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Depois de teres partido sei agora que a casa nunca te deixou partir, que cisma ou sonha contigo nestes filamentos que dançam no ar, na luz filtrada pelos cortinados, nos silêncios contidos de fim de tarde, preguiçosa modorra de quem se sente capaz de dar corpo à nostalgia. Vibramos eu e a casa neste mesmo diapasão de negar a perda e de perder o que nos confere veracidade e alento. Tu, ausente, és o sangue que nos corre nas veias, deixar-te ir seria esvairmos-nos em nada

espiral

     Era Setembro e o sol brilhava e pela janela do avião fixou o seu olhar num miúdo negro vestido com uns calções velhos e uma camisa aberta com as abas atadas abaixo do umbigo saliente, sandálias nos pés e palhinha de capim ao canto da boca. Ele olhava vagamente o alcatrão e o movimento dos aviões, com os dedos duma mão na rede e a acenar vagamente com a outra. Foi uma imagem nítida, surpreendida quando o avião manobrou na pista antes de levantar voo. Foi a última memória que guardou de Moçambique quando partiu, há mais de trinta anos. Tem voado em círculos desde então.

Maria

Maria gosta de sorrir e Manuel apaixona-se pelo seu sorriso. Beijam-se, namoram, zangam-se, partem sozinhos para outras paragens. Reencontram-se anos depois, beijam-se e namoram anos depois. Mas Maria já não sorri, o seu sorriso foi devorado pelas rugas que a vida lhe desenhou no rosto, pelas cicatrizes que ela fez nascer nos seus próprios pulsos. Manuel já não se sente apaixonado, e desaparece como um fugitivo pela madrugada deixando o seu corpo nos lençóis mornos, a levar de braçado o casaco dobrado e a recordação do sorriso desaparecido.



esqueSer


- Vou-te esquecer! – garantiu-lhe ele com energia, com o coração ávido de um novo dia e de uma nova vida.
Ela assentiu em silêncio, enrolando uma madeixa de cabelos com os dedos acobreados da mão num gesto tranquilo e distante, muito distante.
Ele quis esquecê-la.
Apagá-la do universo, apagá-la de si como se esfregasse uma borracha sobre um esquisso mal feito.
Mas ela mantinha-se por perto, o cheiro dos seus cabelos no ar carregado e fragrante que precede a chuva, o tremeluzir dos seus olhos na Estrela D’Alva que parecia acenar-lhe do outro lado dos vidros orvalhados das janelas, o prazer arquejante da sua respiração nos sons em surdina que se enrolavam e estremeciam por dentro do silêncio.
- Vou-te esquecer! – prometia ainda a si mesmo, afundando o rosto no travesseiro da cama vazia, debatendo-se entre a felicidade e a dor lancinante que a recordação dela incandescia em si.


Fake nus

Não acreditem nos Fake Nus, pela vossa saúde mental! Contemplam-nos e parecem-vos autênticos, reais, carnudos e carnais, mas não, é falsa a luminosa cor da sua pele, a sua fragrância em flor, o toque pungente de sua pele, a vertigem de a sentir, beijar e acariciar. São nus ilusórios, efeitos especiais, hologramas hormonais, alucinações induzidas pela vossa sede e desejo. Abandonem os Fake Nus, assumam a árida verdade da vossa solidão, impludam na crua miséria que carregam sem desculpas nem paliativos.


O fogo da raposa

     Quando entrou no café Terminal, relanceou o olhar pelos frequentadores apenas para se certificar de que a amante ainda não havia chegado. Com o silvo de uma automotora como canto de coro, acomodou-se a uma mesa e pediu uma cerveja, extraindo um cigarro do maço com um toque suave deste no canto da mesa. Acendeu-o, passou em revista os títulos de capa de um jornal velho de uma semana e depois perdeu o interesse por ele quando Irene entrou. O nome Irene sempre lhe soou como algo de imponderável, etéreo, como o Fogo-de-santelmo ou as auroras boreais, e Irene era um pouco assim, etérea no seu modo desprendido de andar e de viver e arriscaria mesmo dizer que ela fosforescia em torno às coisas comezinhas como se elas não existissem ou não tivessem importância alguma, beijou-a antes dela se sentar ao seu lado, arrastando uma cadeira para junto dele e segurando-se ao seu braço com energia. 
     – Ouviste falar no Fim do Mundo de quarta-feira? – murmurou e sem lhe dar uma chance de falar, prosseguiu – foi o meu astrologozinho quem me falou nisso, quarta-feira, dia de Santo Estêvão, vai cair um asteróide aguçado na Terra, e um dia ou dois depois, o fogo do interior da Terra vai misturar-se com as águas dos oceanos, gerando nuvens tóxicas que vão fazer cair sobre todos nós chuva contendo ácido sulfúrico que acabará com a nossa raça de uma só vez.
     - Outra vez o astrólogo… tenho algumas dúvidas. Quarta-Feira em que fuso horário? Aqui, na Nova Zelândia ou no Brasil? E essas chuvas, vão galgar os Himalaias e vão também derramar a sua água tóxica sobre o Saara e o Atacama?
     - Não sejas mesquinho, sacrificas uma epopeia ao fogo só porque encontras nela um verso imperfeito? Estamos a falar do universo, do Ragnarok, das Sete Trombetas, do Fim dos Tempos – não do discurso do ministro da Educação ou das cotações das Bolsas. Segue o meu pensamento: dia de Santo Estêvão, em seguida mais um ou dois dias para darmos contas das nossas almas e depois caput, fim, the end, o grand finale. Não há créditos depois disso, meu amor, nem easter eggs, acaba tudo, apaga-se a luz e caímos no vórtice.
     Ele pediu-lhe um momento de pausa com a mão levantada, bebeu o resto da cerveja e levou o cigarro aos lábios.
     - Tenho de ir trabalhar – lembrou-lhe – como é que fazemos desta vez? Outra festa de Fim do Mundo com fantasias de zombies ou preferes uma coisa mais íntima?
     - Plano B, comprei umas coisas novas pela net, até vais ficar abismado quando vires. Quarta-feira vamos tratar das nossas almas.
     - Podíamos antecipar para hoje – sugeriu ele, repentinamente interessado – adiantávamos a chuva inaudita.
     - Hoje não, o meu marido vai a um talk-show falar de astrologia e tenho de o acompanhar. Fica para o dia de Santo Estêvão, ele fechado no bunker a rezar para que o mundo acabe e nós dois num cenário de apocalipse com roupas de cabedal e instrumentos de tortura.
     Despediu-se dela com um beijo e regressou à rua, um pouco intranquilo e aturdido. Irene era mesmo assim, tanto estava junto a ele, pungente e ardente, como no instante seguinte ondulava e dançava nos céus com as cores vibrantes das auroras boreais. Mas sentia-se o mais feliz dos mortais por ter um céu para admirar e desejar.

sonho

Pediu um sonho emprestado, coisa mínima, um espinho de silva cravado no dedo de um eremita melancólico, o abrir solitário e necessário de uma flor nas horas primeiras e nebulosas de uma manhã outonal – “trago-to já!” – afiançou a quem o emprestara, e lá arribou ele com o sonho emprestado a adornar-lhe a fronte como uma imperial coroa de louros. E as horas passaram e os dias e as semanas e já não se sentia capaz de devolver o sonho emprestado, tão precioso ele se tornara em meio a tanta aridez e a tão cavado silêncio, dormia no seu aconchego e despertava com ele no sorriso que as suas feições esboçavam. Era feliz com uma coisa tão mínima como até ali fora infeliz, miserável mesmo, pela gigantez do mundo e dos incessantes sofrimentos que ele lhe trazia. Era inacreditável como uma coisa tão pequena fazia face a uma imensidade de angústias e humilhações. Mas pobre como era, não tinha como tentar comprar o sonho que pedira emprestado e como o mantivesse com ele ao contrário do que prometera, o dono do sonho veio no seu encalço, fez-se acompanhar de um polícia e de um oficial de justiça e penetraram no sótão de prédio abandonado e abriram caminho por aquele tugúrio de lixo acumulado, colheres ferrugentas e seringas partidas até chegarem até ele, mas já não o encontraram com vida. Estava estendido no chão e uma mulher de cabelos longos e crespos chorava à sua beira de uma forma tão insana que parecia um uivo. O dono do sonho procurou-o entre os seus haveres (palavra hiperbólica) mas não o achou e amaldiçoou o dia em que confiara naquele desgraçado, o polícia perguntou à mulher em pranto mas ela não sabia de sonho algum e não se dando por satisfeitos repetiram a pergunta a todos quantos encontraram naquele prédio e a resposta foi a mesma. E lá se retiraram todos, enojados de estarem ali, e o dono do sonho já resignado de não o voltar a ver e tão absorto estava na sua própria perda e prejuízo que não notou que o morto ostentava um sorriso tranquilo de bonomia, pouco adequado a quem morria num lugar daqueles e com um corpo de ruínas como o seu.


Levantar-se da cama e olhar para o exterior por entre as barras de ferro, exigia dele um esforço e um dispêndio de energia que eram quase excessivos para ele. Dentro das vozes e sons em surdina - baques, sons metálicos de lata, a urina e ser vertida na água de uma sanita, alhures - convencia-se por fim que tinha de se levantar, punha-se de pé, fazia a sua higiene e comia as papas que lhe entregavam por uma abertura na porta da cela. Os seus fantasmas falavam-lhe de histórias de ontem enquanto comia as papas a custo. Quando uma hora depois, um guarda esmurrou a porta para ele saber que as fechaduras iam ser destrancadas para eles irem para o pátio, um dos fantasmas ainda permanecia com ele, maior em estatura e com uma cabeça enorme com a forma de uma abóbora reclinada sobre o seu ombro. Tentou afastá-lo, ao seu sonho abandonado, quando o trinco eléctrico da porta se destrancou. Saiu depressa para o corredor, juntando-se à fila de prisioneiros que caminhavam ordeiramente sob a vigilância de guardas fortemente armados. Outro fantasma o esperava ao fundo do corredor, encostado à esquina da parede, uma mulher de longos cabelos e de faces muito brancas iluminadas por rosáceas rubras de sangue e ao passar por ela, sentiu que ela secundava os seus passos - Porque me mataste? - perguntou-lhe o fantasma. Apressou o passo em direcção ao rectângulo de luz da porta que dava para o pátio ensolarado, limiar entre domínios e a dourada chance para se libertar dos seus fantasmas e no instante em que ia abandonar a penumbra carregada do interior da prisão, o fantasma ainda lhe perguntou: Estavas cansado de ser feliz?

fractural

    Na volta da estrada de alcatrão, quando esta desce e descreve uma curva apertada que parece marcar a fronteira entre um mundo quase suburbano de casas velhas com moradores de expressão e olhar pálido e o mundo resolutamente natural de brenhas, arvoredo e fragas da terra que esquece a cidade, o cimento e as pessoas amassadas nele, nessa curva e nessa volta da estrada havia apenas uma casa abeirada dela onde vivia uma velha mulher que cultivava tulipas no jardim e ervas aromáticas em vasinhos dependurados das janelas. A mulher de cabelos brancos que se adivinhavam longos mas apanhados no alto da cabeça por um alegre lenço colorido com cornucópias e margaridas estampadas cuidava do seu jardim e das suas ervas ou cuidava da sua casa, mantendo-a irrepreensível para a visita dos filhos e dos netos, que haviam rareado cada vez mais até quase não ocorrerem, mas isso não tirara o seu esmero e a sua dedicação à casa onde vivia. Uma ou duas vezes por semana passava por ali o carteiro, não era apenas uma viatura que passava, como os carros, os camiões e as motas, era uma pessoa numa motorizada roufenha cujo motor fazia um barulho enorme e que deixava no ar um odor malcheiroso a combustível de mistura. Mas a velha senhora não se importava porque se alegrava quando o via passar, porque ele, um homem bonacheirão de roupas gastas e capacete desusado com viseira de óculos castanhos, cumprimentava-a sempre com um alegre aceno, embora nunca tivesse de parar ao pé da sua caixa de correio, porque ninguém lhe escrevia. Um dado dia, ou numa dada semana, a velha senhora notou que o carteiro não passara por ali, nem nessa semana, nem nas semanas seguintes ou meses. Deixara de passar, e ninguém sequer tomara o seu lugar a distribuir o correio e a velha senhora sentiu uma ponta de tristeza, uma suave mácula, como a primeira fímbria de castanho outonal na folha de um plátano. A senhora não tinha a quem perguntar pelo carteiro, nem sabia como, pelo que continuou a cuidar da sua casa e do seu jardim e a olhar interrogativamente os pardais que devoravam as migalhas que lhes deixava no empedrado do jardim. «Que esteja bem, é só o que peço!» - murmurava para si mesma quando os pardais alçavam voo, ou quando pensava no carteiro na hora teimosa em que o sono tardava à noite quando se recolhia aos seus perfumados lençóis de linho. Se ainda a visitassem os filhos, cada vez mais distantes, e talvez reconhecessem nas palavras com que desenharia o retrato do carteiro, o homem bonacheirão e bondoso que um dia distribuíra correio e que com a velha senhora os trouxera à existência.

saudade



Imagem do filme Le Voyage dans la Lune, de George Méliès (1902)

arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento / De todo o meu inútil, a causa / De minha intolerável permanência! Tu és / Uma contrafação da aurora!»(In «O Amor dos Homens» de Vinucius de Moraes)


Ao papel me confesso: amo! Ao ecrã de luz repito: amo! Um amor sofrido, estropiado, desprezado, marchetado com pérolas de lágrimas e botões da cor do sangue, difícil como só o verdadeiro e definitivo amor consegue ser. O amor que sinto palpita-me e doí-me no peito como uma ave desasada aprisionada no meio das costelas. O amor que sinto mergulha-me em noites de insónia sacudida por gritos de desespero e pranto irreprimível, o amor que me toma torna-me o mais solitário dos homens na mais miserável das existências. Uma evidência me assalta, tímida e constrangida: se este amor sobrepuja esta vida que nada é, o amor que me norteia os dias brilhará ainda no horizonte como o planeta Vénus quando as últimas réstias de vida se evolarem das minha narinas.