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o céu pode esperar

   Há evos que a família esperava, e nas piores condições. A sala de espera, uma entre milhares, não tinha assentos bonitos e asseados, apenas nuvens cinzentas da poluição, e em volta um chão nojento cheio de beatas de cigarro e penas velhas, ninguém lhes dizia nada nem respondiam aos pedidos de esclarecimento, não havia nada que se assemelhasse a um serviço de bufê ou à oferta de refrescos e bebidas espirituosas. Os funcionários passavam rapidamente, adejando sobre o chão e fazendo-se surdos às questões dos que aguardavam com uma crescente impaciência. Era impressionante como a incompetência, a burocracia e a desorganização haviam ascendido às mais altas esferas, e fosse tão difícil fazer Check-in no Céu.
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Um "cuento jíbaro"

   A seu pedido, cortaram a cabeça ao marido morto, e procurou fazê-la encolher para a exibir num espacinho quadrado do móvel da sala. Uma pessoa comum poderia pensar que a simples intenção de o fazer já era um gesto chocante e bárbaro mas, para ela, não passava duma merecida retribuição, porque fora sempre isso que o marido lhe fizera enquanto fora vivo. Ferveu a cabeça cortada num caldo cuja composição retirara dum site, extraiu dela os miolos e os globos oculares, coseu os olhos, a boca e a ferida na base do crânio onde fora feito o corte. Ainda assim, a cabeça era muito grande para o espaço, e experimentou cortar as orelhas. Sem aquelas aletas descomunais, a cabeça coube à justa, mas assim, já não fazia muito sentido - o marido não poderia ouvir o que ela e as amigas tinham a dizer sobre os homens na reunião daquela tarde.

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retweet

   - Conto-te o meu segredo: sexo sem compromissos - disse a médica à colega patologista. 
   - E eu retribuo, contando o meu - erecção post-mortem!
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rito

   Trôpego e desajeitado como era nos jogos de sedução, surpreendeu-o a facilidade com que aquela bela mulher de olhos grandes e unhas afiadas pareceu ceder aos seus encantos, e aceitou ir com ele para um quarto de hotel sem qualquer tipo de hesitação. Também o surpreendeu o seu nome, fragrante e melodioso como o nome de um vinho francês: Mantis.


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o encontro

   Depois de mails, tuítes, mensagens, marcaram finalmente encontro no café da gare. Como é que ela o reconheceria? Ele levaria uma rosa de papel na mão.
   Mas alguma coisa correu mal, porque a rosa apareceu sozinha.
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fumo

   A liberdade havia morrido. Começaram por colocar uma faixa negra, um fumo, no canto das imagens televisivas, nas capas dos livros e dos cd's. Depois, o luto alastrou-se, avançou como um incêndio de fumo muito negro e agora, o fumo não se contentava em ser apenas símbolo, sinal, evocação, agora, havia faixas negras a cobrir palavras, frases, capítulos inteiros, a eclipsar imagens e a emudecer vozes. A liberdade morta já fedia de podre que estava.

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o óculo

   Tinha tocado primeiro à campainha da porta, mas não tinha havido resposta, pelo que bateu à porta com os nós dos dedos, não com muita força porque não queria incomodar. Ninguém a abriu. Pôs-se em bicos de pés e espreitou pelo óculo da porta, mas não viu ninguém. Quem seria àquelas horas?! Vendedores ou pregadores? Espreitou novamente, e pareceu-lhe ver uma forma baça, certamente, uma pessoa esbatida pela jogo de imagens das lentes do óculo. Não abriu a porta, não se pode confiar em ninguém nos dias que correm. Bateu novamente, e novamente sem sucesso. Masquiu, coçou o pescoço, bateu o pé com impaciência. Espreitou novamente pelo óculo, mas já não viu ninguém, nem pessoa nem vulto. Desistiu, rumou à cozinha, serviu-se de um copo de Iced Tea e sentou-se na sala a ver televisão, um filme antigo no TCM, Dr. Jekyll & Mr. Hyde, de Rouben Mamoulian.

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No viço

   Josuvaldo abordou o colega de trabalho na cantina.
   - Sabes!? A minha filha diz que um dia gostava de ir à pesca comigo, ela tem nove anos e gostava de experimentar. O meu problema, é que eu nunca eu nunca pesquei, nem sei como se faz. Como tu és um tipo experimentado nessas andanças, pensei que me poderias ajudar com alguns conselhos...
   - Nada mais fácil, e nem precisas fazer pesquisas no Google. Compras um kit de pesca completo, com a cana, o molinete e os anzóis, espetas na ponta do anzol uma minhoca ou um bocado de sardinha de conserva e esperas que o peixe morda.
   - Assim parece fácil.
   - É fácil! E faz muito bem à cachimónia. Experimentem!
   Josuvaldo seguiu o conselho do colega, comprou um kit de pesca, uma lata de sardinha de conserva (não vendiam a retalho) e sentou-se com a filha na berma do molhe do porto, a montar a cana. O que eles não sabiam, é que aquelas águas estavam infestadas de tubarões sanguinários. E se pensam que isso é um cenário cruel, só vos posso dizer que, mais cruel ainda, é que os tubarões não sabiam que eles os iriam pescar.

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diHitt

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