com o resto do piso térreo e uma escadaria de mármore que dava passagem para o piso superior onde o mais que havia eram gabinetes, um vestiário privativo da mãe de Mariana e uma biblioteca e sala de fumo onde o pai se refugiava amiúde, escondendo-se nela como se fugisse deles, da família, das colunas e dos retratos a óleo da parentela. Mariana passava o tempo no quintal e na casa grande a brincar, ainda não tinha idade para a escola e deixavam-na fazer um pouco o que lhe apetecia, desde que não perturbasse nada nem ninguém, sobretudo ao pai a quem qualquer som fora de tom ou uma partícula de poeira a dançar nos ares fazia-o franzir o cenho de aborrecimento e invocar a salvaguarda atenta da esposa. Por vezes o pai recebia visitas, Mariana também não sabia que pessoas eram aquelas, e a mãe e a avó não davam pistas, chegavam de carro, subiam a escadaria fronteira com os tacões das botas militares a percurtirem nos degraus de pedra e apresentavam-se na porta de entrada, muito direitos e sérios com os seus uniformes negros e o chapéu militar seguro contra a perna. Quase sempre, subiam para a biblioteca ao encontro do pai ou esperavam aí que ele se reunisse com eles. Por vezes, quando a porta se fechava, Mariana descalçava-se e subia as escadas, aproximando-se o mais que se sentia capaz da porta escura, e daí ouvia as vozes deles lá dentro, falavam apenas, nunca ouviu deles  um riso ou uma gargalhada, ou algo leve e luminoso como um gracejo ou uma espontânea exclamação. Uma tarde em que a mãe se encontrava no vestiário a separar roupa quase nova para dar por caridade aos pobres da paróquia, Mariana voltou a perguntar-lhe sobre aqueles homens de negro que vinham à casa deles para falar com o pai. A mãe, talvez por se encontrar numa disposição favorável, não fechou a porta à conversa com um ralho ou uma interjeição e adiantou-lhe mais alguma coisa do que era costume fazer. O mundo, explicou ela a Mariana, é um sítio muito feio que é preciso educar e corrigir, como se fosse uma criança abandonada pelos pais, e para educar dá-se pão à medida da educação e isso era o que o pai fazia, dava pão e educação ao país e ao mundo. Mariana ficou encantada com a extensão da explicação da mãe, embora não pudesse dizer que tinha passado a perceber melhor quem era aquela pessoa misteriosa que sabia ser o seu pai. A explicação alegórica da mãe originou mesmo alguma confusão no seu espírito, que agora se punha a imaginar com algum desconforto se, quando o pai a fitava com uma expressão desaprovadora, não a estaria a considerar também uma pessoa feia como as pessoas do mundo fora daquela casa. Mas depressa chegou o dia em que aquelas visitas cessaram de repente. Deixou de haver pessoas de uniforme a baterem à porta para falar com o pai e ele permaneceu tão ausente como antes, enfiado no seu gabinete, mas agora acompanhado pelo som roufenho da velha telefonia da casa, onde uma voz agitada falava ininterruptamente durante horas a fio. Nas poucas vezes que se cruzou com o pai, ele pareceu-lhe mais preocupado e carrancudo do que era habitual, e também surpreendera a mãe a avó a conversarem numa voz angustiada entre o cochicho e o choro. Quando começou a ficar preocupada com o que se passava na casa, as visitas voltaram, mas apenas por uma vez. Bateram à porta de entrada, eram três homens de uniforme, um uniforme cinzento, diferente dos uniformes negros de antes. Escondida atrás de um jarrão de louça, Mariana assistia a tudo, a mãe subiu as escadas a correr e a chamar o esposo aos gritos e logo depois desceu ele, muito hirto, a gravata com o nó desatado e uma expressão desesperada na face. Olhou demoradamente cada um dos três militares e então viu a filha atrás do jarrão ao lado das escadas. Aproximou-se dela e afagou-lhe desajeitadamente a cabeça com a palma da mão, antes de lhe virar costas e aproximar-se dos homens de cinza, a mãe a avó de Mariana choravam a um canto. Um dos militares segurou-o pelos antebraços, enquanto um camarada lhe atava as mãos atrás das costas com uma corda grossa de sisal. E os militares abandonaram a casa a escoltar o prisioneiro que um deles mantinha sob o seu jugo com o cano de um fuzil encostado à sua nuca. Mariana sentia-se atordoada, não o sabia na altura mas aquela foi a última vez que viu o pai, roubado deles por um mundo feio que vestia uniformes cinzentos.


A ilha


A ilha muito ilha Muito longe erguia-se de um mar sem fim com as suas costas hostis de rochedos aguçados e algumas árvores espinhosas de troncos e ramos retorcidos e contorcidos pela maresia No âmago da ilha a natureza não era tão inóspita nem desagradável havia bosques e renques de árvores matas de fetos e bambus prados risonhos de flores riachos que alimentavam as plantas e dessedentavam as aves errantes de olhar melancólico e os coelhos minúsculos e intrépidos que paravam amiúde de patitas levantadas como a agradecer ao universo a oportunidade de existir E na ilha também havia um coração Foi a essa ilha de carantonha fechada que chegou sob a luz do luar o náufrago de roupas rasgadas e membros esfacelados pelas pedras e conchas quebradas Ficou estendido inanimado numa nesga de praia no sopé dos rochedos e quando a manhã nasceu a luz e o canto das aves fê-lo levantar-se à procura de algo para comer e algo para beber Escalou as rochas e descobriu as nascentes e os riachos e os coqueiros e árvores que davam frutos esponjosos e açucarados da cor do Sol E foi fácil encontrar água e comida e ver um abrigo num feixe de troncos e folhas de palma caídos Tudo no centro de um prado e tão semelhantes a uma cabana que parecia impossível que não tivessem sido mãos humanas a reuni-los e montá-los aplicadamente O náufrago teve medo Medo do outro De alguém perigoso e emboscado de espada ou mosquete nas mãos Mas não havia ninguém Apenas ele e a ilha E logo o náufrago começou a procurar sair dali A construir barcos e barquinhos que o levassem de novo para o mar E para outros barcos que o resgatassem para junto da mulher e dos filhos numa terra distante O que o náufrago não sabia era que a ilha era o Outro que antes temera Não era um inimigo armado mas um coração que batia com um devaneio e um fascínio por aquele náufrago que ali chegara anos e séculos depois da última figura humana que pusera os pés na ilha E a ilha sentia com ele Admirava-o Encontrava beleza nos seus gritos de desespero no alto dos rochedos ou no pranto com que acordava aos soluços no remanso dos sonhos noturnos E a ilha rodeava-o A confortar e a proteger Diques de bambu forte  que se erguiam das balseiras para fortificar a cabana contra o vento dos temporais Árvores que se reclinavam com a sua sombra sobre a sua tez clara quando adormecia sob o Sol forte E uma vontade terna e feminina que impunha silêncio e quietude a todas as plantas e animais quando ele descansava ou dormia Mas depressa chegou o dia em que o náufrago se sentiu preparado para arrostar as ondas do mar A ilha não o deteve quando o seu barco começou a sulcar as ondas da rebentação e a afastar-se de si Nenhum tronco flutuante varou a frágil embarcação e nenhuma lança de bambu trespassou o ventre do náufrago que se exilava Mas a tristeza estava lá Em cada rocha e em cada folha de erva No silêncio sepulcral das aves e dos animais Nos riachos que desaguavam nas ondas já salgados das lágrimas do coração da ilha.

Amor


O seu amor é feito de vidros que cortam, isso era tudo o que sabia dizer e que poderia até ambicionar dizer-lhe se surtisse a ocasião ou se se alavancasse de coragem. O amor dela não tinha essa fruição abnegada de dois corpos que se tocam e se homenageiam sem pedir explicações nem suplicar coisa alguma, ou a cálida virtude de abrigo e refúgio de uma cabana acolhedora no meio da neve fria. E falava em amor porque era mais fácil para ele exprimir-se assim. Quando ela estava com ele, estava sempre atenta, de garras afiladas, apontando em cruas denúncias todas as suas falhas, os seus erros, os jeitos e trejeitos que eram muito próprios dele mas que ela não tolerava, a sua forma de falar, os seus preceitos e opiniões, o seu modo de andar, os requebros da sua voz, o sibilar da sua respiração. Estar com ela e partilhar o mesmo espaço, era uma tarefa dolorosa e angustiante. Detesto quando fazes essa expressão…odeio que digas isso…não me digas que vais voltar a pegar nesse livro velho…nunca mais deixas de estar ligado a esse botija de oxigénio? E ele prosseguia sem protestos, agindo e fazendo como sempre em meio ao asco e repúdio da companheira. Enquanto ela era apenas a sua enfermeira, mostrara-se mais doce e compreensiva, era prestável e bondosa, mas tudo mudara quando ela se instalou no seu leito e lhe fez retribuir com benesses financeiras e sociais o sacrifício do seu corpo jovem e ardente na ara da velhice, agora que ela geria a sua vida e os seus bens não havia um momento com ela em que se sentisse tranquilo, em paz, os defeitos dele eram todo o tema das palavras que ela lhe dispensava, a ponto dele fingir que dormia até mais tarde para poder estar sozinho, ou refugiar-se no quarto para repousar enquanto ela permanecia acordada na sala, ou saía para se divertir à noite com os amigos. Numa perversa situação, os amigos dele, que se haviam convertido em amigos de ambos, consideravam-no um privilegiado por ter na sua idade quem tomasse conta dele e ao mesmo tempo lhe proporcionasse carinho e afeto. Deixara-se enredar numa armadilha da qual não sabia como sair e notara já que as coisas assumiam formas estranhas, e não era só o comportamento dela - até a indispensável botija de oxigénio denotava estranhas anomalias técnicas que ele não sabia se eram casuais ou causadas. O seu amor é feito de vidros que cortam, pensava ele, vidros que tarde ou cedo o atingiriam como já antes o haviam dilacerado por dentro.

Uma estória de Natal

Uma estória de Natal
(excerto de um diário de campanha pessoal).

23 de Dezembro do ano de 1850.
O nosso destacamento, sob o comando do tenente Fergus Robertson, começou a subir pela margem do rio Tugela na direção das montanhas do Drakensberg. A caminhada é árdua, e os carreiros na margem, mesmo aplainados pelas cheias do rio, mantém à superfície pedras aguçadas como dentes de Cadmo. Ninguém nos diz qual é o objetivo da campanha, mas o cozinheiro, Mr. Temple, soube pelo sargento Marcus, que procuramos um renegado Boer, que tem pilhado as fazendas do vale na companhia de um grupo de homens a quem confiou armas de fogo, entre os quais se contam alguns Zulus. Eu não posso falar pelos outros, mas parece-me difícil que consigamos capturar um Boer que já viveu nestas paragens, ainda para mais contando com a ajuda de Zulus, que conhecem esta terra como se tivessem nascido do chão, inteiros e armados. O tenente Robertson deu instruções para montarmos acampamento numa plataforma de basalto a uns dez metros das águas do rio. Entre os escolhidos para montarem guarda, coube-me a mim cumprir o primeiro turno de vigília. Hesito em escrever aqui o que penso do meu superior, mas confio em que me acompanham as pessoas mais polidas e educadas de toda a África meridional, e se seria talvez exagero chamar-lhes um escol de cavalheiros, creio que não seria de esperar de qualquer um deles devassar ou espreitar os papéis ou cartas escritos pelos camaradas de armas. Dizia pois, que o tenente Robertson é um oficial com uma carreira promissora pela frente, duro e disciplinador, não esquece nem deixa esquecer que já pertenceu a um batalhão de infantaria com um passado de glória na Índia, e que sente nisso um extravasante orgulho. Mas vou ficar por aqui.

24 de Dezembro de 1-8-5-0.
Continuamos a trilhar caminho na margem do Tugela, na véspera aproveitei a presença do tenente Robertson enquanto eu estava de vigia, para lhe pedir uma vez mais, que se alcançássemos um dos abrigos rochosos de que se fala com gravuras feitas pelos indígenas, se ele me deixava copiar algumas para o meu caderno de esboços. Ele não negou a possibilidade, e tive oportunidade de me aperceber de que teria o seu consentimento, conquanto as minhas ocupações extra-militares não comprometessem o andamento ou a missão da campanha. Ao princípio da tarde alcançamos aquele que seria provavelmente o último aldeamento dos nativos antes dos terrenos escarpados e desertos da montanha. O tenente mandou-nos distribuir em forma de cordão humano em volta da aldeia antes de entrar na aldeia. Aldeia era até um nome generoso para aquelas seis cubatas com telhados de colmo, com cercados para as cabras e algumas hortas na orla das cubatas. O tenente Fergus avançou com um intérprete Zulu, com o sargento e o cabo George, e três ordenanças a quem avisara para terem as armas prontas a disparar. Nós permanecemos um pouco recuados, com o olhar atento e as armas prontas para o que pudesse ocorrer, e não conseguíamos observar o que ocorria no espaço entre as cubatas. O tempo transcorreu de uma forma exasperadamente lenta, até que se ouviu o som de um disparo solitário que ecoou em volta e contra os contrafortes das montanhas. Colocamos as armas em riste, prontos para tudo, mas o sargento saiu um pouco do segredo da aldeia para nos acenar que estava tudo em ordem, e voltou para dentro num ápice. Olhamos uns para os outros, ainda apreensivos e sob tensão, mas não decorreu mais do que uns meros minutos, e todo o grupo liderado pelo tenente abandonou a aldeia, deixando atrás de si o som lancinante de gritos e pranto. O tenente reuniu-nos e indicou-nos que atravessaríamos o rio a vau um pouco mais adiante e subiríamos a montanha do lado oposto, onde os fugitivos se encontravam abrigados numa gruta. O intérprete, alheio às palavras do tenente, chorava de forma contida, e tivemos uma segura suspeita de como o tenente tinha obtido as informações.
Seguimos marcha consoante nos havia sido ordenado, em passo rápido devido ao declinar da tarde. Atravessamos o rio num ponto onde uma queda de água apresentava no topo uma ponte de pedra dúctil por onde podíamos alcançar a margem oposta apenas com água até aos joelhos. No outro lado o tenente conferenciou um pouco com o guia Zulu, gesticulando bastante e envolvendo as montanhas nos seus gestos enérgicos, e recomeçamos a caminhada pelo terreno em declive, por onde os pés resvalavam por vezes em pedras soltas, fazendo-nos perder o equilíbrio ou mantendo-o a muito custo. Nem meia-hora de progressão tínhamos, quando o tenente levantou a mão aberta para nos determos. Ele agachara-se na crista de um monte e apontava lá para baixo. Juntamo-nos ele a rastejar, tentando não levantar poeira. Os perseguidos estavam sentados sobre pedras no recinto natural diante da entrada de uma gruta, tinham ateado uma fogueira e conversavam com as armas pousadas displicentemente junto a eles. Interroguei-me sobre que fenómeno de acústica os teria privado de ouvir o tiro no aldeamento, porque pareciam francamente tranquilos e alheados de tudo. Sob as ordens do tenente, um pequeno contigente no qual me incluiu, desceu pela encosta por onde havíamos subido, e fizemos um grande rodeio até nos aproximarmos bastante da entrada da gruta pela aba lateral de um monte vizinho. Quando ficamos posicionados, com as armas apontadas aos renegados, o tenente atacou como gostava, de frente e ao som da trombeta de cavalaria, e a espada desembainhada erguida muito alta para o céu. Quando os renegados tentaram empunhar as armas, uma saraivada de disparos do nosso lado, atingiu alguns deles, levando os outros a renderem-se de imediato, com os braços levantados. Uns e outros avançamos e isolamos os prisioneiros das armas caídas, atando-lhes as mãos atrás das costas. O líder bóer jazia morto no chão, com a cabeça vazada por um disparo. Um dos soldados que acompanhar o tenente na sua carga solene, informou que um dos renegados, um Zulu, conseguira fugir pelo lado oposto àquele em que nós havíamos estado posicionados. O tenente Robertson, atendendo ao cair da tarde, decidiu que acamparíamos no mesmo lugar em que estávamos, e que na madrugada seguinte, iríamos no seu encalço até o capturar. Enquanto se organizava a guarda para a noite, reiterei com voz humilde o meu pedido ao tenente, e este consentiu em me libertar dos meus deveres durante a manhã do dia seguinte, uma vez que os havíamos capturado na quase totalidade e que para apanhar o fugitivo que faltava, não iriam precisar de muitos homens. Foi a melhor coisa que alguém me disse nos últimos tempos, até mesmo, nos últimos anos. Agora que escrevo estas linhas no meu diário sob a luz da candeia, creio que nem sequer conseguirei adormecer, tão feliz e entusiasmado me sinto com o que vou encontrar nos abrigos rochosos.

25 de Dezembro
Aos primeiros fulgores da madrugada, já eu estava fardado e com a mochila de couro às costas e o mosquete Brown Bess seguro na mão. Como uma parte das forças permaneceria instalado ali, havia proposto a mim mesmo explorar outro abrigo rochoso onde pudesse trabalhar sem perturbações. Despedi-me dos meus camaradas, e tomei o que parecia ser um carreiro sinuoso de encosta, por onde persisti em subidas e descidas até encontrar uma cavidade natural que se abria como uma boca de penumbra na rocha basáltica. Bastou aproximar-me para os meus olhos se maravilharem. Logo no arco da entrada, no topo, distribuíam-se algumas figuras dispersas, gnus de corpo castanho aureolado de azul, um varano enorme defronte de um ovo listado, e caçadores de corpo fino e cabeça alongada que perseguiam um antílope. Pensei em começar a desenhar, mas a entrada da gruta apelava à minha curiosidade. Não precisei de nenhuma luminária porque a uns metros da entrada a gruta iluminava-se de novo como benesse de um abertura ogival no teto por onde se conseguia ver o céu e as nuvens. Aí o meu espanto recrudesceu, as pinturas, desta vez, representavam apenas grupos de pessoas, homens e mulheres com lanças e arcos de flechas, o corpo era apenas uma linha alongada estilizada, do qual partiam linhas similares que figuravam os membros, transmitindo o movimento dos braços, o sentido do andar, a intenção do conjunto. Era formidável como, com uma economia de detalhes, conseguiam realizar uma pintura dinâmica, tão viva que me pareceu que seria possível as figuras moverem-se diante dos meus olhos na parede rochosa lisa e pigmentada; e no entanto, não eram desprovidos de arte, eram até singularmente belos e tocantes. Mas o que centrava e dominava o olhar era uma figura um pouco surreal no topo do conjunto, tinha proporções gigantescas, e o seu corpo deitado acompanhava a linha convexa do topo da parede, era um homem ou um deus criador com uma estatura dez vezes superior à das figuras humanas, e as linhas do seu rosto pareciam as de uma máscara com o queixo pontiagudo e duas frestas vermelhas para os olhos. Rendido à pintura, tirei da mochila o bloco de folhas e os lápis e comecei a desenhar, sentado numa pedra oportuna do chão. A minha primeira preocupação foi as dimensões e a relação intrínseca entre os diferentes elementos da pintura, e só depois de assinalar no papel com traços sumidos a sua posição, é que ousei gravar as silhuetas e linhas, o tempo passou num ápice nessa tarefa apaixonada, e quando me dei conta, a luz que atravessava a clarabóia natural parecia aproximar-se da sua posição vertical. Garatujei em siglas as cores da composição para a poder completar mais tarde, e permiti-me alguns momentos de reflexão. As gravuras representavam cenas de caça e pastorícia, lutas entre grupos antagonistas e registos religiosos ou mitológicos como o da gravura do gigante reclinado. Tinham sido sem dúvida produzidos por grupos tribais como os San, com as suas lendas e récitas, e eram já velhas quando os Zulus chegaram à região. Recolhi os meus haveres na mochila e dirigi-me para a saída depois de um último olhar pelas gravuras, ainda não tinha chegado à entrada em arco quando senti uma impressão de perigo, ouvia-se o arfar de uma respiração humana, colei-me às sombras e espreitei para a entrada – o Zulu que todos procuravam estava mesmo ali, a uns dez pés de mim e acocorado por trás de uma rocha a vigiar o vale. Ouvia-se o eco de vozes autoritárias, deveriam ser os seus camaradas que vasculhavam as imediações. Preparei o mosquete, encostei a coronha ao ombro e avancei um passo. O renegado Zulu virou-se de rompante com a mão a aflorar uma pedra do chão, mas renunciou ao seu gesto quando viu o cano da arma apontado ao seu peito. Fitamo-nos no mais completo mutismo, e eu sentia-me aturdido por trepidantes pensamentos. Podia levá-lo preso e exibi-lo como um troféu de caça, mas o que é que isso adiantaria? Não me era difícil imaginar os Zulus a desempenharem aquelas cenas de caça ou a venerarem um ícone gigantesco com máscara. Baixei o mosquete até apoiar a coronha no solo e apontei-lhe a entrada da gruta, instando-o a esconder-se ali. O Zulu passou por mim, ainda com algum receio, e imergiu nas sombras cúmplices.
Desci a encosta no sopé da plataforma da gruta, e não tardei a reunir-me aos meus camaradas.
- Então, cabo artista? – perguntou-me um deles – viste muitas pinturas naquela gruta?
- Do interior daquelas grutas, quarenta séculos nos contemplam – gracejei, e eles riram-se.
- Procuramos em todos os buracos e por trás de todos os arbustos. Aquele maldito deve estar a milhas de distância.

Concordei e voltamos para junto do tenente, os outros relataram os seus esforços infrutíferos para capturarem o fugitivo, e o tenente, em resposta, deu como satisfatórios os resultados da surtida, e decidiu que regressaríamos na manhã seguinte ao aquartelamento onde estávamos destacados. O nosso regresso ocorreria no dia a seguir ao Natal, um Natal que passáramos a trilhar caminhos rochosos e subir montes, mas o que me fazia deveras feliz, e que eu considerava a melhor dádiva que me poderiam ter feito, era ter aquele esboço das pinturas para aperfeiçoar e colorir.