Reflexão hipnagógica

 


Os físicos é que o afirmam, a luz de muitas estrelas que vemos no céu são luzes fantasmas, emitidas por estrelas a milhões de anos e que, enquanto essa luz viajava até nós, explodiram ou foram engolidas ou envelheceram na imensidão do universo como um velho faminto e enregelado que abandona a vida num sótão miserável. E eu, e não os físicos, creio que nós somos como essas estrelas, resplandecemos de vitalidade e conhecimento e vaidade e quase nada até nos apagarmos como elas, apagarmo-nos apenas na origem,até um dia, se o acaso o permitir, alguém encontrar essa luz distraidamente ao contemplar um caderno de rascunhos manuscritos numa caixote de uma venda de garagem, uma figurinha talhada num bocado de madeira, um sêlo antigo guardado entre as páginas de uma Bíblia, a mancha seca de vómito e sangue ao lado de uma cama antiga num sótão onde morou um velho.

 

Dia dos enamorados


                No seu apartamento minúsculo e bafiento, a dama celibatária de meia-idade contemplou o seu reflexo no espelho da parede com um pouco de ânimo. Escovara o cabelo e maquilhara-se depois de dissimular as rugas da cara com pó-de-arroz, até não estava muito mal, pensou para consigo. Acabou de se vestir, a roupa apertava-lhe no cós e nos braços, mas era a melhor que tinha. Havia chegado a noite, a hora de bater à porta do destino. Saiu à porta e sentou-se num banquinho do lado de fora da porta, no patamar das escadas. Juntou as mãos sobre as coxas a esfregar nervosamente uns nos outros os dedos papudos. Às oito e pouco, ouviu fechar-se a porta do prédio lá em baixo, na hora costumeira. Todos os dias, ouvia essa porta bater àquela hora, mas só naquele dia de esperança é que ela abandonava a reclusão para o ver, na ânsia de qualquer coisa de indefinido que em tempos lhe parecia fazer algum sentido. Ouviu os passos dele a subir os degraus, o casual atrito da sua mão suada no corrimão das escadas. Breves e longos minutos depois, viu-o finalmente, o sobretudo apertado, as costas um pouco arqueadas e os olhos baixos presos aos ângulos dos degraus como se olhar para o alto lhe fosse penoso. Os seus passos tornaram-se mais arrastados, ela sentia o coração a palpitar-lhe na garganta e uma secura atroz na boca. O vizinho, celibatário e só como ela, alcançou o patamar onde ela estava sentada. Estacou ao pé de si, a um escasso par de metros, e olhou-a como se o seu olhar pudesse transmitir o que emudecia na voz. A dama solitária esboçou um terno sorriso e em resposta o homem solitário meneou a cabeça num cumprimento patético e continuou a subir os degraus do prédio, os passos ainda mais arrastados, como se lhe pesasse sobremaneira nos ombros a sua infelicidade. A dama celibatária de meia-idade deixou de esfregar as mãos e todos os traços do seu rosto e do seu corpo pareceram fundir-se na penumbra das escadas e soltou um suspiro profundo como se fosse esse o seu último suspiro.

 

Relatório clínico da sintomatologia patológica da senhora Veranas

                - Às 14.30, a senhora Veranas deu entrada no hospital, apesar de não apresentar nenhum sintoma anormal, a não ser uma invulgar contracção da pupila que a paciente justificou com a luz solar do exterior.

                - Foram realizados testes de ARMC, DTL e IND, mas em nenhum deles apresentou desvios agravados aos valores de referência. Foi acomodada num quarto do Hospital e por precaução, administramos à paciente um sedativo forte.

                - Às 18.05 a paciente acordou da sua sesta, mas declarou que não tinha fome nem sede. Chamado o clínico de serviço, o Dr. Arnold Creshaw, este declarou que ela não se podia manter numa situação debilitante que poderia ser danosa para a sua saúde e segundo instruções precisas do mesmo clínico, foram limadas as cutículas dos dedos anelar e mindinho da mão esquerda da paciente. Também foi cortado um fio de cabelo com 2,74 cm de comprimento e enviado para o laboratório do hospital para ser analisado, para despiste da presença de amoníaco ou metais pesados no organismo.

                - Às 20.00 horas, a paciente, senhora Veranas, pediu para mudarem de canal na televisão do seu quarto porque a angustiava os documentários de natureza em que as focas são atacadas por orcas e as ditas as comem com a minúcia de um apreciador de tutano de osso de vaca. Foi chamado o mesmo clínico de serviço, e seguindo ordens suas veio ao quarto uma empregada da manutenção para limpar meticulosamente os vidros da janela.

                - Ás 22.00 horas, enquanto não eram conhecidos os resultados das análises, a recepcionista do Hospital compareceu no quarto da paciente e alinhou-lhe os chackras e reforçou o seu sistema imunitário com uma sessão de aromaterapia à base de infusões de sândalo e poliéster.

                - Às 23.00, o Dr. Creshaw, no decurso da sua última ronda pela ala nova do Hospital, voltou a examinar e auscultar a paciente, trouxe as análises, que nada adiantaram sobre a situação clínica da senhora Veranas. Enquanto permanecia no quarto, a paciente foi acometida por um ataque de espirros. O clínico considerou providencial essa ocorrência patológica na sua presença e de imediato pediu-nos para contactar os familiares da paciente enquanto ele ia tratar os papéis da alta.

                - Às 23:35 a senhora Veranas abandonou as instalações do Hospital, convenientemente agasalhada e municiada com um par de óculos escuros facultados pela instituição.

[Relatório encerrado e rubricado pelos responsáveis, Dr. Arnold Creshaw, médico, e Ana Mendes, enfermeira-chefe]