Mensagens

Céu e terra

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Só depois de ouvir o vizinho do andar de cima descer a correr as escadas do prédio, é que Ivã achou que eram horas de se levantar da cama, e o vizinho desceu as escadas depois do toque do despertador de Ivã, depois da buzinadela da carrinha do pão a chamar os fregueses, depois do longo e sibilante suspiro que D. Rosinda sempre soltava no apartamento do lado, infeliz por arrostar mais um dia cheio de silêncios espinhosos e fria indiferença. Ivã levantou-se, tomou o seu banho matinal e ingeriu o pequeno-almoço, uni três ações na mesma frase apenas por amor da síntese porque em Ivã, cada uma delas representava um demorado e complexo ritual, tão solene como a bênção de um novo templo. No universo de Ivan, todas as coisas tinham um lugar estabelecido, adequado, ideal, e os objectos e os lugares que eles tinham de ocupar estavam vinculados de uma forma intensa, férrea, visceral, sem margem para trocas anárquicas ou adúlteros esquecimentos. Se queria aquecer leite no bico do fogão, ia buscar…

Quatro poemas de Ibne Sara, poeta árabe nascido em Santarém (século XII)

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O BRASEIRO O braseiro foi para nós esta noite. Bálsamo quando debaixo da sombra nos picavam os escorpiões do frio. Cheio de luz cortou para nós cálidas mantas debaixo das quais não sabe o frio que estamos. Alimenta o incêndio numa fornalha que rodeamos como se fosse uma grande taça de vinho de que bebemos todos. Umas vezes consente que nos aproximemos e outras nos afasta como mãe que umas vezes amamenta e outra nos retira o peito.
O ZÉFIRO E A CHUVA Se buscas remédio no sopro do vento sabe que em suas baforadas há perfume e almíscar. Vêm a ti carregadas de aromas como mensageiros com saudações da amada. O ar prova os trajes das nuvens, escolhe um manto negro. Uma nuvem carregada de chuva faz sinais ao jardim, saudando-o e logo chora enquanto as flores riem. A terra dá pressa à nuvem para que lhe acabe o manto e a nuvem com um das mãos tece os fios da chuva enquanto com a outra borda flores de enfeitar.
Muitas vezes me aconteceu passar uma noite tornada sem fim porque o tempo prolongava a sua duração dando-lhe a…

O Grande Terramoto de 1755 - um testemunho de Jácome Ratton (1736-1821)

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Época e sucessos respetivos ao Terramoto de 1755     Entre os acontecimentos extraordinários da minha vida não devo omitir a meus filhos o que passei na ocasião do memorável terramoto de Lisboa, que teve lugar no 1º de Novembro de 1755, pelas nove horas e meia da manhã; e como fosse dia de Todos os Santos, tinha eu ido à missa à Igreja do Carmo, cujo teto era de abóbada de pedra, e derrubado matou muito povo que ali se achava, de cujo perigo escapei por ter ido mais cedo e me achar na dita hora nas águas-furtadas das minhas casas, mostrando a um comprador uma partida de papel que nos tinha vindo avariado, e ali se tinha posto a enxugar. Ao sentir o primeiro abalo me ocorreram muitas reflexões tendentes a salvar a minha vida, e não ficar sepultado debaixo das ruínas da própria casa, ou das casas vizinhas, se descendo as escadas fugisse para a rua; mas tomei o partido de subir ao telhado, nas vistas de que abatendo a casa, eu ficasse sempre superior às ruínas. Já quando eu tomei este ex…

O fogo no mar

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Ilha vulcânica surgida a 31 de Dezembro de 1719 entre a Ilha Terceira e S. Miguel e desaparecida novamente depois de um tremor de terra.

Cortesia do portal Gallica da Biblioteca Nacional de França.


Saber reconhecer os inimigos pela cara - um tutorial

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Venetia

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Retirada de: NUOVA GEOGRAFIA di Ant Federico Busching, Tomo primo, Veneza, 1773
(e temos, em redor do globo, a América, a África, a Ásia e, claro, a vaca de Europa)



TAU

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Gratidão, lá para o fim

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- Amor, ajudas-me a pendurar os cortinados?      O marido respondeu que sim, renunciou ao seu canal de televisão que bombardeava notícias 24 horas sobre 24 horas, calçou-se e respondeu à invocação. Helena estava empoleirada num banco para chegar ao varão de madeira por cima da janela.      - Doem-me os braços de os ter levantados – justificou-se.      Ela desceu e ele tomou o seu lugar, vacilando sobre os seus pés com as pantufas felpudas calçados. Desencaixou uma das pontas do varão do aro do suporte e começou a enfiar as argolas do cortinado novo, que ela lhe ia alcançando. Ele estava a ganhar peso, notava-se na barriga alva que descaía sobre a camisola do pijama, a mulher também o notou, o desemprego, a suspeita do médico de que ele tinha cancro – suspeita que se revelou infundada, mas as mazelas psicológicas do episódio duravam há dois anos e meio – e a pouca vontade de procurar trabalho, convergiam para aquela modorra de sofás, cerveja, televisão, e pornografia no portátil.      - De…

O rio de Heráclito

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Ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio. (Heráclito)
            A chuva chegou, miudinha e insistente, e logo mudou de intensidade. As copas das árvores sacudiam-se ao vento, com o céu sobre elas iluminado pelos relâmpagos.             Luna esperava, as mãos espalmadas nos vidros das janelas e o olhar fixo na curva do caminho. Sentiu a mãe chegar-se ao pé pelo ranger do sobrado velho da casa sob o peso dos seus anos e da sua ciência.             - O teu homem?             Ela encolheu os ombros, não sabia dele, a mãe estendeu-lhe uma capa.             - Vai buscá-lo, não pode andar por aí com este temporal.             Ela hesitou, sabia que ele estava lá fora por causa de uma experiência qualquer que envolvia a trovoada. Não acreditava que conseguisse trazê-lo de volta.             -Trá-lo antes que se mate – insistiu a velha, como se lhe lesse os pensamentos.             Ela vestiu a capa e saiu para a tormenta. Tentou caminhar sobre as ervas para evitar a lama, e experimentou …

germinar no Inverno

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(clicar)


Números e perónios

Princípio para uma história: um menino perneta reencontra o seu cão de três pernas.
                No caminho onde isso aconteceu, não havia jardins, nem sebes podadas, apenas lírios e papoilas silvestres colorindo a espaços a desolação enlameada do carreiro que serpenteava por um vale onde abundavam as ruínas calcinadas de casas. As ruínas estavam frias, como a água da chuva nas suas entranhas e a dos charcos à epiderme da terra.                 As ruínas, e a chuva nelas, e o menino e o cão com uma perna a menos, tinham uma causa inusual – a guerra que despoletara entre os defensores do número par e os defensores do número ímpar.                 Os primeiros tinham aceite como uma lei inexorável do universo (ou uma dupla lei), que todas as coisas tinham o seu par e tudo o que não o tivesse teria de o procurar e encontrar ou anular-se em razão do seu insucesso. Dia e noite, gelo e fogo, deus e o demónio, mulher e homem ou mulher e mulher e homem e homem, caos e cos…

A viagem

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Tonino saiu do elétrico na paragem do topo da Rua D. Dinis. Das paragens mais próximas de casa, era a que ficava mais longe. Parecia um contrassenso mas ocultava uma motivação dissimulada, é que Tonino não tinha pressa nenhuma de voltar a casa, preferia andar um pouco mais, espreitar as gordas dos jornais no quiosque do Silvério, meter a cabeça pela porta entreaberta do barbeiro para se meter com o pessoal, ou parar na entrada majestosa do hotel de cinco estrelas para ter dois dedos de conversa com o porteiro e falar de coisas sumamente importantes como o tempo por aqueles dias ou as obras do momento nas ruas da cidade. Mas quarenta e cinco minutos depois de se apear do elétrico, e apesar de todas as delongas e pretextos a que recorrera, Tonino estava perfilado à porta do apartamento. Abriu a porta com a chave – era daquelas portas que tinham a fechadura no punho, e por dentro abria-se sem precisar dela – e depositou as suas bagagens de trabalho no bengaleiro, o casaco e o…
Uma verdade evidente e, a um tempo mesmo, ignorada e desprezada: A AMIZADE, É UMA FORMA DE GOSTAR.
Não se diz: gosto daquela pessoa! Sinto-me bem na sua presença! Nutro-me tranquilamente das palavras na sua boca, dos seu riso ou da sua melancolia, do aprumo ou desleixo que a carateriza. Diz-se em vez disso: sou amigo de fulano ou sicrana, como se essa afirmação traduzisse um estatuto exterior a nós, desligado do que somos e sentimos, tão inútil como os dígitos de um cartão de desconto de uma loja de confeções, ou a mancha castanho-prateado na superfície externa do vidro da janela do nosso escritório que assinala o ponto de colisão de um inseto cego. A AMIZADE É UMA FORMA DE GOSTAR, e quando chamamos amigo a alguém, e quando de amizade se trata sem sarcasmos nem toxicidades, aprendamos a reconhecer a musicalidade e a riqueza da palavra, e de como ela possui fundas raízes em nós e se arvora acima do labirinto dos dias vãos em frutos que nos alimentam e nos tornam um pouco melhor do que…

O silêncio magoado de Dramra Rion

Dramra Rion é uma jovem, e porque é jovem reúne os atributos razoáveis para alguém que seja jovem, a pele lisa e bem irrigada pelo sangue, o espírito generoso e cândido de quem ainda não se encerrou dentro da carapaça áspera do cinismo e do desdém, Dramra gosta de se levantar de manhã à hora em que o sono claudica, levanta-se quando quer e come quando tem fome, vive do lado de fora das janelas como se o mundo fosse o seu quarto. Não gosta de pessoas mal encaradas, e também não suporta o excesso de maquilhagem que fabrica um rosto artificioso sem contato com a realidade, Dramra junta folhas secas de Outono que enterra perto das raízes das árvores porque lhes pertenciam, e tem uma paciência infinita por bichos, varejas, lagartas, cães vadios e gatos sobranceiros, e detenho-me por aqui para não encher muito o texto de coisas pegajosas e peludas e com veneno.. Quando Dramra Rion chega a qualquer lado, é forçoso que lhe prestem atenção porque também ela enche muito os espaços com a sua boa…

Babelicus em português, versão 2

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A ESTALAGEM, conto um pouco gótico escrito para o e-zine Babelicus.

Outros caminhantes da torre: Ana Carvalhosa, Angela Schnoor, Eduardo Oliveira Freire, João Ventura, Samir Karimo e Vitor Leite


handicap

Conheço muitas pessoas que possuem um handicap qualquer (perdoem-me o duplo estrangeirismo, mas pensarei nalguma forma de expiação, soft). Não digo todas as pessoas, porque isso seria generalizar demasiado, e por isso vou particularizar apenas o meu caso. O meu único handicap (outra vez!), ou o que eu pensava ser um, era não conseguir entrar numa divisão qualquer e ver um quadro torto, noventa e nove por cento das vezes tinha de lá ir discretamente com um dedo e endireitá-lo para me sentir mais tranquilo; e isso já me causou alguns dissabores. Num café em Torres Vedras que exibia nas paredes dezenas de fotografias emolduradas, todas inclinadas, fiz um sprint para as endireitar que mereceu a reprimenda da dona do café, sobretudo por andar a saltar de mesa em mesa. Uns meses mais tarde, a coisa meteu mesmo a polícia, isto porque no Museu Nacional de Arte Antiga tentei fazer o mesmo a um único pobre quadro solitário descaído para o lado direito, aquilo fez disparar o alarme e o rest…