Domingo

Sempre que se justificava, ou lhe era pedido, o caseiro trazia até á casa grande da herdade o que a terra e os animais davam. Alfaces, frutos e tubérculos da horta, ovos do galinheiro, laranjas sumarentas, figos deliciosos...Entregava tudo á patroa, entrando na casa pela porta da cozinha, carregava os produtos em cestos, ou baldes de plástico com etiquetas apagadas de banha de porco, e depositava-os timidamente junto á despensa, retirando-se acto contínuo com o olhar baixo, e esfregando entre as mãos o velho boné cinzento. A patroa achava que ele andava triste, sempre fora um homem reservado e distante, mas nos últimos tempos achava-o triste como uma sombra. Ainda lhe perguntou se ele precisava de alguma coisa, dinheiro, roupa, ou de um médico. Mas ele negava, embaraçado por ser motivo de atenção. Uma tarde, com outros baldes com batatas que trouxera do anexo, já desgreladas, veio um balde vazio, com o fundo raso de água. A patroa perguntou para o que era aquele balde, e o caseiro confessou com um meio-sorriso que viera por engano, e que a água era sua, e salgada. A patroa não percebeu, pelo menos naquele dia, e aquela resposta só se tornou clara quando encontraram o seu corpo pendurado de uma corda numa das árvores do pomar.

A casa da música

A repórter conseguiu entrar a custo no grande depósito subterrâneo, atrás dela seguia o cameraman, um técnico de luz, e um auxiliar de produção com uma pasta de cabedal na mão. O espaço estava bem iluminado, em todos os sentidos podiam-se ver caixotes estreitos e compridos, com tampas corrediças em madeira prensada. O entrevistado em potência recebeu-os para uma exposição preliminar do seu trabalho, era um homem de idade avançada, com um fato de trabalho coberto de pó e que os mirava através de umas lentes com muita graduação, apesar da idade não se percebia cansaço algum nos seus gestos e expressões, o seu aperto de mão era firme e enérgico, como o de um homem que deseja muito alguma coisa e que trabalhará até ao último alento para o conseguir. Enquanto o auxiliar de produção tomava notas, a repórter estabeleceu uma pequena e espontânea conversa com ele, que serviria de molde para a entrevista que iria ser gravada. O homem idoso era maestro e compositor, um dia, enquanto assistia ao funeral de um amigo de infância, e ao olhar para as lápides que o rodeavam, lembrou-se que essa era o modo mais fidedigno de perpetuar a música para um futuro incerto, mesmo para um futuro apocalíptico que sobreviesse a um cataclismo de escala planetária ou a uma guerra nuclear – a música, deveria ser gravada em lajes de pedra, e estas acondicionadas num abrigo nuclear, á espera de serem recuperadas.

O compositor tomou a si esse cargo infindável. As músicas eram gravadas na pedra através de um Laser, numa escala reduzida, com várias pautas compreendidas numa só laje. O acervo foi crescendo de ano para ano, e depositado periodicamente no abrigo. Começara com as obras e compositores de música erudita, mas graças às pessoas que aderiram ao projecto e aos meios entretanto reunidos, foi-se estendendo como os raios de uma roda por todos os campos de criação musical. As lajes eram arrumadas por ordem nos caixotes oblongos, com estes depositados em estruturas sobrepostas, estruturas compostas numa liga metálica desenvolvida pela engenharia aeronáutica. Havia compensadores de oscilação no interior dos caixotes e nas estruturas, para anular os efeitos de eventuais abalos sísmicos.

A entrevista desenrolou-se no próprio abrigo, e durante todo esse tempo, o abrigo foi selado do exterior (não fosse o diabo tecê-las, e cair alguma bomba). As perguntas eram quase as mesmas da conversa prévia, limadas ou corrigidas pelo auxiliar de produção, e a exposição do compositor foi convincente e apaixonada, mostrando a todos, mesmo a profissionais tarimbados como os que conduziam aquela reportagem, todo o amor e devoção que aquele homem tinha pela música.

Terminada a entrevista, e após alguns planos filmados no abrigo, saíram todos para o exterior e o abrigo foi selado novamente. Daí seguiram para as instalações onde as notas de música eram gravadas na pedra, mas o auxiliar de produção tinha questões a colocar ao compositor que o mantinham desassossegado.

- Diga-me – pediu, sentado ao seu lado durante a viagem – o que aconteceria se nascesse um vulcão no lugar onde foi construído o abrigo? Não seria um fim patético para tanto trabalho?

O compositor riu com vontade.

- Todas as hipóteses foram estudadas, todas mesmo! O local da construção do abrigo foi escolhido depois de analisados todos os riscos sísmicos, geológicos e climáticos; é mais fácil nascer um vulcão na minha casa ou na sua, do que naquele lugar.

- Já agora, diga-me outra coisa, um pouco mais especulativa. E se as suas lajes só fossem descobertas daqui a duzentos ou trezentos anos, numa altura em que nenhum sobrevivente da raça humana conseguisse ler uma só nota de música?

O compositor não se riu, e o peso dos seus anos de vida, transpareceu no seu olhar cansado.


Campanha

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Agora, e agora!


Sábado

Obra humana

O autor de histórias fantásticas redigiu um conto com um enredo nunca antes sucedido, escrito ou imaginado – três crianças, pastorinhos, vêm a Nossa Senhora num ermo rochoso, e a aparição entrega-lhes uma mensagem de vida ou de morte para o mundo, uma mensagem tão espantosa e tão terrível que é dividida em três partes para minimizar o efeito, e impedir o pânico das multidões. Dois dos pastorinhos morrem, e fica o terceiro vivo, de forma análoga, mas não síncrona, ao que acontece com a dita mensagem dos céus, as duas primeiras partes são reveladas ao vulgo, permanecendo o último terço da mensagem e o mais importante, oculto e fechado a sete chaves em cofres episcopais. É o Terceiro Segredo, o que nos salvará ou perderá, o Armagedão e a descida do Salvador. Então, escreve o contista, o terceiro pastorinho morre, e revela-se o Segredo, e o segredo é que não é segredo, nada para revelar, um balão cheio de ar, o mais raquítico dos ratos parido pela montanha mais grandiosa do mundo.

A mulher do contista lê as provas do conto, e esbarra no final.

- Que fim mais insípido, não o podias acabar de outra forma?

- Podia! – confessa ele – mas a verdade é que se ele ficar assim, prometeram-me que eu ingressava no Opus Dei!

Circunscrever o mundo

Sem alardes, com o sigilo de uma sociedade secreta, reuniu-se na sala de conferências de um hotel da baixa, a segunda convenção dos Cépticos Iluminados. Eram por norma, quinhentos conferencistas, porque quinhentos eram, segundo eles, o número absoluto das fraudes e ilusões em que os ignorantes viviam. Antes do início dos trabalhos, cada um dos conferencistas subia ao palco e recitava uma das alíneas do seu não-credo.

- Eu não acredito em seres mágicos e fabulosos! – disse o primeiro.

- Eu não acredito em Deus e quejandos! – disse o segundo.

- Eu não acredito em continentes perdidos! – disse o terceiro.

E por aí diante, eu não acredito…eu não acredito…eu não acredito…

No final, facto sem precedentes, subiu ao palco o quingentésimo primeiro conferencista.

- Eu não acredito em vocês! – rugiu o Minotauro, e investiu sobre a assistência.

Quarta-feira

Piramidal

- Quando é que o meu túmulo ficará concluído? – inquiriu Quéops a Usermaat, o seu arquitecto-mor.

- O meu trabalho está pronto, só falta o trabalho dos artistas, mas como dizem os padres de Ienu, o seu túmulo não o protegerá.

- Serei imortal!

- A tua alma na barca de Rá será imortal, mas o teu corpo será profanado e desaparecerá, apenas ficarão as paredes nuas e esse imenso sarcófago de pedra em que poderia caber um gigante.

- Falas como se tivesses dentes na garganta, Usermaat, falas assim ao teu rei, filho do deus-sol, porque sabes que terás de morrer hoje, e arder com os teus planos. Mas repito-te, serei imortal, e serei o mais feliz dos imortais, e isto durante séculos e séculos, e sabes porquê?

- Diz-me, meu senhor!

- Porque no alto da barca do sol, terei sempre motivos para me rir com todas as parvoíces que serão ditas sobre a pirâmide que terá o meu nome.

Saídas nocturnas

O ladrar dos cães acordou-o a meio da noite. A mulher estava ferrada no sono, pelo que se levantou com discrição. Vestiu o roupão, segurou a lanterna e saiu para o jardim, os cães continuavam a ladrar, num coro conjunto com os gansos. A luz do candeeiro de rua inundava todo o espaço e deu para notar que não havia nada de estranho no seu terreno, mas como a vozearia dos animais não cessava, aproximou-se da sebe que o separava da rua e espreitou. Primeiro apanhou um susto, mas logo racionalizou a coisa. Na valeta dum e doutro lado da estrada estavam deitados homens, com uniformes militares, seguravam as armas e pareciam à espera. Viu logo que eram tropas, como não podia deixar de ser, e deveriam estar a cumprir uma saída de campo. O quartel estava a mais de trinta quilómetros dali. Um deles viu-o e levou o dedo indicador aos lábios enquanto piscava o olho, o que só a custo percebeu porque esse, como os restantes, tinha o rosto enegrecido. Saudou-os com uma continência militar improvisada, apagou a lanterna e voltou ao quarto. Como já esperava, a mulher estava acordada, nunca acordava com os ruídos ou emergências mas reservava esse gesto às alturas incipientes que se lhe seguiam. Devia dever-se a algum instinto singular de auto-preservação.
- O que é que se passa?
- Tropas, dezenas deles, devem estar numa saída nocturna, têm a cara pintada com cortiça queimada, e estão deitados na valeta junto ao nosso jardim.
- E são muitos?
- Dezenas, já te disse...
- E são bonitos?
- Por amor de Deus, mulher! Fazes cada pergunta mais estúpida.
Virou-se para o outro lado e adormeceu quase de seguida, tão tranquilo que estava. A mulher não, ficou um bocado a pairar na solidão enorme daquele leito, os olhos muito abertos, e todos os seus sentidos alvoraçados. Levantou-se da cama e desceu á cozinha, acendeu um bico do fogão e procurou nas gavetas dos talheres, uma rolha de garrafa de champanhe que vira por ali. Encontrou-a. Iria precisar também de um espelho de mão, e daquelas botas de cano alto que usava no Centro Hípico.


Ficção desconfortável

Os seus primeiros passos na ficção narrativa foram dados com desenhos, criava banda desenhada no estirador do seu gabinete de trabalho, a história desenrolava-se em quadrados, reunidos em tiras e em páginas de tiras de desenho, tudo criado no tampo do seu estirador. Com o passar do tempo, as palavras sobrepujavam as imagens, e as tiras de banda desenhada pareceram-lhe um beco sem saída. Aventurou-se então na ficção inteiramente escrita, na mesma altura em que mandou substituir o estirador por um móvel-contador.

Refinamento

Manhã de dia de semana numa pastelaria do centro da cidade, clientes maioritariamente femininos, de classe média-alta ou a dar-se ares disso, tomam o pequeno-almoço em mesas onde o perfume no ar é subtil e insidioso, e falam dos filhos e netos, o advogado tal, o meu filho engenheiro, a professora de ballet, o consultor, o deputado, algumas trazem à baila o belíssimo sermão do pároco no Domingo anterior, o sarau de leitura de poesia na Biblioteca Municipal, os sucessos com as orquídeas ou gardénias dos seus jardins abençoados, as fotos do casamento da Titinha no fotógrafo da moda. Naquele ambiente controlado entra um besouro, negro e enorme, uma senhora gorda, simples, vestida de preto, de lenço na cabeça, segura na mão carregada de anéis um porta-notas em cabedal puído. Deveria ter estado a vender no mercado da fruta, a alguns quarteirões dali, ou então era uma mulher do interior que chegara ali naquelas levas de gente suada e pirosa das excursões turísticas. As damas da mesa mais próxima, dedicam-lhe a atenção, prontas a rirem-se do que ela pudesse dizer ou fazer. Dona Graciete, sobretudo, está ansiosa pelo voo desastrado daquele besouro, ela é a respeitada líder daquele grupo de mulheres ociosas e afectadas e cabe-lhe fazer as honras da casa sempre que a ocasião se justifique.

A mulher ainda não reparara que era tão estudada, mostra-se cansada, talvez lhe doam os tornozelos, de caminhar muito, ou de suportar o seu peso avantajado. O empregado aproxima-se dela.

- Queria uma meia-de-leite normal e um croissant simples!

Croissant, croissant, pronunciado de forma exemplar, com as sílabas a enrolarem-se no céu da boca e a elevarem-se no ar como volutas de ar gelado. Dona Graciete está abismada, estão todas. Como era possível? Aquela saloia a pronunciar croissant daquela forma, era mais chocante do que se as mimasse com insultos e obscenidades. O empregado vai executar o pedido, mas não pode ignorar a Dona Graciete que ergue insistentemente o dedo no ar, como um aluno espertalhão da primeira fila da sala de aulas.

- Diga, Dona Graciete.

- Je veux un pain avec beurre et fromage!

Ele aquiesce, habituado às idiossincrasias da clientela.

- E em que pão? Vianinha ou pão caseiro?

Ela sente-se gelar, os olhos das amigas estão fixos nelas, e os da cidade e do Universo inteiro.

- …Huum!...Caseirô, s’il vous plaît!

Segunda-feira

Coabitar

Afundou o rosto entre as mãos, olhando a mulher com alguma exasperação.
- E que condições são essas, tão importantes assim?
- Não quero confusões de escovas de dentes, é a maior porcaria que me podem fazer. E quero que me entregues a nossa cama de casal. Fui eu que a comprei, e ao colchão. Os nossos corpos andam pelas ruas, mas é na nossa cama que fica o segredo da nossa intimidade, do amor que demos e fizemos, os nossos sonhos.
- Seja! A cama!
O marido sai da sala, dá três passos no corredor do apartamento e abre uma das portas.
- Leonor, ajuda-me na mudança, a minha mulher não nos quer na cama dela!

Deserto de cal

Relaxou-se na cama de rede, munido de um pequeno bloco de notas e uma caneta. Queria escrever algo de diferente, de novo, com a frescura e a novidade que só o ócio mais despudorado consegue atrair. Balançou-se na cama de rede, com a cabeça afundada na almofada grande, as linhas do bloco vazias, e a caneta inerte, humedecida de suor na palma da mão. As palavras não surgiam, nem novas nem velhas, espantava-as o zunir das moscas e o piar dos pássaros nas árvores do pomar. Sobre as linhas desenhou também pássaros, pequenos, estilizados, como pardais pousados em fios de luz. Se não havia meio de aparecerem as palavras, ao menos que se anulasse o vazio, como um bater de asas.

O guerreiro de armadura prateada encolheu-se a um canto da muralha, queimava-lhe as faces o sopro quente e infernal das ventas do cavalo, mas não era isso que mais o preocupava. A sua imensa angústia repartia-se entre o bispo enlouquecido que manejava um machado com as vestes pintalgadas de sangue, e aquela rainha obscena que saíra para a luta com os seios descobertos, e os pelos do sexo à vista de todos, sujos de cinza e poeira.

Olhou em volta, desesperado, os caminhos tapados, o céu impossível, o refúgio num fio; e encolheu os ombros.

Era mesmo xeque-mate.

Por um preguiçoso recurso da linguagem, todos falam na luz no fundo do túnel como uma alegoria da esperança, mas isso era uma pérfida ironia para aquele maquinista, no momento em que a luz ao fundo do túnel pertencia a uma locomotiva que vinha no sentido da sua em rota de colisão.

Domingo

Arcturo

Arcturo entrou na aldeia numa manhã fria de Julho, trazia atrás de si um urso gigantesco de cor castanho-fulvo e uma cria de urso, o primeiro com a boca presa num açaimo em arame e cabedal, enquanto a cria movia livremente a boca, abrindo-a para o alto como se quisesse engolir as moscas que rondavam o seu nariz. Arcturo trazia cingido a si o urso maior, uma correia enrolada no seu pulso estava atada a uma das suas patas em voltas e laçadas intrincadas, o pequeno urso estava unido ao maior por uma correia semelhante, urdida de forma negligente, menos para o controlar do que para impedir que ele se transviasse dos dois e ficasse perdido.

Não era a primeira vez que Arcturo descia à aldeia, e como das outras, repetiu o seu modo de operar. Escolheu o recanto mais despovoado do adro da igreja, onde decorria o mercado semanal, e acomodou-se no meio duns fardos de feno. Sem se importar com os olhares e comentários ou com as macaquices das crianças, abriu o seu farnel e começou a comer um naco de queijo seco, com pão igualmente duro e ressequido. Com uma faca com o fio já dentado, cortava lascas dum e doutro, e metia-os á boca até a encher por completo, rilhando-os em seguida com a boca aberta e os modos boçais de um labrusco. O urso pequeno brincava à sua volta, desfazendo a geometria dos fardos com as suas pequenas garras, enquanto o urso grande se mantinha quieto ao seu lado, sentado num fardo como uma pessoa, e deitando-lhe olhares ávidos, como se quisesse lembrá-lo que também eram horas dele comer.

O primeiro cliente acercou-se deles, mal tomou coragem. Era um lavrador rico, com muitas terras e homens ao serviço, mais os que empregava à jorna na época das sementeiras ou colheitas. A sua prosperidade estava ameaçada por uma infestação de toupeiras que minavam as suas hortas e lhe destruíam os vegetais; e como ouvira dizer que os ursos tinham o faro dum perdigueiro, será que os seus animais estavam á altura da empresa? Ainda rilhando no queijo e pão rijos, Arcturo levantou-se numa resposta clara, e seguiu o homem com os seus animais. Palmilharam juntos o caminho até à fazenda a que aludira, cerca de uma milha mal medida, e aí mostrou a Arcturo o que lhe narrara – uma planura densa preenchida com culturas variadas e onde um olhar mais atento conseguia descortinar as pequenas clareiras com as covas e montinhos de terra criados pelas toupeiras. Arcturo libertou o urso mais pequeno, que se afadigou em volta duma das tocas, esgravatou, rosnou, e conseguiu extrair terra suficiente, para o seu corpo mergulhar na terra até aos quadris, mas não fez mais do que isso, com os braços e o focinho encravados na cova alargada e as patas traseiras a agitarem-se no ar em desespero. Com um suspiro fundo, Arcturo socorreu-o e puxou-lhe pelas patas até o libertar. Ainda iria ter muito trabalho com aquele urso. Como último recurso, enrolou a correia em volta da perna do urso maior e tirou-lhe o açaimo.

Não foram precisos conselhos ou incitamentos. O urso, sob o olhar apreensivo do lavrador, caminhou pelo meio das hortas como um predador experiente, cheirando á boca das tocas, tomando sentido do número de presas que se recolhiam no solo, dos seus movimentos e saídas, adequando o seu instinto ao instinto delas, então, num paroxismo de actividade abriu uma cova no meio dum campo de alfaces, rodando as patas armadas como a gadanha dum ceifeiro, e logo deu com uma pequena galeria, onde meteu as patas e o focinho, atacando com urros violentos. Os urros eram assustadores, mas menos assustadores do que o sangue abundante, e as toupeiras que os seus dentes destroçavam sem clemência. Devoradas aquelas, repetiu a operação em três outros pontos da horta, só se dando por satisfeito, quando se certificou que não havia mais toupeiras no solo. Algumas delas, não devorou, a sua saciedade deixara para trás os seus corpos desmembrados entre os vegetais. Como uma mascote obediente, voltou para junto de Arcturo e enroscou-se aos seus pés, este esfregou-lhe as orelhas com as palmas das mãos e colocou de novo o açaimo, cingindo-lhe o urso mais pequeno, que se escondia atrás das suas pernas.

O cliente olhou descoroçoado o campo com crateras, como um campo de batalha, mas não o demonstrou. Agradeceu vivamente a Arcturo pelo serviço, em palavras emocionadas, e correu a casa para ir buscar dinheiro para lhe pagar, desejoso de se ver livre daquelas três criaturas.

Arcturo voltou ao adro da igreja, e recebeu um novo encargo. Um fidalgo de província pagou-lhe para que o urso mais pequeno divertisse as crianças, filhos de convidados seus, que brincavam nos jardins da sua mansão. Arcturo conduziu até lá os animais, deixou o urso maior atado a um dos ferros duma vinha em latada, e exibiu o urso mais pequeno diante das crianças, depois de lhe improvisar um açaimo, atando em volta do focinho algumas voltas dum cordão de sisal. Foi um trabalho fácil porque, como todas as crias e crianças, o pequeno urso gostava de brincar, e bastou-lhe colocar um galho com folhas por cima da cabeça, para que o animal tentasse alcançá-lo, erguendo-se sobre as patas traseiras e dando várias passadas em volta numa dança patética, para gáudio da assistência.

Na hora de lhe entregar o pagamento, o fidalgo pediu para lhe falar dum novo trabalho. Conduziu-o a um recanto mais isolado do jardim, fez-lhe servir um xerez, e expôs-lhe o que pretendia dele. Sabia que ele vivia numa cabana de madeira no meio de matos e silvas, um lugar miserável ao lado de uma caverna onde mantinha os seus ursos, e isso não era vida para ninguém. Ora, se ele lhe quisesse fazer mais um serviço, iria recompensá-lo generosamente com várias moedas de ouro, e ele poderia obter uma vida melhor para si e para os seus animais. Suspeitando do que vinha a seguir, Arcturo pergunta-lhe se esse serviço consistia nalgum crime de sangue. O fidalgo confirma, precisava que fosse morto um vizinho seu, um homem odiado que se recusava a vender-lhe as suas terras, o seu urso maior não teria qualquer dificuldade em arrancar-lhe a cabeça.

Arcturo nega-se, recolhe o dinheiro que o fidalgo pagara, prende a si os seus animais e regressa ao casebre, deixando atrás de si, um homem fervendo de rancor que não lhe perdoaria a recusa. Uma semana depois, Arcturo apresta de novo os seus ursos para descer ao mercado da aldeia, e quando os tem já prontos para partir, um homem encapuçado surpreende-o dentro da cabana e corta-lhe a jugular com uma navalha, deixando-o a agonizar no chão de terra. Algumas horas depois, o urso grande espreita à porta da cabana e descobre Arcturo, já sem vida, que jaz no meio da terra empapada em sangue. Como se Arcturo o guiasse, o urso grande toma o caminho da aldeia, arrastando consigo o urso menor. Repete a rotina de todas as semanas, alcança o recinto da feira e instala-se num canto mais sossegado com o seu companheiro, aguardando por trabalho em troca de comida. Ninguém se aproxima deles, estranham a ausência de Arcturo e não se atrevem a chegar-se perto, nem mesmo as crianças que os costumavam imitar com as suas momices. Os dois ursos ficam ali sentados até ao fim da feira, e depois tomam o caminho da cabana e da gruta. Nunca mais seriam vistos pela aldeia, nem eles nem Arcturo, alguns peregrinos e almocreves contavam que os chegavam a avistar nos montes, isolados ou juntos, a caçar e recolher frutos silvestres. Mas não eram temidos por ninguém, eram como se fossem da família de todos, porque as pessoas não se esqueciam da sua presença nas feiras da aldeia, de como trabalhavam bem, e dos passos dançantes do pequeno urso. Nem mesmo a morte misteriosa dum fidalgo da aldeia, encontrado sem cabeça nos jardins da sua casa, foi capaz de manchar ou prejudicar a boa memória que na aldeia se guardava dos ursos de Arcturo.

Quarta-feira

Noctâmbula

Acordou com os lábios dela na sua face, ainda era noite cerrada.
- Preciso ir! - lembrou-lhe.
Levantou-se, e saíram os dois do quarto, os corpos nus enrolados no lençol da cama. Sentaram-se no tapete da sala, o corpo dela era um refúgio macio e cálido, e ficaram por ali mais algum tempo, como se ela não precisasse mesmo de ir, um disco de Miles Davis na aparelhagem, o luar inundando a sala. Não demoraria muito para que o dia nascesse e os seus beijos tinham já o travo agridoce da separação. Tentando sorrir, para aligeirar o momento, ele viu-a enrolar-se no lençol branco e aproximar-se das vidraças. Aquilo enternecia-o sempre, o modo gracioso como ela erguia o lençol acima da sua cabeça, e o soltava sobre a sua nudez. Quando o lençol aflora o chão, ela já não se encontrava ali, dissolvida no luar.

"João Alves Aniceto, atirador olímpico, voltou às páginas dos jornais, mas por motivos diversos. A polícia viu-se obrigada a intervir e levá-lo para a esquadra depois de Aniceto ter disparado vários tiros durante a noite passada, tiros que tiveram como único alvo as paredes interiores da sua casa. Questionado pelos agentes, João Aniceto afirmou que só estava a tentar acertar na mosca".

O aparador

A imagem formou-se no seu espírito enquanto bebia uma cerveja encostado à varanda do apartamento. O prédio defronte era um edifício monocromático e monótono de linhas muito direitas, apartamentos com dimensões iguais, e todos guarnecidos de uma varanda para o lado da rua. Donde estava, cada apartamento parecia uma gaveta, e as varandas de balaústres, os puxadores das gavetas. Mas não se contentou em degustar essa imagem, porque era uma pessoa de acção, e num ímpeto desencostou-se da varanda, atravessou a rua com duas passadas, e meteu as manápulas aos puxadores dos apartamentos-gaveta, abrindo-as para ver o que escondiam. Entre gritos de incredulidade e pânico, foi coscuvilhando. Ria-se das pessoas que acordavam estarrecidas nas suas camas, ou das famílias em histeria à volta da sala de jantar, com a louça e o comer baldeados, mas bastou surpreender o primeiro casal em aveludados jogos amorosos, para enrubescer de vergonha, e arrepender-se das suas tropelias, e, ainda corado, voltou a atravessar a rua, escorropichando as últimas gotas de cerveja que escorriam da cisterna do camião-tanque.

Domingo

Por superstição, apenas por retinta superstição, na casa daquele homem nunca se sentavam treze á mesma mesa. Ele era um solitário e nunca recebia ou convidava amigos para almoçar ou cear com ele, mas isso não era uma impossibilidade. Na realidade, ele tinha alguns dedos amputados, exactamente, sete, e na sua casa, quando se sentava à mesa para comer, encostava uma das mãos ou um dos pés a uma mesa contígua, para não contabilizar essa soma numérica de má-sorte.

Piquenique com chuva

- Piquenique! Boa! Piquenique!
A família preparou tudo, as troços quadrangulares de folhas para se estenderem lá fora a arejar a casa, as sacolas confeccionadas com tiras de pétalas enroladas, os rádios e as antenas. Sairam do buraco da árvore e viram que chovia forte e feio, uma chuva torrencial.
- Piquenique! Boa! Piquenique! - repetiram os caracóis mais novos, sacudindo as antenas enquanto deslizavam pelo ramo da árvore.


Ei! books!

Deixo-vos os linques para dois e-books que me deu gosto ler:

Pela seu valor narrativo e estético, o Des Petits Morts, com textos de Pedro Amaral, e a arte de Miguel Moreira.

Pela inovação, o Tamanho Não É. Doc, que reúne micros de cinco autores, Erik Kurkowski Weber, Fabio Cunha P. Coelho, Henry Alfred Bugalho, Rafael T. Okada, e Wilson Gorj.
Muito se tem tentado estabelecer se uma micronarrativa deve ter o máximo de cento e cinquenta, duzentos ou trezentos caracteres. Para quem escreve, ou se tem alguma rotina em criar micronarrativas ou o seu processador de texto tem de ter um contador de caracteres associado a um alarme sonoro; mas todos os textos desta obra foram publicados inicialmente no Twitter, ou seja, têm, forçosamente, menos de cento e quarenta caracteres, o que torna o Twitt no molde ideal para um microconto. Pode-se seguir o exemplo ou esperar que, com o tempo, escrever microcontos se torne numa prática intwittiva.

Unidade plural

Vivia evadindo-se, da rotina e dos hábitos entranhados, do trabalho maquinal e chato, dos pequeninos gestos que eram enfastiantes, e que tinha de repetir todos os dias, das caras das pessoas que aos seus olhos se semelhavam a máscaras de gesso.
Quase sempre, evadia-se vestindo outros personagens e outras vidas, mudava de nome e de profissão, e sobre-vivia como um pintor, um milionário, uma estrela de futebol, um poeta com obra publicada; e a cada personagem fazia corresponder uma diferente história pessoal, manias e hábitos, sonhos e paixões.
Quando o seu ser recorrente e rotineiro morreu, houve uma mortandade silenciosa de heterónimos nas salas de chat.

O espanto percorreu a rua inclinada, quando se viu um chifre de elefante a deslizar sobre um carro de rolamentos.
Apenas o carteiro, muito calmo e fleumático, não se deixou contagiar pela surpresa de todos.
- Não se excitem - recomendava - é preciso aceitar as coisas tal como elas são, e deixar correr o marfim.


Além muito além

No mesmo momento em que um camelo microscópico passou pelo buraco da agulha, entrou o primeiro pobre no reino dos céus; mas não entrou de pleno direito, antes a título excepcional e com a condição de aspirar as impurezas das nuvens, e pagar uma hipoteca pelo cantinho miserável onde o deixam residir.

Quarta-feira

Prémio Lemniscata


O José Alexandre Ramos atribuiu-me (já começa a ser uma tradição ;) o Prémio Lemniscata. Agradeço ao José Alexandre Ramos, e dou continuidade á corrente, transmitindo a literatura inclusa do prémio, e designando sete outros blogs, desta feita, incidindo a escolha na temática do fantástico e da ficção-científica.

«O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.

«Lemniscata: curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante. Lemniscato: ornado de fitas; do grego lemniskos, do latim, lemniscu; fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores. (in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)».

E os designados são:

Efeitos Secundários de Luís Filipe Silva
Bladerunner de João Seixas
Rascunhos de Cristina Alves
Montag de Pedro Marques
Rpgsproject de Tulio D Bard
I Dream in Infrared de Rogério Ribeiro
IntergalacticRobot de Artur Coelho

Terça-feira

Abri a porta,

e era uma sereia, uma sereia mesmo, com rabo de peixe e cabelos de algas,
convidei-a a entrar, e acomodou-se na minha sala, deixando atrás de si um rasto de molho de manteiga,
atentei no seu rabo de peixe, era estranho, parecia cortado em postas largas, sobrepostas.
Tentei conversar com a sereia, mas em vão, porque a sua voz era como o murmúrio dos búzios, doce e longínquo como o mar,
e ela desinteressou-se e amuou, e penteava os longos cabelos com os dedos dobrados, retirando para o tapete da sala, troços de salsa e ervas aromáticas.
Não sei quanto tempo permaneceu na minha sala, a sereia, nem como saiu, mas deixou-me convencido de que comer salmão á noite, pode ser indigesto para os sonhos.

Pardal do terrado

Já velho e alquebrado, o pardal de telhado descobriu o paraíso na terra - o quintal largo de uma casa onde os donos mantinham uma gaiola grande para caturras, assente em esguios pilares de ferro. As aves foçavam nas sementes e pedacitos de fruta que os donos lhe davam, e uma parte substancial dessa comida caía para o chão pelos interstícios da gaiola, onde o nosso pardal se alimentava com ânsias, agitando as asas meio depenadas. O pardal era já velho, com os membros lassos e os sentidos embotados. Umas vezes comia das sementes das caturras, outras, das suas fezes, mas proteína nunca faltava.

Mesmo a meio da ceia (um autêntico festim de vísceras e carne em sangue), o seu amigo perguntou-lhe:

- Acreditas, por fim, na vida depois da morte?
- Sim! - anuiu o zombie - mas chamares a isto vida, revela que conservas a tua pródiga ironia.

m.o.

Criar uma criança exige dos pais, amplos recursos e processos imaginativos. Os pais do Diogo desde cedo se aperceberam de que o rapaz tinha um carácter obstinado e difícil, só fazia o que queria, e tinha em pouca conta a vontade ou a autoridade dos outros. Conseguiram-lhe acompanhamento psicológico, na mesma altura em que a mãe do Diogo descobriu, por um acaso, as virtudes da psicologia negativa - sempre que queria que o Diogo fizesse alguma coisa, dava-lhe ordens para realizar o acto oposto. Diogo, não comas a sopa! - e ele comia, mais tarde, Diogo, não te atrevas a arrumar o quarto! - e ele não descansava enquanto o quarto não ficava num brinco; ou, Diogo, não estudes para as provas! - e o Diogo corria a embrenhar-se nos seus livros e cadernos. Entretanto, os sucessivos psicólogos que o acompanharam durante anos, começaram finalmente a obter resultados, e o Diogo começou a revelar-se uma pessoa mais receptiva e enquadrada, mudança de que a mãe não se apercebeu, tão acostumada que estava à psicologia negativa. A revelação só se produziu nos preparos de um almoço de família. Diogo, sem ninguém lhe dizer nada, começara a preparar a salada, usando uma faca para migar o tomate. Nisso, a mãe, de volta dos tachos, disse-lhe a brincar: Diogo, atira-me a faca!

Reprovado

- Você mete nojo, mais ainda, dá-me vontade de vomitar. Não sei como é que a Cátia consegue viver consigo.
- A sua filha não se importa, e até me acha muito útil, suspeito, que é por ser bulímica...

Dada a crise económica, o que tende a prosperar são as casas de penhores, as pessoas com necessidade de dinheiro vivo vão lá e empenham quase tudo o que conseguem, livros, jóias, quadros, urnas funerárias, órgãos. A D. Genoveva, após realizar dinheiro empenhando todo o recheio da casa, tentou empenhar o marido, mas este negou-se. Ser posto no prego, era algo que afrontava a sua virilidade.


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