Quinta-feira
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Quinta-feira
Ostra
O salão principal da sua casa fora construído no primeiro piso da mansão, uma escadaria recurva em espiral ligava-o ao piso inferior e ao terraço. Toda a ala oeste da sala era preenchida por um vidro grosso, através do qual podia esquadrinhar o bulício das casas vizinhas. O tecto possuía ao centro uma cúpula em ogiva através do qual, durante o dia os raios de sol eram filtrados com uma intensidade regulada por computador, e à noite, em dias de céu claro, podia admirar as constelações de estrelas (o que, em qualquer dos casos, era para ele sinónimo de absoluto e mortal aborrecimento). Aquela sala era todo o seu mundo, e fora concebida até ao mais ínfimo detalhe. O aquário de peixes tropicais, o sistema de som; e aquela televisão de ecrã panorâmico, que lhe fazia chegar imagens produzidas em todo o mundo, televisão que era apenas a fracção emersa de um complexo sistema electrónico.
Este seu habitáculo estava apetrechado para tudo o que sempre sentira necessidade. Mal a criada retirou o carrinho das refeições, procurou a melhor posição no sofá e apropriou-se de um dos telecomandos que estavam dispostos sobre o tampo da mesa. Premiu uma tecla e a televisão acendeu-se, apresentando em toda a extensão uma grelha de ícones variados. Uma nova tecla e os ícones começaram a rodar em espiral até um deles ficar sobreposto aos demais numa escolha aleatória. O ícone foi ampliado mostrando a figura de uma velho chinês da época imperial, cortando paus de bambu diante dos portões de um templo. Com o programa accionado, bastou-lhe dar ordens verbais para o computador reagir, e este seleccionou entre todos os programas disponíveis, um que correspondesse ao seu perfil bio-psicológico. Enquanto se iniciava um documentário televisivo sobre as porcelanas chinesas da Dinastia de Ming, o sistema de som ia libertando musica tradicional chinesa. A música não parecia provir de lado algum, antes parecia formar-se à sua volta como se fosse segregada pelas moléculas do ar. O ambiente inteligente estava em progressão, com a temperatura e humidade vinculadas aos estímulos audiovisuais, e imagens holográficas a serem formadas nos recantos da sala. A criada veio-lhe servir uma aguardente de arroz que fora requisitada na cozinha, e, com um suspiro de satisfação, bebericou-a, afagando a barriga volumosa. O computador seleccionara imagens da colheita do arroz, que eram exibidas em segundo plano na parede por detrás dele. Se prestasse atenção, ele podia sentir como a atmosfera se tornara densa e húmida como na China das monções, e a música que se ouvia trazia suavemente incorporada sons dissipados da chuva a cair.
Ficou a ver televisão toda a manhã, e a sua completa inacção só era cortada de cada vez que falava ou usava os comandos para impor directrizes ou adequar o ambiente aos seus caprichos. A meio do dia, a empregada trouxe-lhe um almoço chinês fornecido por uma firma de cattering. Comeu e bebeu vorazmente, enquanto nas paredes e tectos se sucediam imagens das figuras do exército do imperador Qin.
Depois do almoço, retomou os seus passatempos, introduzindo novas alterações. Tentava quebrar a monotonia, porque o problema do seu pequeno paraíso tecnológico é que, ao fim de umas horas, tudo lhe parecia igual. O enfado foi crescendo e, perante ele, tudo parecia fútil, quer se tratasse da cadência rítmica da música chinesa moderna ou o saké que fazia correr na sua garganta. Desistiu por fim, com o espírito alterado pelo álcool, e ficou quieto durante um bom bocado, suspirando de cansaço a espaços regulares, com os olhos fixos no céu envidraçado. A voz de Mao ascendia do regurgitar de multidões, como um vento agreste e cortante esfiapando tecidos de seda.
Quando se sentiu com forças suficientes para tomar uma decisão, interrompeu o ambiente, e deu instruções à empregada para dar uma arrumadela na sala. Quando ela saiu, a solidão fê-lo suspirar novamente. Que chatice pegada. Estava inclinado a requisitar uma mulher de traços orientais ao seu Serviço de Acompanhantes e já empunhara o telefone quando o seu olhar se deteve na data inscrita no mostrador do relógio, fazendo-o mudar de ideias. Apetecia-lhe brincar, e já haviam passado tantos dias desde que tinha brincado pela última vez.
Doido de alegria, apoderou-se de um outro comando que estava pousado sobre a mesinha. Premiu um pequeno botão que se salientava como um umbigo sob o braço do sofá e este moveu-se transversalmente ao longo da sala até ficar encostado à parede de vidro, cuja metade superior correu para um dos lados permitindo-lhe debruçar-se sobre o exterior. Como um falcão atento, sondou com o olhar aguçado a rua lá embaixo e as casas em volta. Depois de algumas hesitações, seleccionou um alvo preferencial numa casa baixa, um homenzinho calvo e moreno que se afadigava à volta do seu jardim. Talvez tivesse acabado de regressar de um emprego tão estúpido e monótono como as suas imagens da China, e agora entretinha-se ali, até à hora do seu jantar proletário com cerveja e macarrão, e futebol na televisão. Era muito activo, o homem pequenino, já aparara as sebes, arrancara as ervas daninhas dos canteiros e agora andava de um lado para o outro a cortar a relva com um aparador manual de cilindro. Parecia contente, a assobiar baixinho com pequenas oscilações da cabeça e dos ombros.
Premiu uma tecla do comando e o homenzinho deu um pequeno pulo e começou a andar mais depressa com gestos frenéticos e cómicos. Riu-se finalmente, parecia uma cena de um filme mudo. Carregou noutra tecla e fê-lo alçar a perna a cada passada. Começou a soltar sonoras gargalhadas, com as mãos agarradas à barriga. Toda a monotonia havia desaparecido como que por milagre e, agora, comprazia-se em utilizar todos os recursos da sua imaginação para torturar aquele homem. O desgraçado mudava de desempenho a cada tecla premida: andava aos pulos como no jogo do saco, esticava os braços para o céu lançando gritos estridentes; ou dava cambalhotas sucessivas, caindo aparatosamente sobre os buxos do jardim.
Continuou a rir-se até sentir os olhos marejados de lágrimas, e um certo desconforto no estômago cheio. Enquanto a sua vítima rolava de lado no jardim, com a pele da cara e das mãos retalhados pelos espinhos das roseiras e dos arbustos, ele começou a tentar conceber uma apoteose para aquela brincadeira. Pensou que seria curioso o efeito das lâminas do cilindro sobre as mãos daquele homem, mas depois reconsiderou ao pensar que aquilo poderia originar muito sangue e que seria inestética aquela mancha no verde do relvado. Já a sua vítima gritava de desespero, rolando cheio de dores pelo jardim, quando o seu mentor descobriu o sublime destino a dar-lhe. Fê-lo levantar-se e sair em disparada do jardim, correu pelo passeio a arrastar atrás de si o cortador de relva, galgou uns quantos metros até aparecer um camião enorme e prateado, e arrastado por uma vontade estranha a si, saltou para o meio da rua e atirou-se contra ele. O motorista do camião ainda tentou evitar o embate, mas já era tarde. Ouviu-se um guinchar medonho de travões e o grito lancinante de terror da vítima, logo seguido pelo som abafado do corpo de papel a ser colhido por aquele monstro de metal.
Uns poucos metros acima da rua, e sem tirar os olhos do corpo caído, o pequeno deus enrolou-se no sofá juntando as pernas ao ventre, saboreando uma espécie de formigueiro de prazer que se alastrava do peito para os braços e coxas. Não se mexeu até a sensação se desvanecer, depois, com um sorriso nos lábios, reconduziu o sofá para o centro da sala e chamou a empregada para lhe servir o jantar. Reatou o ambiente inteligente e tentou fixar mentalmente cada um dos instantes daquela brincadeira enquanto, no ecrã, um apresentador de voz reconvertida comentava uma bucólica cena campestre da colheita do arroz.
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Segunda-feira
Contra a corrente
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Sábado
Verão
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Com fundo
Num barco a naufragar, concebeu um segundo epitáfio: “Tenhas o que tiveres nos bolsos e na alma, vais para o fundo à mesma”.
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Sexta-feira
Os comedores de lótus
- Vais andar de gaivota?
- Nop, estas gaivotas também não têm ar de ser muito usadas, ainda ia ao fundo. E cheira mal por aqui, devem usar a lagoa como fossa.
- Vá, vamos para dentro, o Almoço Anual de Retornados está a começar. Ao menos é num lugar giro, não é daqueles almoços que se ouve falar, no meio do pinhal com cerveja morta e galinha à cafrial coberta de moscas.
- Temos mesmo?
- Claro. Eu sei que não gostas destas coisas, que andaste muitos anos a medicação e que África, para ti, só nos documentários sobre vida selvagem. Mas o meu irmão pediu-nos e tu concordaste. Ele vem à procura de um amigo de Quelimane que não sabe se está vivo ou morto, e nós vimos à trela, e até podes encontrar velhos camaradas de Moçambique e matar saudades.
- Saudades de quê? Dos Unimogs e Berliets na picada? Do paludismo e de matar gente?
- Vá, é só um almoço, caramba! Comemos alguma coisa, dançamos uma morna ou uma marrabenta e voltamos ao ninho.
Assentiu, vencido, e seguiu-a, seguro por uma mão. À porta do restaurante, espreitava-se as listas de pessoas, procurando nomes, regiões. Um ou outro reencontro, assinalado por abraços e exclamações. Rumaram à mesa onde o cunhado, que já se tinha instalado, guiava-os com os dois braços a agitar-se no ar, cruzando uma sala que parecia o parlatório barulhento de uma penitenciária. Sentaram-se. Uma mesa grande, redonda, com uns três grupos familiares, um dos quais era de Quelimane - motivo da escolha. Ainda havia dois lugares vagos na mesa, e não tardou que um casal se candidatasse a eles.
- Podemos sentar-nos?
- Claro - rugiu o seu cunhado, como se fosse tudo dele - somos todos como irmãos, marinheiros do mesmo barco.
Reconheceu o sujeito, com profundo desagrado.
- Freitas?! -interpelou o outro - o cabo Freitas, da Base Aérea? Não te lembras de mim? Sou o Pacheco...
- Pacheco! - exclamou com uma falsa vivacidade - Estás na mesma! Como é que tem corrido a vida? Já tens netos?
- Dois, e estão na Universidade. Tu estás diferente, Freitas, mais encorpado e com bigode e barba. Pareces o Che. Não o Che Guevara, o Ché-ga-te para lá!
Riram-se todos da piada, e, a partir daquele instante, o ego forte do seu cunhado eclipsou-se e começou o reinado do Pacheco, do charme do Pacheco, das suas histórias que mereciam ser ouvidas e das piadas de riso irresistível. À medida que a sua própria mulher se mostrava rendida ao encanto do antigo camarada, Freitas amuou, desempenhando o serviço mínimo indispensável, acenando com a cabeça a algumas inflexões de oratória e ostentando o seu riso amarelo profissionalizado. Sopa, Pacheco, primeiro prato, Pacheco, segundo prato, Pacheco. Nem a comida o calava, devia enfiá-la por um funil ligado ao estômago.
- Não tenho pejo em dizê-lo: tenho dinheiro! Sou de uma família rica e com nome, e vivo para perpetuar o meu nome e tirar proveito do meu dinheiro. Viajamos muito, temos uma casa na Catalunha e outra em Ibiza. Neste momento, era para estarmos na Catalunha, porque estou a escrever um ensaio sobre Dali que a editora me encomendou, mas a minha mulher, em vez de ir de avião, quer ir até lá de carro. Esteve a ler o Monsenhor Quixote de Graham Greene, e agora quer ir de carro por estradas secundárias, à procura de aventuras. Uma viagem destas leva tempo a preparar, tenho de conseguir um Seat 600 que ainda ande em condições, e mandar fazer-lhe uns melhoramentos: ar condicionado, GPS, frigo-bar...
- Talvez umas asas e propulsão a jacto... - sugeriu o Freitas, contestatário, arrancando um sorriso pálido aos circunstantes.
- Com umas asas ia parar à Praça de S. Pedro e era logo beatificado pelo Papa ou, no mínimo, designado Monsenhor, Monsenhor Pacheco, e eu nomeava logo a minha mulher de "Ma-senhora".
Nova gargalhada, o Freitas não percebia de quê. A conversa já tinha tomado novo rumo, justificando o propósito do almoço com louvores à vida no Ultramar, à unidade e fraternidade das pessoas (brancas e portuguesas), os camarões grelhados servidos com cerveja Laurentina, as praias do Índico, as caçadas, os laranjais de Vila Pery...
Freitas enfastiou-se, talvez por estar atulhado, de comida e conversa. Chegara a hora da pausa, das sobremesas e gulodices, do ir e vir de doces e brandys. Sem dar por isso, viu-se sozinho à mesa com o camarada de armas.
- Devia haver uma garrafa de Pombe para nós - considerou Pacheco, bebericando uma aguardente - e um par de pretas para cada um. Ah! Já me esquecia! Tu não gostas disso... - fez uma pausa, saboreando a atrapalhação do Freitas - A tua mulher sabe que gostas de piça, e que eras a menina bonita do furriel André Mota?
- Não! E também não interessa, isso são águas passadas...
Pacheco soltou uma sonora gargalhada.
- Sim, águas passadas. Isso lembra-me que gostavas de ir à socapa até ao aldeamento do Rovugué para ver os pretos a tomar banho nus no rio. Metes-me nojo!
- Águas passadas - repetiu monocordicamente - como aquele tipo que torturamos na margem do Zambeze, e a tua sala de troféus. A tua mulher sabe da tua sala de troféus?
Pacheco não respondeu, o homem do mundo era apenas um predador ferido, olhando o seu rival com um feroz brilho metálico nas pupilas. Quando os restantes convivas regressaram à mesa, conseguia-se perceber a tensão no ar. Aos poucos, Pacheco voltou à forma, alternando ditos e piadas que o colocaram de novo no centro da constelação. A mulher do Freitas arrancou-o à mesa com o pretexto de irem à mesa das sobremesas. Ele deixou-se levar, esperando as perguntas.
- Estiveram os dois a discutir...mas porquê? O Pacheco é uma pessoa encantadora, não percebo como é que andas à procura de pretextos para te chateares com ele. Tens ciúmes? Ciúmes de mim e da atenção que todos lhe dão?
- Não, nada disso. O Pacheco é um animal, era capaz de desmembrar e afogar um homem num rio e, a seguir, contar umas piadas sobre o assunto. Na boa. Não tem nada que se pareça com uma consciência, e os psiquiatras e farmacêuticos não ganham nada com ele.
- Deixa-te de imagens, sabes que não gosto de floreados quando estou a falar contigo.
- Então aqui vai. O Pacheco, o culto e viajado Pacheco que tu tanto estimas, fazia colecção de cabeças humanas. De pretos, dos pretos que matava quando não estávamos muito longe da Base. Cortava-lhes a cabeça e conservava os despojos num frasco de vidro com formol. Tinha quase uma vintena de cabeças conservadas. Era a sua sala de troféus. Quando chegavam novos soldados à Base, diziam-nos para lhes mostrarmos as vistas, e isso significava levá-los à Torre de Controle para ver a pista e os campos de algodão em volta da Base e, como escala obrigatória do passeio, a sala de troféus do Pacheco, para se lembrarem porque é que estávamos ali.
- Não acredito, estás a inventar, és doentio...
- É a pura verdade, posso jurá-lo...
- Pára! - ordenou ela - não te admito que jures pela saúde de ninguém, muito menos dos nossos filhos e da nossa neta. Nem sequer, que penses nisso. Aliás, não quero saber de mais nada, tinhas razão numa coisa: não devíamos ter vindo. Vamos embora agora, cordialmente e sem carantonhas!
- De acordo!
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Quinta-feira
Conselho de canicultura
Calhada 2
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criado(r)
Chama solar
O nosso segredo, é vivermos em degredo, afastados, expulsos de nos conseguirmos realizar. O nosso segredo é este viver-entre, tolhido, paraplégico, cego-surdo-mudo, abraçando a angústia nascida dos obstáculos erigidos pelos outros e por nós mesmos.
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Calhada
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politonia
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Quinta-feira
Seiva 1
Acabado de ler
«Há algo em nós, via-se forçado a admitir, que é caprichoso e para o qual a linguagem da explicação é inadequada. Somos feitos de sombra, assim como de luz, de calor como de pó. O naturalismo, a filosofia do visível, não consegue capturar-nos, porque somos um excesso. Tememos isto em nós, o nosso ser-sombra infractor de fronteiras, refutador de regras, metamorfoseador, transgressor, trespassador, o verdadeiro fantasma na nossa máquina. Qual vida depois da morte, qual improvável esfera imortal, é aqui na Terra que o espírito escapa aos grilhões de que sabemos ser. Pode amotinar-se em ira, inflamado pelo cativeiro, e fazer terra queimada do mundo da razão».
Seiva 2
Repetindo...
«(...) Lembram-se do João Matias, da família da Petrolina? Rica peça, matou o pai com doze facadas. Diz que o gajo, depois de dar a primeira facada, gritou para o pai: "Ainda mexes!! Com esta que é eu te arrumo!"».
Quarta-feira
Ménade
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Terça-feira
Dito
Agosto-Algarve
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Não culpem o mensageiro
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Pronomes possessivos
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Segunda-feira
Buratino
Estágio final das provas de iniciação dos jovens guerreiros Mandans, das planícies do Missouri, o O-Kee-Pa era um suplício no qual eram cravados espetos de madeira através da pele e dos músculos dos neófitos e, em seguida, atavam-se cordas a esses espetos, deixando-os suspensos no ar. As gravuras que se fizeram deste ritual atroz da extinta tribo dos Mandans, sempre me fizeram lembrar marionetas humanas, suspensas do alto, talvez manipuladas por um Jeová-Manitou exótico, de penacho de penas e pinturas de guerra, que os preenchia de sonhos alucinatórios de grandes caçadas e batalhas vitoriosas, enquanto extraía prazer do seu patético sofrimento.
2 - história infantil
No meio de uma floresta de carvalhos, o títere fugido do teatro de fantoches encontrou um duende embriagado arrastando o seu garrafão de bom uísque. "Ajuda-me" - pediu-lhe - "Fugi dos fios que me articulavam e das mãos violentas na extremidade desses fios. Transforma-me numa pessoa, peço-te, tu consegues, quero ser uma pessoa de carne e osso". "Seja - resmungou o duende - estou tão bêbedo que nem me consigo esconder, e um pequeno feitiço não vai fazer mal a ninguém". E com uma poção, realizou o feito e transformou o títere apinocado num ser humano. Muitos anos depois, os dois voltaram a encontrar-se. O duende saiu-lhe ao caminho quando ele atravessava a mesma floresta, materializou-se no ar a partir de um novelo de névoa. "Não és aquele títere entristecido que queria muito ser uma pessoa? Ao que vens, para voltares aqui?". O jovem começou a chorar de desespero. "Pensava que bastava ser uma pessoa para que ninguém me manipulasse, mas enganei-me. Tenho dezenas, centenas de fios, que me repuxam os gestos e os passos para além da minha vontade. Quero ser de novo um títere de madeira e pano, peço-te, tu és capaz, ao menos, no teatro, eu recebia aplausos".
3 - O titeriteiro ao contrário
Juntaram-se uns milhares de pessoas, e decidiram criar no céu um títere gigantesco que pairaria sobre todos como um papagaio de papel. Chamaram-no logo de deus. Criaram-no grande para se sentirem pequenos, pintaram-na com as cores vivas dos seus sonhos e as sombras negras da sua maldade, moviam com longos fios as suas garras e as suas asas, e por ventriloquia colocavam na sua boca as palavras que eles próprios engendravam nas suas entranhas de fezes. Vieram os outros, os inocentes e puros de espírito, e sentiram-se subjugados por aquele títere atemorizador e pela santidade dos seus manipuladores, e obedeceram-lhes, vivendo e matando por eles. E o títere, o deus, cada vez maior e mais complexo, tornou-se tão imenso que não podia resistir à força do vento, que, no fragor de uma tempestade e sem sacrilégio, ergueu um e outros nos ares e os atirou contra as arestas de uma montanha. Céus e terra ficaram mais limpos.
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Quarta-feira
Amor proibido
Azedia
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Domínio filipino
Quando cresceu, Imelda Marcos jurou a si mesmo que nunca a haveriam de apanhar descalça.
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