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Conhecimento é poder

Uma angústia, um amofino, parecia ter tomado as casas e as ruas da vila entre muralhas alcandorada no monte. Andava o povo todo triste, preocupado, vergado sob o peso dos problemas e das inquietações e nem as crianças se atreviam a brincar nas ruas e nas muralhas da vila, tão densa era a tristeza que se respirava por todo o lado. Nesta situação de crise, um grupo de moradores foi falar com o alcaide, que logo se abalançou para a casa do Zé Mocho, que encontrou sentado na sua cadeira de espaldar no alpendre da casa a enrolar um cigarro de barba de milho.                 O autarca recusou o cigarro que o Zé Mocho lhe oferecia, e de imediato, com palavras constrangidas comunicou-lhe em tom de súplica.                 - Anda tudo perdido outra vez, Zé, preciso que morras mais uma vez!                 O Zé Mocho olhou-o de cima, não como um mocho, mas como uma águia ou um grifo. Imperial e autoritário, de olhos severos.                 - A minha vida tem pouco valor, mas p…

Dano e reparação

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Quando a sua irmã chegou com o novo namorado, o cego ergueu a cabeça do chão onde as suas mãos se afadigavam a distribuir feijões secos por uma grelha de quadrados desenhada na areia fina do chão do quintal.      - Nzema – disse ela para o irmão – este é Omar, de quem lhe falei, meu amigo, companheiro, e meu futuro. Lembra-se de eu ter-te dito que o trazia cá hoje?      Nzema estendeu debilmente a mão sinistra, que Omar apertou energicamente entre as suas, gesto coroado por uma audível exclamação de alegria da irmã, que anunciou que ia buscar uma cerveja fresca para cada um.      - Nzema! Sua irmã falou-me muito em você e de sua sabedoria não-vedora. O que é que você faz com esses quadrados e esses feijões secos?      - Imagine que você encontra um aldeamento com as palhotas encostadas todas umas às outras.       Estas palhotas são quadradas como os desenhos que eu fiz no chão, e não há espaços vazios entre elas, estão mesmo encostadas. Você tem, como aqui, vinte e quatro palhotas. Q…

Sob o foco negro e no mesmo dia e momento em que as estátuas saíram dos seus lugares

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Sob o foco negro e no mesmo dia e momento em que as estátuas saíram dos seus lugares, abandonando os seus refúgios pusilânimes, a vida generosa e intensa das ruas e das casas imobilizou-se numa quietude dêndrica, mineral e metálica. Por todo o lado, o que antes eram pessoas vivas e em movimento foram convertidas em estátuas de granito, calcário, bronze, madeira, mármore e tantos outros materiais que essas mesmas pessoas e os seus avoengos haviam elegido para imprimir as fantasias da sua arte. As prístinas estátuas desceram dos seus pedestais e salões nas suas inéditas formas de carne e osso, despegaram-se das fachadas e pórticos das catedrais, cruzaram os salões dos museus pejados de figuras inéditas de estátuas, abandonaram os atelieres dos escultores nos seus traços e feições imperfeitas e angulosas. Foi mais fácil para os cavaleiros equestres, que apenas tiveram de saltar para o solo e correr pelas ruas, e para as estátuas em figura de gente, mesmo as gigantescas, que apenas …

O estrangeiro em visita à cidade

O estrangeiro em visita à cidade cruzou a entrada iluminada do pavilhão gigantesco onde decorria o certame de comércio e indústria. A luz e a música eram exageradas, uma agressão para os olhos e para os ouvidos, mas estoicamente, ponderou que deveria ser mister esse esbanjamento, era uma feira temporária em horário noturno, e cada hora e cada minuto teriam de ser compensadores e lucrativos para todos os vendedores e pregadores comerciais que aí trabalhavam sob a pressão dos dígitos e do tempo que, proverbialmente, também se traduzia por dinheiro. Logo no átrio da feira encontrou um pequeno grupo que num espaço aberto se demorava em volta de uma animadora vestida de mulher-palhaço. Tentou contornar o grupo, seguir a sua marcha tranquila e solitária no encalço do que o interessava, mas a animadora deteve-o com um grito estridente, apontando-lhe um balão alongado em forma de florete.      - Venha cá! – ordenou, suscitando algumas risadinhas nos que assistiam -  onde é que você pens…

Musa

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A minha musa vive comigo, diáfana, espetral, inocente como uma geada cáustica numa alva plantação de algodão.      Ela vive comigo e na maior parte dos dias consigo alhear-me da sua presença, e circula discretamente pelas divisões da casa como um suspiro alado, a fazer oscilar as borlas dos cortinados quando ninguém está a olhar, ou a pisar e repisar os mosaicos do chão para tentar encontrar algum que esteja descolado e solto, mas por vezes ela sente necessidade de me lembrar que está por perto, e aí consigo sentir a sua respiração gelada na nuca, ou então ela deliberadamente sopra no espelho do meu quarto de banho enquanto eu lavo a cara ou me barbeio, desenhando um círculo de vapor de água condensado no vidro.      Mas não sou um ingrato, e sei e reconheço o quanto ela me ajuda. Quanto me sento a escrever, o seu poder anula as dúvidas e o cansaço suicidário que me esmagam na maior parte do tempo e as palavras e as imagens emergem nítidas no meu consciente, e palavra sobre pala…

Projeto BABELICUS

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Céu e terra

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Só depois de ouvir o vizinho do andar de cima descer a correr as escadas do prédio, é que Ivã achou que eram horas de se levantar da cama, e o vizinho desceu as escadas depois do toque do despertador de Ivã, depois da buzinadela da carrinha do pão a chamar os fregueses, depois do longo e sibilante suspiro que D. Rosinda sempre soltava no apartamento do lado, infeliz por arrostar mais um dia cheio de silêncios espinhosos e fria indiferença. Ivã levantou-se, tomou o seu banho matinal e ingeriu o pequeno-almoço, uni três ações na mesma frase apenas por amor da síntese porque em Ivã, cada uma delas representava um demorado e complexo ritual, tão solene como a bênção de um novo templo. No universo de Ivan, todas as coisas tinham um lugar estabelecido, adequado, ideal, e os objectos e os lugares que eles tinham de ocupar estavam vinculados de uma forma intensa, férrea, visceral, sem margem para trocas anárquicas ou adúlteros esquecimentos. Se queria aquecer leite no bico do fogão, ia buscar…

Quatro poemas de Ibne Sara, poeta árabe nascido em Santarém (século XII)

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O BRASEIRO O braseiro foi para nós esta noite. Bálsamo quando debaixo da sombra nos picavam os escorpiões do frio. Cheio de luz cortou para nós cálidas mantas debaixo das quais não sabe o frio que estamos. Alimenta o incêndio numa fornalha que rodeamos como se fosse uma grande taça de vinho de que bebemos todos. Umas vezes consente que nos aproximemos e outras nos afasta como mãe que umas vezes amamenta e outra nos retira o peito.
O ZÉFIRO E A CHUVA Se buscas remédio no sopro do vento sabe que em suas baforadas há perfume e almíscar. Vêm a ti carregadas de aromas como mensageiros com saudações da amada. O ar prova os trajes das nuvens, escolhe um manto negro. Uma nuvem carregada de chuva faz sinais ao jardim, saudando-o e logo chora enquanto as flores riem. A terra dá pressa à nuvem para que lhe acabe o manto e a nuvem com um das mãos tece os fios da chuva enquanto com a outra borda flores de enfeitar.
Muitas vezes me aconteceu passar uma noite tornada sem fim porque o tempo prolongava a sua duração dando-lhe a…

O Grande Terramoto de 1755 - um testemunho de Jácome Ratton (1736-1821)

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Época e sucessos respetivos ao Terramoto de 1755     Entre os acontecimentos extraordinários da minha vida não devo omitir a meus filhos o que passei na ocasião do memorável terramoto de Lisboa, que teve lugar no 1º de Novembro de 1755, pelas nove horas e meia da manhã; e como fosse dia de Todos os Santos, tinha eu ido à missa à Igreja do Carmo, cujo teto era de abóbada de pedra, e derrubado matou muito povo que ali se achava, de cujo perigo escapei por ter ido mais cedo e me achar na dita hora nas águas-furtadas das minhas casas, mostrando a um comprador uma partida de papel que nos tinha vindo avariado, e ali se tinha posto a enxugar. Ao sentir o primeiro abalo me ocorreram muitas reflexões tendentes a salvar a minha vida, e não ficar sepultado debaixo das ruínas da própria casa, ou das casas vizinhas, se descendo as escadas fugisse para a rua; mas tomei o partido de subir ao telhado, nas vistas de que abatendo a casa, eu ficasse sempre superior às ruínas. Já quando eu tomei este ex…

O fogo no mar

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Ilha vulcânica surgida a 31 de Dezembro de 1719 entre a Ilha Terceira e S. Miguel e desaparecida novamente depois de um tremor de terra.

Cortesia do portal Gallica da Biblioteca Nacional de França.


Saber reconhecer os inimigos pela cara - um tutorial

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Venetia

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Retirada de: NUOVA GEOGRAFIA di Ant Federico Busching, Tomo primo, Veneza, 1773
(e temos, em redor do globo, a América, a África, a Ásia e, claro, a vaca de Europa)



TAU

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Gratidão, lá para o fim

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- Amor, ajudas-me a pendurar os cortinados?      O marido respondeu que sim, renunciou ao seu canal de televisão que bombardeava notícias 24 horas sobre 24 horas, calçou-se e respondeu à invocação. Helena estava empoleirada num banco para chegar ao varão de madeira por cima da janela.      - Doem-me os braços de os ter levantados – justificou-se.      Ela desceu e ele tomou o seu lugar, vacilando sobre os seus pés com as pantufas felpudas calçados. Desencaixou uma das pontas do varão do aro do suporte e começou a enfiar as argolas do cortinado novo, que ela lhe ia alcançando. Ele estava a ganhar peso, notava-se na barriga alva que descaía sobre a camisola do pijama, a mulher também o notou, o desemprego, a suspeita do médico de que ele tinha cancro – suspeita que se revelou infundada, mas as mazelas psicológicas do episódio duravam há dois anos e meio – e a pouca vontade de procurar trabalho, convergiam para aquela modorra de sofás, cerveja, televisão, e pornografia no portátil.      - De…

O rio de Heráclito

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Ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio. (Heráclito)
            A chuva chegou, miudinha e insistente, e logo mudou de intensidade. As copas das árvores sacudiam-se ao vento, com o céu sobre elas iluminado pelos relâmpagos.             Luna esperava, as mãos espalmadas nos vidros das janelas e o olhar fixo na curva do caminho. Sentiu a mãe chegar-se ao pé pelo ranger do sobrado velho da casa sob o peso dos seus anos e da sua ciência.             - O teu homem?             Ela encolheu os ombros, não sabia dele, a mãe estendeu-lhe uma capa.             - Vai buscá-lo, não pode andar por aí com este temporal.             Ela hesitou, sabia que ele estava lá fora por causa de uma experiência qualquer que envolvia a trovoada. Não acreditava que conseguisse trazê-lo de volta.             -Trá-lo antes que se mate – insistiu a velha, como se lhe lesse os pensamentos.             Ela vestiu a capa e saiu para a tormenta. Tentou caminhar sobre as ervas para evitar a lama, e experimentou …

germinar no Inverno

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(clicar)


Números e perónios

Princípio para uma história: um menino perneta reencontra o seu cão de três pernas.
                No caminho onde isso aconteceu, não havia jardins, nem sebes podadas, apenas lírios e papoilas silvestres colorindo a espaços a desolação enlameada do carreiro que serpenteava por um vale onde abundavam as ruínas calcinadas de casas. As ruínas estavam frias, como a água da chuva nas suas entranhas e a dos charcos à epiderme da terra.                 As ruínas, e a chuva nelas, e o menino e o cão com uma perna a menos, tinham uma causa inusual – a guerra que despoletara entre os defensores do número par e os defensores do número ímpar.                 Os primeiros tinham aceite como uma lei inexorável do universo (ou uma dupla lei), que todas as coisas tinham o seu par e tudo o que não o tivesse teria de o procurar e encontrar ou anular-se em razão do seu insucesso. Dia e noite, gelo e fogo, deus e o demónio, mulher e homem ou mulher e mulher e homem e homem, caos e cos…