19 Maio 2008
Cão Menor
16 Maio 2008
Mar da cor do fogo
O às duas por três sugere um encadeamento
às três por duas não tinha nada
15 Maio 2008
Éssémeésse oblige
Os cegos e o elefante
Aranhices
13 Maio 2008
o meu guia emprestou-me a sua bengala, a bengala com que percorre os jardins suspensos, com ela, todas as línguas e todos os géneros de escrita se tornam compreensíveis, e não só me revelam as suas palavras em toda a vastidão do seus múltiplos significados, como, diante dos meus olhos, o que leio nesses livros se enriquece e se expande, gerando novas narrativas e descrições.
No meu sonho de Alexandria, a alegria de conseguir ler todos esses livros prodigiosos, só tem par na gratidão que sinto pelo guia que me franqueou as suas portas, ele, que me olha sem olhar, e que esboça um sorriso tranquilo quando lhe digo: "Obrigado, Borges!".
11 Maio 2008
Boris Vian - 2
O homem era de compleição branquíssima, talvez fosse um albino, ela não sabia dizer como era um albino porque não sabia como os reconhecer, mas talvez fosse um, só podia ser. Como todas as semanas, lá estava ele ao balcão do Vídeo clube, empilhando um monte de Dvd's para alugar. E as suas mãos! Magras e ossudas, de uma brancura anémica, ela achava que se tocasse numa delas, a pele pareceria farinha ao tacto.A jovem começou a resgatar os filmes pelas capas empilhadas no balcão. A pergunta aflorava-lhe teimosamente aos lábios como um eflúvio do espírito e, por fim, não foi capaz de a reprimir mais e ela saiu como um arroto.
- Desculpe a pergunta, senhor, mas de onde vem o seu nome, Jerome?
- Como de onde vem? Fui baptizado assim...os meus pais eram muito originais em tudo!
- É que Jerome não é um nome muito comum, aliás, até acho que é um dos nomes que não são aceites nos registos de nascimento. E o senhor, sempre assim bem vestido, suscita-me divagações cinematográficas.
Minguante
(imagem pilhada aqui)
09 Maio 2008
Eva
Ela (tentando estancar o sangue do lábio fendido): "Gostava de te poder aplaudir e recomendar o teu ensaio aos amigos, mas não sei se o farei. A minha maneira de contribuir será acrescentar-lhe uma experiência nova, não escrita - a do beijo da morte. Que descerá sobre ti uma destas noites, quando a tua maçã-de-Adão fulgurar no escuro como uma presa apetecível".
08 Maio 2008
Catársis
- O su marido manda sôdade - anunciou a médium com o seu sotaque dos Balcãs.
-Saudade de quê? De quê?
- Do cozidu, da cadêrra do quarrto, do licô de maçã casêirro, do tabaco denrrolar, do biquinho de Sábado à nôte!
- Pergunte a ele do ouro, onde é que ele guardava o ouro?
- ...Nô se lembrra, o coitado...vou terminarr a ligassom, over and out...seu marrido muito trriste, casa sua muito suja, muito trriste...
- É verdade, não tenho tido cabeça para nada...
- Sua casa terr cave, nom?
- Sim, tem uma cave, foi ele que disse?
- Nom, nom, estava a pensarr, minha nora faz limpeza, muito barrato, se senhora quiserr eu vô lá com ela e nós limpa tudo, cave e tudo, muito barrato, e passarr a ferro, se precisarr...
- Está bem, pode ser, eu vou dar-lhe a morada e podemos falar do pagamento.
- Pag'mento pequeno, senhorra dar a chave e irr sua vida, nós trabalharr melhó sozinha...
07 Maio 2008
Farturinha
(P.S.: leva-se mais tempo e dispendem-se mais palavras a explicar o que uma coisa não é, do que a explicar o que ela significa)
«Canção Simples»
- Sei, Teresa, vocês andam sempre juntos, a comer na mesa, quando estão a jogar, nos passeios que a gente faz. Onde anda um, anda o outro.
- O meu pai não gosta do Luís, diz que ele tem os dentes feios.
- Mas tu gostas?
- Sim, muito! Ele ontem deu-me um beijo aqui - contou, encostando uma unha ao canto do lábio - eu gostei muito.
- Isso é que importa, que tu gostes dele. E vocês já se conhecem há mais de trinta anos.
- O meu pai ficou chateado comigo...
- Por causa do beijo?
- Não, porque eu lhe disse que, um dia, eu vou casar com o Luís.
- Mal chegou, e já me pôs debaixo da asa!
- Não me digas!
- É verdade, fechou-se comigo no gabinete e, a falar da precariedade dos postos de trabalho e da dinâmica da ascensão na empresa, forçou-me, por assim dizer, a fazer coisas...
- Que coisas?
- Minutas de cartas...
- O porco, mete-nojo!
"...uma circular para os empregados,
- Tarado dum raio, lá em casa deve ser o jardineiro que cuida da mulher dele.
"Ah, e ainda me fez fazer uma gravação dos assuntos que ele quer que constem da acta da próxima reunião de direcção!".
- E tu? Não reagiste?
- Eu? Eu só lhe disse a meio da coisa, que se não me aumentasse no fim do mês, não lhe fazia mais nenhum.
Arma secreta
05 Maio 2008
Olhou os dois rapazes, sem saber o que lhes responder, mas seguiu-os à mesma quando eles começaram a subir as escadas da Escola, com as mochilas a sacolejar nas costas.
Primeiro, segundo, terceiro piso, o último, com uma varanda a todo o comprimento. Notando que ele vinha atrás, estudaram atentamente o solo lá em baixo, dando tempo para recuperarem o fôlego. Num ápice, estava um de cada lado e ele pensou de imediato: "Estou feito, vão-me atirar aqui de cima!".
- O nosso pai tem uma empresa, tem muito dinheiro - contaram em voz baixa.
E como se o quisessem demonstrar, abriram as mochilas e mostraram-lhe o material de desenho praticamente novo, os compassos, esquadros, caixas de minas; mais os livros e cadernos, e um MP3 de serviço enfiado numa divisória da mochila. Em seguida, fecharam as mochilas e arremessaram-nas no vácuo e ficaram a admirar o seu trajecto até chocarem com o solo numa nuvem de pó.
Ficou pasmado, os irmãos saltavam de alegria, dando-lhe palmadas nas costas. Quando a onda passou, explicaram.
- O pai compra outras - e esperaram uns segundos, a ver se ele os imitava. Depois, saíram a correr em direcção às escadas, de novo a rir e a gritar.
Abriu a sua própria mochila, remexeu no conteúdo até encontrar uma borracha quadrangular de um verde desmaiado. Vergando-a no dedo indicador, lançou-a pelos ares como se atirasse um seixo.
"O meu pai não tem dinheiro, mas tem muita porrada para dar" - justificou-se.
03 Maio 2008
Farol, e farol
Pelo mesmo motivo, achei que devia tentar dormir mais um pouco. Quando me estava a enfiar na cama, reparei, com um susto, que não estávamos sós, mas logo sosseguei, quando descobri que era apenas a minha mãe, sentada numa cadeira ao lado da cama do meu irmão doente, ainda vestida com as roupas do jantar. Ela acenou-me, e reparei que segurava um termómetro entre o polegar e a palma da mão. Quando já me havia acomodado no colchão, a minha mãe veio e aconchegou-me os lençóis, coisa que já deixara de fazer há um tempo, porque eu já não era nenhuma criança; mas era a sua maneira mística, silenciosa, de me dizer que estava ali por todos nós, não apenas pelo meu irmão doente, mas por todos nós, fanal de ternura que incendeia de luz os rochedos ameaçadores e que vive para nos conduzir sempre a bom porto. Eu sorri e desejei-lhe: "Boa noite, mãe!".
02 Maio 2008
«força da natureza»
Projecto
01 Maio 2008
Professor Balthazar (Bal-Bal-Baltazar)
Não me lembrava muito bem da série, mas a música é outra história, e é a razão pela qual, em cerimónias solenes e velórios, não se deve repetir a sílaba "Bal" a um português de trinta ou quarenta anos.
or
- Chama-se Luís, e é teu. Tem os teus olhos, o sinal no ombro, o teu riso áspero, as pernas arqueadas e a pele de lixa nos joelhos e cotovelos.
-...
- Não dizes nada?
- Não sou uma ovelha, e não podes andar por aí a clonar-me sem o meu consentimento.
29 Abril 2008
28 Abril 2008
"Corrida ao Ouro"
encravado num tanque com outros oitocentos e cinquenta salmões:
"Só espero que, agora, não me venham cobrar despesas de condomínio!".
Modus operandi
Histórias Zen 2
No meio de um jardim Zen, com a areia moldada em espirais e ondas em volta de rochas e Bonsais, um monge faz de estátua, com os cabelos cheios de laca para que o vento não agite as espirais e ondas dos seus caracóis.
- Mestre, eu ando há anos à procura de mim mesmo...
- Fico feliz por ti, se és capaz de reconhecer isso, é porque já te encontraste!
- Mas, Mestre, se assim é, porque é que eu continuo a procurar-me?
- Hum! Deixa-me ver...Será que é porque nunca encontraste as chaves do carro?
Abono 1
Abono 2
"Quanto ao carácter e conduta do mariscador, não tenho nada a apontar".
26 Abril 2008
trocou esta por uma pulseira electrónica,
e esta por um chip no seu nariz de batata,
(e assim tem permanecido,
assaltado por um apetite crescente
THX 1138
O primeiro filme de George Lucas (quanto a mim, o melhor), que sempre me pareceu inspirado na Alegoria da Caverna (com "1984" à mistura)
O dia seguinte
Que o homem que quebrou as correntes e saiu da caverna para conhecer o mundo do alto iluminado pelo Sol, regressou, de facto, para junto dos seus companheiros para os libertar.
Que os seus companheiros não o tentaram agarrar nem matar, antes se deixaram ficar, porque se haviam habituado às suas grilhetas como se fizessem parte deles e não as trocariam pelos delírios de um dos seus.
Que o homem liberto regressou ao mundo da superfície, e aceitou as grilhetas de lã de servir outros homens em troca de pão, e a violência íntima de calar o que ninguém queria ouvir.
24 Abril 2008
Abril
Era estranho estar ali outra vez, as janelas partidas deixando exposta a ossatura das grades, a manhã parda e a chuva miudinha a insinuarem-se na cela diminuta. Tocou com a biqueira do sapato numa lata vazia de Cola, atirando-a para um charco fétido que se formara a um canto.
- Desculpe, senhor, mas não pode estar aqui - olhou à procura de quem o interpelara e viu um jovem engravatado à porta da cela, tenso como se tivesse uma arma apontada à cabeça - se faz parte dalgum grupo de visitantes, terá de se juntar aos seus companheiros e esperar pelo guia. De qualquer das formas, este não é o circuito habitual das visitas ao Forte de Peniche.
Aproximou-se dele, e apercebeu-se do seu medo mal dissimulado. Não o surpreendia, encontrar um homem de gabardina e boné na penumbra e desolação daquelas celas, não deveria ser muito tranquilizador. Saiu para o corredor, e tirou o boné, descobrindo a calva com alguns cabelos escorridos a atravessá-la de um lado ao outro.
- Desculpe a invasão - falou por fim - Fui convidado para uma palestra sobre o vinte e cinco de Abril, a decorrer aqui no Forte, e estava a dar uma volta para matar o tempo.
- Foi um prisioneiro político?
- Sim, soa bem dizer prisioneiro político, soa a comunicado da Amnistia Internacional. Estive aqui preso, seis anos, e aquela cela foi a minha suite principal, mas também estive em outras, e passei uma temporada no Segredo. O piar de loucos das gaivotas do Forte ficou-me, ainda hoje, por vezes, acordo a ouvi-las.
- Já cá tinha voltado antes?
- Há pouco tempo, vim mostrar o Forte aos meus netos. Um deles, que está agora a acabar a licenciatura, fez-me uma pergunta que me tem assombrado desde então.
- Qual?
- Onde é que estão as chaves destas celas todas? Elas tinham chave, por isso devem estar guardadas em algum lugar. Talvez o senhor saiba, uma vez que trabalha aqui...
- Estou cá a estagiar, serei, espero ser um dia, técnico de museologia, mas estou aqui há pouco tempo e há muita coisa que não sei. Quanto às chaves, desconheço por completo, suponho que ainda existam. Na exposição permanente que rodeia o Parlatório, sei que não estão. Mas qual o motivo do seu interesse nelas?
- Essas chaves deviam ser atiradas ao mar, não vá o diabo tecê-las e serem precisas outra vez. Mas atiradas para longe, onde ninguém as recupere, talvez não aqui mas na península da Papoa, que possui gargantas onde elas poderiam ficar alojadas até se desfazerem, como ficou durante séculos o ouro dos Incas.
- Não vejo qual o interesse nisso, são apenas chaves...Se é por medo que a ditadura volte, isso é apenas um delírio. O progresso, a Europa, a Web, nunca este país poderia voltar à atmosfera de feudo onde a ditadura se petrificou. Não há qualquer possibilidade disso acontecer, a História nunca se repete!
- Já vi coisas mais estranhas, acontecer. E o senhor poderia ajudar, está cá dentro, move-se à vontade. Se o senhor quisesse...
- Decididamente, o senhor deve estar a delirar. Eu sou um técnico e encaro como sagrado qualquer item de um património museológico, e o senhor espera que, precisamente eu, vá como um gatuno em busca de umas chaves ferrugentas para atirá-las ao mar?
- Já vi coisas mais estranhas, acontecer...





