fractural


           Na volta da estrada de alcatrão, quando esta desce e descreve uma curva apertada que parece marcar a fronteira entre um mundo quase suburbano de casas velhas com moradores de expressão e olhar pálido e o mundo resolutamente natural de brenhas, arvoredo e fragas da terra que esquece a cidade, o cimento e as pessoas amassadas nele, nessa curva e nessa volta da estrada havia apenas uma casa abeirada dela onde vivia uma velha mulher que cultivava tulipas no jardim e ervas aromáticas em vasinhos dependurados das janelas. A mulher de cabelos brancos que se adivinhavam longos mas apanhados no alto da cabeça por um alegre lenço colorido com cornucópias e margaridas estampadas cuidava do seu jardim e das suas ervas ou cuidava da sua casa, mantendo-a irrepreensível para a visita dos filhos e dos netos, que haviam rareado cada vez mais até quase não ocorrerem, mas isso não tirara o seu esmero e a sua dedicação à casa onde vivia. Uma ou duas vezes por semana passava por ali o carteiro, não era apenas uma viatura que passava, como os carros, os camiões e as motas, era uma pessoa numa motorizada roufenha cujo motor fazia um barulho enorme e que deixava no ar um odor malcheiroso a combustível de mistura. Mas a velha senhora não se importava porque se alegrava quando o via passar, porque ele, um homem bonacheirão de roupas gastas e capacete desusado com viseira de óculos castanhos, cumprimentava-a sempre com um alegre aceno, embora nunca tivesse de parar ao pé da sua caixa de correio, porque ninguém lhe escrevia. Um dado dia, ou numa dada semana, a velha senhora notou que o carteiro não passara por ali, nem nessa semana, nem nas semanas seguintes ou meses. Deixara de passar, e ninguém sequer tomara o seu lugar a distribuir o correio e a velha senhora sentiu uma ponta de tristeza, uma suave mácula, como a primeira fímbria de castanho outonal na folha de um plátano. A senhora não tinha a quem perguntar pelo carteiro, nem sabia como, pelo que continuou a cuidar da sua casa e do seu jardim e a olhar interrogativamente os pardais que devoravam as migalhas que lhes deixava no empedrado do jardim. «Que esteja bem, é só o que peço!» - murmurava para si mesma quando os pardais alçavam voo, ou quando pensava no carteiro na hora teimosa em que o sono tardava à noite quando se recolhia aos seus perfumados lençóis de linho. Se ainda a visitassem os filhos, cada vez mais distantes, e talvez reconhecessem nas palavras com que desenharia o retrato do carteiro, o homem bonacheirão e bondoso que um dia distribuíra correio e que com a velha senhora os trouxera à existência.

saudade



Imagem do filme Le Voyage dans la Lune, de George Méliès (1902)

arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento / De todo o meu inútil, a causa / De minha intolerável permanência! Tu és / Uma contrafação da aurora!»(In «O Amor dos Homens» de Vinucius de Moraes)


Ao papel me confesso: amo! Ao ecrã de luz repito: amo! Um amor sofrido, estropiado, desprezado, marchetado com pérolas de lágrimas e botões da cor do sangue, difícil como só o verdadeiro e definitivo amor consegue ser. O amor que sinto palpita-me e doí-me no peito como uma ave desasada aprisionada no meio das costelas. O amor que sinto mergulha-me em noites de insónia sacudida por gritos de desespero e pranto irreprimível, o amor que me toma torna-me o mais solitário dos homens na mais miserável das existências. Uma evidência me assalta, tímida e constrangida: se este amor sobrepuja esta vida que nada é, o amor que me norteia os dias brilhará ainda no horizonte como o planeta Vénus quando as últimas réstias de vida se evolarem das minha narinas.



a ficção

A ficção fora o passo que tivera de dar para se explicar de modo mais seguro, antes bastava-lhe dizer - atrasei-me porque estive preso num engarrafamento estúpido nos semáforos da avenida - mas dizer isso agora parecia a ele próprio implausível e insuficiente, ninguém iria acreditar numa coisa em que ele próprio não depositava muita confiança e por isso tinha de acrescentar, desenvolver, adornar, complexificar, não eram semáforos, era uma passadeira onde uma mulher com um bebé de colo o mandara parar para lhe perguntar se achava o filho parecido com ela porque desconfiava que o haviam trocado na maternidade, ou um vendedor de castanhas que fizera parar o trânsito porque uma cartucho de castanhas quentes lhe caíra das mãos e as ditas haviam rolado pelo asfalto e poderiam furar como tições coruscantes a borracha dos pneus dos carros, era um bando de pássaros castanhos pintalgados de azul que fizera os automobilistas pararem as viaturas para saciarem as suas pupilas sedentas de cor ou uma troupe de ballet que atravessara a rua a saltitar e a rodopiar sobre as aceradas pontas dos pés. A ficção fora-se acentuando à medida que percebeu que ela mudara a vida das outras pessoas, a maneira como o olhavam, a expressão dos rostos e a brandura das palavras, e a ficção cresceu e ganhou vida própria e apossou-se dele, que um dia nascia homem de família cônscio da sua história pessoal e das memórias da infância e juventude, outro uma mulher sensual e felina ou ainda uma criança com medo a perscrutar a atmosfera do quarto à procura dos monstros dos seus pesadelos noturnos. Ele, o narrador e protagonista das suas próprias histórias, era a primeira manifestação da realidade imaginada, enérgico no ritmo musculado do seu corpo luzidio de alazão a martelar o alcatrão das avenidas com os seus cascos, ou temeroso no cuidado em que punha ao caminhar entre as pessoas a tentar não as esmagar ou aleijar com o seu corpo disforme de gigante desastrado.

Carne e pedra


«O amor não é feito de palavras / o amor é uma oferenda» (Virgílio)


     A madrugada nasceu tensa e prenhe de perigos e ameaças. Pela noite a coroa de chamas do Vesúvio produzira um espectral halo de luz que convencera os últimos cépticos que era imperioso partir de Pompeia antes que o vulcão a sepultasse. Enquanto o sol subia no horizonte, explosões violentas abalaram a terra e os ares enquanto pedaços gigantes de rocha foram expelidos da cratera, caindo a grande distância, já próximo da cidade. No tumulto de gente que arrebanhava bens e filhos para sair da cidade, Icário procurou Helena, num último e derradeiro esforço para a convencer a partir com os outros. Encontrou-a no jardim do santuário, serena como uma estátua, o semblante iluminado pelos reflexos de luz no tanque da deusa. Ela sentiu a sua presença ao seu lado, a sua figura de ombros largos e estendidos, e a sua mão grande de dedos alongados pousada no seu ombro nu num misto de afago e muda súplica. Ela continuou a fixar os olhos na imagem de Reia, Reia mãe e dadora de vida esculpida na própria rocha do lugar, de amplos e túmidos seios e um sexo esculpido com minúcia de onde corria a água da fonte. O que impressionava os neófitos e adoradores era que, dos braços de Reia, apontados ao chão de ambos os lados da sua cintura, brotavam raízes que mergulhavam no solo, não raízes talhadas na pedra como toda a figura, mas raízes autênticas, enervadas de saliências e protuberâncias, vigorosas de seiva e de vida. Helena recolheu um pouco de água do tanque com as mãos em concha e derramou-a sobre os pés da deusa, humilde e devota. O seu gesto demonstrou a Icário que todos os argumentos seriam excessivos, da mesma forma que não lhe passou pela cabeça subir ao telhado ou fugir dali pela estrada empedrada cheia de gente em desespero. Os pedaços de rocha começaram a cair no centro da cidade, ouviam-se os gritos de dor e pânico, e o fumo e cinzas espessavam o ar. Icário aproximou-se ainda mais da figura reclinada de Helena, com o coração cortado de dor.
     O destino reservado à cidade pelo vulcão em fúria foi a um tempo terrível e misericordioso. Precedido por uma nuvem tóxica que asfixiou os últimos dos seus habitantes, um rio de cinzas e poeiras cobriu o chão das ruas e das casas enquanto os telhados, colunas e frontões eram despedaçados por rochas e nódulos de lava incandescente.
     Mergulhado num véu de lava e cinzas, Pompeia sobreviveu até na forma dos corpos dos seus habitantes, condenados a uma forma perversa de imortalidade. Os arqueólogos e caçadores de relíquias exumaram aqueles corpos preservados pelo vulcão nos seus últimos momentos de vida - pessoas caídas nas ruas ou nas suas casas, abraçadas aos filhos, ou colhidos quando tentavam correr em meio a paredes a ruir. Num edifício circular colunado que parecia um templo os arqueólogos descobriram um pátio interior do que deveria ter sido um jardim, no qual desenterraram um ídolo feminino e, diante dele, uma figura compósita, congregada, do que parecia ser uma mulher de joelhos com um homem de pé nas suas costas, e o que parecia ser um par de asas, coisa absurda, talvez um adereço de teatro grego, irrompia das costas dele e envolvia o corpo da sacerdotisa num último gesto de amor.


Muda ansa


A casa onde Mariana crescera era enorme. Talvez isso seja uma evidência a que não se pode fugir na existência, o mundo, as coisas, a morte, são enormes, gigantes, na pequenez da nossa estatura e da nossa força. Quando somos pequenos tudo é maior, mas a casa de Mariana era, de facto, grande. A enorme porta de madeira de faia da entrada abria para um vestíbulo enorme, com paredes decoradas com hemi-colunas chanfradas nas paredes, e sombrios retratos a óleo a preencherem-nas quase por completo (ela não sabia quem eram aquelas pessoas nos quadros, mas a avó contara-lhe que eram ancestrais, família de antes, graves nas suas expressões serenas e tons baços e aguados das roupas, a fixar nela os seus olhares perfurantes), desse vestíbulo partiam dois corredores que comunicavam com o resto do piso térreo e uma escadaria de mármore que dava passagem para o piso superior onde o mais que havia eram gabinetes, um vestiário privativo da mãe de Mariana e uma biblioteca e sala de fumo onde o pai se refugiava amiúde, escondendo-se nela como se fugisse deles, da família, das colunas e dos retratos a óleo da parentela. Mariana passava o tempo no quintal e na casa grande a brincar, ainda não tinha idade para a escola e deixavam-na fazer um pouco o que lhe apetecia, desde que não perturbasse nada nem ninguém, sobretudo ao pai a quem qualquer som fora de tom ou uma partícula de poeira a dançar nos ares fazia-o franzir o cenho de aborrecimento e invocar a salvaguarda atenta da esposa. Por vezes o pai recebia visitas, Mariana também não sabia que pessoas eram aquelas, e a mãe e a avó não davam pistas, chegavam de carro, subiam a escadaria fronteira com os tacões das botas militares a percurtirem nos degraus de pedra e apresentavam-se na porta de entrada, muito direitos e sérios com os seus uniformes negros e o chapéu militar seguro contra a perna. Quase sempre, subiam para a biblioteca ao encontro do pai ou esperavam aí que ele se reunisse com eles. Por vezes, quando a porta se fechava, Mariana descalçava-se e subia as escadas, aproximando-se o mais que se sentia capaz da porta escura, e daí ouvia as vozes deles lá dentro, falavam apenas, nunca ouviu deles  um riso ou uma gargalhada, ou algo leve e luminoso como um gracejo ou uma espontânea exclamação. Uma tarde em que a mãe se encontrava no vestiário a separar roupa quase nova para dar por caridade aos pobres da paróquia, Mariana voltou a perguntar-lhe sobre aqueles homens de negro que vinham à casa deles para falar com o pai. A mãe, talvez por se encontrar numa disposição favorável, não fechou a porta à conversa com um ralho ou uma interjeição e adiantou-lhe mais alguma coisa do que era costume fazer. O mundo, explicou ela a Mariana, é um sítio muito feio que é preciso educar e corrigir, como se fosse uma criança abandonada pelos pais, e para educar dá-se pão à medida da educação e isso era o que o pai fazia, dava pão e educação ao país e ao mundo. Mariana ficou encantada com a extensão da explicação da mãe, embora não pudesse dizer que tinha passado a perceber melhor quem era aquela pessoa misteriosa que sabia ser o seu pai. A explicação alegórica da mãe originou mesmo alguma confusão no seu espírito, que agora se punha a imaginar com algum desconforto se, quando o pai a fitava com uma expressão desaprovadora, não a estaria a considerar também uma pessoa feia como as pessoas do mundo fora daquela casa. Mas depressa chegou o dia em que aquelas visitas cessaram de repente. Deixou de haver pessoas de uniforme a baterem à porta para falar com o pai e ele permaneceu tão ausente como antes, enfiado no seu gabinete, mas agora acompanhado pelo som roufenho da velha telefonia da casa, onde uma voz agitada falava ininterruptamente durante horas a fio. Nas poucas vezes que se cruzou com o pai, ele pareceu-lhe mais preocupado e carrancudo do que era habitual, e também surpreendera a mãe a avó a conversarem numa voz angustiada entre o cochicho e o choro. Quando começou a ficar preocupada com o que se passava na casa, as visitas voltaram, mas apenas por uma vez. Bateram à porta de entrada, eram três homens de uniforme, um uniforme cinzento, diferente dos uniformes negros de antes. Escondida atrás de um jarrão de louça, Mariana assistia a tudo, a mãe subiu as escadas a correr e a chamar o esposo aos gritos e logo depois desceu ele, muito hirto, a gravata com o nó desatado e uma expressão desesperada na face. Olhou demoradamente cada um dos três militares e então viu a filha atrás do jarrão ao lado das escadas. Aproximou-se dela e afagou-lhe desajeitadamente a cabeça com a palma da mão, antes de lhe virar costas e aproximar-se dos homens de cinza, a mãe a avó de Mariana choravam a um canto. Um dos militares segurou-o pelos antebraços, enquanto um camarada lhe atava as mãos atrás das costas com uma corda grossa de sisal. E os militares abandonaram a casa a escoltar o prisioneiro que um deles mantinha sob o seu jugo com o cano de um fuzil encostado à sua nuca. Mariana sentia-se atordoada, não o sabia na altura mas aquela foi a última vez que viu o pai, roubado deles por um mundo feio que vestia uniformes cinzentos.


A ilha


A ilha muito ilha Muito longe erguia-se de um mar sem fim com as suas costas hostis de rochedos aguçados e algumas árvores espinhosas de troncos e ramos retorcidos e contorcidos pela maresia No âmago da ilha a natureza não era tão inóspita nem desagradável havia bosques e renques de árvores matas de fetos e bambus prados risonhos de flores riachos que alimentavam as plantas e dessedentavam as aves errantes de olhar melancólico e os coelhos minúsculos e intrépidos que paravam amiúde de patitas levantadas como a agradecer ao universo a oportunidade de existir E na ilha também havia um coração Foi a essa ilha de carantonha fechada que chegou sob a luz do luar o náufrago de roupas rasgadas e membros esfacelados pelas pedras e conchas quebradas Ficou estendido inanimado numa nesga de praia no sopé dos rochedos e quando a manhã nasceu a luz e o canto das aves fê-lo levantar-se à procura de algo para comer e algo para beber Escalou as rochas e descobriu as nascentes e os riachos e os coqueiros e árvores que davam frutos esponjosos e açucarados da cor do Sol E foi fácil encontrar água e comida e ver um abrigo num feixe de troncos e folhas de palma caídos Tudo no centro de um prado e tão semelhantes a uma cabana que parecia impossível que não tivessem sido mãos humanas a reuni-los e montá-los aplicadamente O náufrago teve medo Medo do outro De alguém perigoso e emboscado de espada ou mosquete nas mãos Mas não havia ninguém Apenas ele e a ilha E logo o náufrago começou a procurar sair dali A construir barcos e barquinhos que o levassem de novo para o mar E para outros barcos que o resgatassem para junto da mulher e dos filhos numa terra distante O que o náufrago não sabia era que a ilha era o Outro que antes temera Não era um inimigo armado mas um coração que batia com um devaneio e um fascínio por aquele náufrago que ali chegara anos e séculos depois da última figura humana que pusera os pés na ilha E a ilha sentia com ele Admirava-o Encontrava beleza nos seus gritos de desespero no alto dos rochedos ou no pranto com que acordava aos soluços no remanso dos sonhos noturnos E a ilha rodeava-o A confortar e a proteger Diques de bambu forte  que se erguiam das balseiras para fortificar a cabana contra o vento dos temporais Árvores que se reclinavam com a sua sombra sobre a sua tez clara quando adormecia sob o Sol forte E uma vontade terna e feminina que impunha silêncio e quietude a todas as plantas e animais quando ele descansava ou dormia Mas depressa chegou o dia em que o náufrago se sentiu preparado para arrostar as ondas do mar A ilha não o deteve quando o seu barco começou a sulcar as ondas da rebentação e a afastar-se de si Nenhum tronco flutuante varou a frágil embarcação e nenhuma lança de bambu trespassou o ventre do náufrago que se exilava Mas a tristeza estava lá Em cada rocha e em cada folha de erva No silêncio sepulcral das aves e dos animais Nos riachos que desaguavam nas ondas já salgados das lágrimas do coração da ilha.

O Processo de Jesué Nazareno

     Texto original que foi submetido a um concurso literário (sem sucesso), transita aqui para o arquivo morto desta página, para o caso da página, ou do autor, ser abduzido por Aliens.

     Resultado de uma pesquisa intensiva, e do folhear de dezenas de processos do Santo Ofício, este ficheiro é a recriação de um processo da Inquisição em ortografia da época, com todas as minutas (e perfídias e maquiavelismos) e perguntas padronizadas desses processos. A questão subjacente a este trabalho é refletir sobre qual seria o destino de um Cristo histórico (judeu e rebelde) num mundo dogmaticamente cristão.

     Para quem não aprecie "fast food" ou tenha estômago para valentes xaropadas, segue o:







Resultado de imagem para inquisição de évora

Amor


O seu amor é feito de vidros que cortam, isso era tudo o que sabia dizer e que poderia até ambicionar dizer-lhe se surtisse a ocasião ou se se alavancasse de coragem. O amor dela não tinha essa fruição abnegada de dois corpos que se tocam e se homenageiam sem pedir explicações nem suplicar coisa alguma, ou a cálida virtude de abrigo e refúgio de uma cabana acolhedora no meio da neve fria. E falava em amor porque era mais fácil para ele exprimir-se assim. Quando ela estava com ele, estava sempre atenta, de garras afiladas, apontando em cruas denúncias todas as suas falhas, os seus erros, os jeitos e trejeitos que eram muito próprios dele mas que ela não tolerava, a sua forma de falar, os seus preceitos e opiniões, o seu modo de andar, os requebros da sua voz, o sibilar da sua respiração. Estar com ela e partilhar o mesmo espaço, era uma tarefa dolorosa e angustiante. Detesto quando fazes essa expressão…odeio que digas isso…não me digas que vais voltar a pegar nesse livro velho…nunca mais deixas de estar ligado a esse botija de oxigénio? E ele prosseguia sem protestos, agindo e fazendo como sempre em meio ao asco e repúdio da companheira. Enquanto ela era apenas a sua enfermeira, mostrara-se mais doce e compreensiva, era prestável e bondosa, mas tudo mudara quando ela se instalou no seu leito e lhe fez retribuir com benesses financeiras e sociais o sacrifício do seu corpo jovem e ardente na ara da velhice, agora que ela geria a sua vida e os seus bens não havia um momento com ela em que se sentisse tranquilo, em paz, os defeitos dele eram todo o tema das palavras que ela lhe dispensava, a ponto dele fingir que dormia até mais tarde para poder estar sozinho, ou refugiar-se no quarto para repousar enquanto ela permanecia acordada na sala, ou saía para se divertir à noite com os amigos. Numa perversa situação, os amigos dele, que se haviam convertido em amigos de ambos, consideravam-no um privilegiado por ter na sua idade quem tomasse conta dele e ao mesmo tempo lhe proporcionasse carinho e afeto. Deixara-se enredar numa armadilha da qual não sabia como sair e notara já que as coisas assumiam formas estranhas, e não era só o comportamento dela - até a indispensável botija de oxigénio denotava estranhas anomalias técnicas que ele não sabia se eram casuais ou causadas. O seu amor é feito de vidros que cortam, pensava ele, vidros que tarde ou cedo o atingiriam como já antes o haviam dilacerado por dentro.

Uma estória de Natal

Uma estória de Natal
(excerto de um diário de campanha pessoal).

23 de Dezembro do ano de 1850.
O nosso destacamento, sob o comando do tenente Fergus Robertson, começou a subir pela margem do rio Tugela na direção das montanhas do Drakensberg. A caminhada é árdua, e os carreiros na margem, mesmo aplainados pelas cheias do rio, mantém à superfície pedras aguçadas como dentes de Cadmo. Ninguém nos diz qual é o objetivo da campanha, mas o cozinheiro, Mr. Temple, soube pelo sargento Marcus, que procuramos um renegado Boer, que tem pilhado as fazendas do vale na companhia de um grupo de homens a quem confiou armas de fogo, entre os quais se contam alguns Zulus. Eu não posso falar pelos outros, mas parece-me difícil que consigamos capturar um Boer que já viveu nestas paragens, ainda para mais contando com a ajuda de Zulus, que conhecem esta terra como se tivessem nascido do chão, inteiros e armados. O tenente Robertson deu instruções para montarmos acampamento numa plataforma de basalto a uns dez metros das águas do rio. Entre os escolhidos para montarem guarda, coube-me a mim cumprir o primeiro turno de vigília. Hesito em escrever aqui o que penso do meu superior, mas confio em que me acompanham as pessoas mais polidas e educadas de toda a África meridional, e se seria talvez exagero chamar-lhes um escol de cavalheiros, creio que não seria de esperar de qualquer um deles devassar ou espreitar os papéis ou cartas escritos pelos camaradas de armas. Dizia pois, que o tenente Robertson é um oficial com uma carreira promissora pela frente, duro e disciplinador, não esquece nem deixa esquecer que já pertenceu a um batalhão de infantaria com um passado de glória na Índia, e que sente nisso um extravasante orgulho. Mas vou ficar por aqui.

24 de Dezembro de 1-8-5-0.
Continuamos a trilhar caminho na margem do Tugela, na véspera aproveitei a presença do tenente Robertson enquanto eu estava de vigia, para lhe pedir uma vez mais, que se alcançássemos um dos abrigos rochosos de que se fala com gravuras feitas pelos indígenas, se ele me deixava copiar algumas para o meu caderno de esboços. Ele não negou a possibilidade, e tive oportunidade de me aperceber de que teria o seu consentimento, conquanto as minhas ocupações extra-militares não comprometessem o andamento ou a missão da campanha. Ao princípio da tarde alcançamos aquele que seria provavelmente o último aldeamento dos nativos antes dos terrenos escarpados e desertos da montanha. O tenente mandou-nos distribuir em forma de cordão humano em volta da aldeia antes de entrar na aldeia. Aldeia era até um nome generoso para aquelas seis cubatas com telhados de colmo, com cercados para as cabras e algumas hortas na orla das cubatas. O tenente Fergus avançou com um intérprete Zulu, com o sargento e o cabo George, e três ordenanças a quem avisara para terem as armas prontas a disparar. Nós permanecemos um pouco recuados, com o olhar atento e as armas prontas para o que pudesse ocorrer, e não conseguíamos observar o que ocorria no espaço entre as cubatas. O tempo transcorreu de uma forma exasperadamente lenta, até que se ouviu o som de um disparo solitário que ecoou em volta e contra os contrafortes das montanhas. Colocamos as armas em riste, prontos para tudo, mas o sargento saiu um pouco do segredo da aldeia para nos acenar que estava tudo em ordem, e voltou para dentro num ápice. Olhamos uns para os outros, ainda apreensivos e sob tensão, mas não decorreu mais do que uns meros minutos, e todo o grupo liderado pelo tenente abandonou a aldeia, deixando atrás de si o som lancinante de gritos e pranto. O tenente reuniu-nos e indicou-nos que atravessaríamos o rio a vau um pouco mais adiante e subiríamos a montanha do lado oposto, onde os fugitivos se encontravam abrigados numa gruta. O intérprete, alheio às palavras do tenente, chorava de forma contida, e tivemos uma segura suspeita de como o tenente tinha obtido as informações.
Seguimos marcha consoante nos havia sido ordenado, em passo rápido devido ao declinar da tarde. Atravessamos o rio num ponto onde uma queda de água apresentava no topo uma ponte de pedra dúctil por onde podíamos alcançar a margem oposta apenas com água até aos joelhos. No outro lado o tenente conferenciou um pouco com o guia Zulu, gesticulando bastante e envolvendo as montanhas nos seus gestos enérgicos, e recomeçamos a caminhada pelo terreno em declive, por onde os pés resvalavam por vezes em pedras soltas, fazendo-nos perder o equilíbrio ou mantendo-o a muito custo. Nem meia-hora de progressão tínhamos, quando o tenente levantou a mão aberta para nos determos. Ele agachara-se na crista de um monte e apontava lá para baixo. Juntamo-nos ele a rastejar, tentando não levantar poeira. Os perseguidos estavam sentados sobre pedras no recinto natural diante da entrada de uma gruta, tinham ateado uma fogueira e conversavam com as armas pousadas displicentemente junto a eles. Interroguei-me sobre que fenómeno de acústica os teria privado de ouvir o tiro no aldeamento, porque pareciam francamente tranquilos e alheados de tudo. Sob as ordens do tenente, um pequeno contigente no qual me incluiu, desceu pela encosta por onde havíamos subido, e fizemos um grande rodeio até nos aproximarmos bastante da entrada da gruta pela aba lateral de um monte vizinho. Quando ficamos posicionados, com as armas apontadas aos renegados, o tenente atacou como gostava, de frente e ao som da trombeta de cavalaria, e a espada desembainhada erguida muito alta para o céu. Quando os renegados tentaram empunhar as armas, uma saraivada de disparos do nosso lado, atingiu alguns deles, levando os outros a renderem-se de imediato, com os braços levantados. Uns e outros avançamos e isolamos os prisioneiros das armas caídas, atando-lhes as mãos atrás das costas. O líder bóer jazia morto no chão, com a cabeça vazada por um disparo. Um dos soldados que acompanhar o tenente na sua carga solene, informou que um dos renegados, um Zulu, conseguira fugir pelo lado oposto àquele em que nós havíamos estado posicionados. O tenente Robertson, atendendo ao cair da tarde, decidiu que acamparíamos no mesmo lugar em que estávamos, e que na madrugada seguinte, iríamos no seu encalço até o capturar. Enquanto se organizava a guarda para a noite, reiterei com voz humilde o meu pedido ao tenente, e este consentiu em me libertar dos meus deveres durante a manhã do dia seguinte, uma vez que os havíamos capturado na quase totalidade e que para apanhar o fugitivo que faltava, não iriam precisar de muitos homens. Foi a melhor coisa que alguém me disse nos últimos tempos, até mesmo, nos últimos anos. Agora que escrevo estas linhas no meu diário sob a luz da candeia, creio que nem sequer conseguirei adormecer, tão feliz e entusiasmado me sinto com o que vou encontrar nos abrigos rochosos.

25 de Dezembro
Aos primeiros fulgores da madrugada, já eu estava fardado e com a mochila de couro às costas e o mosquete Brown Bess seguro na mão. Como uma parte das forças permaneceria instalado ali, havia proposto a mim mesmo explorar outro abrigo rochoso onde pudesse trabalhar sem perturbações. Despedi-me dos meus camaradas, e tomei o que parecia ser um carreiro sinuoso de encosta, por onde persisti em subidas e descidas até encontrar uma cavidade natural que se abria como uma boca de penumbra na rocha basáltica. Bastou aproximar-me para os meus olhos se maravilharem. Logo no arco da entrada, no topo, distribuíam-se algumas figuras dispersas, gnus de corpo castanho aureolado de azul, um varano enorme defronte de um ovo listado, e caçadores de corpo fino e cabeça alongada que perseguiam um antílope. Pensei em começar a desenhar, mas a entrada da gruta apelava à minha curiosidade. Não precisei de nenhuma luminária porque a uns metros da entrada a gruta iluminava-se de novo como benesse de um abertura ogival no teto por onde se conseguia ver o céu e as nuvens. Aí o meu espanto recrudesceu, as pinturas, desta vez, representavam apenas grupos de pessoas, homens e mulheres com lanças e arcos de flechas, o corpo era apenas uma linha alongada estilizada, do qual partiam linhas similares que figuravam os membros, transmitindo o movimento dos braços, o sentido do andar, a intenção do conjunto. Era formidável como, com uma economia de detalhes, conseguiam realizar uma pintura dinâmica, tão viva que me pareceu que seria possível as figuras moverem-se diante dos meus olhos na parede rochosa lisa e pigmentada; e no entanto, não eram desprovidos de arte, eram até singularmente belos e tocantes. Mas o que centrava e dominava o olhar era uma figura um pouco surreal no topo do conjunto, tinha proporções gigantescas, e o seu corpo deitado acompanhava a linha convexa do topo da parede, era um homem ou um deus criador com uma estatura dez vezes superior à das figuras humanas, e as linhas do seu rosto pareciam as de uma máscara com o queixo pontiagudo e duas frestas vermelhas para os olhos. Rendido à pintura, tirei da mochila o bloco de folhas e os lápis e comecei a desenhar, sentado numa pedra oportuna do chão. A minha primeira preocupação foi as dimensões e a relação intrínseca entre os diferentes elementos da pintura, e só depois de assinalar no papel com traços sumidos a sua posição, é que ousei gravar as silhuetas e linhas, o tempo passou num ápice nessa tarefa apaixonada, e quando me dei conta, a luz que atravessava a clarabóia natural parecia aproximar-se da sua posição vertical. Garatujei em siglas as cores da composição para a poder completar mais tarde, e permiti-me alguns momentos de reflexão. As gravuras representavam cenas de caça e pastorícia, lutas entre grupos antagonistas e registos religiosos ou mitológicos como o da gravura do gigante reclinado. Tinham sido sem dúvida produzidos por grupos tribais como os San, com as suas lendas e récitas, e eram já velhas quando os Zulus chegaram à região. Recolhi os meus haveres na mochila e dirigi-me para a saída depois de um último olhar pelas gravuras, ainda não tinha chegado à entrada em arco quando senti uma impressão de perigo, ouvia-se o arfar de uma respiração humana, colei-me às sombras e espreitei para a entrada – o Zulu que todos procuravam estava mesmo ali, a uns dez pés de mim e acocorado por trás de uma rocha a vigiar o vale. Ouvia-se o eco de vozes autoritárias, deveriam ser os seus camaradas que vasculhavam as imediações. Preparei o mosquete, encostei a coronha ao ombro e avancei um passo. O renegado Zulu virou-se de rompante com a mão a aflorar uma pedra do chão, mas renunciou ao seu gesto quando viu o cano da arma apontado ao seu peito. Fitamo-nos no mais completo mutismo, e eu sentia-me aturdido por trepidantes pensamentos. Podia levá-lo preso e exibi-lo como um troféu de caça, mas o que é que isso adiantaria? Não me era difícil imaginar os Zulus a desempenharem aquelas cenas de caça ou a venerarem um ícone gigantesco com máscara. Baixei o mosquete até apoiar a coronha no solo e apontei-lhe a entrada da gruta, instando-o a esconder-se ali. O Zulu passou por mim, ainda com algum receio, e imergiu nas sombras cúmplices.
Desci a encosta no sopé da plataforma da gruta, e não tardei a reunir-me aos meus camaradas.
- Então, cabo artista? – perguntou-me um deles – viste muitas pinturas naquela gruta?
- Do interior daquelas grutas, quarenta séculos nos contemplam – gracejei, e eles riram-se.
- Procuramos em todos os buracos e por trás de todos os arbustos. Aquele maldito deve estar a milhas de distância.

Concordei e voltamos para junto do tenente, os outros relataram os seus esforços infrutíferos para capturarem o fugitivo, e o tenente, em resposta, deu como satisfatórios os resultados da surtida, e decidiu que regressaríamos na manhã seguinte ao aquartelamento onde estávamos destacados. O nosso regresso ocorreria no dia a seguir ao Natal, um Natal que passáramos a trilhar caminhos rochosos e subir montes, mas o que me fazia deveras feliz, e que eu considerava a melhor dádiva que me poderiam ter feito, era ter aquele esboço das pinturas para aperfeiçoar e colorir.



Rainha


                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Abriu o saco do correio e entregou ao rececionista um maço de correspondência para o hotel, previamente separada e selada com uma fita dos Correios. O rececionista agradeceu e quando o carteiro iniciava a viagem de regresso à rua, notou um cartaz no átrio a anunciar um evento literário no hotel, era o lançamento de um livro de poesia e, caprichosamente, estava a decorrer naquele mesmo dia e hora na sala de conferências do hotel, mas o que atraiu o seu olhar não foi o evento em si, os caracteres da mensagem, mas a fotografia ampliada da autora, jovem e bonita de longos cabelos negros, rosto oval de lábios cheios e olhos rasgados fitos em si. Fora fotografada sentada, algo tensa, com um braço em esquadria sobre os joelhos, e o cotovelo do outro braço apoiado neste e a mão junto ao queixo, com um amoroso dedo indicador encostado à face de tez muito branca. Emocionado sem saber porquê - uma refrega de sensações no peito, um tropel e um torvelinho de águas frias - o carteiro perguntou onde era a sala de conferências e encaminhou-se para lá. O lançamento do livro já tivera início, numa sala mais pequena do que aquilo que esperava, uma vintena de pessoas sentava-se nos lugares da frente, defronte da mesa corrida onde discursava um homem de cabelo grande e patilhas compridas. Sentou-se umas filas atrás, e pousou no chão aos seus pés o seu saco de carteiro. A autora estava sentada ao centro da mesa, ladeada pelo discursante e por uma mulher de meia-idade gorda e de cabelos ruivos compridos presos por um elástico atrás da nuca. A poetisa vestia uma camisola preta como na fotografia e e sorria com a cabeça ligeiramente inclinada enquanto o dono da palavra falava de mitemas e poemas. Por fim, o homem lá se sentou, e a ruiva do séquito da rainha declamou os versos de um dos poemas com os ésses a quererem evadir-se por um misterioso terceiro orifício que parecia ter na cana do nariz. O poema arrastou-se, parecia ser bom, embora não estivesse a prestar muita atenção por só ter olhos e ouvidos para os movimentos e expressões da autora. Quando a ruiva se sentou, a autora interpelou a audiência a perguntar se alguém tinha alguma questão a colocar ou dizer alguma coisa que achasse pertinente. O carteiro ficou suspenso da sua voz doce como uma aranha gorda e disforme na extremidade de um fino fio de seda, e logo naquele instante, instante urdido pelo universo desde a explosão primordial da matéria e do tempo, a poetisa pousou o cotovelo no colo e ergueu a mão a encostar o dedo indicador à face, e aquele gesto pulverizou a sala, as pessoas, a cidade, transformando-as em sombras ou silhuetas imateriais, fantasmáticas.
                O carteiro levantou-se, com gestos lentos como se temesse quebrar o encanto, e com os olhos dela fixos em si, através de si, perguntou-lhe:
                - Posso escrever-lhe cartas de amor?

O mentor

Desenho anatómico executado por Leonardo Da Vinci (Royal Library, Castelo de Windsor)

                - Acorda, meu pequeno! Vais chegar atrasado à escola.
                Ela destapou-o, puxando para trás a colcha e os lençóis, e ele muito atrapalhado, sonegou para debaixo da almofada uma revista pornográfica que tinha ao lado de si na cama, levantou-se de mau-humor na penumbra do quarto onde a mãe abria com alarido uma fresta dos estores, urinou na sanita e tomou um banho rápido, sempre com a porta entreaberta porque a mãe tinha medo que ele tivesse um enfarte ou algo do género e precisasse de a chamar. Ouvia a mãe na cozinha a aquecer no micro-ondas o leite para os cereais. Vestiu-se à pressa. Rotina perfeita, ele e a almoçadeira com leite chegaram ao mesmo tempo à mesa. Comeu sem vontade. A mãe falava sem cessar. Do frio, da chuva, para ele não andar desnecessariamente à chuva, e do que a meteorologia previa na rádio, e dos aumentos do princípio do ano porque ouvira um senhor na rádio a falar sobre isso, e do que ele achava, e as justificações do senhor ministro.
                Voltou ao quarto, a preparar a pasta, meteu nela uns exercícios que corrigira na véspera, e deu uma espreitadela no espelho da cómoda antes de sair. Acamou com a mão uns cabelos brancos que teimavam em ficar espetados sobre a calva, e espalhou bâton de cieiro nos lábios. Pensou que parecia o retrato da solidão personificada, um retrato cru em vermelho-sangue e roxo como pinceladas de Bacon. Apertou o lenço colorido em volta do pescoço e passou à sala onde retomou o monólogo da mãe, dizendo que sim com a cabeça como se a ouvisse.
                - E porta-te bem para teres boas notas, porque eu tenho sempre muito orgulho em ti, meu filho.
                «Eles não querem saber, mãe!»
                Não ouvira, sabia que ela não ouvira, na mãe a fala e a audição desembocavam no mesmo canal e devia ter uma espécie de membrana que fechava uma delas quando a outra estava ativa. Não valia a pena falar para ela enquanto ela não se calasse.
                - Quando chegares logo, não devo estar cá, mas deixo-te comida no forno, vou a casa da prima Isaura per...
                «Nem sei porque dou aulas, não querem saber do que falo e atiram-me coisas. Noutro dia deixaram o apagador equilibrado na porta e apanhei com ele na careca quando entrei, foi o momento de maior alegria de toda a história do agrupamento».

                - ...sei que não lavaste os dentes, mas trata disso quando voltares a casa. Até logo, e não deixes que te roubem o lanche!


Uma nova vida


               Heloísa, a minha mulher, gracejava muito com a minha ânsia de encontrar sentido e significado nas coisas mais insuspeitas - uma estrela cadente, o voo de uma libélula, o trilho de uma formiga-das-canas, e não raras vezes ouvia o seu risinho abafado enquanto eu me afadigava entre cálculos e mapas astrais com o cenho franzido e a transpirar da palma das mãos. Está tudo errado, garantia-me, a previsão é a trigonometria do absurdo, os planetas e as estrelas mudam e nós com eles, e se três planetas se alinham, eles são inocentes do sentido infantil que nós vemos nisso e o alinhamento seria diferente se vivêssemos na Lua, em Marte ou no dito de Judas. Heloísa contestava e eu mergulhava em canhenhos e quimeras, tomado agora de uma nova miragem, comecei por me interessar pelas alusões que encontrara nas Centúrias de Nostradamus aos fenómenos siderais – conjunções de planetas, sinais nos céus e cometas, muitos cometas – e num ápice estava embrenhado nas profecias do astrólogo occitano, revendo cada interpretação de cada quadra ou sextilha, os topónimos e antropónimos codificados nos textos, as espúrias derivações linguísticas que constituíam misteriosos recursos criptográficos, tendo como esperança subjacente a possibilidade de estar a espreitar pela janela do futuro através dos olhos fatigados do velho profeta. Heloísa abandonou o meu leito na noite em que me surpreendeu na cave a tentar repetir o método de profetizar de Nostradamus e das pitonisas, envolvido pelo fumo alucinogénio e com os olhos fixos numa taça com água suspensa de um tripé de bronze.
                Ela enfastiara-se dos meus interesses e partiu, fez-se á estrada com um caixeiro-viajante que nutria a mesma paixão que ela sentia pela dor sofisticada que se podia extrair de realizar incisões na própria carne ou retalhar a epiderme em círculos e volutas que se acendiam de tons sanguíneos. Por ironia do destino, depois de Heloísa partir – ela que era a minha cínica consciência, o meu gafanhoto de Pinóquio com sintomas depressivos – em vez de me sentir mais livre para os meus devaneios e fantasias, comecei a sentir-me cada dia mais prosaico, sem ânimo, com uma crescente aversão pelo que transcendia a minha capacidade de perceber ou explicar sem reservas. Foi um processo lento, uma metamorfose em lume brando, e teve os seus custos. Dececionei e defraudei as pessoas que me procuravam pelo meu Eu de antigamente, clientes que me consultavam e amigos com quem antes debatia com entusiasmo ideias e fantasias borboleteantes. O peregrino e o alquimista em mim vestiram roupa de trabalho, e regressaram comigo às ruas para cumprir tarefas remuneradas, concretas e coletáveis. Na minha casa, à conta desses anos de quimeras acumulara um espólio heterodoxo que se compunha de livros e anotações, alguns devaneios oníricos registados em pergaminho, diagramas astrológicos e mapas astrais, e relíquias mais ou menos avalizadas como unhas de dragão ou um chifre fóssil de unicórnio. Tive de abandonar a casa, reguei-a com gasolina e incendiei-a, chamando os bombeiros com um telefonema anónimo quando as chamas ameaçavam alcançar as casas contíguas. Seguiram-se as cinzas, as perguntas, a investigação de que fui objeto e a pena pecuniária com que arrumaram o assunto.
                Mas as coisas esfriaram, e eu fiz reconstruir a casa, tijolo sobre tijolo, parede contra parede, depois de fechada e rebocada, o seu interior branco e impessoal tornou-se tão acolhedor como os braços de uma morta. Mas era esta a casa que eu precisava em volta de mim, a minha concha do lado de dentro de tantas quimeras inúteis. Sem surpresas, a minha vida começou a mudar, iniciei novas amizades com pessoas que se identificavam com a minha maneira de pensar e viver e mesmo Heloísa regressou, de forma espontânea e inocente como se tivesse saído de casa apenas na véspera e não tivesse tido outra intenção senão ir visitar algum familiar distante ou a ir a um workshopde gestão de empresas.

                Com o regresso de Heloísa, a minha nova vida ficou completa, suficiente, serenada. Ela adorou a minha nova pessoa, e a forma como eu lidava agora com a existência, mas a espaços sugeria que deveríamos procurar uma casa bem longe para nos mudarmos, uma casa construída de raiz num sítio sem resíduos do passado, porque era-lhe difícil entregar-se à sua paixão pela jardinagem e andar pelo jardim  a ouvir as vozes que saíam da cave onde eu guardara o carcomido tripé de bronze, ou o piar lúgubre das gárgulas que se vinham empoleirar na empena da casa.

Cinco breves idades


              Tinha completado TRÊS ANOS quando começou a falar, para alegria da família e da aldeia onde morava. O padre André decretou novenas de louvores a Nossa Senhora pelo milagre, e estralejaram foguetes na rua onde era a sua casa, e as visitas a sua casa sucederam-se, trazendo presentes dignos de reis magos – um capão bom para matar, laranjas sumarentas e luminosas como pequenos sóis, feno para as ovelhas que o pai dele criava no quintal. Todos queriam saber porque só então começara a falar. Cansado de tantas perguntas de tanta gente, o menino ainda assim explicava com uma clareza invulgar para a sua idade que primeiro teve de aprender a língua das galinhas e das ovelhas do quintal, depois das andorinhas do beiral do telhado da casa, dos melros que saqueavam a cerejeira grande, e dos corvos pacientes que rondavam o corpo decrépito do avô velho. Só quando descobriu que não havia mais nenhuma língua importante para falar, achou que era chegada a altura de falar com as pessoas.


                Com SETE ANOS feitos, pela Páscoa, o circo levantou a sua tenda num prado junto à aldeia. Todo o dia havia música e a trupe circense desfilava pelas redondezas, equilibristas sobre andas, lamas e dromedários, palhaços de pinturas garridas e sapatos gigantes. Os pais avisavam-no – cuidado com a gente do circo, que te escondem numa mala e levam-te com eles quando partirem, e nunca mais te vemos! Mas o menino desejou partir, estar com os lamas e os dromedários e rir-se com os palhaços, e por isso infiltrou-se no circo para fazer parte dele, e escondeu-se nele no lugar mais escuro, estreito e secreto que descobriu, incerto se o tinham visto a esconder-se. À noite, armou-se o espetáculo, e o menino ouviu no seu esconderijo as risadas dos espetadores causadas pelos palhaços e os ais! e uis! pela ferocidade das feras e pelas proezas arrojadas dos trapezistas. Depois ouviu-se um rufar de tambores, os focos dos holofotes bailavam diante do seu esconderijo, e num estrépito ensurdecedor o canhão foi disparado, e o menino-bala foi projetado pela entrada do circo, voou pelos ares e foi aterrar no feno empilhado no quintal da sua casa.


                Com QUINZE ANOS, uma amiga de quinze anos também, entrou na sua vida para pô-la em ordem, abriu as janelas e as portadas do seu coração, sacudiu os tapetes e cortinados e pô-los a assoalhar, limpou de sombras e cinzas amargas os recantos da sua morada e trouxe para dentro de si as cores e os olores inebriantes das flores com que preencheu jarrões de louça e solitários de vidro iluminado. Tudo o que ela fazia traduzia-se por sentimentos e ações que tornavam a sua morada mais acolhedora e os seus dias mais leves, metódica e sensível, ajudava-o a ordenar as suas sensações e sentimentos com os seus lábios solícitos, as suas mãos ternas e a sua pele e carne acariciantes. A luz do exterior permanecia dentro de si, mesmo quando fechava as janelas e portadas, e era uma luz tátil, perfumada, como o ar dos prados e dos pomares, ou o cheiro íntimo da sua pele no remanso dos lençóis. Quando ela olhou em volta e apreciou tudo o que fizera pela sua morada, disse-lhe que considerava concluído o seu trabalho, e saiu da sua vida como uma serviçal que se escapulisse pela porta da casa às horas cúmplices da alvorada. Depois dela partir, sentiu-se algo melancólico, incompleto, mas tudo isso desapareceu quando se deu conta de que ela não saíra completamente de si, cada coisa que ela arrumara dentro dele, cada flor, verso, beijo, fotão de luz, tinha o seu toque, estavam presentes, viviam nele.


                Com DEZANOVE ANOS conheceu Heloísa, uma mulher extraordinária, na aceção mais ordinária que essa palavra pode transmitir. Heloísa, pouco tempo antes de o conhecer, tivera uma epifania porque descobrira que os seus pés chegavam sempre onde as suas mãos não alcançavam, esticava as mãos até ao limite e nunca chegava a coisa nenhuma, mas bastava adiantar um pé e chegava onde queria. Os pés dominavam o pensamento e as ações de Heloísa. Com Heloísa passou por uma fase podónica antes de a conhecer na intimidade, e mesmo aí a sua relação era extraordinária porque se compunha de podorícias, podósculos e podorgasmos, e Heloísa não permitia que enquanto estavam juntos, houvesse um momento em que os pés não fossem acariciados e acariciantes, membros de pleno direito do corpo dos dois, oficiantes supremos nos seus ritos de prazer. Mas se a vida íntima com Heloísa era satisfatória, ainda que excêntrica, o que o perturbava, era sair em público com ela, não havia dia em que fosse ao cinema, em que ela não se ajoelhasse aos seus pés diante de si, toda curvada para diante para render tributo aos seus pés com beijos ou carícias, ou então se descalçasse, e a-pontasse uma perna sobre o braço da cadeira só para colocar um dos seus pés ao alcance do seu rosto e boca; e quando namoravam no banco do carro ou num banco do jardim, o seu namoro privilegiava sempre a extremidade inferior do corpo sob o olhar bizarro dos transeuntes. E acabou por dizer que queria acabar com ela, no próprio dia em que almoçavam com os pais dele, e ela desapareceu debaixo da mesa porque sentira um desejo incontrolável de lhe beijar um artelho. Quando se despediu dele, em vez de lhe pedir a devolução de coisas que lhe tinha dado, ou como nos tempos antigos, de cartas que lhe havia escrito, ela só lhe perguntou se podia fazer, para recordação, um molde de gesso dos seus pés.



               Com VINTE E CINCO ANOS, já casado e com filhos, e numa altura em que reuniu a família próxima pela ceia de Natal, uma prima da sua mulher teimou em ler-lhe a sina. Apesar das muitas reservas da sua parte, ela contou-lhe o que a sua mão lhe dizia. Entre outras coisas, dizia que, por exemplo, iria ter sucesso não se sabe em quê se trabalhasse muito, mas disse-lhe logo às primeiras, que ele teria duas mulheres importantes na sua vida. Por estranho que pareça, isso impressionou-o de forma devastadora, e nunca mais deixou de pensar no assunto. Pensava em quem seriam essas duas mulheres. A primeira, para ele, estava identificada, o seu primeiro amor e sua primeira experiência sexual aos quinze anos. A segunda mulher era um mistério. Não era a sua esposa, não fora importante, nem ele para ela, casaram-se para arrumar a vida, porque estava na altura, porque até se davam bem, o que não acontecia com a maioria dos casais, foi um acordo tácito de matrimónio, um casamento amigável. Quem seria então a segunda mulher? Esse pensamento esteve subjacente em cada relação adúltera que encetou, em cada amizade, em cada mulher bonita que cruzava o seu caminho. E como esperou muito e com muita intensidade, ela acabou por aparecer, ou reaparecer, porque era a prima da sua mulher que lera a sina, teve a certeza de que era ela na primeira noite em que se envolveram, a entrega entre os dois foi total, os seus sentimentos entrelaçavam-se, identificados em absoluto um com o outro, e numa dada manhã, enquanto ela se vestia no segredo de um quarto de hotel, ele perguntou-lhe de forma atabalhoada, consciente do aparente ridículo das suas palavras, que se assemelhavam a um frase de adolescente: Tu vais ser a mulher da minha vida? Ela sentou-se ao seu lado na cama, abraçou com força o seu torso, e confidenciou-lhe – Eu leio em ti como num livro abertoe o mesmo poderás dizer de mim. Mas chegamos atrasados um ao outro, construímos existências, arquitetamos vidas autónomas com companheiros e filhos e trabalhos, e criamos um rio de vidas e de pessoas a separar-nos. Ele resistiu: Mas continuas a ser importante para mim! Ela estreitou o abraço, e prosseguiu com voz segura – Acredito que tivemos o nosso momento há cinco ou seis anos atrás, devemos ter estado um ao lado do outro sem nos apercebermos, mas alguma coisa, um pequeno ou um grande incidente, a morte de uma mosca ou a morte de uma pessoa, lançou-nos por caminhos diferentes, caminhos que vão continuar divergentes até nos reunirmos de novo… - Quando? Perguntou ele em tom de súplica. Ela encolheu os ombros, sob o eco da interrogação: Até ao dia em que as nossas arquiteturas de vida perderem o sentido, até os filhos crescerem ou o casamento se desmoronar, ou então ainda mais para além, quando estivermos realmente velhos e pedirmos aos nossos filhos para nos deixarem acabar juntos a vida, o que estiver melhor empurrará a cadeira de rodas do outro, partilharemos leituras, memórias, filmes vistos de mãos dadas…Ele assimilou o que ela lhe disse, fazia sentido, não tinha dúvidas de que ela tinha razão e que identificara a mulher importante das linhas da sua mão. O que ele achava, e começou a pensar nisso enquanto ela abandonava o quarto do hotel, é que o problema, a equação, tinha demasiados elementos, e que tudo seria mais simples e de mais fácil resolução para todos se os dois fossem ambos viúvos.


[em língua castelhana, usa-se a palavra «brevedad» para conto curto, miniconto, micronarrativa. 
As crescentes brevidades ou breves idades desta publicação]

Geena




                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma baleia gigantesca, os homens e as máquinas começaram a limpar uma área do tamanho de três campos de futebol que subia da estrada larga pela aba dos montes até à crista rochosa e estéril onde só os feros arbustos conseguiam sobreviver com as suas raízes enclavinhadas como garras ao mineral. Os troncos enegrecidos eram cortados junto às raízes e empilhados por meios mecânicos em pequenos montículos triangulares que decresciam da base para o topo, dando a vez na cadeia de processamento a outras máquinas que levantavam com tenazes de aço esses troncos em número de três ou quatro de cada vez para os depositar nos camiões parados ao longo da estrada, que logo abandonavam temporariamente o local quando ficavam carregados. Nas áreas onde já não havia troncos, outras máquinas juntavam os ramos subsidiários em montes crescentes, aos quais se somariam as raízes quando fossem arrancadas do solo numa operação posterior. O trabalho era intenso e quase ininterrupto, prolongando-se desde os primeiros alvores do dia até ao ocaso, havendo casos em que se prosseguia depois disso à luz de faróis e holofotes potentes; e a dimensão da zona que tinha de ser limpa justificara a instalação numa área adjacente de contentores-dormitório onde os operários dormiam, e de cozinhas e posto de enfermagem para os apoiar. Querendo controlar e supervisionar todo o processo, o engenheiro que coordenava os trabalhos, requisitou também um desses contentores-dormitório para si e para a sua família – a esposa trabalhava no posto de atendimento médico, enquanto a filha adolescente, Sophie (o nome fora escolhido quando estavam emigrados na Bélgica) de gozo de férias escolares, quisera vir com eles por sentir uma enorme curiosidade pelo trabalho do pai. O engenheiro andava sempre muito atarefado durante o dia, organizava o trabalho e verificava a correta articulação de todas as fases da operação, procurando suprir qualquer lacuna técnica ou logística que surgisse do nada, e era seguido de perto pela filha, com um capacete na cabeça, que cumpria as recomendações do engenheiro sobre a distância que deveria guardar das máquinas em movimento, e a proibição que este lhe levantara de se aventurar sozinha por aqueles montes e vales. Sophie depressa se aborreceu, circunstância agravada pelo facto de a mãe não poder acompanhá-la porque passava quase todo o dia no posto de enfermagem; e depressa começou a sair da órbita do pai para percorrer os montes e vales proscritos pela sua interdição. Não a viam durante quase todo o dia, e nunca se preocupavam com isso, porque ambos a julgavam vagamente na companhia do cônjuge. Quando os três jantavam juntos ao anoitecer, antes de se recolherem para um merecido repouso, narrava-se por vezes as peripécias dos dias mas Sophie fechava-se sempre em copas, o que os pais não estranhavam porque eram atitudes habituais naquelas idades. Foi o pai quem primeiro se sentiu alertado ao avistá-la no meio da poeira levantada pelas rodas gigantescas das máquinas, a caminhar na direção dos montes com um garrafão de água em cada mão. Tentou segui-la, mas perdeu-a de vista. Ligou à mulher, e entre os dois percorreram as imediações em busca dela sem a avistarem ou darem pelo seu regresso, mas à tardinha, encontraram-na junto às acomodações a alimentar o gato de pelo acobreado que haviam trazido com eles da cidade. Num acordo tácito, mudo e implícito, foi a mãe quem ficou encarregue de a sondar sobre o seu passeio. Esperou que o pai não estivesse por perto e disse-lhe que a tinha visto passar enquanto fazia um curativo num homem que esfolara o cotovelo nuns ramos. Sophie não adiantou grande coisa, limitando-se a contar que dera uns passeios pelo recinto de intervenção. Ao saber do resultado da conversa, o pai limitou-se a contar à filha com uma forçada ligeireza que um dos trabalhadores que operava as motosserras ia partindo a perna quando a enfiou por um buraco no chão encoberto por folhas e cinzas, e desse modo reforçou o seu discurso sobre a periculosidade daquelas paragens inóspitas e bravias.
                No dia seguinte, o casal alargou um pouco as suas rotinas no fito de um deles estar sempre próximo de Sophie e o engenheiro encarregou os seus homens de confiança de a terem também debaixo de olho, mas uma vez mais, ela desvaneceu-se da vista de todos como se fosse alguma miragem imaterial, e no final do dia reapareceu junto do pai enquanto ele assinava uma autorização de combustível. Os pais de Sophie toleraram os seus misteriosos desaparecimentos por uns dias, conscientes de que estavam a exigir muito dela ao manterem-na com eles naquele fim-de-mundo, mas a crescente suspeita de que estivesse envolvida com algum dos operários, todos homens maduros e muitos deles de meia-idade, angustiava-os e empurrou a mãe de Sophie para uma conversa mais séria, que teve lugar próximo do lusco-fusco, longe da sua casa precária e junto a um camião em repouso. A mãe abordou o assunto depois de muitos rodeios, precisava de saber por onde ela andava, até para se sentir mais tranquila e conseguir estar mais concentrada no seu trabalho.
                - Tenho visto uma pessoa – explicou ela por fim.
                A mãe alarmou-se, era um homem? Tinham tido relações? Sophie riu-se. Encontrara uma mulher na encosta, estava deitada entre as pedras e parecia muito fraca porque o coração quase não batia. Tinha a pele enegrecida pelo carvão e pela fuligem e pedira-lhe água porque tinha muita sede.
                A mãe ligou para o marido e os dois contrainterrogaram Sophie – podia ser uma sobrevivente do incêndio que lavrara naquelas paragens? Tal hipótese era absurda porque o incêndio fora dois meses antes, e ninguém sobreviveria sozinho por esse tempo todo – mas a jovem continuava muito tranquila. A mulher não lhe parecia ferida nem com fome, apenas com muita sede, mas depois de lhe levar água durante dois dias seguidos, ela recobrara forças e já se conseguira levantar e conversava com ela, sentadas as duas nas pedras.
                Conversavam sobre quê? A pergunta impunha-se, e Sophie evocou-lhe o teor das conversas enquanto regressavam ao contentor-dormitório.
                - Ela primeiro quis saber de mim, como é que eu me chamava, quem eram os meus pais e os meus amigos. Falei-lhe de como era o comum dos meus dias, os meus sonhos, os segredos que mantinha com as minhas amigas. Falamos mais demoradamente dos sonhos, que era o nosso tema dileto, ela disse-me que tudo o que existe - objetos, criações, pedras e animais - compõem-se dos sonhos que lhe deram origem mas também daqueles que não os chegaram a integrar mas que de uma forma peculiar comungam da sua existência e a enriquecem. Nada existia que fosse acessório e excedente, mas todas as coisas, seres e ideias eram como rebentos diferentes de uma mesma planta e estavam ligados por uma estrutura diáfana que era invisível à maior parte das pessoas.
                - Uma filósofa, em suma – sentenciou o engenheiro, não conseguindo velar o tom irónico das suas palavras.
                - Sim, aquela mulher pareceu-me muito… amadurecida, daquelas pessoas que estão continuamente a refletir sobre as coisas e a descobrir novos sentidos em tudo. Quando lhe pedi para me falar dela, ela preferiu contar-me uma das lendas da sua aldeia que os anciãos transmitem aos mais novos junto a uma lareira a rescender a giestas e a lenha de sobro. E era mais ou menos assim – na sua aldeia existia há muitas centenas de anos um homem cúpido a quem fazia impressão o que os outros homens comiam e bebiam, e o prazer que pareciam ter nisso, e por tal começou ele a devorar todos os alimentos e a beber toda a água que encontrava, comeu frutos e animais, emborcou a água dos riachos, rios e lagos, e tudo ficou seco como um selha cheia de areia, e quanto mais comia, mais crescia, e já de proporções gigantescas e depois de beber a água que as nuvens soltavam, lembrou-se de comer o próprio Sol, que era coisa de que todos gostavam, o que muita inveja lhe fazia, e por isso abocanhou o Sol até o ter inteiro dentro da barriga. Depois de engolir o Sol, já não havia água na terra que lhe acalmasse o ardor que sentia na barriga, e o Sol começou a queimá-lo por dentro até que ardeu e explodiu num fogaréu pavoroso. As águas, as sementes e os frutos foram libertados de novo e germinaram no mundo, e os ossos calcinados do gigante cúpido sobrevivem até hoje nos rochedos de negro basalto dos planaltos. Quando lhe perguntei porque é que me contava aquela lenda, ela disse-me que as lendas eram como as parábolas, serviam para explicar o que se tem muita dificuldade em transmitir.
                Os pais de Sophie entreolharam-se. Sophie, três anos antes, ainda mantinha fecundas conversas com uma amiga imaginária de quem lhes descrevia com uma profusão de detalhes o aspeto, as roupas, ou as conversas, talvez a mulher de pele encarvoada fosse uma reminiscência dessa amiga desaparecida.
                - E podemos conhecer essa tua amiga? Eu gostava muito! – disse-lhe a mãe.
                - Hoje ela já não estava lá, mas eu podia sentir a sua presença, uma impressão desolada de tristeza e dor, como daquela vez que fomos para visitar a avó e ela já estava morta, e os cães dela cá fora ganiam todos ao mesmo tempo, tomados de uma dor imensa.
                - Sim, lembro-me desse dia triste. Mas podemos ver o lugar onde ela estava, pelo menos?
                - Claro! Amanhã levo-vos lá.
                O engenheiro falou pelo telefone ainda nessa noite com o encarregado para o avisar que na manhã seguinte tinha uma tarefa a desempenhar e que iria chegar mais tarde, e a esposa fez o mesmo em relação ao posto de enfermagem. Quando os dois se juntaram sob as cobertas, e notando que a filha já dormia, o engenheiro colocou por palavras a questão que deambulava no seu espírito:
                - Achas que ela viu mesmo alguém, ou será apenas uma fantasia?
                - Não te sei dizer – murmurou a esposa – estou inclinado a pensar que ela sentiu alguma coisa. A idade dela é uma idade complexa em que as tempestades mordem e o poder despe os seus véus.
                - O poder?!
                - Já falamos sobre isso, bel de jour, as mulheres têm poderes, quase nunca chegam a tomar posse deles, mas existem em latência no seu espírito e na sua libido. Umas são janelas abertas para forças e seres de mundos paralelos, outras escrutinam ou sentem o futuro… - o marido encostou dois dedos aos seus lábios e ela calou-se, suspensos os três no silêncio da divisão. Sophie mexera-se no leito como se estivesse quase desperta e o engenheiro aproveitara para concluir a conversa, porque já conhecia o seu curso.
                - Amanhã já vemos! – sussurrou na penumbra – vamos dormir…
                Ao romper da alvorada, notaram que Sophie já estava acordada e vestida, e comia os seus cereais da manhã – os pais apressaram-se e os três tomaram o caminho dos montes sob um nevoeiro cerrado, quando já se ouvia as primeiras máquinas e as primeiras motosserras a laborar. Sophie parecia muito segura do caminho, guiada por detalhes que lhes ia indicando – um castanheiro calcinado, uma rocha isolada semelhante a uma coroa, o ésse do leito seco de um riacho, com as suas escadas de pedra e os fundo de areia e seixos. Enquanto caminhavam, o engenheiro olhou em volta. Ali o fogo parecia ter sido ainda mais intenso do que na zona do vale, com tudo enegrecido e as árvores consumidas quase até à medula, observou também vasos de resina estilhaçados pelo calor infernal. Devia ter sido ali o ponto extremo do incêndio, e talvez se tivesse propagado a partir dali para o resto do vale.

                - Foi aqui que a encontrei! – exclamou a jovem, a apontar uma pedras ao pé deles no meio da encosta. Ela estava deitada entre estas duas pedras compridas, parecia ter caído ali, arfava como se lhe faltasse o ar, e pedia-me água.
                - E estava suja do carvão – lembrou a mãe – o que é normal, porque aqui está tudo queimado, mato, árvores e pedras. Não tinha feridas ou cortes?
                - Não que eu visse…
                - É estranho que houvesse aqui alguém – refletiu o pai em voz alta, procurando racionalizar o sucedido – podia ser uma mulher que morasse aqui perto a apanhar madeira, mas as casas mais próximas estão a dez quilómetros do nosso acampamento no vale.
                - Ou alguém que tivesse morrido aqui – adiantou a esposa. Acusou o olhar de desagrado do engenheiro e justificou – eu também sinto, como Sophie, uma espécie de funda tristeza neste lugar, mas pode ser efeito de estarmos no meio de tanto negrume e devastação. Achas que ela irá voltar aqui, filha?
                Sophie acenou negativamente, com algum desalento.
                O engenheiro dobrou-se ao lado das duas pedras que Sophie indicara, no meio da cama de cinzas recurvava-se um fragmento metálico circular como o rebordo de um vaso. Sabia tratar-se do vestígio de uma botija de fogão de campismo, que era um dos componentes dos engenhos incendiários que se havia usado ali. A esposa notara o seu gesto.
                - Encontraste alguma coisa?
                - Um vaso de resina partido.
                Com a sola das botas curvou o fragmento até o enterrar por completo na cinza.
                - Devíamos voltar de imediato, porque temos muito trabalho pela frente – considerou – Se Sophie voltar a ver a senhora, voltamos aqui para conversar com ela, ou pode convidá-la para ir a nossa casa beber um chá e narrar as suas lendas.
                E sem esperar pela aquiescência da família, tomou resolutamente o caminho de regresso, carregando a impressão de desconforto de estar a ser observado por uma infinidade de olhos, dissimulados na noite telúrica do carvão e das cinzas.


A flor do sal


                Manoel Estevão dos Santos, filho e neto de prósperos empresários terratenentes e também ele dotado de intuição – e dinheiro – para se aperceber do valor das terras e lucrar com isso, foi o primeiro da sua família a manifestar um comportamento francamente excêntrico, pelo menos, na ótica dos seus familiares e amigos mais chegados - que outra interpretação se podia dar ao facto de Manoel Estevão dos Santos, entre muitas iniciativas e transações lucrativas, levar sempre a cabo um entre comas negócio no qual oferecia uma propriedade ou um imóvel a alguém que ele achasse merecedor dela – pela sua pobreza e não como retribuição por algum trabalho ou favor à sua própria pessoa. O seu gesto não tinha qualquer fundamento evangélico ou religioso, porque o dito empresário era aquilo que num arcaísmo se poderia designar por um incréu, e de religioso tinha de próprio uma tranquila veneração panteísta pelas belezas e fúrias da natureza (também o tomava de espanto os estados e sensações humanas extremas como o desespero ou o orgasmo, mas aí a sua admiração recaía sobre a riqueza e a complexidade do corpo e da psique, manifestações diversas da mesma e absoluta natureza no que ela tinha de mais belo e de mais terrível); e o motivo principal do repúdio que a sua parentela tinha para com as suas doações, era o receio doentio de que aquilo que ele oferecia suplantasse um dia os lucros do seu negócio, delapidando o património acumulado, não sendo de afastar a possibilidade de ele vir a legar os seus bens a uma chusma de desafortunados, ou a instituições de caridade, em prejuízo dos seus dignos e respeitáveis familiares.
                Com todos os cuidados e preocupações que a sua generosidade despertava na família, ela era unânime em admitir que a sua excentricidade era coerente, manifestava-se através de padrões comuns e reconhecíveis. Quando havia vindimas ou apanha da fruta na sua propriedade, todos o viam a entregar ao solo as primícias do que ela lhe tinha dado, os primeiros frutos, ou primeiro vinho que se fazia – uma pequena pirâmide de frutos empilhados num gesto de respeitosa gratidão, um copo generosamente cheio de vinho novo derramado sobre as vides despidas de bagos depois do proprietário ter tocado timidamente o líquido com os seus lábios como se o beijasse.
                O seu fascínio pelas riquezas da natureza compeliu-o a investir na salicultura, com marnotos adquiridos por compra ou aforados, e ao mesmo tempo, fazendo o papel de intermediário na comercialização do sal de outros produtores; a sua sagacidade e talento para o negócio levaram-no à criação de uma etiqueta apelativa que lhe trouxe dividendos monetários depois de a explorar com campanhas comerciais de venda. Quando a salicultura se converteu em mais uma prova do seu bom instinto empresarial, Manoel Estevão dos Santos iniciou uma nova tradição excêntrica que se encaixava nos moldes das precedentes. Todos os meses, enchia-se com sal dos cristalizadores um caixa de madeira, pregavam-lhe uma tampa, e era carregada numa carroça tradicional de rodas de raios em madeira, puxada por um muar (o empresário fazia questão nesse particular), o percurso da carga levava-a a um trecho da costa não muito distante da casa e propriedade de Manoel Estevão dos Santos. Aí, na maré baixa, a costa formava uma restinga aprazível com um pequeno banco de areia e rochas no seu centro. A carroça era conduzida até onde era possível, e logo dois varapaus eram passados através de umas argolas de ferro que o caixote de madeira tinha de um lado, a um terço do topo da caixa, e ela era carregada como uma padiola por quatro homens para o dito banco no meio da restinga (muitas vezes, o empresário era um desses homens). Aí, desarmavam uma das laterais do caixote, e o sal era vazado, formando um cone branco que rebrilhava ao sol na infinidade dos seus cristais.

                Acomodado na margem, Manoel Estevão dos Santos ficava a aguardar a subida das águas enquanto bebericava um pouco do seu vinho e conversava com trabalhadores, convidados ou espetadores acidentais. Admiravam o cone de sal, e o modo como ele se dissolvia nas ondas, por vezes como uma ilha flutuante esbranquiçada, outras como uma língua ou uma espiral salgada e efémera. A quem o inquiria, por não o conhecer ou não fazer ideia do que ali se passava, Manoel Estevão dos Santos atirava-lhes com o seu lema pessoal que, a seu ver, era eloquente que chegasse para carecer de mais desenvolvimentos: tudo tende para o equilíbrio.

Um caso de bullying

O Minotauro, de George F. Watts
      As folhas secas dos plátanos sob a sola das sapatilhas soavam a folhas de papel mal carbonizadas a serem esmifradas entre os dedos. Michel reteve esse pensamento enquanto subia com cuidados redobrados a ladeira de terra barrenta entre os dois blocos de salas da escola. Era sempre essa a estratégia, optar pela ladeira e não pelas escadas de tijolo e cimento, plus, evitar cruzar os pátios concorridos de gente entre os blocos, plus, queimar o tempo dos intervalos e da hora de almoço em sítios pouco apetecíveis como as áreas envolventes das portarias de entrada na escola e a restinga verdescente ao lado dos contentores da reciclagem. Foi aqui que reviu os seus dois amigos, estavam sentados num murete caiado e trocavam cartas repetidas, descrevendo com pequenas exclamações as habilidades e poderes dos personagens das cartas. Cumprimentou-os com um aceno e sentou-se por perto, a explorar um novo jogo que descarregara para o seu telemóvel.
                - Demoraste… - comentou Lucas.
                - Depois de comer, fui comprar senhas de almoço e quando vinha para aqui, a Rute meteu conversa comigo, precisa de ajuda para um trabalho de geografia que tem para fazer.
                - E vais ajudá-la?
                - Sim, ela é minha prima direita, se não a ajudar isso ainda chega aos ouvidos da minha mãe e fico marcado para o resto da vida.
                Michel guardou o telemóvel. O jogo que escolhera era uma seca e não lhe apetecia ficar ali mais uma hora sem nada para fazer.
                - Vou subir até ao campo da bola – disse-lhes – a esta hora não há é-éfe e pode ser que esteja lá malta fixe e consiga jogar um pouco ou dar uns toques. Deixo aqui a minha mochila.
                Largou-a ao pé deles e subiu mais uma ladeira de terra e no fim desta caminhou paralelamente à vedação de rede que envolvia o campo. O campo de jogos situava-se no topo nascente dos terrenos da escola, era a última coisa que havia antes da rampa alcatroada que dava para uma das saídas. Enquanto contornava a rede, ouviu vozes no recinto, acelerou o passo na subida e cruzou a entrada do campo de jogos para logo se imobilizar. Quatro alunos mais velhos brincavam com uma bola de básquete, mas um deles, o mais alto, virou-se de imediato para ele com um sorriso sardónico que lhe gelou o sangue. Douglas, assim se chamava o aluno do nono ano, deu dois passos na sua direção, como se o quisesse demover de tentar fugir. Douglas não trajava de modo diferente dos outros, e quem o ouvisse falar, não conseguiria distingui-lo dos demais. Mas ninguém o confundiria com os colegas pelo arco que as suas clavículas formavam acima dos ombros, com a sua cabeça bovina fundida nos ombros, o queixo proeminente e olhos oblíquos e aquele altivo par de cornos que a todos infundia respeito pelas suas ameaçadoras pontas aceradas.
                - Queres jogar connosco, puto? Precisamos de alguém na equipa que consiga encaixar uma bola no peito – e antes que Michel pudesse responder, Douglas já o alcançara, encostou a palma da mão direita ao seu plexo solar e empurrou-o com força, fazendo cambalear e cair contra a vedação de rede.
                Michel enclavinhou os dedos na rede e pôs-se de pé num instante com medo de levar mais pancada. Sentia-se indisposto, e a vibração metálica dos elos da rede soava-lhe como risos.
                - Eu não posso, tenho aulas agora e preciso de ir, porque estou tapado a faltas em quatro disciplinas – respondeu num jorro de palavras. Mentia, e sentiu vergonha por isso, mas achou que isso podia apaziguar os ânimos, porque era o que os bullies da escola faziam, faltavam até deixarem de poder faltar.
                - Douglas – chamou um dos outros – vamos continuar o jogo.
                Douglas hesitou, a cornamenta a oscilar ligeiramente com os movimentos da sua cabeça, e nesse ínterim Michel começou a correr, e desceu a ladeira, só parando quando se juntou aos amigos.Trazia lágrimas nos olhos e estava capaz de vomitar. Lucas e Belisário coibiram-se de lhe fazer perguntas, tal era o estado em que o viam. Michel tirou o telemóvel da mochila, e voltou ao jogo que antes o enfastiara, tentando disfarçar o choro remordido. Quando se aproximou a hora do primeiro tempo da tarde, Michel levantou-se de um salto e encaminhou-se para a sala de aulas.
                - Belisário – murmurou Lucas, fazendo-o deter-se quando ia seguir o amigo – posso fazer-te uma pergunta algo estúpida?
                - Diz…
                - Porque é que nos escondemos deles? Sei que eles são a força e que o poder é a prerrogativa do uso da força e tenho perfeita noção de todas essas coisas mais ou menos darwinianas em que todos acreditam, mas não era mais fácil tentarmos anular os bullies, participar deles ao diretor e obrigá-los a andarem na linha?
                Belisário riu-se, pousou amistosamente as manápulas nos ombros de Lucas e olhou-o, muito sério.
                - Lucas! – suspirou – por vezes a tua ingenuidade comove-me. Primeiro os tipos não olham para ti e veem uma pessoa, eles não veem nada, são massas brutas de violência cega, tão éticos e sensíveis como um punho atirado ao nariz de um tipo. E depois, ninguém faz nada contra os chifrudos porque é assim que o sistema funciona e o sistema é autofágico e não conseguiria criar ou imaginar um outro sistema diferente ou uma outra realidade. Imagina que a escola é um enorme galinheiro numa quinta, e que o diretor e os profes são os empregados da quinta que entram no galinheiro para dar comida à criação e recolher os ovos e de vez em quando levar um galináceo para ser morto. Achas que eles realmente se importam se a ninhada de uma galinha é morta pelo peru, ou que o galo vaze com bicadas os olhos dos franganitos? Não lhes tira o sono as rixas entre os animais porque as galinhas e os frangos estão onde deveriam estar, e continua a haver ovos para recolher e tudo o mais que seria regular e comum esperar-se de um galinheiro. Um diretor ou um profe não tem necessidade de interferir nesse podre equilíbrio feito de sujeição e domínio, e se eu ou tu tentássemos forçá-los a tomar uma atitude, as coisas não ficariam muito famosas para o nosso lado.
                - Ainda assim, deve haver alguma coisa que possamos fazer… quantos bullies existem na escola toda? Quatro? Cinco?
                - Quatro! O Douglas, o Pedro Sá e o Mário Zé no nono ano, e temos o Estilhas na nossa turma. Mas se queres organizar uma luta épica contra os ogres do Senhor dos Anéis, tens de contar com uns quantos que orbitam em volta deles, que são os tristes que se riem das piadas deles e que contribuem para as suas sessões de humilhação pública.
                - Tenho um plano! – confessou Lucas, com os olhos brilhantes, enquanto os dois respondiam ao toque de entrada, encaminhando-se para a sala – só mais uma questão, se pudesses colocar os quatro num ringue de boxe para lutarem entre eles, em qual dos quatro apostarias?
                - No Estilhas, sem dúvida, é o mais velho dos quatro, e nenhum dos outros lhe faz sombra. Porque perguntas?
                - Temos plano! – respondeu, furtando-se a mais explicações.
                No dia seguinte, logo no primeiro tempo, Lucas faltou a Educação Cívica e foi à procura do Estilhas. Queria encontrá-lo mas sem correr muitos riscos. Posicionou-se perto da portaria à espera que ele entrasse na escola, era um lugar ideal porque estava encostado de viés à coluna de alpendre na entrada de uma sala de aulas e um arbusto Hibisco ao seu lado, despojado de flores, coroava com a sua rama um canteiro no meio do pátio de cimento, dissimulando a sua presença ali. A atenção que dispensava às escadas de acesso à escola e à entrada exígua foi desviada por breves instantes por uma aluna de cabelos negros como azeviche que desenrolava no chão alcatroado um novelo de fio de guita, aparentemente sem nenhuma razão plausível, desenrolava-o apenas como se isso a divertisse, e quando o fio que a brisa ameaçava levantar nos ares já tinha uns bons metros de extensão, Lucas ergueu os olhos, e viu que na outra extremidade, junto à aluna e ao seu novelo fútil, o Estilhas acabara de passar pelo portão pequeno. Lucas abandonou o seu precário refúgio e pisando no fio para o manter colado ao chão, caminhou sobre ele e aproximou-se do Estilhas, que estacou à sua frente num misto de surpresa e divertimento. Lucas olhou para os seus pés, evitando fixar a sua cabeça de cornos largos, ou os punhos que adivinhava cerrados como martelos, prontos a esmagá-lo.
                - O que é que tu queres, totó?
                Deixou passar a referência, gostaria de lhe dizer que se chamava Lucas, e que estava confiante de que esse nome lhe vinha de Loki, o deus ardiloso, mas isso não era importante naquele momento.
                - Tenho um ne-ne-gócio a propor-te… a pr-propor a si… - gaguejou com os nervos.
                - E porque é que eu iria fazer negócio contigo? Tens alguma irmã bonita para mim?
                Lucas negou com um aceno de cabeça.
                - O negócio que quero propor seria benéfico para os dois, seria um acordo simbiótico, como diria a nossa professora de Ciências – e sabendo que ele não entenderia o sentido do que lhe dissera, estendeu-lhe de imediato umas quantas folhas de papel, presas por um clipe.
                - O que é isto? Um pacto de sangue?
                - Nas primeiras três folhas, imprimi as respostas às fichas de trabalho de Português, Geografia e Ciências, só tens de copiá-las com a tua letra. Respondi a essas perguntas com a ajuda do Belisário. Na terceira folha tens os exercícios de matemática que o professor nos deu para o fim-de-semana, e que foram resolvidos pelo Michel. Nós três podemos ajudar-te, fazemos os teus trabalhos, damos-te explicações para os testes, e até podemos ensaiar algumas formas de te passarmos as respostas durante as provas.
                - A ideia interessa-me, puto, mas se é um negócio, o que é que vocês querem em troca? Dinheiro?
                - É muito simples, precisamos de proteção, precisamos que tu expliques ao Douglas ou ao Pedro Sá que não podem bater em nós, porque somos da tua turma e só tu o podes fazer, ainda que nós – é claro! -esperemos que tal nunca venha a ser preciso, isto é, tu bateres em nós, percebes?
                - Percebo! – respondeu o Estilhas, ainda pensativo. Na sua reiterada carreira de aluno repetente, aquela fora a proposta mais estranha que alguma vez lhe tinham feito – se vocês cumprirem com a vossa parte, eu cumpro com a minha…
                - Já começamos a cumprir, e vamos cumprir enquanto houver aulas no universo – respondeu Lucas, vibrante de entusiasmo, ansioso para relatar o acordo ao Michel e ao Belisário.
                Pegou na mochila e saiu a correr à procura dos amigos. Soou o toque de saída e os alunos abandonaram as salas numa algazarra algaraviada, e na sua euforia Lucas abandonou todo o tipo de prudência, e começou a arrepiar caminho por entre os grupos de alunos no pátio quando sentiu uma mão forte a prender-lhe um braço. Era o Douglas.
                - Onde é que vais com tanta pressa, Coxo? Pensei que os coxos não corriam – e sem lhe largar o braço, deu dois passos em volta dele, manquejando com nítido exagero.
                Lucas avaliou a situação. Fora fisgado num canto do pátio de cimento, o Pedro Sá e o Mário Zé também lá estavam e estrategicamente olhavam em volta para topar onde paravam os funcionários da escola ou os professores. Quando o Douglas desempenhou aquela momice, Lucas ouviu uns risinhos abafados saídos de um grupo de raparigas ali ao pé, pelo que teve a certeza de que o suplício iria continuar. Douglas, soprando pelas ventas, aproximou-se dele até a curva áspera de um dos seus cornos lhe tocar no couro cabeludo, e continuou com uma voz bem audível.
                - Sabes como é que deixavas de coxear, Coxo? Coxeando dos dois pés! – ouviu rir e prosseguiu – se te partissem o pé bom, ficavam os dois pés iguais e já não coxeavas.
                - Douglas!
                A voz roufenha do Estilhas surpreendeu a todos. Aproximara-se calmamente dos dois, e ordenou-lhe:
                - Larga o puto! Ele é da minha turma e não tocas em ninguém que seja da minha turma, ouviste!?
                Douglas largou o braço de Lucas e consultou os dois aliados com o olhar, que lhe confirmaram que não havia ninguém a recear por perto. Douglas saltou em frente com um braço fletido no ar para esmurrar o Estilhas, mas este já esperava essa reação, porque se desviou de través, e estendeu-lhe a perna, fazendo-o cair aparatosamente no chão. Os alunos em volta cerraram fileiras para que olhares indesejáveis não descobrissem a contenda, e Douglas, enraivecido, levantou-se e avançou para o Estilhas com os braços retesados, os cornos de um e de outro entrechocaram-se com estrondo antes que o Estilhas tomasse a iniciativa e o esmurrasse repetidamente nos pulmões, fê-lo cair com um violento puxão, e assestou-lhe em seguida alguns pontapés no corpo caído, que venceram todo o tipo de resistência. Sob alguns gritos de auxiliares que acorriam ao local, dois alunos ajudaram Douglas a levantar-se e arrastaram-no dali seguro pelos ombros, enquanto o Estilhas descia as escadas no sentido oposto, com a mão direita a esfregar o ombro onde a ponta de um corno de Douglas lhe causara uma pequena laceração. Lucas seguiu atrás dele e alcançou-o quase no último degrau das escadas.
                - Obrigado! – agradeceu com visível comoção – obrigado mesmo!
                - Não agradeças, puto, é só um negócio, e vocês vão ter de trabalhar muito para merecer a minha proteção.
                Lucas concordou, intima e profundamente grato, e até ao fim dos tempos. Voltou a subir apressadamente as escadas na direção da sala de aulas, Michel e Belisário reuniram-se a ele pelo caminho, sorrindo abertamente e trocando como mimos pequenas palmadas nos ombros, esquecidos por fim do denso medo de todos os dias.

fractural

           Na volta da estrada de alcatrão, quando esta desce e descreve uma curva apertada que parece marcar a fronteira entre um mundo q...